Introdução

           

Há modos diversos de se fazer um resumo, mas a definição básica indica que resumir é fazer exposição breve de um fato, acontecimento ou texto, em que apenas os aspectos mais relevantes são apresentados. A crermos nessa definição, será preciso levar em conta que o texto do qual se pede que façamos um resumo é ele próprio um resumo. De quê? Da produção e do pensamento do filósofo franco-argelino Jacques Derrida. A partir dessa consideração preliminar, parece-nos correto dizer que nosso trabalho será, ao final, um construto metalinguístico, na medida em que apresentará um resumo do resumo, isto é, fará uma seleção das partes mais relevantes do texto. Tarefa difícil – é preciso que se diga desde agora –, porque o panorama da obra-pensamento de Derrida apresentado pela autora é já um esforço para concentrar explicação em algumas páginas de uma ampla e diversificada produção, que em muito excedeu as fronteiras do campo da filosofia. Ainda assim, tentemos.

            Antes de começarmos, um último esclarecimento quanto à forma de nosso resumo: serão apresentados comentários sobre as partes por nós selecionadas e, a título de confirmação de nossas interpretações, citaremos breves passagens textuais.

 

Resumo

 

            Já nos primeiros parágrafos a autora se ocupa em justificar o título de seu texto: Derrida é apresentado com um pensador difícil porque o percurso do seu pensamento, expresso em suas obras, gera desestabilizações ao produzir inversões e deslocamentos naquilo que se supunha como verdades cristalizadas. Surge daí uma dupla dificuldade para os leitores de sua obra: 1) saber lidar com os efeitos desses abalos no modo tradicional de se pensar e conduzir a filosofia; 2) conhecer e, invariavelmente, se expor à singularidade complexa do pensamento derridiano. Aliás, merece ser aqui sublinhada a escolha da autora em qualificar Derrida menos como filósofo do que como pensador, a despeito do título do ensaio. Apostamos que esta opção se justifica – dentre outras razões, certamente – porque a obra derridiana excede as temáticas propriamente filosóficas, como será pontuado ao longo do texto. Mais ainda: abordar seu pensamento, e não exatamente sua filosofia, pode indicar a recusa por uma circunscrição bem delimitada pelo que ressoa no adjetivo “filosófico”. Ao manter intensa interlocução com múltiplas áreas do conhecimento desde as suas primeiras obras, Derrida extrapola as fronteiras da filosofia, o que lhe permite questioná-las, quando não ampliá-las, mesmo que para isso seja necessário assumir o risco de permanecer às margens.

            Depois de apresentar alguns dados biográficos que cumprem a função de registrar a importância do pensador para o campo das chamadas ciências humanas, a autora divide seu ensaio em dez seções com o intuito de abordar: 1) as preocupações fundamentais que orientam o pensamento derridiano, com destaque para o termo desconstrução, inequivocamente atrelado ao nome e à assinatura Derrida; 2) os quase-conceitos elaborados em suas obras, que questionam a estrutura binária e constitutivamente hierarquizada da metafísica ocidental; 3) o caráter ético/político (termos que devem grafados assim mesmo, com uma separação aproximativa) acentuado de ponta a ponta em sua produção e 4) a interlocução com pensadores de outras áreas, com destaque para literatos, em cujas obras Derrida percebe efeitos filosóficos.

            A primeira seção trata do que ficou conhecido por desconstrução. O ensaio derridiano referido aqui é “Lettre à un ami japonais”, integrado ao livro Psyché. Derrida discute aí como a palavra desconstrução se lhe impôs. Importa notar que não se trata de um conceito formulado pelo pensador para fornecer, a partir dele, uma definição do que quer que seja. O texto dá a ver que se a desconstrução foi alçada à condição de conceito, postura, gesto, conjunto de procedimentos ou estratégia, isso ocorreu, na sua gênese, de maneira acidental, porque seu uso foi sugerido por Derrida ao seu amigo japonês para resolver um problema de tradução da palavra alemã destruktion, que aparece em Ser e tempo, de Heidegger e que não aponta, na leitura de Derrida, para uma destruição. Talvez pareça que esse episódio seja sem importância, mas no curso do texto da autora será dito que a desconstrução pertence à ordem e dinâmica do acontecimento, isto é, de algo que nos chega sem que se lhe possamos antecipar. Poderíamos então nos arriscar em dizer que tudo o que foi e ainda é dito em nome e por causa da desconstrução, sobre e a partir da desconstrução, guarda vínculo com esse episódio acontecimental que reveste esta palavra decisiva com todos os sentidos adquiridos a partir de seu surgimento e vinculação ao nome de Derrida.

