Resumo do texto “Jacques Derrida”, de autoria da Prof. Dirce Eleonora Nigro Solis, capitulo X do livro “Ideias que marcaram o século XX – Uma chave para a leitura dos filósofos”.

 

 

 

Desconstrução

 

Informa a autora que a concepção daquilo que foi denominado “desconstrução” surgiu numa carta de Derrida a Toshihiko Izutsu, carta que ficou conhecida como “Carta a um amigo japonês”, onde o primeiro sugere ao segundo que adote como tradução para “Destruktion”, termo encontrado em “Ser e Tempo” de Heidegger, “desconstrução” e não “destruição”.

“Destruktion” deveria ser entendida como Heidegger o fazia, com o sentido de “definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas”.

Derrida levando em conta que o estruturalismo era ainda dominante, considerava que “desconstruir” era antiestruturalista e por isso mesmo um gesto estruturalista. Tratava-se de desfazer, decompor, dessedimentar as estruturas da chamada linguística estrutural que era também chamada de “saussuriana”.

Para a desconstrução haveria um deslocamento sem possibilidade de retorno, de modo idêntico ao ponto ou forma inicial.

A desconstrução não é análise porque a desmontagem de uma estrutura não é uma regressão em direção a um elemento simples; tampouco é uma crítica, um método ou um modo de ler.

Com relação aos textos, Derrida estabelece a princípio dois momentos da tarefa desconstrutora. O primeiro consiste na finalidade de marcar a série de oposições binarias neles presentes, verificando seus limites e como essas oposições atuam de forma paradoxal, delimitando-se então o campo a desconstruir, pela “inversão” das teses e postulados filosóficos. Inverter os termos de uma proposição permite emergir um novo conceito, ou quase-conceito, o que desmantela os termos metafísicos.

Num segundo momento uma nova etapa surge como “exterior” ao texto analisado, o que Derrida nomeará “deslocamento”.

A tarefa desconstrutora consiste, portanto, em inverter os termos e deslocar, uma etapa já estando de algum modo compreendida na outra, o que Derrida compreende como um “acontecimento”, entendendo tal como um “acontecimento do pensamento” e não simplesmente como “acontecimento em ação”.

O acontecimento traz o insólito do tempo, o imprevisível, o intempestivo e esse tempo não é homogêneo ou linear, cumulativo ou circular e é co-extensivo ao conceito de diferença.

Derrida denomina o acontecimento como “a emergência de uma multiplicidade dispare”, sendo também aquilo que “há de vir” ou que “advém”. O por vir (à venir), é para Derrida a marca da desconstrução, que traz consigo a característica da indecidibilidade, da ambivalência, traduzindo-se tanto na fala, quanto na escritura, tanto na natureza quanto na cultura em “aporias”, que para Derrida não é o ponto de chegada inconclusivo, mas sempre ponto de partida para novos deslocamentos.

 

Crítica ao logocentrismo

 

A desconstrução visa o desmantelamento das certezas da metafisica ocidental que sempre se apoiou no predomínio do logos, da razão, da palavra, sendo este o alvo das críticas de Derrida.

A tradição metafisica havia construído conceitos e argumentos de validade universal, fundamento inabalável para as verdades, hierarquizados, com a predominância de uns sobre os outros.

Assim, a verdade vale mais do que o erro, o bem é superior ao mal, o belo ao feio, a essência a aparência.

Com a desconstrução o cerne da metafisica seria atingido, o logocentrismo, o predomínio do logos, abalado, não significando, entretanto, a destruição do logos ou que essa fosse a intenção.

O logos e a lógica binaria, como essência/aparência, mente/corpo, inteligível/sensível, marcam e sustentam a cultura do ocidente, sendo o primeiro termo do par aquele que exerce o poder sobre o segundo, subordinando-o, denotando o exercício do poder, com o predomínio da voz ou da phoné (fonocentrismo) e o predomínio do falo (falocentrismo), ou no dizer de Derrida, o predomínio do fonologocentrismo ou do falogocentrismo, ou ainda, falo-fono-logocentrismo.

Derrida irá utilizar, abandonando depois, a complexa noção de presença, que é aquilo que existe e com que nos deparamos imediatamente, apontando em “Gramatologia”, quatro modalidades metafisicas da presença: (a) presença da coisa ao olhar; (b) presença como substancia/essência/aparência; (c) presença temporal, no instante, e, (d) presença a si do cogito, representando as ideias, os estados mentais, a matéria e a palavra.

Derrida se contrapõem a Saussure, que privilegiava a fala à escrita, considerando esta última apenas um instrumento auxiliar da primeira, o que é uma questão presente em toda metafisica ocidental, e com a desconstrução irá apontar o momento em quem se dá a inversão desse logocentrismo, passando a escrita a se sobrepor a fala e o deslocamento para a questão da escritura.

 

Operadores da desconstrução ou quase-conceitos

 

Escritura

 

Para marcar que a desconstrução não opera com os pares binários, que são conceitos, e, portanto, estão dentro do plano logocêntrico, Derrida irá adotar a nomenclatura “quase-conceitos” para termos como escritura, differánce, rastro, hímen, que são noções ambivalentes, que pertencem ao campo aporético, não submetidas ao processo de hierarquização, e que possibilitam a abertura necessária ao contexto desconstrucionista.

Escritura não é o mesmo que escrita, enquanto ato de escrever ou uma representação da fala. Ela tem função documental e retira o privilégio do significado sobre o significante e o privilégio do significante fônico sobre o significante gráfico.

