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O objetivo do presente trabalho é apresentar a visão de Antônio Gramsci sobre o ensino da Filosofia. Tal apresentação será realizada com base nas notas reunidas no livro, escrito pelo autor, “Os intelectuais e a organização da cultura”.

 

 

 

Para atingir tal objetivo, será necessário, antes de abordar diretamente a visão de Gramsci sobre o ensino da Filosofia, visitar as concepções do autor sobre os intelectuais e sobre a educação. Além disso, tendo em vista que Gramsci não é muito estudado e conhecido no âmbito das graduações de Filosofia, serão apresentadas, antes das idéias do autor, uma breve nota biográfica e um comentário sobre o livro em questão. Tais procedimentos são necessários para situar melhor o seu pensamento.

 

 

 

Por fim, será feito um curto comentário sobre a atualidade da concepção de Gramsci em tela.

 

 

 

A Vida de Gramsci

 

 

 

AntônioGramsci nasceu em 1891 na Sardenha, região pobre e atrasada da Itália. Terminou com muitas dificuldades, por conta da situação financeira de sua família, o ensino secundário. Chegou a entrar na Universidade de Turim, no curso de Letras. Entretanto, não chegou a concluir os estudos.

 

Gramsci foi militante do Partido Socialista Italiano (PSI). Posteriormente, junto com outros companheiros, rompeu com o PSI e fundou, em 1921, o Partido Comunista da Itália (PCI). Foi representante do PCI junto à Internacional Comunista e, depois, secretário geral do partido. Em 1924 foi eleito deputado pelo Partido Comunista.

 

 

 

Foi preso em 1926, no período de ascensão do fascismo, embora gozasse de imunidade parlamentar. Durante o período de prisão, desenvolveu, por conta das precariedades do cárcere, uma série de doenças. Em 1933 foi transferido, graças à pressão internacional, para uma clínica médica, onde permaneceu detido. Em outubro de 1934 obteve a liberdade condicional, direito previsto na própria legislação fascista e até então reiteradamente negado, por conta de suas doenças. Entretanto, como seu estado de saúde já era muito frágil, continuou internado. Em 1935 parou de escrever. Morreu em 27 de abril de 1937, seis dias após o fim de sua pena, numa clínica médica em Roma. Tinha, então, 46 anos e sofria de tuberculose, de angina, de gota, de hipertensão e do mal de POTT.

 

 

 

Antes de morrer, planejava retornar à Sardenha para reencontrar a família. Todavia, acabou falecendo sem saber da morte da mãe, pessoa muito querida por ele, e sem conhecer o seu filho mais novo, nascido pouco depois de sua prisão.

 

 

 

Era, desde a juventude, um marxista convicto.

 

 

 

Sobre o livro “Os intelectuais e a organização da cultura”

 

 

 

Gramsci escreveu, durante de período de prisão, 32 cadernos de anotações. Tais anotações abordavam diversos temas. Entretanto, tinham um caráter fragmentário e não estavam prontas para a publicação, embora o plano do autor fosse posteriormente sistematizá-las.

 

 

 

As anotações contidas nos cadernos forma escritas utilizando, muitas vezes, uma linguagem cifrada. Tal procedimento foi adotado para evitar a censura. Além disso, vale registrar que elas somente foram publicadas, seguindo uma organização temática feita pelos editores, após a morte de Gramsci.

 

 

 

Assim, o livro “Os intelectuais e a organização da cultura” reúne as anotações, dispersas em vários cadernos, referentes aos intelectuais, à educação e ao jornalismo.

 

 

 

Gramsci e os intelectuais

 

 

 

Para Gramsci, todos os homens são intelectuais. Isso porque: a) não existe trabalho ou atividade humana puramente manual ou prática; b) Todo homem desenvolve, fora de sua profissão, ou seja, em seu tempo livre, uma atividade intelectual qualquer, contribuindo, deste modo, para a modificação ou para a manutenção de uma determinada concepção de mundo.

