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Considerando os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio em sua parte IV- Ciências Humanas e suas Tecnologias e mais especificamente, a parte dedicada aos Conhecimentos de Filosofia, trata-se de pensar alguns elementos que possibilitam uma melhor contextualização da Filosofia no Ensino Médio.

 

O texto dos Parâmetros toma por referência o inciso III § 1º do Artigo 36 que diz que o estudante de ensino médio deverá possuir ao término do curso “domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania”. O mínimo que devemos, então, perguntar é:

 

que tipo de conhecimentos são necessários?

 

a que filosofia (ou seriam filosofias) o texto da LDB se refere?

 

qual cidadania?

 

Estas são respostas que teremos de tecer constantemente no métier de professores de filosofia e de filósofos. Podemos, assim, considerá-las mais tarde no texto.

 

A Filosofia desde a sua origem grega ficou conhecida como o espaço da phoné ( da voz) e muito relutantemente ela se legitimou como escrita. Basta lembrar da figura socrática ou, então, do famoso pharmakon de Platão no Fedro. No entanto, no mundo contemporâneo, mundo que continua predominantemente da voz, a escrita e a escritura desempenham papel inquestionável ( e às vezes , infelizmente muito pobre).

 

Do ponto de vista dos Parâmetros Curriculares, o que foi estabelecido em termos de Representação e Comunicação, dentre as competências e habilidades a serem desenvolvidas em Filosofia para o Ensino Médio, pode ser resumido no seguinte: ler, escrever e debater.

 

Então, é preciso saber o que é Filosofia e como ela atua nos mais variados contextos, poder saber articular conhecimentos filosóficos com outras áreas discursivas, tais como as Ciências Naturais , Humanas e Sociais, as Artes e demais produções culturais, enfim os vários planos sócio- político, histórico , cultural, cientifico e tecnológico, paraa que haja capacidade de dar conta minimamente do significado de “fazer filosofia”.

 

Temos, portanto, as seguintes habilidades e competências de Representação e Comunicação a serem desenvolvidas segundo os Parâmetros:

 

Ler textos filosóficos de modo significativo

 

Ler , de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros

 

Elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo.

 

Debater, tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando de posição face a argumentos mais consistentes.

 

Eis o que se espera do “modelo idealizado” de aluno de ensino médio com relação à Filosofia! Mas um professor de filosofia não pode prescindir de modo algum de nenhuma delas.

 

Pensando nesta direção selecionamos para reflexão e debate, alguns textos de filósofos conhecidos e que se preocuparam basicamente as abordagens abaixo:

 

- Filosofar e Filosofia

 

Ensinar e Aprender Filosofia

 

 

 

A Leitura e a Escrita Filosóficas

 

 

O Filosofar e a Filosofia

 

 

Em dois textos kantianos conhecidos e que servem exatamente ao propósito de uma Crítica da Razão ( o que significa que devemos compreendê-los sem descontextualizá- los), lemos:

 

 

 

“Só é possível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo-a seguir os seus princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os” (CRP,19983,407-408).

 

 

 

Em Sobre o saber filosófico (Kant, I, 1943, p.46) , o autor em questão afirma:

 

 

 

“ Em geral, não se pode chamar de filósofo a quem não saiba filosofar. Mas só se pode aprender a filosofar por exercício e pelo uso próprio da razão.

 

Como se deveria poder aprender também filosofia? Cada pensador filosófico edifica sua própria obra, por assim dizer, sobre a ruína de outra; mas nunca se realizou uma obra filosófica que fosse duradoura em todas as suas partes. Por isso não se pode em absoluto aprender filosofia, porque ela ainda não existe. Mas mesmo que supuséssemos que houvesse uma filosofia efetivamente existente, não poderia contudo, aquele que a aprendesse, dizer de si mesmo que fosse um filósofo; pois seu conhecimento dela jamais deixaria de ser apenas subjetivo- histórico (...)

 

O verdadeiro filósofo deve fazer, pois, como pensador próprio, um uso livre e pessoal de sua razão, não um uso servilmente imitador. Mas tampouco um uso dialético, isto é, tal que apenas se proponha dar aos conhecimentos uma aparência de verdade e de sabedoria. Este é o labor dos meros sofistas; mas totalmente incompatível com a dignidade do filósofo, como conhecedor e mestre da sabedoria.”

