INTRODUÇÃO

 

Talvez poucas palavras sejam tão usadas em educação quanto a palavra ´crítica`. Entretanto essa palavra é usada de maneira velada, pois sempre é apresentada de maneira transfigurada, mascarada, banalizada. Dizê-la tantas vezes a esvazia de sentido, tanto que, praticamente, hoje em dia, todos os discursos educacionais enfatizam a importância de desenvolver um pensamento crítico nos alunos. Mas o que significa ‘crítica’ nestes discursos? Qual é a sua função? Qual é a relação que se estabelece entre crítica e transformação? Em Filosofia na Escola tentamos olhar a crítica nos olhos, recuperando alguns dos seus sentidos mais clássicos para os filósofos da história.

 

Segundo Foucault, em entrevista sobre a chegada da esquerda ao poder, o pensamento é essencial na vida e nas relações humanas, pois sempre anima os comportamentos cotidianos. E este, existe além ou aquém dos discursos. Sempre há pensamento, mesmo nas instituições mais tolas e nos hábitos silenciosos.

 

O pensamento é necessário para que se faça uma crítica. Pois uma crítica não consiste em dizer que as coisas não estão bem como estão. Ela consiste em ver sobre que tipos de evidencias, de familiaridades, de modos de pensamento adquiridos e não refletidos repousam as práticas que se aceitam.

 

A crítica consiste na busca do pensamento e na tentativa da mudança. Em mostrar que as coisas não são tão evidentes quanto se crê e que fazer a crítica, é tornar difíceis os gestos fáceis demais.

 

Nestas condições, a crítica é indispensável para toda transformação. Pois uma transformação que seria apenas um modo de acomodar o pensamento mesmo à realidade das coisas, seria apenas uma transformação superficial.

 

A transformação é resultado de um processo no qual há conflito, afrontamento de interesses, resistência ou simples bloqueios institucionais. Mas, se não houver, desde o início o trabalho do pensamento e se efetivamente, os modos de ação não foram alterados, qualquer que seja o projeto de reforma sucumbirá aos modos de comportamento e de instituição que serão sempre os mesmos.

 

Desse modo, passamos a avaliar a Educação a partir da Filosofia de Foucault, já que a Filosofia é uma disciplina crítica, e que, apesar de terem sido separadas pela tecnologia do mundo moderno, está diretamente ligada à Educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foucault foi um filósofo que fez um vasto estudo das sociedades, em especial as dos séculos XVII e XVIII, para poder assim, melhor entender o poder instituído em nossa sociedade atual. Ele estuda o processo de como chegou-se a esse saber/poder da sociedade de hoje, essa biopolítica.

 

Para Foucault a Filosofia é um instrumento necessário para a resolução de problemas reais e cotidianos. Pois o próprio filósofo afirmou: “a Filosofia é desde Nietzsche, exercício diagnóstico do presente”. (apud Giacóia, 1995).

 

Em “As palavra e as coisas” (1999) Foucault buscou desvendar o processo de constituição dos saberes modernos e chamou de episteme o solo sobre o qual tais saberes podem brotar e crescer. Esse solo fértil, definido pela época histórica, possibilitará as diversas ciências construírem-se como esforços de representação do mundo, procurando estabelecer uma ordem através do saber.

 

Para que a pedagogia pudesse reivindicar um caráter científico, foi necessário que os saberes se constituíssem enquanto representação do real e que o próprio homem se tornasse objeto científico. O saber científico constrói-se então numa busca de ordenação do mundo. Entretanto, a disciplina, que se torna campo do saber, apresenta uma ambigüidade conceitual: ao mesmo tempo em que é um campo de saber, também é um mecanismo político de controle. Pois, disciplinar é tanto organizar e classificar as ciências, quanto domesticar os corpos e as vontades.

 

Baseado em Nietzsche, Foucault diz que o conhecimento é essencialmente político. Pois a produção do saber é movido por uma vontade de verdade e instituir uma verdade é um ato político, é o exercício de um poder. Desse modo, foi na constituição da ciência moderna, uma poderosa máquina de poder, que o processo educacional articulou-se em pedagogia, para construir uma verdade sobre o ensino e a aprendizagem.

 

Para Foucault a disciplina, em seu sentido político, vigia, além de ser um método de controle de conduta, de comportamento e ainda, intensifica o rendimento.

 

As investigações de Foucault chegaram a conclusão que a escola, assim como o exército, foram remodelados través do exercício disciplinar e ambas desempenharam papel central no processo de individualização. Ente as técnicas individualizantes utilizadas na escola, uma das mais simples e eficazes é a organização da turma em filas, permitindo que todos os alunos sejam vigiados e controlados por um único professor, que por ter acumulado conhecimento, pode exercer o poder.

