Pensamentos acerca da desconstrução, a crise do sujeito e a crítica do humanismo em "Os Fins do Homem"

 

Gostaria de começar aqui tratando sobre muitas coisas as quais me ocupei a pensar durante esse semestre corrido, durante esse semestre de passeatas, de exclusão de pessoas na universidade, de eventos importantes, de vivencias as quais não cabem na contagem de tempo estabelecida a esse bimestre.  Embora o que Kant afirme é que tudo que acontece, acontece num espaço e tempo, a impressão que tive durante esses meses é que foram para mim afrente de qualquer espaço e tempo que imagino. De fato, o espaço e tempo podem ser transcendentais, mas sobretudo, são também vivencias empíricas as quais nos possibilitam existir e sentir.

“Nós sabíamos ler, nós sabíamos ler muito bem. Não sabíamos ler como os europeus, mas sabíamos ler como nós.” Fala de um participante do evento redes: Educação e democracia, recebido pela UERJ nesse semestre, esse o qual o Boaventura Souza e Santos esteve e disse numa frase, a qual não sai de minha memória: “ Não podemos nós abrir a universidade a pessoas marginalizadas, a excluídos e excluídas , se não democratizarmos o currículo. O currículo universitário continua excludente e colonizado”.

A mim, ao que me parece, a sensação que tive que tenho durante suas aulas, é um convite à sensibilidade, a inclusão, a democracia. Derrida pra mim se faz tão necessário, quanto a atenção, ou reatenção, de um pensar filosófico-político.  O autor em seu texto estudado durante o curso de antropologia “os fins do homem” fala sobre a necessidade da filosofia se atentar ao seu espaço, porque de fato ela está vinculada a esse espaço em sua essência política. A necessidade de pensar a democracia é urgente ali, sobretudo porque se trata da abertura de um colóquio internacional, com pessoas de várias nacionalidades. Como a filosofia vem tratando essas nacionalidades tão diversas? Estamos os recebendo bem? Temo- as entendido? Essa me parece naquele inicio de texto, uma das principais preocupações do autor, cuja sensibilidade causa uma alegria e entusiasmo a quem lê. Pensamentos esse derridiano que sobretudo servem a nós para pensarmos nossos espaços. Como a filosofia tem olhado para o que é diverso, diferente e marginal? Como a academia tem recebido a periferia, como nós temos tratado o pensar periférico? Como a filosofia tem se atentado ao social-político? Como a filosofia tem se atentado a nossos problemas como brasileiros e brasileiras? Quando a filosofia tem sido excludente e continuado reproduzindo “saberes científicos racionalistas abstratos que não dizem sobre nada”(Nilma Lino , Mulher negra, ex Ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasilno governo Dilma, fala essa dita, no evento redes: Educação e democracia)?

O autor me parece um convite ao movimento, a saída das zonas de conforto as quais nos limitam, me parece uma indução ao existir e ao re(e)sistir.  Por isso agradeço pela didática rara, pelo cuidado ao falar sobre cada conteúdo, perceptível de qualquer cadeira do IFCH, pela apresentação de um autor tão sensível e tão necessário, de fato um curso extremante marcante pra mim nesse semestre de poucos dias físicos, mas de muitos dias sentidos.

Acerca do pensamento Derridiano fica evidente a ideia de desconstrução, essa que não é um método, mas que se faz indispensável ao pensamento filosófico, refuta a metafísica ocidental tradicional, que predomina desde Aristóteles e Platão. Desconstruir aparece associado á ideia de desfazer, decompor as estruturas, descontruir significa então esse movimentar, mas que não pode ser um método pronto, está vinculada a ideia de que o movimento não volta atrás, está sempre em andanças e mutabilidade. A desconstrução é o deslocamento sem possibilidade de retorno, é o dançar da vida humana. Para o autor, a desconstrução é acontecimento, um novo conceito (ou quase conceito) que permite a passagem e ir o além limitações , marcadas e estabelecidas .  É difícil dizer o que a desconstrução é, talvez seja mais fácil por conta de garantir seu movimento inquietante, dizer o que a desconstrução não é. E é sobre o que a filosofia não é que parece que o autor tenta traçar, já que o que já foi dito é dito o tempo inteiro, ao autor parece interessar as brechas e as possibilidades.

O logocentrismo, a razão e a palavra, que marcam o ocidente, é criticada pelo autor. Aparece Assim questionando a binaridade hierarquizante entre verdade e erro, a qual valida universalmente verdades e desqualificam os erros, predominando um sobre o outro, desqualificando um e glorificando outro. A desconstrução propõe um movimentar sobre as verdades irrefutáveis e prontas da metafísica ocidental, mas esse conceito derridiano não pretende destruir a metafísica, mas pensar que essa fixação á razão limita o pensar, pois há muito a conhecer e a fixidez logocêntrica não permite essa mobilidade.

Portanto a desconstrução seria esse movimento natural e não provocado o qual se faz necessário. Quanto a crítica derridiana ao logocentrismo e ao falocentrismo, O autor vai propor uma arké escritura, salientando que todo pensamento que não se diz nada, ou que não se escreve é uma arké escritura. O sentido esse que vem antes da fala, pois porque vamos falar sobre algo se não significa nada? O sentido vem antes da phoné, não o ato de escrever, mas o ato de dar significado. O autor trata ainda em sua ideia de desconstrução, sobre a validação do desenvolver, do caminho, do percurso e não do resultado pragmático de dadas coisas.