 

 

 

Deixemos os comentários para o debate. Mas comparemos Kant com este outro pensador da filosofia : Hegel. Também no caso deste último, não podemos descontextualizá-lo.

 

Em seus Escritos Pedagógicos (1991, 139ss), Hegel afirma:

 

 

 

“... Segundo a obsessão moderna, especialmente a da Pedagogia, não se há de instruir tanto no conteúdo da filosofia, quanto se há de procurar aprender a filosofar sem conteúdo; isso significa mais ou menos: deve-se viajar e sempre viajar, sem chegar a conhecer as cidades, os rios, os países, os homens etc.

 

Evidentemente, quando se chega a conhecer uma cidade e se passa depois a um rio, a outra cidade etc., aprende-se, em todo o caso, com tal motivo a viajar, e não apenas se aprende, mas se viaja realmente. Assim, quando se conhece o conteúdo da filosofia, não apenas se aprende a filosofar, senão que já se filosofa realmente. Ainda assim, a finalidade de aprender a viajar constituiria ela mesma em conhecer aquelas cidades etc; o conteúdo.

 

(...) O modo triste de proceder, meramente formal, este buscar e divagar perenes, carentes de conteúdo, o raciocinar ou especular assistemáticos, têm como conseqüência a vacuidade intelectual das mentes, o fato de que elas nada possam.

 

(...) O modo de proceder para se familiarizar com uma filosofia plena de conteúdo não é outro que a aprendizagem. A filosofia deve ser ensinada e aprendida, na mesma medida que qualquer outra ciência.”

 

 

 

Para Kant, dentro dos limites da perspectiva crítica , não se pode aprender filosofia, mas apenas a filosofar, principalmente em se tratando da Filosofia Transcendental, pois ela, naquele momento, seria inviável no contexto da Universidade alemã. No entanto, os cursos de Filosofia de Hegel são exatamente sua visão particular sobre a História da Filosofia, Filosofia daHistória, Filosofia do Direito e identificamos Hegel e a trajetória da Idéia ou do Espírito em suas Lições sobre Estética.

 

 

Hegel produz o seu próprio sistema da Razão, filosofa de forma kantiana, exercita o talentoda razão como Kant preconiza. Além disso, Hegel já se posiciona contra o formalismo pedagógico e a possibilidade de um filosofar sem conteúdo. Atentemos para esta lição hegeliana. Este é sempre um desafio para o professor de filosofia: fazer filosofar sem abdicar dos conteúdos propriamente filosóficos.

 

 

 

Um outro autor, A . Gramsci no texto “Introdução ao Estudo da Filosofia e do Materialismo Histórico” (1978, 13) diz a respeito da filosofia:

 

 

 

“Nota II. Não se pode separar a filosofia da História da Filosofia, nem a cultura da História da Cultura. No sentido mais imediato e determinado, não podemos ser filósofos- isto é, ter uma concepção do mundo criticamente coerente- sem a consciência da nossa historicidade, da fase de desenvolvimento por ela representada e do fato de que ela está em contradição com outras concepções ou com elementos de outras concepções (...) Como é possível pensar o presente, e um presente bem determinado, com um pensamento elaborado por problemas de um passado bastante remoto e superado? Se isto ocorre, nós somos “anacrônicos” em face da época em que vivemos, nós somos fósseis e não seres modernos. Ou pelo menos, somos “compostos” bizarramente (...)

 

 

 

Temos na afirmação gramsciana a defesa da filosofia que não pode abrir mão de seus conteúdos históricos e menos ainda da historicidade do homem.

 

 

 

Os textos seguintes visam a motivar a discussão ainda sobre o que é filosofia. A este respeito consideramos o entendimento de três autores e suas linhas de pensamento distintas umas das outras:

 

 

 

O primeiro autor é novamente Antonio Gramsci (1978, 11-12) . Vejamos o texto:

 

 

 

“Deve-se destruir o preconceito , muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Deve-se, portanto, demonstrar, preliminarmente, que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea” peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida:1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom- senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir e que se manifestam naquilo que se conhece geralmente por “folclore”.

