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O TEMPO DE SCHOPENHAUER E NITZSCHE

 

 

 

 

 

1815 - Derrota de Napoleão Bonaparte em Waterloo, marca o fim do império francês.

 

1830 – Os franceses conquistam a Argélia

 

1837 - Coroação da rainha Vitória, soberana do Reino Unido.

 

 

1839 – Guerra do Ópio que dá aos britânicos, em 1842, o controle dos portos chineses e da ilha de Hong Kong

 

 

1848 – Uma revolução liberal na França derruba o rei Luiz Felipe I. Luiz Napoleão, sobrinho de Napoleão é eleito presidente da República.

 

 

1852 – Luiz Napoleão é aprovado em plebiscito como Napoleão III, imperador dos franceses.

 

 

1853 – Guerra da Criméia, britânicos e franceses apóiam a Turquia contra a Rússia.

 

 

1859 – Publicação A Origem das Espécies, Charles Darwin.

 

 

1861 – Guerra civil Estados Unidos, terminada em 1865, entre nortistas fiéis à União, e os estados escravistas do sul.

 

 

1864 – Primeira Internacional – Fundação da Associação Internacional de Trabalhadores Guerra do Paraguai, termina com a derrota do Paraguai em 1870 para a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai).

 

 

1865 – Prússia derrota Dinamarca e no ano seguinte a Áustria

 

 

1867 – Karl Marx publica o primeiro volume de O Capital

 

 

1870 – Guerra Franco-Prussiana. Derrota francesa causa derrubada de Napoleão III.

 

 

1871 – Unificação da Alemanha com a aclamação, em Versalhes, do rei da Prússia como imperador. Em março, uma insurreição popular organiza a Comuna de Paris, que até maio resiste às tropas do governo provisório francês.

 

 

1885 – Engels publica o segundo volume de O Capital reunindo materiais deixados por Marx, falecido dois anos antes. O terceiro volume apareceria em 1894.

 

 

1889 – Fundação em Paris, da internacional Socialista (Segunda Internacional). Proclamação da República no Brasil.1900 – Sigmund Freud publica A Interpretação dos sonhos, marco da psicanálise.

 

 

 

O PENSAMENTO DE SCHOPENHAUER

 

 

O Mundo como Vontade e Representação” é a sua obra principal, está dividida em quatro livros. O primeiro livro trata do mundo como representação, o segundo nos apresenta o mundo como Vontade, já o terceiro livro trata da Estética de Schopenhauer, que através da contemplação da obra de arte se experimenta o acesso à essência do mundo e no último e quarto livro a redenção do Homem através da renúncia quietista ao mundo e mortificação dos instintos com a auto-supressão da Vontade.

 

Schopenhauer parte da filosofia de Kant, que estabeleceu a distinção entre os fenômenos e a coisa-em-si, isto é, entre o que nos aparece e o que existiria em si mesmo, independentemente do sujeito do conhecimento. Para Kant, a coisa-em-si não poderia ser objeto de conhecimento científico, como até então pretendera a metafísica clássica. A coisa-em-si se encontra além dos limites do conhecimento, e este é regido pelas formas puras de apreensão do sujeito, a saber, o espaço e o tempo e as categorias a priori do entendimento. As categorias, como conceitos puros que são, estão na base de toda experiência.

 

Schopenhauer conserva, dentre as 12 categorias de Kant, apenas uma: a causalidade. Segundo o filósofo de Frankfurt, a causalidade junto com o espaço e o tempo formam o conceito de princípio de razão.

 

Através da dissertação “Sobre a quádrupla raiz do princípio de razão suficiente”, que lhe rendeu o grau de doutor em 1813, procura compreender o papel desempenhado pelos sentidos e pelo entendimento na apreensão da realidade, ainda sem romper definitivamente com a filosofia Kantiana e com Fichte e Schelling, dois expoentes do idealismo alemão.

 

O princípio de razão possui quatro raízes, porém não perde sua unidade, de acordo com a classe de objetos que se apresenta, uma das raízes com sua faculdade correspondente é utilizada pelo entendimento.

