1. INTRODUÇÃO

 

            O presente texto será uma tentativa de abordar a temática da modificação que a questão do homem sofreu na inauguração da figura do homem moderno ante à figura clássica da finitude humana – metafísica/psicologia racional cartesiana. Para tal intento, a análise foucaultiana em As Palavras e as Coisas (1966) sobre os deslocamentos da questão da finitude, será o norte dessa pesquisa, visando mostrar de que forma a analítica transcendental kantiana – onde segundo Foucault a figura do homem de fato surge – aparece como radicalmente distinta da figura clássica do eu pensante. A partir da apresentação daquilo que seria a ilusão transcendental cometida pela concepção clássica de homem, denunciada pela analítica transcendental, que seria o tomar a dimensão transcendental como empírica, será apontado de que forma surge a partir de Kant a figura do homem como um duplo empírico-transcendental – sono antropológico – que vai ser a base antropológica das ciências empíricas (biologia, economia, filologia). Encerando essa primeira parte, será descrito de que forma, segundo Foucault, a analítica da finitude surge como alternativa e ao mesmo tempo herdeira do sono antropológico inaugurado por Kant. Já na segunda parte do texto, tratar-se-á como uma certa crítica e desconstrução do homem como fundamento – sujeito – pode ser compreendida no decorrer da história da reflexão antropológica.

 

2. A ILUSÃO TRANSCENDENTAL – ANALÍTICA TRANSCENDENTAL

 

            Um ponto de partida possível para a compreensão da passagem da perspectiva clássica da realidade humana para a antropologia filosófica, é o contorno foucaultiano realizado em As Palavras e as Coisas (1966) das três figuras da finitude humana que permitem uma análise acerca dos deslocamentos da questão antropológica desde a idade clássica à modernidade pós-kantiana. Porém, nesse primeiro momento nos ateremos apenas na análise das duas primeiras figuras: A figura clássica e a figura moderna da finitude.

            A primeira figura corresponde ao período clássico marcado pela metafísica onde o homem é pensado de forma rígida. Essa figura apresenta uma finitude humana negativa, na medida em que define os limites do humano a partir de sua relação de inferioridade diante de Deus. No interior dessa figura, o homem, finito negativamente, tem em sua dimensão anterior um núcleo rígido que forma aquilo que seria o si mesmo, o eu. Para Kant, essa figura da finitude sofre de uma ilusão transcendental.   

            A analítica transcendental kantiana pretende evidenciar, a partir de uma reflexão sobre as condições de possibilidade para o conhecimento, como a metafísica e a psicologia racional cartesiana engendram uma confusão antropológica. Tal confusão consiste no fato de que a rigidez que as concepções clássicas do eu, cometem uma confusão entre as dimensões empíricas e transcendentais do homem. A alma da metafísica e a coisa pensante de Descartes dão, segundo Kant, empiricidade aquilo que é da ordem do transcendental. O que a analítica transcendental aponta é que a ordem do apriori na constituição do sujeito deve ser tomada como um estatuto lógico, como categorias do conhecimento possível. Tratar o transcendental como empírico seria uma ilusão para a analítica transcendental kantiana, surgindo, portanto, uma nova figura da finitude humana, originada por Kant, que assenta a questão antropológica – e somente aqui poderíamos falar em uma antropologia – em uma teoria do conhecimento possível.

            Porém, mesmo diante das considerações de Kant a respeito da metafísica clássica, o que Foulcault evidencia é que a figura moderna do homem, que nasce como uma alternativa à ilusão transcendental, cai em uma espécie de repetição do problema na medida em que concebe o homem de uma maneira ambígua, ou seja, como um duplo empírico-transcendental.

            Tal é o sono antropológico inaugurado por Kant, conceber o homem como dobrado sobre si mesmo, e por isso duplo. Para Foucault, esse sono antropológico, esse duplo empírico-transcendental, permanecerá não somente na terceira figura da finitude humana como principalmente lançará as bases antropológicas das ciências empíricas que investigam o homem como um ser que vive, trabalha, e fala, a saber: Biologia, economia e filologia.        

 

2.a. O SONO ANTROPOLÓGICO: A ANALÍTICA DA FINITUDE E O DUPLO EMPÍRICO-TRANSCENDENTAL

 

            No paradigma moderno pós-kantiano, uma terceira figura da finitude se ergue a partir de uma retomada da problemática kantiana do transcendental atrelada “a um questionamento ontológico e não mais a uma investigação lógica ou epistemológica” (NOTO, 2001, p. 74). A finitude do homem não seria mais determinada por uma reflexão sobre o que é possível conhecer, e sim pelo limite do que o homem é. Essa terceira figura é configurada pelas analíticas da finitude.

            Essa perspectiva antropológica pós-kantiana goza do marco distintivo da positividade, ou seja, a finitude é tomada como empírica e positiva na medida em que são os saberes modernos sobre o homem – que o concebem como ser que vive, trabalha, e fala – é que delimitam a finitude daquilo que o antrophos é em seus limites concretos. A analítica da finitude seria portanto um traço distintivo dos saberes que surgem a partir do final do século XVIII: biologia, economia, filologia e as ciências modernas.