 

Após demostrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente (porque, inclusive na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção do mundo), passemos ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema:- é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos vários grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde a sua entrada no mundo consciente ( e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pelam própria estupidez e pela impotência para a ação) ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira crítica e consciente e, portanto, em ligação com este trabalho próprio do cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?”

 

 

 

Deixo-o para o debate.

 

 

 

 

O outro autor é Michel Foucault que em “Modificações”(1985,13) nos lega uma das mais relevantes páginas sobre a filosofia e o filosofar na atualidade:

 

 

 

“Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. È a curiosidade- em todo o caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia- quero dizer, a atividade filosófica- senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio”- que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja uma “ascese”, um exercício de si, no pensamento.”

 

 

 

Para debater este texto não podemos nos esquecer do significado dos jogos de verdade para Foucault, da noção de política e regimes da verdade e do contexto de discussão sobre a questão da sexualidade em sua obra. Entretanto, fala-se de filosofia e do filosofar.

 

Outra passagem bastante conhecida, mas que deve se examinada em seu contexto à exaustão, tamanha a densidade da obra , é retirada de O Que é a Filosofia? de Deleuze e Guattari ( trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Munõz. Rio de Janeiro: ed 34,1992.).Vejamos em síntese alguns dos seus trechos:

 

 

 

“(...) Tínhamos muita vontade de fazer filosofia, não nos perguntávamos o que ela era, salvo por exercício de estilo; não tínhamos atingido este ponto de não- estilo em que se pode dizer enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida? (9)

 

(...) Simplesmente chegou a hora, para nós, de perguntar o que é a filosofia. Nunca havíamos deixado de fazê-lo, e já tínhamos a resposta que não variou: a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Mas não era necessário somente que a resposta acolhesse a questão, era necessário também que determinasse uma hora, uma ocasião, circunstâncias, paisagens e personagens, condições e incógnitas da questão. Era preciso formulá-la “entre amigos”, como uma confidência ou uma confiança, ou então em face ao inimigo como um desafio, e ao mesmo tempo atingir esta hora, entre o cão e o lobo, em que se desconfia mesmo do amigo.(...) (10)

 

(...) Os conceitos ,como veremos, têm necessidade de personagens conceituais que contribuam para sua definição .Amigo é um desses personagens, do qual se diz mesmo que ele testemunha a favor de uma origem grega da filo- sofia: as outras civilizações tinham Sábios, mas os gregos apresentam esses “amigos” que não são simplesmente sábios mais modestos. (...) o velho sábio vindo do Oriente pensa talvez por Figura, enquanto o filósofo inventa e pensa o Conceito. (10-11). (...) Com a filosofia, os gregos submetem o amigo a uma violência, que não está mais em relação com um outro, mas como uma Entidade, uma Objetividade, uma Essência (...) O filósofo é bom em conceitos, e em falta de conceitos, ele sabe quais são inviáveis, arbitrários ou inconsistentes, não resistem um instante, e quais , ao contrário, são bem feitos e testemunham uma criação, mesmo se inquietante ou perigosa . (...) (11).

 

O filósofo é amigo do conceito, ele é conceito em potência. Quer dizer que a filosofia não é uma simples arte de formar, de inventar ou de fabricar conceitos, pois os conceitos não são necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos (...) Criar conceitos sempre novos, é o objeto da filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência e sua competência.” (13)

 

 

 

Na esteira de Nietzsche , como os próprios Deleuze e Guattari citam, está dada a tarefa da filosofia: os filósofos não são aqueles que simplesmente aceitam os conceitos que lhes são dados pelos outros, “para somente limpá-los e fazê-los reluzir”, mas são aqueles que devem criá-lo e devem convencer aos outros de sua utilização ( a este respeito cf Nietzsche., 1844-45, 215-216 (sobre a “arte da desconfiança”)).