 

 

 

O esquema simplificado

 

 

 

 

1ª classe de objetos – objetos empíricos – 1ª raiz – Princípio do Vir-a-ser, que é a lei da causalidade.

 

Faculdade correspondente é o entendimento e a intuição, ou seja, a percepção do objeto no tempo e no espaço.

 

Existem três tipos de causalidade:

 

1 - Causa – Fundamento da mudança no reino Inorgânico.

 

2 - Excitação – Fundamento da mudança no reino Orgânico e movimentos involuntários dos animais.

 

3 - Motivo – Fundamento das ações voluntárias dos animais.

 

 

 

2ª classe de objetos – 2ª raíz – Princípio da razão de conhecer. Representações abstratas exclusivas dos homens são derivadas das intuitivas.

 

È a maneira como as representações abstratas se ligam entre si – conhecimento verdadeiro – através de um juízo que se relaciona a uma razão suficiente fora dele, e que o fundamenta.

 

Essa relação é o que se denomina de verdade. Existem quatro tipos de verdades.

 

Lógica – Fundamento é outro juízo, como o silogismo por exemplo.

 

Empírica – O fundamento é o objeto.

 

Transcendental – O Fundamento são as formas, espaço e tempo.

 

Metalógica – Fundamento é uma condição formal do pensamento, como, por exemplo, o princípio de identidade: A=A.

 

 

 

3ª classe de objetos – 3ª Raiz – Princípio da razão do Ser - Representações que estão no espaço e tempo como formas da intuição – consideradas apenas formalmente como os objetos da Geometria e da Aritmética. È a maneira como os objetos existem no espaço e no tempo.

 

A faculdade relacionada é a intuição.

 

 

 

4ª classe de objetos - 4ª Raiz – Princípio do agir ou lei da motivação.

 

Tem como único objeto para cada um de nós o sujeito do querer. A faculdade é a consciência de si.

 

Nó do mundo – Identidade do sujeito do querer e o sujeito do conhecimento.

 

Esse encontro se dá no tempo (fora do espaço) – menos límpido que as idéias – descoberta maleável através de conceitos e palavras – é o caminho da filosofia.

 

Diferentemente de Kant, Schopenhauer não só afirma ser possível o conhecimento da coisa-em-si, como a chama de Vontade. Este conhecimento da Vontade, como o miolo do mundo, não se dá pelo princípio de razão, ele é possível através da intuição que é o conhecimento imediato e livre do domínio da Vontade.

 

Não somente as ações voluntárias do ser animal, mas também o mecanismo orgânico de sua vida corporal, sua figura e sua conformação, assim como a vegetação no mundo das plantas, a cristalização no reino mineral e, de uma maneira geral, toda força original que se manifesta nos fenômenos físicos e químicos, até mesmo o peso, tudo isso – tomado em si fora do fenômeno, isto é, fora do nosso cérebro e de sua representação – é perfeitamente idêntico ao que nós encontramos em nós sob a forma de Vontade, da qual temos o conhecimento mais direto e mais íntimo que pode haver”. (MVR)

 

O corpo é dado ao conhecimento de duas maneiras distintas: como representação no conhecimento fenomenal, regido pelo princípio de razão e como Vontade, princípio imediatamente conhecido pela intuição, fora do princípio de razão.

 

Para o filósofo as formas racionais da consciência são meras aparências, e a essência de todas as coisas seria alheia à razão, algo sem meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente.

 

Toda representação é um acesso à Vontade, variando os níveis de clareza de acordo com sua subordinação maior ou menor ao princípio de razão.

 

Quando a representação se dá fora do princípio de razão, esta relação sujeito e objeto, é chamado por Schopenhauer de idéia, termo referente à Platão, e que o autor define como objetivação imediata da Vontade.

 

A Idéia se manifesta diretamente ao sujeito, que passa a ser denominado “sujeito puro de conhecimento” porque se encontra livre do princípio de razão.

 

A arte é uma das atividades que proporcionam o acesso direto às idéias, através de sua contemplação o sujeito atemporal, sem dor e sem Vontade, se livra do sofrimento por instantes enquanto experimenta o conhecimento intuitivo das idéias.

