RESUMO DO TEXTO

Ideias que marcaram o século XX – Uma chave para a leitura dos filósofos

Capítulo X – Jacques Derrida

Logo no início do texto a autora afirma que Jacques Derrida foi um filósofo de caráter provocador, pouco compreendido, de pensamento complexo e difícil. A seguir, apresenta uma pequena biografia: nascido em 1930, dois acontecimentos marcaram sua trajetória: foi expulso da escola aos 12 anos por seu judeu e viveu a guerra da Argélia. Mudou-se para a França aos 19 anos e se aprofunda nos estudos sobre Husserl já com a gênese do que seria sua “desconstrução”. Tem uma trajetória intelectual internacional tendo passado pelos EUA, Alemanha, Inglaterra etc. Publicou “Gramatologia”, “A escritura e a diferença” e “A voz e o fenômeno” em 1967 e faleceu em 2004.

Desconstrução:

Em um primeiro momento a desconstrução se aproximaria do estruturalismo, mas também se distanciaria dela pois “tratava-se de desfazer, decompor, dessedimentar as estruturas” (p.4). A desconstrução implica na impossibilidade de reconstrução nos mesmos termos iniciais. A não se trata de análise, método ou de crítica. A autora cita Derrida:

“Não é uma análise, em particular, porque a desmontagem de uma estrutura não é uma regressão em direção a um elemento simples, em direção a uma origem indecomponível (...) Não é tampouco uma crítica, num sentido geral ou num sentido kantiano (...) Eu diria o mesmo para o método. A desconstrução não é um método e não pode ser transformada em método. Sobretudo se acentuarmos nesta palavra a significação procedimental ou técnica. (Derrida, 1987 (b), 390-91)”

Segundo Derrida a desconstrução se dá em dois momentos: a marcação das oposições binárias presentes nos textos metafísicos verificando seus limites e, em seguida, a inversão das teses estabelece o campo a ser desconstruído. A autora resume: “Inverter os termos de uma proposição e deixar emergir um novo conceito (ou ‘quase-conceito’) que ultrapassa as fronteiras tradicionais. Inverter os termos e deslocar, uma etapa já estando de algum modo compreendida na outra, tal é a tarefa desconstrutora.” (p.5)

Para Derrida a desconstrução é um acontecimento do pensamento onde o tempo do acontecimento não é homogêneo e nem linear e é denominado por Derrida como “a emergência de uma multiplicidade díspare” e é marcado pela ambivalência. A autora afirma que a “acontencimentalidade” interpretada como aporia vai demarcar o campo da desconstrução como retórica. (p.6)

A desconstrução tem seu alcance ampliado até as questões de postura ético-políticas e vai incluir a consideração da diferença, da alteridade que, segundo a crítica, esteve ausente da metafísica tradicional preconizada pelo paradigma da identidade. 

Crítica ao logocentrismo:

Segundo a autora, o alvo das críticas de Derrida é a tradição metafisica ocidental que teria construído arbitrariamente conceitos e argumentos de validade fortemente hierarquizados e de caráter universal. Assim, Derrida aponta que há um princípio de indeterminação nessas verdades tomadas como absolutas e a desconstrução tem por objetivo desmantelar a solidez e universalidade de tais certezas onde predominam o logos, a razão e a palavra. A desconstrução ataca o coração da metafísica, isto é, o logocentrismo.

O logocentrismo, por sua vez, é caracterizado por pela lógica dos pares contrários como essência / aparência, alma / corpo, inteligível / sensível etc. O primeiro termo do par sempre mantém uma relação de subordinação em relação ao segundo termo, assim, “o logocentrismo, então, afirma a verdade de um poder central, de um centro privilegiado. Cabe ao logos a afirmação da verdade, a explicitação do significado do ser como fundamento do pensamento e do mundo.” (p.8)

Derrida também vai problematizar a noção de presença: segundo a autora, Derrida denuncia o predomínio imperativo da presença em nossa cultura e cita o filósofo em sua obra Gramatologia “presença da coisa ao olhar como eidos, presença como substância / essência / existência (ousia), presença temporal como ponta (stigmé) do agora ou do instante (nyn), presença a si do cogito, consciência, subjetividade, co-presença do outro e de si, intersubjetividade como fenômeno intencional do ego etc” (p.8)

Operadores da desconstrução ou quase-conceitos:

Escritura

Para marcar a diferença em relação à metafísica tradicional, Derrida adotou o nome “quase-conceitos” para se referir a ideias como escritura, rastro, différance etc.