            Duas citações: a primeira sobre a ação concentrada no verbo desconstruir, e a segunda sobre a relação entre desconstrução e acontecimento:

1ª: “Desconstruir refere-se tanto a desfazer os termos de uma frase quanto a desmontar determinada máquina a fim de transportá-la para outro lugar. Indica, então, a impossibilidade de voltar atrás e reconstruir de maneira idêntica à anterior [...]. Para a desconstrução haveria um deslocamento sem possibilidade de retorno de modo idêntico ao ponto ou forma inicial. Isto valerá para textos de todas as espécies (filosóficos, literários, artísticos etc.), para a tradução e a metáfora.” (p. 4). Acrescente-se que a autora cita um trecho de uma entrevista concedida por Derrida na qual ele rejeita pensar a desconstrução seja como análise, seja como crítica ou, ainda, como método.

 

2ª: “Derrida compreende a desconstrução como um acontecimento [...]. Deve-se sobretudo a Foucault esta conotação e a referência aos ‘acontecimentos do pensamento’. [...] O acontecimento traz o insólito do tempo, que ultrapassa a alternância entre temporal/intemporal, histórico/eterno, visando tanto a um tempo mais profundo quanto seu desvelar-se na superfície. [...] Para Derrida trata-se de saber, então, como a desconstrução acontece. O tempo do acontecimento não é homogêneo ou linear, cumulativo ou circular, e é tanto para Deleuze como para Derrida co-extensivo ao conceito de diferença. [...] Derrida denomina o acontecimento como a ‘emergência de uma multiplicidade díspare (diparate multiplicity) [...]. Indica também que a palavra ‘evento’ (événement) busca suas raízes em invento (invention). Daí a associação com o novo e a inovação.” (p. 5).

 

            Ainda sobre a desconstrução, a autora menciona, por fim, o alcance e as implicações éticas e políticas do que se reúne neste nome. Este aspecto não pode ser desconsiderado, na medida em que todo o desenvolvimento subsequente do ensaio colocará em relevo os temas, abordagens e posições políticas, imbricadas à discussão ética, que estão presentes na obra de Derrida.

            Passa-se, então, à crítica ao logocentrismo, formulada pelo autor desde as suas primeiras publicações. Em sua apurada leitura dos processos da metafísica ocidental, diz-nos a autora, Derrida identifica a pretensa construção de verdades universais e perenes por meio da mobilização de conceitos e argumentos cuja sustentação só é possível no interior de hierarquias bem delimitadas nas quais o termo de maior valor comanda seu oposto inferiorizado. Assim, a verdade prevalece ao erro, o bem ao mal etc. Interessa para Derrida compreender e demonstrar como, entre esses opostos binários, persiste um princípio de indecidibilidade e indeterminação a retesar a prevalência de um termo sobre o outro. Suas investigações o levam a crer que é por meio da valorização do logos e da razão que a metafísica se sustenta. O trabalho desconstrutor opera, então, para desmantelar – sem destruir – essas supostas certezas inabaláveis, mantidas somente na medida em que persiste o logocentrismo, isto é, a força (como valor) do logos no centro de todo o desenvolvimento da filosofia ocidental. Além disso, a atividade da desconstrução põe em evidência o caráter político que reside na estrutura dos binarismos, já que é por meio do recurso ao valor político que as hierarquias se mantêm:

 

“Esta predominância [de um termo sobre o outro], entretanto, ultrapassará o quadro filosófico e a binariedade assumirá um valor propriamente político. Melhor dizendo, o primeiro termo do par é o que termo que é colocado como aquele que exerce o poder sobre o segundo, sobre o subordinado. O logocentrismo, então, afirma a verdade de um poder central, de um centro privilegiado.” (p. 7).              

 

            Metafísica da presença é a expressão utilizada por Derrida para se referir às modalizações diversas que a presença como manifestação assumiu na formação da cultura ocidental. Foram quatro formas designadas pelos seguintes termos gregos: eidos (presença da coisa ao olhar); ousía (substância, essência ou existência); stigmé (presença temporal na valorização do agora ou do instante (nyn)) e cogito (presença a si na consciência na subjetividade). Essas quatro formas se desdobram em variadas modalizações, como menciona a passagem colhida da Gramatologia, citada no texto da autora (p. 7). Mais importante do que conhecer todas as formas e modalizações por que passou o valor de presença é perceber que se trata de uma marca da metafísica ocidental, atravessando a história iniciada com Platão e Aristóteles cujo alcance atinge até os contemporâneos de Derrida, ultrapassando, inclusive, o campo da filosofia. Caso exemplar é a leitura empreendida por Derrida dos trabalhos de Ferdinand de Saussure, responsável por conferir estatuto de ciência à linguística no século XX, cujas inflexões em muito extrapolaram as fronteiras de seu campo particular, produzindo efeitos na antropologia e na psicanálise, por exemplo. Derrida demonstra, e a autora cita, que as concepções de língua e linguagem estabelecidas por Saussure mantêm relação com o pressupostos da metafísica da presença, não obstante suas investigações tenham reconfigurado, de maneira decisiva, os estudos acerca da linguagem.