 

A natureza também, através de seus fenômenos e beleza, proporciona o conhecimento das idéias e a transformação do sujeito em sujeito puro de conhecimento, onde se livra do sentimento egoísta provocado pelo princípio de individuação, usando os termos do autor, e se torna “Um” com o mundo, se livrando do sofrimento provocado pela Vontade e seus interesses.

 

Quando a representação está submetida ao princípio de razão, ela está sob o domínio da Vontade.

 

O acesso ao seu conhecimento já na se dá de maneira direta como no caso das idéias, agora, trata-se de objetivações mediatas da Vontade, fenômenos ou objetos que se manifestam no tempo e no espaço.

 

O sujeito de conhecimento já não é mais puro, e se relaciona com os objetos através do princípio de razão.

 

O conhecimento da Vontade já não é tão claro como no caso das idéias, Schopenhauer atribui essa falta de nitidez da vontade ao “véu de maia”, expressão extraída de suas leituras da literatura hindu que marcou profundamente sua filosofia.

 

Em sânscrito, língua dos textos sagrados hindus, maia ou maya tem vários significados, entre eles ilusão.

 

Essa Vontade, como essência de toda realidade, traz sofrimento e dor por nunca se satisfazer, ou não consegue o que quer ou não tem o que querer, Daí as palavras do filósofo: “A vida é um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio”.

 

A redenção do homem estaria em livrar-se totalmente do julgo da Vontade, não por apenas alguns instantes como na contemplação de uma obra de arte ou de um fenômeno da natureza. Através do ideal ascético, como na vida dos Santos, ou do Nirvana como pregam as religiões hindu e Budista, o homem consegue finalmente se livrar do domínio da Vontade.

 

Para o filósofo a felicidade só existe negativamente, ou seja, na ausência do sofrimento e da dor, não como algo que exista por si mesmo, por isso sua filosofia é considerada pessimista.

 

A contribuição dita original, de sua filosofia foi a inversão do valor da razão, ela não é mais quem governa soberana as nossas ações. Ao contrário, a maioria de nossas ações estão submetidas a algo irracional e inconsciente que é a Vontade. Nela a preservação da espécie está acima do indivíduo, como não conseguimos nos livrar do princípio de individuação, os interesses dessa Vontade irracional vive em eterno conflito com os interesses do indivíduo provocando dor e sofrimento.

 

Mesmo a razão, que se apresenta como poder absoluto em algumas concepções filosóficas, para Schopenhauer, também ela é mais um instrumento a serviço da Vontade.

 

A existência de um sujeito transcendental, com suas formas de intuição apriorísticas (espaço e tempo) e com as quatro raízes do princípio de razão dadas também a priori, faz parte da herança Kantiana em Schopenhauer, e se refere àquilo que, na sua filosofia, explica as formas básicas da representação submetida ao princípio de razão. Mas, por outro lado, a posteriori, toda a capacidade de representação do sujeito do conhecimento, aí incluída a sua razão é, para Schopenhauer, resultado da atividade cerebral, da atividade fisiológica do corpo – no limite da Vontade. Todo organismo é um fenômeno da Vontade: como só há representação se houver corpo, só há representação porque há Vontade. Uma vez que a razão é representação, é uma das faculdades do intelecto do sujeito, ela está subordinada à Vontade, o prius do intelecto”.(Eduardo Brandão)

 

Ao se suspender o princípio de razão, o sujeito se despoja por alguns instantes de sua personalidade, capacidade que o gênio exerce propositalmente, se tornando sujeito puro de conhecimento, com apreensão límpida do mundo.

 

Quando o gênio se torna sujeito puro de conhecimento, não se vale nem do corpo, nem da razão: ele é sem-vontade. Daí se conclui que o conhecimento que serve ao interesses da Vontade é aquele que se conduz pelo princípio de razão.

 

Schopenhauer enraíza a consciência no corpo e ambos em algo que não é consciente, isso no meio do século XIX, antecipando um debate que irá ser fundamental para o século XX.

