Talvez só possamos colocar a questão O que é a filosofia? Tardiamente, quando chega a velhice, e a hora de falar concretamente”1 É com essas palavras que Deleuze e Guatarri enunciam a questão que se desenvolverá ao longo desta obra. Em verdade, mais que a enunciação de uma obra O que é a filosofia? é antes e acima de tudo a enunciação de toda uma vida, ou de várias, como se mostrará. Para adentrá-la, é preciso ainda mais que vontade de formulá-la, de expô-la, dominá-la, é preciso ainda deixar-se engolir por ela. Formulávamos, diz Deleuze, não deixávamos de formulá-la, mas “não estávamos suficientemente sóbrios, (..), não tínhamos atingido este ponto de não-estilo em que se pode dizer enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida?”2 Afinal, o que é isto a filosofia?

 

“A filosofia é a arte de formar, de fabricar, de inventar conceitos”. Tal parece ser a resposta que esté sempre na ponta da língua do filósofo. Mas o que significa, quando e como, a que horas e sob que paisagens, personagens e condições é efetivamente possível e cabível dizer: produziu-se um conceito? Que são conceitos?

 

Conceitos, diz Deleuze, nunca são simples, são sempre duplos, triplos ... Todo conceito tem componentes que o definem, são como cifras de contorno irregular, povoadas por multiplicidades que requerem sempre alguns personagens que contribuam para a sua significação. Amigo é um deste velhos personagens, ao qual atribui-se mesmo a origem grega da filosofia e da democracia: “ as outras civilizações tinham Sábios, mas os gregos apresentam esses ‘amigos’ que não são simplesmente sábios mais modestos”3 Mas quem e o que é este amigo? O que significa dizer amigo quando ele se torna personagem conceitual?

 

A questão é importante sobretudo se levamos em conta o modo com a palavra amigo aparece ao longo da história da filosofia, por exemplo: quem é o amigo de Platão? E o de Descartes, Hegel, Nietzsche, Bergson? Respondendo a esta questão, ver-se-á existirem amigos e rivais, pretendentes e amantes. Nieztsche enunciou a tarefa da filosofia, diz Deleuze, quando escreveu:

 

 

 

Os filósofos não devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é necessário que eles comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo os homens a utilizá-los. Até o momento, tudo somado, cada um tinha confiança em seus conceitos, como num dote miraculoso vindo de algum mundo igualmente miraculoso.4

 

 

 

É necessário portanto, a exemplo de Nietsche, não simplesmente aceitar os conceitos como pura e simplesmente dados, contemplando-os como entidades perenes, imutáveis, mas ao contrário é preciso desconfiar deles, desconfiar de suas pretensões universais e eternas. Por isso, para Deleuze, se há algo que a filosofia não é: ela não é contemplação, nem reflexão, nem comunicação.

 

 

 

Ela não é contemplação, pois as contemplações são as coisas elsa mesmas enquanto vistas na criação de seus próprios conceitos. Ela não é reflexão, porque ninguém precisa da filosofia para refletir sobre o que quer que seja: acredita-se dar muito á filosofia fazendo dela a arte da reflexão, mas retira-se tudo dela, pois os matemáticos como tais não esperaram jamais os filósofos para refletir sobre a matemática, nem os artistas sobre a pintura ou a música; dizer que eles se tornam esntão filósofos é uma brincadeira de mau gosto, já que sua reflexão pertence a sua criação respectiva. E a filosofia não encontranenhum refúgio último na comunicação, que não trabalha em potência a não ser de opiniões, para criar o “consenso” e não o conceito.5

 

 

 

A filosofia é construção, é criação singular e contínua de conceitos. Seu princípio não é da ordem dos Universais; estes, afirma Deleuze, ao contrário do que pretendem não explicam nada, mas eles próprios é que devem ser explicados. Sendo, porém, criação contínua de singularidades e, portanto, de diferenças, qual unidade conceitual resta para a Filosofia?

 

Para Deleuze, embora múltiplo, o conceito nunca é desarticulado. Todo conceito tem por base um problema e uma história. Num conceito há, no mais das vezes, pedaços de componentes vindos de outros conceitos, oriundos de outros problemas e histórias ... Essa dinâmica se dá necessariamente porque cada conceito opera sempre um corte no caos, assumindo novos contornos. É um todo, porque totaliza em suas articulações e superposições os seus componentes, mas é um todo fragmentário. Por isso todo conceito é ao mesmo tempo absoluto e relativo:

 

 

 

relativo a seus próprios componentes, aos outros conceitos, ao plano a partir do qual se delimita, aos problemas que se supõe deva resolver, mas absoluto pela condensação que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condições que impõe ao problema. É absoluto como todo mas relativo enquanto fragmentário. É infinito por seu sobrevôo ou sua velocidade, mas finito por seu movimento que traça o contorno dos componentes6

 

 

 

O problema-questão da filosofia, portanto, para Deleuze não é o de buscar universais, transcendentes ou fundamentos eternos, mas o de, através da criação de conceitos, operar um corte no caos, sem perder consistência, isto é, sem perder o infinito no qual o pensamento mergulha. Não há, pois, que temer ou lamentar pela falta ou pelo esgotamento da universalidade da filosofia. Pois não há um pretendente privilegiado que a possua efetivamente. Não há filósofo, conceito ou sistema que seja melhor que outro. De fato existem, existiram e existirão grandes filósofos e grandes sistemas, mas não é isso que define o campo da filosofia e nem é este o ponto com o qual deve-se realmente preocupar.

 

Se há algo contra o qual a filosofia deve voltar-se e vencer, esse algo não se refere propriamente o caos - que é na verdade apenas um instrumento com o qual aliás não apenas o filósofo mas também o artista e o cientista têm de lutar-, mas à opinião. É daí que vem a desgraça dos homens. Segundo Deleuze é possível dividir esquematicamente as idades do conceito em três idades principais: a da Enciclopédia, a da pedagogia e a da formação comercial. Apenas a segunda, a pedagogia do conceito, diz ele,

 

 

 

Pode nos impedir de cair, dos picos do primeiro, no desastre absoluto do terceiro, desastre aboluto para o pensamento, quaisquer que sejam, bem entendido, os benefícios sociais do ponto de vista do capitalismo universal.7

 

 

 

 

 

Trata-se portanto de trazer para o campo da filosofia, nem tanta ordem, discursividade ou regras de discussão mas intercessores que possibilitem efetivamente a luta e o corte no caos, a criação e a mutabilidade. Pois A filosofia precisa de uma não-filosofia que a compreenda, ela precisa de uma compreensão não-filosófica, mas esta compreensão não-filosófica certamente não é para Deleuze a comunicação e a opinião, aliás isso é tudo o que ela não é.

 

 

 

 

 

1 DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr e Alberto Alonso Munõz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p.9.

 

2 Idem, ibidem, p 9

 

3 Idem, ibidem, p.10.

 

4 Idem, ibidem, p. 14.

 

5 Idem, ibidem, p. 14.

 

6 Idem, ibidem,. P34.

 

7 Idem, ibidem, p. 21.