A questão do homem sempre foi muito debatida no âmbito filosófico como um todo, mas com perspectivas diferentes. O pensamento que predominava na França (após a segunda guerra) era essencialmente humanista. Derrida é um dos filósofos que irá se voltar contra essa concepção e apontará as problemáticas existentes nele.

O pensamento predominante na França daquela época (metade do sec. XX, após a segunda guerra) era essencialmente humanista. A questão fundamental que era tema para vários pensadores (inclusive o existencialismo de Jean Paul Sartre), era a chamada “realidade humana”. Tendo em vistas o abandono da metafísica tradicional, que pensava o homem de maneira substancialista, essa noção humanista vem para pensar um novo sentido de homem, que também recusava um humanismo espiritual ou intelectual (como em Bergson, por exemplo). O humanismo vem então para tratar do que constitui essa “humanidade do homem”, o que é próprio e unicamente do homem. Derrida irá se voltar para o grande erro dessa abordagem, que mesmo recusando e questionando as pressuposições metafísicas, não questiona a unidade do homem em si mesmo, se de fato exista uma unidade e universalidade (da forma em que é colocada) no ser humano.

Voltando ao pensamento de Sartre, Derrida explorará algumas questões do humanismo, por exemplo, o fato do humanismo está atrelado a fenomenologia, Sartre inclusive afirma que seu projeto existencialista é uma “ontologia fenomenológica”, pensando assim numa unidade metafísica, a unidade da realidade humana. Isso comprova a crítica proposta por Derrida, em suas palavras: “O exemplo da tentativa sartreana comprova notavelmente a proposição de Heidegger segundo a qual “todo o humanismo permanece metafísico, sendo a metafísica o outro nome da onto-teologia.” O ponto fundamental da fenomenologia de Husserl é a redução ao fenômeno, que entendendo de maneira mais profunda não se refere mais ao homem que está ligado a linguagem, cultura, sociedade, mas somente a uma consciência, onde poderia ser pensada sem a presença do mesmo.

Concluindo, Derrida nos leva a pensar a respeito do “fim do homem”. Esse pensamento humanista, que como foi mostrado, está atrelado a metafísica, pensa ainda num sentido teleológico, de progresso e superação. Ele se articula através nessa unidade, o “nós” pois haveria um suposto objetivo universal que todos deveriam cumprir. Derrida afirma que é necessário pensar um novo “fim do homem”, compreendido a partir da sua diferença, é o que ele chama de “dialética da verdade e da negatividade” em contraposição ao pensamento de uma unidade absoluta. É a partir daí que será desenvolvido uma concepção derridariana, que critica as posições humanistas e metafísicas do seu tempo.

 

Lendo-nos:

Anteriormente foi apresentado a questão do “nós”, como unidade de saber absoluto. Nesse momento do texto, em “Lendo-nos”, Derrida vai colocar a relação desse “nós” no texto de Heidegger, fazendo também uma crítica a sua concepção. No texto Sein und Zeit, Heidegger liga o humanismo e a metafísica coma onto-teologia. Derrida dirá que há um aprisionamento na abordagem proposta, pois recusa o “nós” na metafísica, mas permanece-se com o “próprio” do homem (humanismo). Uma concepção muito importante no pensamento de Heidegger é o pensamento do ser, a verdade do ser. “Tendo-se renunciado a colocar o “nós” na dimensão metafísica do “nós-os-homens” (…) mantém-se que o homem – e direi mesmo, num sentido que em breve se esclarecerá o próprio do homem – o pensamento do próprio do homem é inseparável da questão ou da verdade do ser. É-o nos caminhos heideggerianos por aquilo a que poderíamos chamar uma espécie de magnetização.”

Vê-se necessário nesse momento, uma compreensão do sentido do ser, e no texto Sein und Zeit, Heidegger vai pensar essa questão de acordo com a sua estrutura formal. A partir de que tipo de compreensão o ente deve pensar o ser? Ou a partir de que ente o sentido de ser deve ser lido? Como devemos nos colocar a respeito da elaboração de uma questão do ser? Primeiramente, Derrida vai colocar que a fenomenologia enfatiza o princípio da presença e isso terá consequências para o pensamento de Heidegger que é um herdeiro desse movimento. Esse será o ponto em que Derrida fará sua crítica: de que maneira o Dasein pode está ligado a metafísica tradicional? A afirmação de um certo homem universal pode ser encontrada em ambas as concepções, tanto a metafísica quanto heideggeriana.“Como a de toda a ontologia, a problemática da ontologia grega deve tomar o seu fio condutor no próprio ser-aí. O ser-aí, isto é, o ser do homem é compreendido tanto da “definição” vulgar como na “definição” filosófica como zôon logon ekon, o ser vivo cujo ser é essencialmente determinado pelo poder da palavra.” Derrida afirma que, diferente do humanismo e da metafísica, o pensamento heideggeriano é mais originário, e o “nós” questionado pelo autor é encontrado nessa concepção da “presença”. Essa noção salientada, chamada também de proximidade, é problemática na medida em que esse ente (que nós próprios somos) é que é questionador do seu ser, reduzindo assim a distância ontológica e aproximando o ser a essência do homem.