A escritura não pode ser confundida com a escrita ou com uma representação da fala, ela fornece o “sentido daquilo que está escrito. Tem função documental e retira o privilégio do significado sobre o significante, e o privilégio do significante fônico (escrita fonética) sobre o significante gráfico” (p. 10). A autora ressalta que, com isso, Derrida critica a filosofia tradicional desde Platão até Saussure.

A crítica a Saussure ataca a manutenção no estruturalismo das oposições binárias, como significante / significado, expressão / conteúdo etc. Derrida mostra que um signo não pode ser anterior à escritura que é anterior à linguagem e da escrita, introduzindo assim, a ideia de arquiescritura. 

Différance e Rastro (trace)

Segundo a autora Différance, grafada com ‘a’ propositalmente, marca a crítica de Derrida ao logocentrismo e significa “o jogo das diferenças, onde só existem diferenças, e com isto opõe-se à identidade logocêntrica.” (p.11)

Différance tem um sentido ambivalente: temporização e espaçamento. No primeiro sentido, temporização está relacionado com a idéia de medição temporal, já no segundo sentido, espaçamento, significa distinção, intervalo (p.12).

O termo rastro está identificado por Derrida como aquilo que não se deixa apreender, “que inviabiliza a identificação, a definição, a ‘presentificação’ de um signo. O rastro é distinto, mas não está em oposição à presença. Apenas ele não se adequa à lógica da identidade clássica que busca uma origem simples (...)” (p.13)

Derrida ético-político:

Para Derrida nossa democracia é fraca e pouco abrangente e, até mesmo, antidemocrática, necessitando ser repensada. Para isso o filósofo elabora a noções como de democracia por vir e ainda problematiza temas como hospitalidade, dom, morte e até nossa relação com os animais.

Sobre ética, Derrida a entende como uma experiência profunda da alteridade, da relação com o outro, ou seja, “uma abertura radical, incondicional ao outro e é importante perceber que uma ética não se limitaria ao homem” (p.14). Segundo a autora, o pensamento de Derrida também se deteve em questões políticas visitando temas como globalização, colonialismo, racismo, entre outros.

Democracia por vir:

Ao examinar as implicações ético-políticas do pensamento de Derrida, a autora prossegue em seu texto examinando alguns pontos principais dos escritos do filósofo sobre o tema.

A democracia por vir é uma noção compreendida como um movimento para o que vem, um ad-vir, mas não indica um futuro presente ou futuro próximo. A concepção derridiana de democracia por vir estaria situada para além dos “interesses mesquinhos, para além de toda aparente fraternização.” (p.15).  A democracia por vir negaria nossas estruturas democráticas na medida em que propõe uma abertura de fato para o outro, para a alteridade, possibilitando sua afirmação. A autora cita Derrida “Uma democracia por vir deveria sugerir uma igualdade que não fosse incompatível com uma certa assimetria, com a heterogeneidade ou singularidade absolutas, deveria exigi-las a partir de uma lugar que é invisível” (p.16)

 

 

Hospitalidade:

Depois de apresentar a etimologia da palavra hospitalidade, a autora nos mostra que há uma relação de poder entre hospedeiro e hóspede, onde o hospedeiro é aquele que exerce seu poder em relação ao hóspede, aquele que é recebido e que “deveria se submeter ao poder do hospedeiro, ou melhor, às regras da casa” (p.17). Derrida caracteriza a hospitalidade como algo de caráter incondicional e, se aliando a Emmanuel Lévinas, entende que há uma precedência da hospitalidade em relação à propriedade “e esta precedência é muito mais ética que conceitual para o pensamento da desconstrução.” (p.17). Configurando-se como um ideal de convivência, a hospitalidade pura não pode existir e, assim, está sempre no por vir.