 

Em sua metafísica da Vontade, Schopenhauer se propõe a explicar o mundo a partir do mundo mesmo, sem recorrer a algo transcendente, fora do mundo, como fizeram as religiões e a metafísica clássica.

 

O saber filosófico não pode nada dizer sobre o que não está no mundo, como diz o próprio autor, trata-se de “desvendar o enigma do mundo dentro do próprio mundo e não fora dele”.

 

Para o filósofo não basta o sujeito puro do conhecimento para se exercer a filosofia, já que o “filósofo não é mera cabeça alada, sem corpo”. Sendo o corpo a objetivação imediata da vontade, os atos da vontade e os atos do corpo são os mesmos.

 

O “eu quero” toma o lugar do “eu penso” cartesiano, abrindo espaço para a possibilidade de um ‘impensado “, como diz Focault”.

 

O querer é sempre o mesmo, o que distingue entre si as consciências é a maior ou menor extensão do intelecto.

 

O querer é comum ao homem, aos animais, vegetais e a tudo que existe, a diferença é intelectual. No homem a capacidade de representação atinge seu maior vigor, sendo capaz de representações intuitivas e também abstratas, mesmo estando sujeito à força das paixões.

 

A mente humana se ocupa o tempo inteiro com pensamentos, e o intelecto pode até por vezes se tornar dominante, como acontece com alguns tipos de genialidade, porém a maior parte do tempo estamos sob a primazia da Vontade, inconsciente e sem-razão.

 

O pensamento de Schopenhauer influenciou muitos filósofos e foi responsável pela introdução de Nietzsche na filosofia que confessou o interesse por filosofia a partir da leitura de sua obra: O mundo como vontade e representação.

 

Nietzsche concorda com Schopenhauer quando entende que a sensibilidade apenas apreende uma sensação: é pela aplicação do entendimento e das formas da intuição do espaço e do tempo que nosso intelecto converte essa mera sensação em representação que nos aparece como objeto (Schopenhauer, Crítica da filosofia Kantiana).

 

Concorda também na crítica à religião, que Schopenhauer chama de “metafísica do povo”, e para Nietzsche não só a religião, mas também a filosofia é responsável pelo incremento do tipo de homem inferior, e chama a moral cristã de platonismo para o povo.

 

Uma das tarefas mais expressivas que Nietzsche toma para si, enquanto leitor de Schopenhauer, está em destituir a consciência do estatuto de instância reveladora, e a valorização do mundo em detrimento de uma realidade transcendente.

 

Porém, Nietzsche, depois rompe com Schopenhauer para quem a salvação do homem está no ideal ascético, como na vida dos santos, ou no nirvana das religiões hindu e Budista. Nietzsche afirma que o sacerdote e o filósofo são tipos psicológicos que negam a vida e enfraquecem o homem.

 

O homem livre para Nietzsche é o guerreiro, e a liberdade é a constante luta para conquistá-la, não um ideal a ser atingido objetivamente.

 

Discorda também, quanto ao estatuto da lógica e da linguagem, divergência que o presente trabalho não se propõe a elucidar, porém a título de mera ilustração podemos dizer que para Nietzsche a gramática precede a lógica, enquanto que em Schopenhauer ocorre exatamente o oposto.

 

O homem forte aceita o caráter de luta inerente à vida, uma luta de impulsos.

 

O além-homem é um tipo superior exemplar, o avesso de um decadente, para Nietzsche.

 

Ele afirma a vida sem negá-la, cria valores próprios, consegue evitar as teias da razão, linguagem e metafísica.

 

Assim como o tipo psicológico do sacerdote remete ao redentor, o tipo Zaratrusta remete a Dionísio: Zaratrusta é o próprio dizer sim dionisíaco.

 

O que o tipo sacerdote faz com suas doutrinas religiosas, a negação deste mundo, desta vida, em nome de um além, de um “nada”, o tipo filosófico faz com suas teorias e doutrinas.