            Apresentada a crítica ao logocentrismo e seus desdobramentos – falogocentrismo e fonocentrismo –, a autora passa a explicar o que nomeia por “operadores da desconstrução ou quase-conceitos” (a partir da p. 8), os quais escapam à lógica logocêntrico-binária. São quase-conceitos porque conduzem a uma dimensão aporética não concebida por Derrida como momento de impasse ou falta de passagem, mas, sim, como possibilitadores de aberturas capazes de promover o contexto desconstrucionista. Em nosso resumo, apresentaremos esses quase-conceitos de modo esquemático, a fim de não extrapolarmos os limites deste trabalho.

 

* Escritura à não se confunde com o significado de escrita, como mera representação gráfica da fala. Noção que se opõe ao modo como Platão e Aristóteles, mas também Saussure, concebem a relação fala/escrita. É ressaltado que mesmo na linguística saussuriana foram preservadas as distinções que surgem no escopo da metafísica, como sensível/inteligível, expressão/conteúdo, significante/significado, que permaneceram a regular os estudos de linguagem. Derrida procura demonstrar que não há signo antes da escritura – esse “antes” não deve ser compreendido em termos cronológicos. Isso porque não há escritura (aqui como escrita) puramente fonética. A autora menciona que distinguir a escrita como mera notação da fala só é possível se for considerada a oposição mais ampla entre dentro e fora do texto. No entanto, desde a Gramatologia Derrida afirma que não há nada fora do texto, na medida em que “[...] não há nenhuma ideia que não seja de fato textual.” (p. 9), ou seja, não há nenhuma ideia que não seja formulada e expressa em leis textuais. Daí que a escrita não seja mera notação da fala, permitindo que o autor fale em arquiescritura: momento aporético de indistinção entre fala e escrita.

 

* Différance e rastro (trace)à a primeira noção surge a partir de um neografismo produzido por Derrida na língua francesa. De acordo com a ortografia oficial, o termo différence se escreve com “e”, e não com “a”. Contudo, mesmo depois da alteração gráfica o som não se modifica, porque, pelas mesmas normas ortográficas oficiais, a pronúncia do fonema “a” não se distingue de “e”. Com isso, Derrida demonstra os limites da escrita fonética, que não é capaz de lidar com uma corruptela como essa. Mais do que isso, no entanto, différance será o jogo de diferenças que “[...] proporciona como jogo a possibilidade de desconstrução da crença em um significado transcendental, uma vez que as substituições infinitas deslocam o pensamento a respeito de elementos tais como centro, origem e presença, pertencentes ao significado transcendental como a origem absoluta do sentido.” (p. 10). Para que se alcance esse efeito, Derrida mobiliza a ambivalência constitutiva do verbo diferir, a partir de sua dupla origem: do latim différer, a derivação em differe denota atrasar, prolongar, adiar, esperar e seus correlatos. São, portanto, sentidos relacionados à temporalização. Do grego diapherein o verbo absorve a ideia de dessemelhança, de distinção, de oposição por discordância. Sentidos que guardam relação com o espaço (ser um e ser outro). A autora resume a relação entre ambos os grupos de sentidos:

 

“Na ideia de temporização temos a ideia de momento presente com elementos que avançam ou recuam para remeter a um outro elemento futuro ou passado. Espaçamento sugere que o presente não basta para que a significação seja dada; diferir em outros para que surja a significação.” (p. 10).

 

            O rastro, por sua vez, designa o elemento que, independentemente de estar situado no passado ou futuro, se furta a uma presentificação plena, isto é, a presentificação do signo para que a partir dele seja obtido o significado. Avessa à ideia de identidade presente na lógica clássica, esta noção indica um abalo na própria noção de identidade: “O rastro existe (ou preexiste) na ausência de um outro aqui-agora, de um outro presente ou de uma outra origem do mundo que se manifesta como tal [...].” (p. 11).

            À apresentação das noções ou quase-conceitos utilizados pela desconstrução se segue a abordagem do fio ético/político inerente à obra-pensamento de Derrida. Para cumprir com esta finalidade, a autora divide o restante do texto em seções que compreendem as ideias derridianas de 1) democracia por vir; 2) hospitalidade; 3) o dom, a morte, o luto; além de tratar de modo específico da obra Espectros de Marx. Assim como fizemos com os quase-conceitos, resumiremos cada uma delas de modo esquemático.