A intenção de Derrida é mostrar que não existe signo que seja anterior à escritura, daí a arquiescritura, escritura primeira, como antecessora da linguagem e do ato de escrita.

Para Derrida, não há nenhuma ideia que não seja de fato textual, o que não significa que só existam textos e nada mais, ou que não exista realidade exterior aos textos. Derrida chama de textos “cadeias”, sistemas de rastros, emergindo e sendo constituídos por diferenças. Essas cadeias são escrituras, construídas na relação temporal e espacial.

Todo texto é ele mesmo, parte de um contexto. Dizer que só existem contextos significa que para distinguir texto e contexto é preciso já considerar o texto em si mesmo, e para ler um texto fora do contexto, seria preciso já estar em seu contexto. Não se nega o “fora” e o “dentro”, mas se colocam os dois no mesmo plano hierárquico. Trata-se portanto da desconstrução do binômio texto/contexto.

 

Derrida ético-politico

 

O pensamento de Derrida vai muito além do viés da tradição filosófica e da linguística e incluem preocupações que permeiam a ética e a política.

Derrida entende a ética como abertura radical e incondicional ao outro e que não se limita ao homem e tem que dizer a experiência da alteridade.

 

 

Democracia por vir

 

Para Derrida, democracia deve ser compreendida como um movimento para o que vem e será sempre insuficiente e futura, pertencendo ao tempo da promessa,

Assim sendo a democracia plena não existe. As democracias existentes devem ser desconstruídas e preparadas para um por vir, possibilitando a abertura para o inesperado, para o estranho, para o outro.

 

 

Hospitalidade

 

Derrida assume a característica aporética da hospitalidade, reconhecendo que o estrangeiro ou estranho, ora é acolhido como hóspede ora como inimigo. O hospedeiro é aquele que exerce o poder e o hóspede aquele que deve se submeter as regras da casa. A hospitalidade incondicional não admite poder e regras e assim é um ideal de convivência que não existe como tal e neste sentido está sempre por vir.

A hospitalidade incondicional só pode ser compreendida entre os indecidíveis de Derrida porque ultrapassa as oposições binarias e impossibilita imediatamente qualquer decisão.

Derrida acentua dois aspectos na hospitalidade: a aceitação do outro e a recusa na aceitação, que se converte em aversão.

Ainda que haja a aceitação, a relação logo estabelece um contrato. O hóspede deve se adequar a língua local, aos costumes, as tradições, as regras em geral, devendo de imediato se identificar e dizer seu nome, declarar sua origem, sua linhagem, sua religião e grupo étnico.

A autora aponta esses aspectos como relevantes para Derrida, sobre a questão hospitalidade.

 

O dom, a morte, o luto.

 

Esses temas fazem parte das preocupações ético-políticas de Derrida.

Para Derrida, se o dom é possível, ele é aquilo que não podemos ou devemos saber, pois é incompatível com qualquer apropriação narcísica, pois é o que deve interromper o círculo econômico.

Derrida afirma que um dom que fosse destinado ao reconhecimento estaria anulado imediatamente, diferente da esmola que é uma ritualidade institucionalizada.

O dom deve romper o aspecto econômico que faz com que toda doação seja condicionada a retribuição ou ao reconhecimento.

O dom na sua essência deve ser incondicional e a exigência de reconhecimento, a espera de retribuição, engendram um estado aporético.

Em relação a morte, Derrida a evoca a partir da dialética “movimento indefinido da finitude da unidade da vida e da morte”, insistindo na ideia de unidade vida/morte, com a retirada da hierarquia entre os termos, característica da desconstrução.

Sobre o luto o caracteriza como uma tentativa sempre voltada para o fracasso para incorporar, interiorizar, introjetar, subjetivar o outro em mim.

 

Espectros de Marx

 

Derrida numa conferência que tinha como objetivos discutir o destino e o significado de Marx e do marxismo, adotou a postura da desconstrução para responder tais questões.

Assim, recorre aos “espectros” para denunciar a hegemonia da perspectiva neoliberal e neocapitalista como resolução aos graves problemas econômicos e político-sociais mundiais.

Para Derrida “espectro” e uma noção em sintonia com ambivalência e a aporética dos discursos e textos. Espectro não é inteligível nem sensível; nem morto nem vivo e se assemelha aos quase-conceitos, sendo capaz de resistir aos conceitos hierarquizados da filosofia. Espectro é aquilo que se “acredita” ver.

A postura de Derrida, característica da desconstrução, possibilita dar lugar de destaque aquilo que no texto de Marx é suplementar ou secundário.

 

A questão dos animais

 

Essa questão é tratada no texto “O animal que logo sou” e trata de temas como a nudez, a nominação, a denegação, a sujeição dos animais ao homem e em que medida ele tem direitos absolutos sobre os animais.

Derrida constrói a curiosa cena em que ele está nu diante do seu gato e fala da possível vergonha de ficar assim e da vergonha de ter vergonha.

O homem sabe que está nu, daí sua vergonha, enquanto o animal é indiferente a isso porque ele é nu e não se dá conta disso.

Derrida analisa a insuficiência de resposta da Filosofia sobre a sujeição do animal ao homem, que para ele é uma luta desigual, uma guerra contra a compaixão.

Derrida defende que a discussão sobre os limites entre o humano e o animalesco acabará necessariamente numa aporia.