Jacques Derrida e Michel Foucault notam, em suas obras, a questão da passagem da metafísica tradicional para a antropologia filosófica – o deslocamento. Antes de comentar o panorama, devemos notar que a questão da morte do homem já havia sido prenunciada por Nietzsche. Falar em morte do homem significa apontar para a queda dos referenciais metafísicos – a morte de Deus como horizonte de sustentação do suprassensível, da essência sobre a aparência, do ser sobre o não ser etc. A morte do homem a qual nos referimos aqui é a morte do homem ocidental como paradigma do pensamento – o homem metafísico. Sabemos, também, que a descoberta do novo mundo teve um grande impacto sobre as concepções metafísicas de homem; em um curto ensaio, denominado O achado de Vespúcio, Oswald de Andrade diz como a descoberta do índio americano criou as utopias (lembremos que Utopia, de Thomas Morus, foi escrita em 1514, vinte e dois anos após a chegada de Colombo ao arquipélago de Bahamas). Montaigne escreveu seu ensaio Sobre os canibais quando a Europa ainda sentia o afã do humanismo renascentista. E não é difícil imaginar como essa “descoberta”, se é que podemos dizer assim, incidiu sobre os pensamentos do estado de natureza e do contratualismo de Hobbes, até chegar em Rosseau e a época pré-revolucionária. Mas voltemos: quando Nietzsche, em seu proêmio do Zaratustra, escreve sobre o Übermensch, anuncia, ao mesmo tempo, a morte do homem (leia-se: homem branco, europeu) – o homem metafísico. Sobre o Übermensch, escreve Heidegger: “Na medida em que ‘Deus está morto’, aquilo que deve se tornar a medida e o centro para o homem não pode ser senão o próprio homem: o ‘tipo’, a ‘figura’ da humanidade que assume a tarefa da transvaloração de todos os valores em vista do poder único da vontade de poder e que está preparado para entrar no domínio incondicionado sobre o globo terrestre.” O mundo, a partir de fins do século XIX, não é mais lugar para o homem metafísico.

Devemos lembrar que com Descartes, o hypokeimenon grego, aquilo que subjaz e continua sempre, vira o subjectum de um modo particular: ele é cogito, fazendo, assim, do eu pensante e inclinado para agir conforme a razão, sustentáculo para o conhecimento dos entes. Já com Kant, que se preocupa, como ele mesmo escreve, com o modo de conhecer do sujeito, os objetos são organizados subjetivamente segundo categorias do entendimento. Em ambos os casos, nota-se a subordinação daquilo que é conhecido àquele que conhece, estando as diferenças subordinadas à identidade. Foucault considera Kant o inaugurador da filosofia moderna. Se Kant inaugura a filosofia moderna, estando Descartes na época clássica, resta aquilo que seria chamado de analíticas da finitude como outra concepção do homem. O que é interessante na leitura de Foucault é que nas analíticas da finitude, acontece uma certa implosão da metafísica, uma vez que não há “metafísicas medidas pela finitude humana”; o homem que aparece dessa vez será acessado através de duas vertentes: uma que privilegiará o estudo que se dirige para o conhecimento do corpo, tanto no aspecto fisiológico quanto no sensorial; e outra que privilegiará as condições histórico-materialistas.

Antes de mais, devemos discorrer sobre o que é chamado de “duplo empírico transcendental”. Não se trata somente das condições materiais de trabalho ou fisiológicas do homem: ambas as análises fazem uma “dobra” no empírico e possuem suas próprias verdades circulando no âmbito do discurso interno a elas. De aí que elas elevam o empírico ao transcendental. Foucault vê, então, uma mistura do empírico e do transcendental no século XIX: em Hegel, por exemplo, tenta-se dar valor transcendental ao que, na história, é empírico. A Antropologia de então carece de uma teoria do sujeito e, portanto, não seria ainda filosófica – haveria de esperar pela fenomenologia hermenêutica. A sociologia, por exemplo, teria confundido-se com filosofia e ciência empírica. Por fim, esta confusão acarretaria uma reduplicação: a língua, a título de exemplo, não é o próprio do homem, mas é vista como condição transcendental para a nossa fala, tomada aqui como fato empírico. A antropologia filosófica surge, então, como um deslocamento dentro dessa duplicação: através dos saberes empíricos, o homem é objeto do saber; ao mesmo tempo, paradoxalmente, portador de um modo de conhecer transcendental. Para Foucault, isto já estava prenunciado em Kant. Só é possível fazer o giro antropológico a partir daquele que Foucault considera o inaugurador da modernidade. Mas não podemos esquecer o papel de Husserl e a nova teoria do sujeito por ele elaborada; já Derrida em sua conferência Os fins do homem indicará que, por um lado, a tradição francesa entendeu mal as questões de Husserl e Heidegger, mas que, por outro lado, esses pensadores possibilitaram – as bases em suas obras o permitiam – toda aquela interpretação antropológica.