Em “Lendo-nos”, tópico da conferência “Os fins do homem”, pronunciada em Nova Iorque, Derrida se propõe a mostrar como o conceito de homem – conceito este que ao longo de sua história tem sido exclusivo, isto é, tem sido aplicado a alguns e a outros não – está pressuposto na descrição fenomenológica do Dasein em Ser e Tempo, de Martin Heidegger. A questão levantada por Derrida é o “nós” do discurso de Ser e Tempo. Para melhor entender o que está em jogo para Derrida, cumpre voltar a vista para a obra de Heidegger.

Como sabemos, a noção de Dasein não remete conceitualmente às noções tradicionais de homem. Deste ente, é dito no §9 de Ser e Tempo que ele “nunca poderá ser apreendido ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero de entes simplesmente dados”. Aqui está em questão não somente a crítica à substancialização do cogito levada a cabo por Descartes desde a segunda meditação (a essência do cogito como coisa pensante), mas também a sinalização de um fracasso: este ente não pode ser analisado segundo o par tradicional gênero próprio/diferença específica, pois “o ser, que está em jogo no ser deste ente, é sempre meu”, ou seja, cada Dasein é responsável pelo seu próprio ser, porquanto cada Dasein responde pelo seu próprio ser. A responsabilidade aqui nada tem a ver com uma responsabilidade moral; responsabilidade, antes, quer dizer que este ente é o seu modo de ser de maneira intransferível e não vicária numa respondibilidade ao ser que tem que assumir. Portanto, o fracasso assinalado na noção de Dasein significa que este ente não pode ser acessado através de uma objetificação teórica que o universalize: ele não é animal racional nem coisa pensante; não é um aggregatum. Mas onde propriamente se encaixa a crítica de Derrida aqui?

Derrida faz, de fato, uma leitura. No §2 de Ser e Tempo está escrito: “Nós já sempre nos movemos dentro de uma compreensão do ser.” Para continuar com a crítica de Derrida, eu diria que esse “nós” não somente remete a um tronco linguístico indo-europeu mas se inscreve em determinadas culturas. Caso avancemos até o §12, podemos ler: “Cotidianidade é, antes, um modo de ser do Dasein, justamente e sobretudo quando o Dasein se move numa cultura altamente desenvolvida e diferenciada.” Embora Heidegger não diga que o “primitivo” – é a palavra que ele usa – não ganha seu ser no Dasein (pois Dasein, aqui, quer dizer lugar não-empírico da dinâmica de ser, na qual a constituição é vislumbrada a partir da relação entre a intentio do existente e o mundo ao qual ele está dirigido; de aí que ser-aí é ser-no-mundo), sua analítica existencial orbita em torno do ente que é capaz de levantar a questão do sentido do ser a partir da tríade questionado, perguntado e interrogado. Se o questionado da questão é o ser e o perguntado é o sentido de ser, resta encontrar o ente que imediatamente é interrogado em seu ser (no que é o questionado) sobre o sentido de ser (no que é o perguntado). Este ente, diz Heidegger, é aquele ente “que nós mesmos, os que questionam, sempre somos”. Em suma, pode-se dizer que somente para esse nós que vive, de início, na cotidianidade mediana (como não poderia sê-lo, uma vez que a autenticidade não possui paradigmas?), esse nós que se movimenta, de início, a partir do discurso de um mundo que lhe é familiar e próximo; somente para este nós, a questão do sentido do ser é possível. O Dasein não é “homem”, mas a descrição fenomenológica do Dasein que Heidegger visa se faz a partir de um horizonte no qual o sentido de ser “homem” é uma possibilidade própria do Dasein. Como escreve Derrida: “(...) se o Dasein não é o homem, não é todavia outra coisa que não o homem. Ele é, como vamos ver, uma repetição da essência do homem que permite recuar aquém dos conceitos metafísicos da humanitas. Foi a sutileza e a equivocidade deste gesto (grifo nosso) que evidentemente autorizou todos os desvios antropologistas na leitura de Sein und Zeit, particularmente na França.”

Quando Derrida joga a luz sobre a proximidade ôntica e a distância ontológica, somos levados a uma leitura bem particular de Heidegger. O que Derrida faz não é senão pôr às claras o que estava pressuposto no pensamento do acontecimento de Heidegger: a reciprocidade apropriativa entre homem e ser. O que está em questão não é depreciar esta ou aquela visão humanista; a questão é que o humanismo metafísico, e isso é importante ressaltar, não alcança a dignidade do homem. Mesmo em textos como “A essência da verdade”, nos deparamos com termos como “ser-aí humano”. Seja-me autorizado um instante para pôr à mão o texto: “(...) a ek-sistência do homem historial começa naquele momento em que o primeiro pensador é tocado pelo desvelamento do ente e se pergunta o que é o ente. Nesta pergunta o ente é pela primeira vez experimentado em seu desvelamento. O ente em sua totalidade se revela como physis, (...) Somente onde o próprio ente é expressamente elevado e mantido em seu desvelamento, somente lá onde tal sustentação é compreendida à luz de uma pergunta pelo ente enquanto tal, começa a história.” Esta pergunta, claramente, é o tí estin; (que é?), enquanto o “primeiro pensador” é o canal para o acontecimento da verdade do ser – sendo o pensamento entendido como o resguardo para acontecimento da verdade do ser. Se a verdade acontece e, portanto, é histórica (como lemos alhures em A origem da obra de arte), se o homem habita essa verdade compreensivamente a partir do horizonte do sentido de ser (numa reciprocidade próxima entre homem e ser), se está em questão algo como história do ser, resta-nos perguntar quem é o homem a quem Heidegger alude senão o ocidental. A questão do “quem” do homem, para Heidegger, está intimamente entrelaçada com a história do ocidente enquanto história da metafísica. Ela é metafísica porque funda o fundante a partir da totalidade do ente, ao mesmo tempo que separa este fundante como ente supremo frente ao que é por ele fundado e lhe presta e cobra contas, como num movimento circular. É por isso que “o humanismo é o outro nome da onto-teologia”: não é necessário que o fundamento epocal seja Deus para que seja metafísico: ele pode muito bem ser um conceito metafísico de homem, na medida em que é antropocêntrico (ou nos expressaríamos melhor se disséssemos eurocêntrico?). O que é perturbador na questão é justamente o que faz dela uma questão contra o humanismo metafísico: para Heidegger, nem todo Dasein é ser-aí humano (é aí que está a crítica que Derrida faz à tradução de Sartre, a saber, realidade humana), com o claro acento que “humano” não significa gradação de ser, isto é, não significa ser mais nem ser menos.