 

Deleuze e Guattari prosseguem desmitificando as concepções mais usuais de filosofia:

 

 

 

(...) A filosofia não contempla, não reflete, não comunica, se bem que ela tenha de criar conceitos para estas ações ou paixões. A contemplação, a reflexão, a comunicação não são disciplinas , mas máquinas de constituir Universais em todas essas disciplinas(1992,15)

 

 

 

Lembramos que esta concepção é perfeitamente coerente com a proposta de experiência do pensamento presente nestes autores, com a proposta de “filosofia como teoria das multiplicidades”. O múltiplo já não remete ao Uno ou à Unidade Primeira, o contrário de Universal não é mais o particular ; o que existe é o singular; o que conta são intensidades.

 

 

 

“(...) Toda criação é singular, e o conceito como criação propriamente filosófica é sempre uma singularidade. O primeiro princípio da filosofia é que os Universais não explicam nada, eles próprios deve ser explicados” (1992,15)

 

 

 

A pergunta, portanto, O que é filosofia? deve ser exercitada levando-se em consideração o contexto desta obra inteira de Deleuze e Guattari.

 

 

 

Aprender e Ensinar

 

 

 

Em outro texto, Diferença e Repetição (1988, Capítulo III, A Imagem do Pensamento, 270) , Deleuze distingue entre objetos do reconhecimento, coisas que podem ser pensadas de modo confortável e que tranqüilizam o pensamento, e os encontros que nos forçam a pensar. Deixar o pensamento tranqüilo, significa deixá-lo ensimesmado,“ cheio de si mesmo” ( rempli de soi même); os encontros pensantes fazem do pensamento um modo de sensibilidade e de paixão em relação ao que nos comove e nos deixa perplexos. E apenas nesta relação sensível e apaixonada com o que nos faz pensar, que o pensamento se converte, também em aprendizagem :

 

 

 

“ Que significa “aprender” ?

 

 

 

O aprendiz (...) eleva cada faculdade ao exercício transcendente. Ele procura fazer com que nasça na sensibilidade esta segunda potência que apreende o que só pode ser sentido. É esta a educação dos sentidos (...) A partir de que signos da sensibilidade, por meio de que tesouros da memória, sob torções determinadas pelas singularidades de que Idéia será o pensamento suscitado? Nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender – que amores tornam alguém bom em Latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que dicionário se aprende a pensar (...) Não há método para encontrar tesouros nem para aprender, mas um violento adestramento, uma cultura ou paideia quepercorre inteiramente todo o indivíduo (...) O método é o meio de saber quem regula a colaboração de todas as faculdades; além disso, ele é a manifestação de um senso comum ou a realização de uma Cogitatio natura , pressupondo uma boa vontade como uma “decisão premeditada” do pensador. Mas a cultura é o movimento de aprender, a aventura do involuntário , encadeando uma sensibilidade, uma memória, depois um pensamento, com todas as violências e crueldades necessárias, dizia Nietzsche, justamente para “adestrar um povo de pensadores”, “adestrar o espírito” .

 

 

 

É interessante, ainda, continuarmos explorando o significado de “aprender” no mesmo texto, sem esquecermos que a discussão principal em toda esta passagem é a questão dos obstáculos a uma filosofia da diferença e da repetição no pensamento e sua história, obstáculos esses apresentados em oito postulados. Em toda esta passagem Deleuze investiga o 8º postulado , isto é, a subordinação do saber ao aprender e da cultura ao método.

 

 

 

“ Sem dúvida, reconhece-se freqüentemente a importância e a dignidade de aprender. Mas é como uma homenagem às condições empíricas do Saber: vê-se nobreza neste movimento preparatório, que, todavia, deve desaparecer do resultado. E mesmo se insistimos na especificidade de aprender e no tempo implicado na aprendizagem, é para apaziguar os escrúpulos de uma consciência psicológica que, certamente, não se permite disputar com o saber o direito inato de representar todo o transcendental. Aprender vem a ser tão somente o intermediário entre não- saber e saber, a passagem viva de um ao outro. Pode-se dizer que aprender, afinal de contas, é uma tarefa infinita, mas esta não deixa de ser rejeitada para o lado das circunstâncias e da aquisição, posta para fora da essência simples do saber como inatismo, como elemento a priori ou mesmo Idéia reguladora. E, finalmente, a aprendizagem está , antes de mais nada, do lado do rato do labirinto, ao passo que o filósofo fora da caverna considera somente o resultado- o saber- para dele extrair os princípios transcendentais. Mesmo em Hegel, a formidável aprendizagem a que se assiste na Fenomenologia permanece subordinada, tanto em seu resultado quanto em seu princípio, ao ideal do saber como saber absoluto.”( 1988 , 270-71).