Para Derrida, a questão da hospitalidade implica dois aspectos: a pronazia, que diz respeito ao acolhimento do estranho e a xenofobia quando se trata do intruso, do hóspede indesejável.

Além dos problemas relativos ao pertencimento ao lugar, o hóspede enfrenta também a questão da língua, que inclui tradições e regras de comportamento em geral. Ressalta que o direito à hospitalidade é exercido a partir da identificação pelo nome próprio do hóspede e, ao mesmo tempo, adquire obrigações perante o hospedeiro e perante as leis do local de acolhida.

O dom, a morte, o luto:

Sobre o dom, a autora explica: “se o dom é possível, entende Derrida, ele é aquilo que não podemos nem devemos saber, pois ele é incompatível com qualquer apropriação narcísica. No limite não se deve saber que se doa, nem o que se doa, pois o dom é o que de ‘interromper o círculo econômico do mesmo’” (p.19).

Ainda sobre o dom atrelado ao reconhecimento, vale reproduzir o seguinte trecho: “Trata-se como Derrida explora em Donner Le Temps, da noção de reconhecimento como um cálculo, como uma dívida, uma economia possibilitada pelo dom. Reconhecer é sempre a etapa imediatamente posterior ao dom e que não pode ser confundida com ele. Para além de qualquer cálculo, o dom para ser dom, deve romper esta circularidade econômica que faz com que toda doação esteja condicionada à retribuição ou ao reconhecimento. Entretanto, o dom, assim como a hospitalidade, para ser dom em si mesmo, deve ser incondicional. Assim sendo, a exigência de reconhecimento, a espera de retribuição, engendram um estado aporético que traz a im-possibilidade da existência do que chamamos de dom, cuja condição é a gratuidade” (p.20)

Sobre a morte, a autora pontua que, para Derrida existe uma espécie de unidade entre vida e morte “com a retirada da hierarquia entre as duas, assim como ele faz com a pulsão vidamorte.” (p.21).

Sobre o luto, parece ser o movimento de interiorização do outro e Derrida afirma: “eu falo do luto como tentativa sempre votada ao fracasso, um fracasso constitutivo, justamente, para incorporar, interiorizar, introjetar, subjetivar o outro em mim. Antes mesmo da morte do outro, a inscrição em mim de sua mortalidade me constitui. (...) o luto é uma fidelidade infiel se ele consegue interiorizar o outro em mim, quer dizer, não respeitar sua exterioridade infinita” (p.21)

Espectros de Marx

Com a idéia de espectros, Derrida vai discutir com os críticos do Marxismo a com a cultura capitalista de livre mercado, denunciando o avanço neo-liberal que geral problemas graves em escala mundial. A autora define espectro então: “em suma, não é inteligível nem sensível, nem morto nem vivo e tal como os quase-conceitos explorados pelo autor (Derrida), o espectro é capaz de resistir às oposições conceituais hierarquizadas da filosofia.” (p.22)

A questão dos animais

 Sob esta questão, Derrida vai tratar dos limites do homem e de sua relação com os animais, considerando os direitos que o homem se reserva de submeter os outros animais. Derrida vai tratar dos animais na poesia e na literatura e a visão sobre o tema de filósofos como Descarte e Kant e também se pergunta sobre qual seria o limite entre o humano e o animal, “Derrida irá defender que qualquer busca do limite acabará necessariamente numa aporia. Não existe o Homem, ou o Animal no singular. O autor coloca em dúvida que se possa afirmar o conceito homogêneo de animar a todos os viventes não-humanos.” (p.25)