            O que Foucault explicita em sua crítica às analíticas da finitude é que por mais que elas sejam distintas da figura moderna da finitude dada pela analítica transcendental, elas também jazem no sono antropológico inaugurado por Kant ao conceberem o homem como um duplo empírico-transcendental. O sono antropológico se manifesta nas ciências empíricas na medida em que os seus objetos de conhecimento – o homem em sua empiricidade – são ao mesmo tempo condições de possibilidade – o homem enquanto transcendental. Tal figura ambígua do homem surge quando ele é tomado como o meio de sua positividade empírica pois a si mesmo se vê como atualização de algo já começado por sua espécie (vida) e cultura (trabalho e linguagem), o que engendra um estranhamento sobre si, e ao mesmo tempo também se vê inquestionavelmente como princípio e condição possibilitadora da vida, trabalho e linguagem.

 

3. CRÍTICA E DESCONSTRUÇÃO DO SUJEITO

 

            A metafísica da figura humana, a partir da filosofia de Descartes, torna-se em uma metafísica do sujeito. O sujeito, ou melhor, o sujeito do conhecimento, assume no pensamento cartesiano a condição de fundamento, no qual o ente manifesta-se como como tal. A perspectiva cartesiana inaugura, portanto, a relação que aponta o homem como sujeito e o mundo como seu objeto de conhecimento que lhe aparece pela representação. Como descreve Dirce: “o homem moderno é o palco sobre o qual o ente, a partir de agora deve apresentar-se e tornar-se imagem concebida.” (DIRCE, p.1)

            O sujeito perdura e permeia a figura antropológica kantiana. O sujeito kantiano, é o fundamento da objetividade fenomenal, objetividade essa possibilitada pela constituição mesma da subjetividade, para além da qual, a saber, a realidade em si mesma, não lhe é acessível. O sujeito torna-se, portanto, transcendental.

            Em Nietzsche, a ideia de sujeito como fundamento mostra-se passível de crítica e desconstrução. O pensamento nietzschiano rechaça as binaridades que compõem a figura metafísica do homem. O eu não é fundamento, não é dotado de substancialidade e unidade. O eu é pura multiplicidade – é puro devir.        

            Em Heidegger, o dasein – o ser-aí – caracteriza a condição humana em uma diametral oposição à uma ideia de homem como fundamento. Se há alguma forma de caracterizar ou de apontar algo de determinado no homem é justamente a sua indeterminação ontológica. O vazio ontológico nos caracteriza e não a substancialidade do fundamento que supostamente somos.

            A partir de Freud, a analítica do homem assume a negação da figura humana como fundamento por via da afirmação de um sujeito do desejo. O sujeito, que não deve ser entendido cartesianamente como “coisa” “fixa” “pensante”, é impulsionado sempre por desejos que lhe são ocultos à consciência. O sujeito cartesiano consciente é desconstruído pela analítica freudiana que toma o desejo, cujo objeto é irreal, como aquilo que move o eu. Nessa mesma esteira desconstrutiva, Lacan pensa que, diz Dirce, “o sujeito é a inversão do sujeito cartesiano: “ou não penso ou não sou”, ou melhor “eu sou sem ser”/ o sujeito é fendido, dividido, barrado.” (DIRCE, p.3) Se na metafísica tradicional, o homem tinha como traço distintivo o ser consciencial e a rigidez própria de uma res, o sujeito do desejo lacaniano mostra-se sempre na indecisão, na incerteza, como um impulso que ao aparecer, logo se esvai. 

 

4. CONCLUSÃO

 

            O objetivo aqui pretendido foi de estabelecer, a partir de uma análise foucautiana, os deslocamentos ocorridos na figura da finitude humana desde a metafísica clássica em sua ilusão transcendental, passando pela analítica kantiana que inaugurou a antropologia filosófica e junto com ela o sono antropológico do qual a analítica da finitude, e consequentemente, as ciências empíricas, são herdeiras.

            O homem seria, portanto, desde a analítica transcendental kantiana, uma reduplicação do empírico no transcendental. Tal reduplicação é legada pela antropologia pós-Kant – a analítica da finitude – que em sua concepção antropológica pretende tratar a finitude a partir dos limites concretos do homem. E na medida que o faz através das ciências empíricas, tomam o homem ambiguamente como um duplo empírico-transcendental, pois o ser que vive, trabalha, e fala, se vê como resultado empírico de condições anteriores a ele mesmo e concomitantemente como condição de possibilidade de tal empiricidade. Vemos aí a reduplicação do empírico no transcendental. Esse é o sono antropológico.   

            Por fim, fora apontado como a trajetória da crítica e desconstrução da concepção de homem como sujeito – mais precisamente em sua tomada como fundamento do conhecimento e da objetividade fenomenal – se deu a partir de Nietzsche até Freud e Lacan.

 

BIBLIOGRAFIA

 

SOLIS, Dirce E. N. A questão do sujeito na história.

SOLIS, Dirce E. N. O sonho e o sono antropológico: estado atual da questão. Texto VIII Colóquio Foucault.

NOTO. Carolina S.Da ilusão transcendental à ilusão antropológica: Foucault em defesa de Kant. Cadernos de Ética e Filosofia Políca 18, 1/2011, pp.73-88.