 

 

 

Num outro contexto o filósofo Martin Heidegger também reflete sobre o que significa pensar e a questão do ensinar e aprender. Em “O que quer dizer pensar?”(Qu’Appelle-t-on Penser?) Paris: P.U.F, 1967,89), Martin Heidegger nos coloca diante do seguinte desafio:

 

 

 

“ Por que ensinar é mais difícil que aprender?”

 

 

 

E Heidegger responde:

 

 

 

“A razão não é porque aquele que ensina deve possuir uma maior soma de conhecimentos e tê-los sempre à sua disposição. Ensinar é mais difícil do que aprender porque ensinar significa “fazer aprender”.

 

Quem ensina de verdade nada mais faz aprender que o próprio aprender. Por isso mesmo é que sua ação muitas vezes desperta a impressão de que junto dele propriamente não se aprende nada.

 

Acontece que, então, inconsideradamente se entende por “aprender” unicamente a aquisição de conhecimentos utilizáveis. Quem ensina não ultrapassa os aprendizes senão no seguinte: ele deve aprender a “fazer aprender”. Quem ensina deve ser capaz de ser mais dócil do que quem aprende.

 

Quem ensina tem muito menos segurança a respeito de sua atividade do que aqueles que aprendem a respeito da própria. Por isso mesmo é que na relação de quem ensina com aqueles que aprendem, quando se trata de uma relação verdadeira, jamais entra em jogo que a autoridade do “sabichão” quer a influência autoritária de quem exerce um cargo. Por isso também é que continua a ser algo de muito grande “alguém que ensina”- o que é uma coisa inteiramente diferente do “professor renomado’.

 

Se hoje- quando tudo se mede de acordo com os níveis mais baixos, como por exemplo o lucro- ninguém mais deseja tornar-se mestre, isto sem dúvida se deve às implicações dessa grande “coisa” e a sua própria grandeza. Sem dúvida, também semelhante aversão esta ligada àquilo que da mais o que pensar. Devemos conservar muito bem sob o nosso olhar a verdadeira revelação entre quem ensina e quem aprende, se quisermos que no desenrolar desse curso desperte uma aprendizagem.

 

Nossa alternativa é ensinar a pensar”.

 

 

 

 

 

Escrever e Ler (em Filosofia)

 

 

 

Jacques Derrida em “Elipse”, texto que encontramos em A Escritura e a Diferença (1995, 74), cita Edmond Jabès: “Escrever é ter a paixão da origem”.

 

Esta deveria ser a tarefa de toda filosofia: despertar a paixão pelos processos de constituição, pela formação dos conceitos, pelo seu processo de criação.

 

Este é um desafio para todo o professor de filosofia: fazer escrever e fazer ler de modo filosófico. O professor de filosofia no Ensino Médio, segundo os Parâmetros Curriculares, “ainda que não esteja obrigado, por dever de ofício, a produzir novidades intelectuais, sendo suficiente trabalhar como divulgador e como formador de um público leitor/agente competente, como professor de Filosofia está (desde sempre já) convocado a honrar uma tradição cujo motivo originário, historicamente renovado, é o pathos da perplexidade, a troca de certezas por dúvidas e a busca de esclarecimento.” (PCNEM, 59). Com isso há que estar ciente de que não se pode banalizar ou trivializar o conhecimento filosófico, o modo de ler e escrever filosoficamente, por mais dificuldades iniciais que isto possa acarretar. Ler filosoficamente significa desenvolver a capacidade analítica, interpretativa, crítica e problematizadora . Saber formular questões ‘é a marca do verdadeiro espírito científico”, diria Bachelard. É evidente que isto é um desafio. Mesmo se o resultado for ínfimo, a tentativa nesta direção é que é tarefa glorificante para a filosofia. O caminho, mais que o resultado.