 

 

 

Entretanto, para o autor, nem todos os homens desempenham a função de intelectual na sociedade. Somente cumprem tal função os homens que, de um modo geral: a) têm uma atividade preponderantemente intelectual (em relação ao esforço muscular-nervoso); b) contribuem, com sua atividade, para homogenizar e elevar à consciência de sua própria função histórica uma determinada classe social ao qual eles estão ligados (enquanto representantes científicos, políticos ou literários desta classe).

 

 

 

Assim, para Gramsci, os intelectuais cumprem uma função dirigente, ou seja, uma função orientadora, junto à determinados grupos sociais. Tal função pode ser desempenhada tanto num grau mais especulativo (filósofos, teólogos etc.) quanto num grau mais prático (políticos, funcionários públicos etc). Em outras palavras, para o autor, são os intelectuais que constroem uma determinada hegemonia (ou contra-hegemonia), ou seja, são eles que organizam e orientam as classes dirigentes, obtêm o consensodas demais classes sociais e coordenam a coerção dos dissidentes. Nesse sentido, para Gramsci, a função dos intelectuais é similar à função dos partidos políticos. Tais partidos são, para ele, intelectuais coletivos.

 

 

 

Percebe-se, então, que os intelectuais jogam um papel fundamental, tanto contribuindo para a transformação quanto para a perpetuação do status quo.

 

 

 

Existem, para Gramsci, dois tipos de intelectuais: a) os intelectuais orgânicos, ou seja, os intelectuais que são ligados às classes sociais fundamentais de uma dada sociedade (no caso do capitalismo, a burguesia e o proletariado); b) os intelectuais tradicionais, ou seja, os intelectuais que foram ligados, no passado, às classes fundamentais de uma dada sociedade (foram, portanto, orgânicos) e que, com o desaparecimento de tais classes, são relativamente autônomos. Assim, os intelectuais orgânicos das distintas classes tentam, de diversas maneiras, atrair os intelectuais tradicionais para as suas posições.

 

 

 

Gramsci e a educação

 

 

 

O sistema educacional (escolas, universidades etc.) é, para Gramsci, o instrumento privilegiado para a formação dos intelectuais. Assim, tal sistema ocupa um papel fundamental na sociedade.

 

 

 

Para o autor, com o desenvolvimento do capitalismo, as atividades práticas ficaram muito complexas e as ciências se mesclaram à vida. Em outras palavras, houve uma complexificação da atividade produtiva. Deste modo, foi preciso qualificar a mão de obra para dar conta das novas demandas da produção.

 

 

 

Assim, o sistema de ensino, antes restrito à uma pequena elite, foi aberto às classes subalternas. Entretanto, a formação “humanista” anteriormente destinada às classes dirigentes - responsável pelo desenvolvimento do poder de pensar e da capacidade de governar – não foi estendida às classes subalternas. Para manter a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, pré-condição fundamental para a existência da sociedade de classes, foram criados dois tipos de escola: as escolas “humanistas” e as escolas “técnicas”.

 

 

 

As escolas “humanistas” seriam destinadas às classes dirigentes, formando seus intelectuais. As escolas “técnicas” seriam direcionadas às classes subalternas, formando trabalhadores manuais qualificados.

 

 

 

Para superar tal situação, Gramsci formulou a proposta de uma escola “unitária”. Tal escola combinaria a formação “humanista” com a formação “técnica”, ou seja, romperia com a separação entre uma formação direcionada para o trabalho intelectual e outra orientada para o trabalho manual.