 

Quando a filosofia cria ficções como o sujeito, objeto, conhecimento em si, chega por suas vias ao mesmo resultado de um sacerdote que renega o corpo, o sensível, e os decreta como ‘erros’ ou ilusões. Como o sacerdote decide o que é do que não é verdadeiro, o filósofo busca tal resultado através de conceitos.

 

Assim, Nietzsche ataca não só os filósofos defensores de uma razão ascética, como Kant e Hegel, como também Schopenhauer que constrói sua filosofia contra essa posição, e é também criticado pelo seu sujeito puro de conhecimento que Nietzsche identifica como mais uma variante do tipo filosófico, ou seja, negador da vida e que por conseqüência enfraquece o homem.

 

 

 

 

Sobre a Filosofia Universitária - Arthur Schopenhauer

 

 

 

 

Introdução

 

 

 

 

 

A obra de Arthur Schopenhauer, a ser trabalhada neste mini-curso, intitulada Sobre a Filosofia Universitária foi escrita em Parerga e Paraliponema ( acessórios ou trabalhos menores), que constitui uma espécie de coletânea de artigos filosóficos com diferentes temas em áreas diversas, aos quais somam-se ao texto aqui tratado obras como: Aforismos para sabedoria da vida, Sobre as mulheres, entre outros.

 

 

 

Antes da publicação de Sobre a Filosofia Universitária, em 1819, foi publicada a principal obra do autor O mundo como Vontade e Representação.No entanto foi um tremendo fiasco, pois no ano seguinte só era contabilizada a venda de cem exemplares, tendo recebido uma crítica não favorável a sua obra.

 

 

Este texto foi escrito após o fracasso de Schopenhauer como professor na Universidade de Berlim, que aumentou sua rivalidade com Hegel, já que Schopenhauer escolheu ministrar seu curso “A Filosofia Inteira” ou “Ensino do Mundo e do Espírito Humano” no mesmo dia e horário em que Hegel ministrava o dele. Assim Schopenhauer sofreu um fracasso total diante de seu rival, pois somente quatro alunos se inscreveram no curso de do Professor Schopenhauer.

 

 

Em 1844 o filósofo publica a segunda edição de O Mundo como Vontade e Representação, contendo um volume extra de complementos. Mesmo assim o sucesso como filósofo se manteve longe de Schopenhauer, chegando até ele somente com a publicação de Parerga e Paraliponemas. Como já foi citada, esta é a coletânea de artigos filosóficos na qual se encontra a obra em questão: Sobre a Filosofia Universitária.

 

 

 

 

 

 

A obra: Sobre a Filosofia Universitária

 

 

 

 

 

A obra trata-se de um verdadeiro desabafo ultra-crítico de Arthur Schopenhauer, à estrutura do ensino universitário de filosofia, ao Estado manipulador que instrumentalizava a filosofia por meio dos vendidos filósofos, que se tornaram meramente medíocres professores da mesma, os quais dogmatizavam de maneira ordinária ao ensinar filosofia como uma doutrina do absoluto estatal.

 

 

Influenciado por suas leituras sistemáticas, ainda na juventude, da filosofia platônica, o filósofo do sofrimento estrutura de maneira clara e direta sua conceituação distinta entre o professor de filosofia e o verdadeiro filósofo. “O descrédito que atualmente se abate sobre a filosofia se prende ao fato de se ligarem a ela pessoas indignas, pois não deveriam dela se ocupar os talentos bastardos, mas os legítimos.”1

 

 

O que interessa a Schopenhauer no seu ensaio é o estatuto da filosofia. Ele tenta mostrar aspectos da filosofia universitária para delinear o que é para ele, a filosofia verdadeira. O que está em questão na obra é o papel do filósofo. O saber filosófico é um saber específico, diferente dos demais saberes; das ciências, da arte, e acima de tudo, da teologia.