 

E segundo os Parâmetros ainda, a uma certa capacidade de desenvolver a leitura filosófica deve corresponder igualmente uma capacidade de escrita. Elaborar de forma própria e apropriada o que foi debatido ou explicitado em sala de aula, proceder à experiência de ler e escrever em filosofia, tal é o exercício de pensamento ao qual os estudantes de todos os níveis , aliás, devem se dedicar.

 

A este respeito examinemos uma passagem de Marilena Chauí em palestra proferida na USU em 1982:

 

 

 

“ Escrever é criar, no sentido forte da palavra, é criar com o que já existe aquilo que nunca existiu através daquilo mesmo que está existindo. A criação não é uma produção ex nihilo , mas a criação é essa torção que vai ser impressa naquilo que já existe para que venha à existência aquilo que nunca existiu. Isso é a experiência de escrever.

 

A experiência de ler é assimétrica a essa. A experiência de ler é uma experiência na qual nós todos nos sentimos à vontade para efetuá-la porque o que nós esperamos do livro é uma coisa muito simples. Nós esperamos do livro que ele diga alguma coisa que nós sempre já sabíamos; a esperança é sempre do livro como ato de confirmação. Então, a experiência da leitura só é experiência da leitura se ela é capaz de aceitar o risco de tolerar que o livro não nos confirme, mas que o livro nos desequilibre. Isto é, só existe efetivamente experiência da leitura se o livro for capaz de surgir para nós como uma criação, isto é como aquele que não nos vai confirmar nada, pelo contrário vai retirar de nós as poucas certezas de que dispúnhamos. Se nós formos capazes desta relação com o texto, nós somos capazes de ler; se não, nós somos capazes de uma série de atividades mecânicas mas, não somos capazes de leitura.

 

Então, só existe escrita quando existe esse poder de descentramento das significações estabelecidas. E só existe leitura quando existe tolerância para suportar que esse descentramento foi realizado.”

 

 

 

Tais são os exercícios de leitura e escrita que devem realizar professores e estudantes de filosofia. Somente com o domínio destas técnicas imprescindíveis para qualquer conhecimento e em especial o conhecimento filosófico . A filosofia é originariamente pesquisa e estimular a prática de pesquisa nos estudantes ( através da leitura bibliográfica e da produção de pequenos ensaios escritos) possibilita que ele desenvolva de forma própria a tão preconizada capacidade de autonomia de pensamento. Esta autonomia é condição , por exemplo, para que o aluno no debate que deve sempre existir numa aula de filosofia, possa escolher os melhores argumentos, os mais refletidos, os mais bem articulados.

 

Voltemos as questões iniciais discutidas pelos Parâmetros:conhecimentos de filosofia sãonecessários sempre que contribuírem I- “ao interesse social. aos direitos dos cidadãos, ao respeito ao bem comum e à ordem democrática”, ou II- “que fortaleçam os vínculo de família, os laços de solidariedade humana e da tolerância recíproca” (Resolução 03/98). É claro que todas estas afirmações são bastante vagas e genéricas , dizem respeito às sociedades, geralmente do Ocidente , onde tais questões são valorizadas, mas são um conjunto de valores que podem servir de ponto de partida para as discussões filosóficas. Que Filosofia? ou que filosofias? Este aspecto não está fechado nos parâmetros. Deixa-se à liberdade de escolha das escolas ou mesmo do professor, conquanto sejam contemplados três aspectos no desenvolvimento de um éthos que se refira à totalidade do ser humano e à cidadania: o aspecto estético , visando desenvolver a sensibilidade dos estudantes; o aspecto ético que possibilitaria a identidade autônoma e o respeito ao outro em sua diferença; o aspecto político que significaria principalmente autonomia de decisão, responsabilidade e participação democrática.

 

Estes três aspectos, defendidos pelos Parâmetros, são imprescindíveis para entendimento de qual cidadania se pretende a partir da LDB 9 394/96 .

 

O desafio para a filosofia é diante de todas estas condições procurar no ensino médio adaptar o ideal à realidade.

 

 

 

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