Resumo do artigo Ideias que marcavam o século XX: uma chave para a leitura dos filósofos. Capítulo X: Jaques Derrida.

 

I. Derrida, um filósofo difícil.

 

O filósofo em tela era de origem judaica, nascido na Argélia em 15 de julho de 1930, passando pela temida guerra da Argélia.

Teve uma formação acadêmica consistente, mas, nem por isso, teve durante sua trajetória acadêmica o reconhecimento devido, bem como a respectiva importância dada às suas obras.

Sendo claramente excluído por parte das alas mais conservadoras da área de Filosofia. Entretanto, apesar da sua recepção negativa, vemos obras de extrema influência para a Filosofia, tais como seus primeiros livros, Gramatologia, A Escritura e a Diferença e A Voz e o Fenômeno, todos publicados em 1967.

A partir daí, suas publicações continuaram e em 2007 Derrida é considerado o terceiro autor mais citado mundialmente no campo das Ciências Humanas pelo The Times Higher Education Guide.

Logo abaixo iremos resumir alguns dos referenciais mais significativos do pensamento do autor, senão vejamos:

 

II. Desconstrução

O termo desconstrução vem do termo Destruktion presente em Ser e Tempo de Heidegger.  A opção por parte de Derrida nessa tradução diz respeito ao uso deste termo enquanto desconstrução e não por destruição.

Por desconstrução entendemos a incapacidade de retornar ao status quo ante, isto é, somos levados a um estado diferente do estado anterior, mas não necessariamente pressupõe uma destruição. Por isso, a tradução para desconstrução se mostra mais responsável do que o uso do termo destruição.

Essa desconstrução é compreendida como um acontecimento enquanto um acontecimento do pensamento e não como uma atividade, uma ação.

 

III. Crítica ao logocentrismo

 

A partir da desconstrução o cerne da metafísica seria atingido, ou seja, o logo estaria em xeque. Este logocentrismo é marcado pelo quadro de binariedade da cultura ocidental. Ou seja, esse par de correlatos assumiria um aspecto político e moral ao presumir que o primeiro seria qualitativa melhor do que o segundo ao qual se combina.

Ocorrendo uma prevalência do primeiro em relação ao segundo. Para tanto, a partir dessa crítica ao logo pressupõe uma igualdade entre os conceitos, não havendo mais uma hierarquização nos seus respectivos juízos morais.

 

 

IV. Operadores da desconstrução ou quase-conceitos

-        Escritura

Derrida irá adotar a nomenclatura “quase-conceitos” para termos como escritura, différance, rastro, hímen, khôra e espectro objetivando que são noções equivalentes e não submetidas ao processo de hierarquização.

Com efeito, por escritura entende-se que nenhuma ideia está fora do campo textual. Não sendo esse campo reduzido ao aspecto da escrita, mas situado na escritura, ou seja, o campo pelo qual os significados são dados.

Este campo abarcaria a linguagem, como também a escrita, as formas de manifestação do pensamento.

 

-        Derrida ético-político

 

A preocupação com os campos da política e da ética são presentes nas obras de Derrida. Ocorre que o uso corrente dessas nomenclaturas pelos filósofos da desconstrução implicaria em uma retomada do processo de hierarquização tão criticada por aquela.

Cumprindo frisar que o cuidado de Derrida com a linguagem é presente. Assumindo, assim, o deslocamento dos pensamentos para problemas filosóficos que estavam por vir, como, por exemplo, noções como democracia por vir, o tema da hospitalidade, do dom, da alteridade, da morte, do perdão e dos animais.

Entretanto, estes nunca de fato chegariam, apesar rondando enquanto um espectro.

 

-        Democracia por vir

 

A ideia de uma democracia por vir não se aproxima de algo que está por vir em um futuro próximo, mas sim a concepção que o atual modelo democrático está consolidado em estruturas não democráticas na tradição ocidental.

Este por vir democrático seria uma abertura por parte da política e subsidiariamente das instituições de que democracia deve ser entendido como a recepção por parte daquela comunidade das diferenças existentes.

Exemplificando, nos casos de acolher aquele que veio de outra cultura, aquele que pertence ao mesmo campo cultural, mas que não é privilegiado pela luta de classes, etc.

-        Hospitalidade

 

A hospitalidade expressa a alteridade daquele que está hospedando em relação ao hóspede. Mas, nessa mesma via de alteridade, surge a dominação exercida por aquele que hospeda em relação ao hospedeiro.

Em outros termos, aquele que hospeda pressupõe domínio de espaço, territorialidade e conhecimento prévio dos signos daquela área. Enquanto aquele que está no território estranho ao seu, estará submetido aos signos e consequentemente ao regramento local que não lhe pertence.

Desta forma, há uma dupla relação de pares entre o hospedeiro e o hospedado, sendo este ao mesmo tempo sujeito de recebimento do acolhimento, como também objeto de dominação.

 

-        O dom, a morte, o luto

 

O Derrida difere-se da noção tradicional ao tratar da temática da morte e luto que a tradição clássica normalmente se comunga. Notadamente vemos em todas as obras do Derrida a temática acerca do luto e de algum modo sobre a morte.

Pretende-se trazer elementos literários que tangenciam esses assuntos para o campo filosófico, não reduzindo o tema da morte e do luto aos campos organicistas, muito menos aos campos metafísicos de alma, corpo, espírito.

 

-        Espectros de Marx

 

O espectro de Marx denota uma preocupação de Derrida com a discussão na academia entre os defensores das teses tradicionais do marxistas e aqueles que atacavam determinados pontos.

Vemos com a adoção do termo espectro uma demonstração da aporia constante nesses debates, bem como uma difícil solução que, a ser ver, não lhe parecia de grande importância, mas, sim, o fomento à discussão.

Esse fomento a essa discussão na academia pode ser entendido como o espectro de Marx presente na ambiência acadêmica. Considerando-se mais produtivo as discordâncias que alimentariam o desenvolvimento intelectual do que a pacificação que estagnaria a produção desses discursos.

 

-        A questão dos animais

 

Por último, a questão dos animais surge a partir da ideia da democracia por vir, tal como as problemáticas futuras a serem estudas. Essa questão se localiza nesta previsão dos problemas que não chegaram em um futuro próximo, mas que rondarão os imaginários daquele tempo.

Pensando, então, a violência com a qual os pensadores ditos clássicos travaram com os animais, bem como a defesa de que seriam indiferentes ou incapazes de sentir. Colocando nitidamente os homens em superioridade aos animais pela simples característica da racionalização.

A partir dessa característica se fundou toda a dominação e morte dos animais para fins diversos.