A crítica ao logocentrismo, a qual já aparece em Nietzsche quando o autor propõe uma valorização do corpo no lugar da valorização racional predominante, aparece também em Derrida ligando as críticas relacionadas à noção de sujeito. O sujeito, esse que sofre fraturas, esse que se encontra sem solo, esse o qual parece haver um fim próximo conceitual, o fim próximo do homem. O sujeito, considerado como ser de desejo por Derrida, anuncia então seu movimento: já que somos esses seres desejantes não poderíamos nós estarmos fechados a conceitos fixos. A ideia de desejo seria um por vir, e anunciaria a mobilidade desses sujeitos que estão sempre em movimento através dos desejos. O sujeito de desejo é então aquele que está a vir, um por vir. Portanto não há algo substancial, o sujeito é efêmero.

Parece, portanto, que aquele sujeito imaginado por Descartes, aquele que pensa e logo existe , tem seus dias contatos. O que de fato causa muito orgulho, pois o pensamento cartesiano limitado por sua época reproduz assim uma validação da racionalidade e de aparente exclusões daqueles e daquelas que são desconsiderados como não racionais. Logo quem tem o direito de ser sujeito cartesiano, é o homem branco, europeu, heterossexual e de centro. Conceito fechado esse que exclui os marginalizados, a população de rua, os loucos , as travestis e todos e todas aqueles e aquelas que não se encaixam na concepção cartesiana de sujeito. Foucault então critica essa noção, e o convite Derridiano aqui é pensar o Sujeito como efêmero, provocando aberturas na concepção fechada acerca do que é o sujeito. A Crítica portanto não significa abandonar o logocentrismo ou o falocentrismo, mas de fato deslocamentos, aberturas, e possibilidades de movimentos acerca do pensamento filosófico e da vida humana.

O texto de Derrida, os fins do homem, aparece então criticando as  concepções normativas acerca do conceito fechado de ser homem. A metafísica clássica tal como imaginou Aristóteles de que as coisas são, de que tal coisa é, o ser é e não pode deixar de ser, parece não mais haver sentido na contemporaneidade. A binaridade da metafísica ocidental tradicional, a qual põe em evidencia duas caixas normativas de possibilidades como: O belo e o feio, o corpo e alma, o certo e o errado, encontra-se em crise.  “Não apenas Deus está morto, mas que o homem como condição de retomada do pensar e do saber também teria seu fim próximo anunciado” segundo Foucault. O homem o que  se anuncia a morte é uma referencia a ideia de homem normal de centro, obediente, alinhado pelo positivismo, o qual adequa-se muito bem ao capitalismo. Aparenta-se o fim da ideia de homem correto, de homem de bem exemplar.

De fato os gregos não resolveram todos os problemas que cercam a antropologia, a filosofia agora tem novas questões.  A ideia de sono antropológico aparece tentando afirmar que a filosofia não mais é necessária, que a filosofia não precisa ser tocada, no entanto mesmo que se tenha respondido (talvez) sobre o homem biológico, psicológico, ainda assim não dão conta de responder acerca de tudo sobre o homem. Por isso Derrida falará do por vir, que não é um conceito, mas talvez quase conceito, é algo que está no presente, mas não por completo. Abrindo-se a perspectivas e doses do imprevisível, o por vir indica uma abertura contra o dogmatismo conceitual que diz “é isso e nada mais”.

A superação do humanismo abre espaço então para a subjetividade. A desconstrução do humanismo aparece de um lado com Derrida e noutro com Foucault, ambos pensadores da diferença. O humanismo como superação, mas que não pode se ausentar de falar sobre o sujeito. Para Derrida, decretar o fim da história do sujeito é um absurdo, a intenção é mostrar que essa história está em movimento. Não seria melhorar o humanismo, mas pensar em outra estrutura. Claro que o homem continua sendo um animal racional, mas só isso não basta. As críticas ao humanismo que aparecem contidas no texto os fins do homem, se percebe em muitos aspectos no decorrer da leitura, humanismo esse que coloca o homem como racional e crítico, como centro da terra, parecem não mais fazer sentido ao autor, o fim do homem seria ultrapassar essa essência que precede a aparência.

 

O tempo inteiro o termo homem e sujeito remetem ao masculino, ao normativo, o que me parece que é usado de modo proposital a tratar que o fim desse conceito tão engessado estaria próximo. De fato, é extremamente inspirador que pensemos em conceitos filosóficos plurais, esses os quais possam ser acessíveis e não excludentes. Porque de fato o pensamento filosófico pode ser muitas outras coisas, mas sobretudo não pode a mim não ser democrático e acessível. Que o pensamento inclusivo e generoso de Derrida nos inspire a construções e reconstruções de filosofias, de espaços, de vivências, que se voltem a democracia e atentos e éticos. O pensamento que não é estático de Derrida trata-se de um convite à fluidez, trata-se de um convite ao deslocar-se, um convite e percepção de que nossos corpos, intelectos, serão sempre sujeitos desejantes, em desconstrução e por vir.