Lembro-me da primeira vez na qual tive uma aula acadêmica de filosofia, a disciplina era introdução à filosofia e logo o que vimos, pela cultura ocidental assim não tendo surpresa do conteúdo, foram os chamado pré-socráticos. Aintenção era nítida: ressaltar a importância irrefutável daqueles pensadores para o pensar filosófico ocidental . No entanto eu, no que julgava inocência e assombro, não entendia porque a filosofia a qual me movia a estar ali, não aparecia pra mim naquela estrutura de pensar relatado nas aulas de introdução à filosofia ocidental. Queria eu saber mais sobre a vida, sobre os processos que fugiam da norma, porque de fato eu estava ali fugindo da norma. Aquela aula não me representava, aquela aula pra mim não era de filosofia, mas de uma imposição e adestramento do pensar.

O que de fato notei ao primeiro impacto com a disciplina foi que havia uma estrutura do pensar filosófico, um método de reprodução o qual marcaria todo o trajeto curricular que obtive até o momento. Meu maior incomodo não era que o pensamento filosófico ali relatado fosse somente reprodutor, mas que além desse principal problema, ele era (e é) excludente , sexista , racista, classista, xenofóbico e extremamente cientificado. Não era isso que eu aos dezessete anos esperava da filosofia quando entrei na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e não é o que espero da filosofia acadêmica hoje, mas infelizmente é esse o pensamento predominante pela universidade.

Surjo do nordeste, de uma família imigrante que não sabe bem suas origens. Minha avó foi deixada a ser cuidada por uma mãe a qual não era dela biologicamente, mas tornou-se sua sentimentalmente. Cresceu na Paraíba, nordeste do Brasil, se pendurava em árvores e comia frutos colhidos e plantados pelas e pelos agricultorxs da região. Minha bisavó era indígena, e dela não sei bem, mas suponho que suas aventuras e vivencias eram tão ricas que não a impediram de se recriar na estrutura da cidade sem perder suas identidades. Por essas identidades que pulsam em mim, que surgem da terra, que brotam dos movimentos dos rios e do balanço das folhas verdes da mangueira, não posso eu me firmar num chão imóvel, acabado e numa identidade fixa e permanente. 

Enquanto escrevo aqui, enquanto estudo e penso, lá fora o funk toca, os tiros correm, as travestis morrem, as crianças pretas passam fome , a vizinha morre de AIDS e o pé de alface de minha avó cresce, sem agrotóxicos. Sobre esses espaços periféricos os quais vivo, sobre esses espaços múltiplos os quais vivemos, não posso eu, e sei que não podemos nós, nos reduzirmos a caixas universalizadoras que imaginaram os europeus para nós. Nossa multiplicidade se faz incapturável, se faz travessa e corre por ai, voa como um pássaro liberto, afim de poesia e vento forte. Sobre essas pluralidades que nos são fundamentais como povo brasileiro que o pensamento de Jacques Derrida me parece tão relevante.  A partir dele escrevo essas inspirações que surgiram do texto usado na (in)disciplina antropologia filosófica , “Derrida, um filósofo difícil”. Embora a tinta se fixe no papel, tudo que escrevo aqui é escrito a lápis em minha memória, e esses meus pensamentos são tão frágeis e móveis, quanto o papel quando sente a ventania dos oceanos. Que voemos um pouco com Derrida.

Jacques Derrida, de família judia, não escondia seu interesse pelas margens desde seu início ao trajeto filosófico, a questão da diferença, a desconstrução, a crítica ao logocentrismo, são questões as quais fazem de Derrida um pensador não normativo e que provoca o sentimento de repensar o que é filosófico: a ideia do movimento. Sócrates é um exemplo desse movimentar, pensador esse que não escreveu, que pairava sobre as ruas, marginal, que andava pelas praças públicas e dialogava com jovens e velhos, que foi morto pela sua subversão. Essa noção geopolítica  foi retirada  do pensamento filosófico com o surgimento das primeiras universidades cristãs, a filosofia, essa que foi retirada das ruas, de seu movimento, foi limpada, elitizada,  estagnada  e sustentada até os dias atuais por uma troca de preocupação com espaço para ocupar-se com a função de sustentar egos .