 

Essas estratégias de dominação, através da delimitação de espaços e da disciplina corporal, quase não diferem em sua aplicação nos exércitos ou nas escolas.

 

Porém, o controle dos alunos não foi suficiente para que a Educação se cientificizasse como a Pedagogia, também foi preciso, poder quantificá-los em seu processo de aprendizagem através da classificação de cada um deles. Uma das táticas instrumentais mais eficazes é o exame quantitativo, o qual permite a vigilância, a classificação e a punição, estabelecendo sobre os estudantes, uma diferenciação. Assim, a escola, torna-se uma espécie de aparelho que acompanha o cumprimento do ensino.

 

O exame permite ao professor, formar um campo de conhecimento sobre seus alunos. Pois através do mesmo é possível fazer um arquivo com detalhes minuciosos dos alunos, que se constitui ao nível dos corpos e dos dias.

 

Também pode-se rever o processo de ensino-aprendizagem através do resultado dos exames, constatando assim, as dificuldades ou habilidades dos alunos para com determinada matéria.

 

Nesse sentido, o professor é aquele que transmite seus conhecimentos, mas também é aquele que tem o poder de cobrar dos alunos o conhecimento que lhes foi transmitido, que pune através da nota dos exames e que pode complicar a vida acadêmica do aluno caso ele vá mal nos exames.

 

Segundo Foucault existe dois traços marcantes na sociedade atual: a normalização dos indivíduos homogeiniza os sujeitos diferentes entre si, no binômio normal e anormal; utilizando-se de outro recurso, a disciplina.

 

Trata-se de saberes e práticas que atingem a realidade mais concreta do indivíduo, seu corpo, que funcionam como procedimentos de inclusão e exclusão social.

 

A estratégia dessa forma de poder, que é característico da sociedade capitalista, é constituir uma sociedade sadia e uma economia social, com indivíduos dóceis e os mais produtivos possível. O corpo era compreendido como máquina, algo a ser adestrado, através da disciplina.

 

A escola é vista como um espaço transformador que se utiliza de diversas estratégias de dominação, dentre elas:

 

A organização da escola em espaço celular e serial, onde os alunos são divididos em séries pré-determinadas e são postos na mesma série alunos que tenham capacidades semelhantes e que estão em momentos iguais de vida. É uma forma de hierarquizar os alunos, seja nas salas de aula ou no recreio, nas tarefas, nas disciplinas, nas idades. Por exemplo, na maioria das vezes, alunos de séries diferentes não têm o recreio no mesmo horário.

 

A vigilância hierárquica é uma técnica fundamental para o exercício da disciplina. Por isso, há uma atenção especial em determinados locais assim como: salas de aula, dormitórios, banheiros, pátios, feita pelos mestres, inspetores, monitores e fiscais.

 

O poder disciplinar age através da sansão normalizadora. Neste sentido, a escola funciona como um pequeno tribunal, com suas leis e infrações próprias para organizar as diferenças entre os indivíduos, atribuindo pequenas penalidades a quem descumprir as normas, ou dando prêmios por merecimento.

 

Tal sansão, na escola, se impõe da seguinte forma:

 

– Penalidades por atrasos, ausências, interrupções das tarefas, desatenção nas tarefas, negligencia, falta de zelo, insolência ou “tagalerice”, atitudes incorretas, sujeira, indecências referentes à sexualidade dos alunos, etc.

 

Entretanto, há que se mencionar que apesar da escola, assim como o exército, ter sido um dispositivo disciplinador, ela também é um espaço social onde se exercem contrapoderes, a resistência. Na relação pedagógica, o aluno não é um mero paciente, ele é também agente de poder. Ele não é um boneco ou uma estátua sem vida, ele também reage e interage no dia-a-dia escolar. Logo, também é importante observar o cotidiano escolar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

 

"Est-il donc important de penser?" Entrevista com Didier Eribon. Libération, n° 15, 30-31 maio de 1981, p. 21. Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 178-182, por Wanderson Flor do Nascimento.

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977.

 

FOUCAULT Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1966.

 

GALLO, Silvio. “Instituição escolar e normalização em Foucault e Canguilhem”. Educação & Realidade, v.29, n.1, 2004, p.79-97.

 

PORTOCARRERO, V. “Instituição escolar e normalização em Foucault e Canguilhem”. Educação & Realidade, v.29, n.1, 2004, p.169-185.