 

Schopenhauer reflete neste ensaio, qual o papel do filósofo e que lugar este ocupa no presente? O texto faz com a filosofia interrogue a si mesma, problematize as questões do presente. Para Schopenhauer, é a incompletude do discurso filosófico que o diferencia das ciências empíricas e da matemática, pois a filosofia não é um saber pronto e acabado. À diferença das demais ciências, como o direito e a teologia, que podem ser ensinadas mais facilmente, a filosofia, por não ser um saber constituído, tem uma dificuldade da sua transmissão como conhecimento. Deve-se ter a constituição de um pensamento próprio e genuíno. Daí a importância do verdadeiro pensador, pois este estimula o pensar. O verdadeiro filósofo é altruísta, pensa por si para iluminar os demais.

 

 

Nosso autor, saúda a iniciativa de ensinar-se filosofia nas universidades, pois ela, a filosofia, seria mais beneficiada e por que afinal de contas é sempre ela quem deve ser exaltada. Assim ela ganharia uma forte presença pública a atrairia mais mentes jovens que a partir de seu ensino iriam se familiarizar e despertar suas mentes para seu estudo e aprofundamento.

 

 

No entanto, Schopenhauer ressalta que qualquer alma afim a filosofia a encontraria independente de seu ensino universitário, pois “almas afins já de longe se saúdam”2. E desta forma incentiva a leitura e ensino de textos filosóficos já no ensino alemão (ginásio) que se equivale ao nosso atual ensino médio, citando Platão como um bom fomentador deste encontro da filosofia e seus afins.

 

 

 

Porém, o que mais chama a atenção e indigna a Schopenhauer é a manipulação do governo ao inserir e incentivar o ensino de filosofia universitária, já que o governo jamais permitiria (principalmente neste necessário contexto estatal alemão) que se ensinasse a pensar ou mesmo se pensasse diferente do que ele deseja para a manipulação das mentes.

 

 

Toda esta reflexão é feita por Schopenhauer a partir de sua experiência do sofrimento humano e de sua experiência acadêmica após a morte de seu pai. Quando empolgado e iludido pelos estudos acadêmicos, após acompanhar cursos dos filósofos Ficht e Schleiermacher em Berlim, frustra-se profundamente com o assim chamado por ele “palavrório vazio e carola” da filosofia universitária alemã. Onde o que é presenciado e vivido por Schopenhauer, é a famigerada dogmatização filosófica empregada no seu ensino universitário.

 

 

Assim, Schopenhauer trata de em seu eloqüente discurso atacar esta estrutura que desvirtuaria e colocaria a filosofia em uma posição indigna. No texto o filósofo ataca veementemente todos os este usurpadores que abrindo mão do ser filósofos, se prostituem como professores de filosofia para ensinar o absoluto metafísico inexistente da concepção filosófica de Schopenhauer , enumerando suas afiadas críticas um a um.

 

 

Como em sua célebre obra, em que defende o verdadeiro em si que é a vontade, a grande causa de todo sofrimento humano sem fim, Schopenhauer trás a tona a única possibilidade de libertação, que é seu ideal ascético, construído a partir da influência budista que teve em sua juventude na viagem com seus pais. Em Sobre a Filosofia Universitária, a crítica passa pelo mesmo prisma, já que não há nada de asceta no professor de filosofia, quanto mais em um professor de filosofia que ensina uma filosofia dogmática recebendo dinheiro corrompido do estado para sustentar esposas e filhos. O filósofo do sofrimento repudia isto impetuosamente. Porque o verdadeiro filósofo jamais será professor de filosofia, pois pertencem a naturezas e realidades diferentes.

 

 

Como muita ironia e sarcasmo, Schopenhauer, ataca todo idealismo alemão tendo como alvo central toda estrutura da filosofia hegeliana, assim como a pessoa do próprio Hegel. Com todas as trombetas e exaltações a filosofia hegeliana era aclamada com ovações e dinheiro.