A filosofia ociental privilegia a “egopolítica do conhecimento” em desfavor da “geopolítica do conhecimento” e da “ corpo-política do conhecimento”. Em termos históricos, isto permitiu o homem ocidental representar o seu conhecimento como o único capaz de alcançar consciência universal, bem como dispensar o conhecimento não ocidental por ser particularístico e, portanto, incapaz de alcançar a universalidade. ( GROSFOGUEL,210,p.460)

A ideia de desconstrução que não é um método, mas que se faz indispensável ao pensamento filosófico, refuta a metafísica ocidental tradicional, que predomina desde Aristóteles e Platão. Desconstruir aparece associado á ideia de desfazer, decompor as estruturas, descontruir significa então esse movimentar, mas que não pode ser um método pronto , está vinculada a ideia de que o movimento não volta atrás, está sempre em andanças e mutabilidade. A desconstrução é o deslocamento sem possibilidade de retorno, é o dançar da vida humana. Para o autor, a desconstrução é acontecimento, um novo conceito( ou quase conceito) que permite a passagem e ir o além limitações , marcadas e estabelecidas .  É difícil dizer o que a desconstrução é, talvez seja mais fácil por conta de garantir seu movimento inquietante, dizer o que a desconstrução não é.

O logocentrismo, a razão e a palavra, que marcam o ocidente, é criticada pelo autor. Aparece Assim questionando a binaridade hierarquizante entre verdade e erro, a qual valida universalmente verdades e desqualificam os erros, predominando um sobre o outro, desqualificando um e glorificando outro. A desconstrução propõe um movimentar sobre as verdades irrefutáveis e prontas da metafísica ocidental, mas esse conceito Derridiano não pretende destruir a metafísica, mas pensar que essa fixação á razão limita o pensar, pois há muito a conhecer  e a fixidez logocêntrica não permite essa mobilidade. Essa rigidez hierárquica, a qual não permanece apenas no campo filosófico teórico, mas que perpassa pela desqualificação do outro/outra, tornando um natural e outro/outra inadequado/inadequada. A sexualidade não normativa que é desqualificada, o pensamento feminino, a mulher  que é desqualificada, o africano/a africana, o periférico/a periférica, o latino/ a latina e outros/ outras tantos/tantas as margens. Pensar esse desqualificador que constrói normas cruéis , as quais destroem vidas e as matam por falta de sensibilidade e intensa rigidez é um ato político. Aqui o movimento da vida aparece interrompido, inabalável, a verdade é um problema político como diz Foucault, e é a luta por mais espaços e validez da diferença, que a desconstrução me parece propor.

O autor irá tratar sobre o conceito da presença, esse que quando se cai no mundo, se tem contato com um pensamento dominante hegemônico cultural de cada tempo histórico, e para desconstruir a ideia de uma presença hegemônica, e pensamento dominador,  Derrida irá tratar sobre o quase conceito de escritura. A escritura que se sobrepõe a fala, Derrida ira usar a ideia de que a escritura é anterior a fala, no sentido de que a escritura, essa não no sentido de que representa a fala, mas que carrega sentidos, como antecessora ao ato de escrever e da fala. Para Derrida não existe nenhuma realidade que não seja textual, o que não quer dizer que não haja realidade além de textos, mas que “ textos são cadeias, são rastros, emergindo e sendo construído por diferenças. Essas cadeias são também ‘escritura’ e são construídas na relação temporal e espacial...”   A ideia brilhante de Derrida é que não há fora do texto, o fora é o dentro, o contexto e o texto estão inseparáveis, e o que o pensador deseja é a desconstrução dessa binaridade entre contexto e  texto. O autor irá tratar sobre o termo rastro( trace) , esse que não se adequa a lógica da identidade fixa, se tudo começa pelo rastro, não se pode saber então sobre rastro originário.

O pensamento filosófico de Derrida vai além da desconstrução do pensamento filosófico e da linguagem, pairando assim sobre questões Ético-políticas, pensando a democracia como algo por vir. Preocupado com as minorias, Derrida se ocupa com o processo de colonização, com as mulheres, com os refugiados e também os animais. A noção de democracia por vir, perpassa então pela preocupação com os desprivilegiados, mas democracia por vir no entanto não trata de algo futuro, que chegará no futuro, mas como sempre insuficiente e em movimento.