            A democracia, para Derrida, pertence ao por vir, ao tempo da promessa, estando inserida em uma perfectibilidade inexorável. Como forma de governo, está sempre a realizar-se sem nunca se apresentar plenamente. Por que Derrida concebe esta forma de governo desse modo? Porque a ideia corrente de democracia não cumpre com o sentido inerente a palavra: governo (Kracia) do povo (demos). Pensá-la como lançada ao por vir é recusar os discursos universalizantes que setorizam as decisões nas estruturas democráticas. A autora faz uma ressalva:

 

“Não se trata, no entanto, de destruir as instituições democráticas que possuímos, mas de uma abertura das mesmas a uma democracia por vir. Este é o sentido da promessa, abrir a democracia para a sua própria promessa, possibilitar a abertura para a invenção, para o inesperado, para o estranho, para o outro.” (p. 13).

 

            Quanto à hospitalidade, Derrida percebe que esta palavra contém, desde a sua raiz latina em hospes, os sentidos de hostil e inimigo. Assim como a ideia de democracia por vir, a hospitalidade também conduz, no pensamento derridiano, a uma dimensão aporética: aquele que é hospedado recebe o acolhimento ora como inimigo (hostilis), ora como hóspede (hôte). Ao realçar essa questão filológica, Derrida quer dizer que o acolhimento em nível político-estatal só ocorre sob condições, se considerarmos que aquele que chega é hóspede, mas também pode ser inimigo. Daí surge a base para a construção do neografismo hostilpitalidade. Impõe-se a tarefa de pensarmos em uma hospitalidade incondicional: “A hospitalidade incondicional só é compreendida, então, através do viés desconstrutor. Ela estaria, assim, entre os indecidíveis de Derrida [...].” (p. 14).

            O dom, a morte e o luto são abordados na mesma seção porque a autora parece compreender que eles estão relacionados, não apenas entre si, mas também com a ideia de incondicionalidade. Assim, o dom, para ser incondicional, deve abdicar da necessidade do reconhecimento, seja daquilo ou de quem doa, seja de quem recebe, que, em princípio deveria reconhecer que recebe, como um cálculo cujo produto é uma dívida contraída.         

            A morte, ou melhor, dar a morte, é pensada por Derrida, no dizer da autora, sob a questão da responsabilidade, por sua vez também ligada ao dom. Para o pensador franco-argelino, é preciso pensar e insistir na indissociabilidade entre vida e morte, algo que a postura dialética não seria capaz de separar.

            Sobre o luto, é citada uma entrevista na qual Derrida o relaciona à perspectiva da herança e à alteridade. Interiorizar o outro é um trabalho de luto, na medida em que algo desse outro sempre se perde na passagem ao eu. Mais ainda, quando ele afirma “[...] minha relação a mim está primeiramente enlutada [...]” (p. 17) parece querer dizer que o eu aparece ao si já como um outro não plenamente presente. Questão de temporalização que relaciona o luto ao tempo da promessa e do por vir.

            Espectros de Marx é a única obra do pensador franco-argelino que ocupa uma seção inteira no ensaio da autora. Como antecipado pelo título, Derrida vai tratar nesta obra de espectros: os de Marx, isto é, aqueles dos quais ele fala, mas também dos espectros que obsedam Marx a despeito de suas tentativas de controlá-los ou mesmo eliminá-los. Também são mencionados os espectros que se mobilizam a partir e através dos marxismos. Diz a autora:

“O espectro é para Derrida uma noção perfeitamente em sintonia com ambivalência e a dimensão aporética dos discursos e textos, tão caras à desconstrução. Em suma, não é inteligível nem sensível, nem morto nem vivo e, tal como os quase-conceitos explorados pelo autor, o espectro é capaz de resistir às oposições conceituais hierarquizadas da filosofia. (p. 18).     

 

            Por fim, na última seção é mencionada a “temática” acerca dos animais. A obra talvez mais importante em que essa discussão se estabelece é Le animal que donc je suis (À Suivre). O ponto que merece destaque, mencionado pela autora, é o tratamento dispensado aos animais ao longo da tradição filosófica, sobretudo na modernidade. Derrida questiona a sujeição dos animais a uma pretensa superioridade humana e, para discuti-la, força os limites convencionados para separar o animal do humano. Adotando como ponto de partida que não há como se formar um conceito homogêneo de animal, sua obra visa a mostrar que a questão animal está na base da tradição metafísica, ética e política. Terminemos nosso resumo sobre o resumo citando uma última passagem do texto de Dirce Solis acerca desse ponto. Passagem esta em que ela, por sua vez, cita o referido texto de Derrida:

 

“Para garantir a desconstrução dessa tradição, Derrida apresenta duas vias possíveis: uma que seria guardar entre aspas a palavra ‘animal’ toda vez que nos referíssemos a ela, outra que seria a utilização de uma palavra ‘singular, ao mesmo tempo próxima e radicalmente estrangeira, uma palavra quimérica em contravenção com a lei da língua francesa, animot. (2002, 77).” (p. 20).