 

 

De maneira incessante, Schopenhauer questiona e argumenta contra a questão da entrega ascética necessária ao filósofo em contra partida da anexação a vida acadêmica como professor de filosofia, pois como seria possível que alguém que tenta tirar subsídios para sustentar sua família com o ensino de filosofia possa de fato se entregar a exigente e perigosa verdade? A verdade não é companheira familiar, e nunca foi. A verdade é a busca solitária e ascética, e ela vem totalmente despida porque não tem nada para dar e deseja ser buscada por si mesma. Em um trecho diz Schopenhauer: “Pois se pode acontecer de um sacerdote da verdade se tornar um apologeta do engano, que ensina com zelo o que nem ele mesmo acredita, e que com isso põe a perder o tempo e a cabeça da juventude crédula. Ele também se presta, com a denegação de toda consciência literária, a preconizador de embusteiros influentes, por exemplo, de devotos de cabeça oca; ou mesmo pode acontecer que ele, porque pago pelo Estado, se empenhe em fazer apoteose do estado, em fazer deste ponto culminante de todo esforço humano e de todas as coisas, e com isso não só transforme o auditório filosófico numa escola mais trivial filisteísmo, mas também chegue por fim, ta como Hegel, à doutrina escandalosa de que a destinação do homem se perfaz no Estado, quase do mesmo modo como a da abelha na colméia.”3

 

 

 

O filósofo não tem os mesmos interesses dos homens comuns. O seu esforço é dirigido para decifrar os enigmas do mundo, e não para tê-los à sua maneira e moldá-los com os interesses próprios. A diferencia do filisteu, o professor de filosofia surge nesse impasse. Pois este, possui certa imediatez e está a serviço do Estado, que representa os interesses da maioria. O verdadeiro filósofo tem a única tarefa de revelar o significado moral do mundo. Por isso não pode estar submetido a nenhum outro interesse a não ser a busca da verdade. Para Schopenhauer  a atividade funcional compromete de forma abrangente a liberdade de pensamento. O Estado deve estar limitado a não perseguir os filósofos, garantindo dessa forma, a existência da filosofia. Mas quanto a se envolver diretamente com as atividades filosóficas, Schopenhauer diz que o Estado deve tomar distância da filosofia.

 

 

 

 

 

 

Considerações Finais

 

 

 

 

 

O texto trás em si uma reflexão importantíssima para o estudo e ensino da filosofia, pois nos coloca diante da questão do comprometimento filosófico da busca pelo conhecimento, nos fazendo repensar o ensino de filosofia em todos os níveis de ensino, desde o fundamental ao superior. Respeitando sempre a diversidade e a pluralidade de posturas adotadas por professores e alunos. Tentando sempre se abster de um dogmatismo filosófico, onde se imporia uma dita verdade filosófica como uma verdade universal absoluta infringindo as estruturas argumentativas e o constante exercício do livre pensar. Visto que tudo insto impregna toda a história da filosofia e por conseguinte a história do ensino.

 

 

Devemos fazer a leitura de Sobre a Filosofia Universitária, com olhar crítico para a nossa própria formação, apreendendo atmosfera pluralista sem que falácias sejam implantadas na sua forma absoluta ou relativa do discurso filosófico.

 

 

Pois, o professor de filosofia, sendo ele filósofo ou não, deve ser aquele quem estimulará e atraíra os jovens de todas as idades para a jornada da busca pelo conhecimento, e não aquele que entregará a verdade pronta e acabada de todas as coisas, a não ser que ao invés de filósofos ou professores de filosofia fossemos do campo do transcendente, em outras palavra o próprio absoluto.

 

 

 

Bibliografia:

 

 

 

 

SCHOPENHAUER, ARTHUR. Sobre a Filosofia Universitária.Tradução de Maria cacciola e Márcio Suzuki. 2° Edição, São Paulo: Martins Fontes, 2001.

 

 

SCHOPEMHAUER. ARTHUR. O Mundo como Vontade e Representação. Tradução de, Coleção Os Pensadores, Edição, São Paulo: Editora Abril, 1975.

 

 

 

 

 

1 Platão, República, VII, 535c.

 

2 Schopenhauer, A. , Sobre o Ensino de Filosofia Universitária. Tradução de Maria Cacciola e Márcio Suzuki. 2° Edição, SP: Martins Fontes, 2001, pagina 3.

 

3 Schopenhauer, A. , Sobre o Ensino de Filosofia Universitária. Tradução de Maria Cacciola e Márcio Suzuki. 2° Edição, SP: Martins Fontes, 2001, paginas 26-27.