Com essa noção de democracia por vir, podemos pensar então que as ideias e conceitos sobre uma democracia universalizante, a qual esconde interesses sempre particulares e egoístas, serão sempre fracassados e nunca poderão provocar uma igualdade de acessibilidade a direito de todos e todas. A ideia de democracia estagnada necessita ser repensada. A democracia então me parece necessariamente como um movimentar, já que para o pensador, a democracia estabelecida na realidade é antidemocrática e estão de fato corrompidas, a democracia plena para o pensador, portanto, não existe. A democracia por vir, seria uma abertura no pensamento político estagnado e uma obrigação a movimentar-se respeitando as diferenças , entendendo as desigualdades e sendo sobretudo o oposto da história humana que conhecemos que exclui o outro/a outra. Esse movimentar da democracia é um convite a inclusão.

O pensador defende a solidariedade mundial, que não perpassa apenas aqueles que possuem uma identidade, que vá além dos desejados e adequados, mas uma solidariedade que seja atenciosa a todos e todas. Aos inadequados e inadequadas, uma solidariedade entre todos/todas os seres vivos, descontruindo assim a ideia de cidadão e necessidade de ser cidadão para ser respeitado, até mesmo aquele ou aquela a qual ou o qual não sejam cidadão/cidadãs merecem respeito. O autor propõe a hospitalidade, que seja democrática e acessível a todos os seres, animais e pessoas, e que a solidariedade seja ausente de interesses econômicos particulares mesquinhos.

Jacques pensa no conceito ou quase conceito de hospitalidade, salientando que ora os hóspedes são acolhidos noutra são inimigos, mas ainda assim, o hospedeiro se torna refém de quem hospeda. Aquele que hospeda exerce poder a quem recebe a hospedagem. O dono da casa exerce poder sobre o hospede, respeitando as normas da casa, o imigrante recebe ordens do país o qual o recebe, assim há uma indução a perda de identidade e obrigatoriedade de adequação. A hospitalidade é também um por vir para o autor.

A partir do pensamento sobre a hospitalidade, me vem no imaginário um hospital, no qual somente recebe atendimento o paciente se o mesmo tiver um nome fixo, um registro, um endereço, parentescos. O paciente precisa de uma identidade fixa a ser preenchida numa ficha hospitalar, caso não tenha dados para preencher, caso o/a paciente seja um imigrante, um morador em situação de rua, um ser não binário que não se identifica como homem ou mulher, uma mulher trans a qual não conseguiu o direito ao nome social, não serão atendidos, porque o que move nosso contexto não é a hospitalidade incondicional, mas uma lógica movida por esmagadores de vidas e comedores de gente.

         Ainda em seus pensamentos generosos éticos-políticos Derrida fala sobre a esmola, a qual é ofertada seguindo interesses, já que há um instrução social a ajudar, uma definição de beleza e gratidão por quem ajuda.  A Noção de dom a Derrida, associada á ideia de generosidade, deve romper com essa instrução social de interesses que faz com que a doação esteja sempre associada a reconhecimento e retribuição. O dom então, para ser realmente dom, deve estar livre de interesses egoístas e de vontade de reconhecimento dos outros, chega assim no pensar sobre o dom incondicional, aquele que não visa retribuição, mas que ajuda por solidariedade e gratuidade. O autor tratará ainda sobre a temática da morte, tentando desconstruir essa binaridade que hierarquiza morte e vida, falando ele em vidamorte, chegando em pensamentos acerca do luto, e o defendendo como um por vir.  Derrida pensa ainda questões acerca da aspectralidade em Marx e sua relevância no pensamento atual, questão essa que gostaria de ter a oportunidade de compreender melhor. Ainda em sua vertente ético política, o autor apresenta preocupações com os animais e com a tendência humana de subjugar esses seres tão sensíveis e amorosos.

       A partir desse breve resumo e impressões iniciais, gostaria de deixar evidente meu encanto pelo autor e apreciação das aulas as quais tivemos até agora na (in)disciplina antropologia filosófica. Pensar a desconstrução , a crítica ao logocentrismo, a critica ao falo, ao logos, a metafísica ocidental, a questão da diferença, da hospitalidade, sem dúvida alguma me enchem de esperança, paz e amor pela filosofia. Essa que muitas vezes me parece cansada e mórbida , reaparece energética e cheia de movimentos desde meu primeiro contato com o Derrida. Que esse movimentar , que a desconstrução, nos inspire a nos mover, e perceber que ainda temos muito a discutir além de verdades ou acertos. As pessoas morrem e passam fome na rua, a  filosofia a mim não tem outra emergência maior do que a motivação a busca por democracia e direitos humanos. Que nos movamos incansavelmente pelo mundo dos desejos e da diferença.