 

 

 

Para cumprir com êxito tal papel, a escola “unitária” deveria: a) ser pública e gratuita; b) possuir uma baixa relação professor/ aluno; c) fornecer uma ampla assistência aos estudantes (uniformes, materiais escolares, alimentação etc.); d) ser integral; e) ter o acesso, num primeiro momento em que não existiriam vagas para todos, através de concurso; f) corresponder às escolas primária e secundária; g) adotar uma concepção pedagógica que considerasse a relação do aluno com o conhecimento como algo ativo e criativo (os estudantes não são “recipientes mecânicos” de conhecimento) e que compreendesse que o ensino deve ter relação com a vida.

 

 

 

A escola “unitária” teria, segundo o autor, duas fases gerais: a) uma primeira fase “dogmática” (buscando temperar tal dogmatismo), onde o ensino seria mais mecânico e menos criativo; b) uma segunda fase “criadora” (não no sentido de inventar coisas, mas de descobrir por conta própria – o que também seria, para Gramsci, criação), onde o professor deveria ser um guia amigável.

 

Depois da escola “unitária”, os alunos iriam para escolas especializadas (ou universidades) ou para o trabalho produtivo.

 

 

 

Portanto, para o autor, a escola “unitária” teria como objetivo, ao romper em sua formação com a divisão entra trabalho manual e trabalho intelectual, criar as condições para que todos possam ocupar a função de intelectuais na sociedade. Em outras palavras, ela prepararia todos os homens para governar.

 

 

 

Já as universidades, para Gramsci, não deveriam representar, como em sua época representavam, uma mudança abrupta, um salto, em relação ao ensino anterior. Elas deveriam aprofundar a ênfase na criatividade e na liberdade já presentes na segunda fase da escola “unitária”. Além disso, a relação dos professores com os alunos nas universidades deveria ser orgânica e não individual, ou seja, todos os estudantes deveriam ser orientados e incentivados, extra-classe, pelos professores e não apenas alguns.

 

 

 

Por fim, deveriam existir academias, ou seja, espaços onde as pessoas que já concluíram a escola “unitária” e não entraram na universidade pudessem continuar estudando. Tais academias deveriam ter uma forte relação de colaboração com as universidades.

 

 

 

Gramsci e o ensino da Filosofia

 

 

 

A visão gramsciana do ensino da Filosofia deve ser compreendida no marco mais geral de sua original concepção sobre o papel e a importância dos intelectuais e sobre a educação enquanto instrumento de formação de intelectuais.

 

 

 

Para Gramsci, a Filosofia deveria ser ensinada na escola “unitária”. Ela faria parte da formação “humanista”, antes restrita às classes dirigentes e indispensável para a formação dos intelectuais, que a escola “unitária” deveria incorporar .

 

 

 

O ensino da Filosofia deveria comportar, para ele, a História da Filosofia e também a leitura de textos de um certo número de filósofos. Assim, para o autor, tanto a dimensão histórica - relacionando os diversos pensamentos com os contextos em que eles foram gestados - quanto o retorno às fontes do pensamento filosófico - conhecimento das formulações dos filósofos através de textos dos próprios filósofos - seriam indispensáveis.

 

 

 

A atualidade de Gramsci

 

 

 

A visão de Gramsci sobre a escola “unitária” e sobre o ensino da filosofia continua sendo, em grande medida, atual.

 

 

 

Isso porque persiste a divisão, mesmo que assumindo outras formas (formação “clássica” para as classes dirigentes versus formação voltada para o mercado de trabalho para as classes subalternas; escolas particulares para as classes dirigentes versus escolas públicas para as classes subalternas; “centros públicos de excelência” para as classes dirigentes versus escolas públicas degradadas para as classes subalternas etc.), entre uma escola “humanista” para as classes dominantes e uma escola “técnica” para as classes dominadas.

 

 

 

Deste modo, a maior parte dos intelectuais continua sendo ligada às classes dominantes, um minoria social, e as maiorias sociais, ou seja, as classes subalternas, continuam sendo uma minoria política. Permanece sendo necessária, portanto, uma radical democratização da sociedade, tal qual a defendida por Gramsci.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

 

 

GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.