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"O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos."

 

(Riobaldo, o jagunço filósofo: Grandes Sertões Veredas, pg. 8.)

 

 

 

Falar do interesse de Heidegger pela educação significa pôr em pauta um trabalho de preparação para o acolhimento das questões que dizem respeito ao Ser e de caminhos que levem ao pensamento do Ser. Enfim, devemos estabelecer o modo como o ser do homem compreende e atua no real, “instrumentalizando-o” para superar a ignorância estrutural de quem e o que ele realmente é, já que no mais das vezes o homem tem sua atenção voltada para o que lhe é externo1.

 

Sabemos que a obra de Heidegger é muito extensa; por esse motivo, é preciso aqui situar essa relação com a educação no âmbito de um texto intitulado pela questão: O que quer dizer pensar?2, de 1956, sem perder de vista um curso denominado “Was heisst Denken?,O que significa Pensar3?”ocorrido no período letivo de 1951-52.

 

O início do texto O que quer dizer pensar? já nos traz de pronto a provocação que nos convoca ao movimento sincero e grave de questionar, a saber: “O que quer dizer pensar é algo que se nos revela quando nós mesmos pensamos.” E completa: Para que tal tentativa seja bem sucedida é preciso que nos disponhamos a aprender a pensar.”

 

Ressaltam-se aqui dois aspectos: (1o) Pensar não é algo garantido ao homem ainda que ele seja o ser vivo racional, mas é antes algo a ser atingido; (2o ) Até que ponto somos nós que pensamos quando pensamos?

 

Cabe-nos então perguntar Por que o pensar não nos é garantido? seguindo a linha do pensamento de Heidegger.

 

O homem tem em si a possibilidade de pensar, embora ela não lhe seja garantida. Mas o que significa ter a possibilidade para o filósofo? Sabemos, desde Ser e Tempo, que a possibilidade para Heidegger não tem nada a ver com aquela possibilidade lógica desvinculada do mundo, onde se destaca um conjunto de itens dos quais um deve ser escolhido como que aleatoriamente para sua efetuação existencial. Como se o ser humano pudesse instanciar qualquer predicado estático em qualquer momento! Para Heidegger, ao contrário, a possibilidade está vinculada à disposição essencial do homem, i.e., a sua afetividade, entendendo-a enquanto uma dimensão estrutural do ser-no-mundo. Assim, ela implica algo que nos libera daquela dicotomia em que o indivíduo é tido como à parte do mundo para uma dimensão onde o indivíduo só pode ser pensado no mundo.

 

Desta sorte, o que antes só poderia ser vislumbrado segundo uma concepção que separa de antemão pensamento, afeto e linguagem, com Heidegger passa-se a vislumbrar uma compreensão primária que já é sempre afinada pelo e com o ser-no-mundo antes de qualquer enunciação de juízos ou sentenças através das disposições afetivas. Assim, as disposições tem o poder de dar a ver ou entrever elementarmente o mundo segundo uma visão integral.

 

Pensar é, pois, segundo essa visão integrada, permitir que algo segundo o seu próprio modo de ser venha para junto de nós, aquiescendo insistentemente tal permissão. Pensar torna-se um esforço singular, na medida que requisita do homem deixar-se conduzir por sua própria disposição em correspondência à abertura do ser. Com isso, o pensar deixa de ser apenas uma qualidade ou propriedade exclusiva do homem. É preciso ter em conta que há uma co-pertença fundamental entre ser e homem4, de modo que, por um lado a verdade é compreendida como verdade do ser a iluminar aquele ente e, por outro, enquanto interrogante assumir do ente a verdade (clareira na abertura do Dasein) se abre para o mesmo.

 

Nesse aspecto, o homem não é um mero instrumento inconsciente do ser, mas é o efetuador daquele poder de levar a algum lugar algo que no ser tem começo. É pelo pensar, portanto, que a relação do ser com a essência do homem é levada à sua plenitude.

 

O homem tem a capacidade de pensar somente aquilo por que nutre afeição, aquilo que desperta em seu ser o cuidado, a atenção de modo concentrar em si esse pensamento, o que podemos designar por lembrança. Assim, a lembrança é a concentração do pensamento que insistimos em trazer em nossa proximidade por ser ele uma espécie de tendência do nosso próprio modo de ser.

 

Só podemos pensar se estabelecemos uma relação afetiva com o que cabe pensar cuidadosamente; portanto, só aprendemos a pensar à medida que detemos nossa atenção a isso que cabe pensar cuidadosamente. É importante por em destaque que “deter a atenção” implica uma atividade de nossa parte. Pensar é atuação e não algo estático e reprodutivo. Neste ponto, Heidegger propõe um trocadilho bem legal para fazer essa crítica:

 

 

 

Assim, parece que falta ação e de modo algum pensamento...E no entanto...talvez, já desde séculos, o homem vem agindo demais e pensando de menos.” (O que quer dizer pensar, p. 112)

 

 

 

Com esse trocadilho, Heidegger nos propõe pensar a atividade. Até que ponto agimos sem pensar? Ou até que ponto pensamos demais e agimos de menos? Pensamos de menos já desde séculos porque reduzimos o Pensar à Lógica, à representação de estados de coisas que tornamos decomponíveis em uma cadeia de proposições. Pensamos de menos porque esquecemos o Pensar genuíno, trocando-o por esse Pensar historicamente datado; e agimos demais porque todas as nossas ações, desde séculos, são determinadas por esse modo de pensar. Pensamos demais e agimos de menos, na medida que o pensar deixa de ser ativo, na medida que nos enredamos nas interpretações técnicas e no trato historiográfico com a tradição e nos iludimos que pensamos “porque ora, afinal, filosofamos”.

 

Assim, o que fica realçado é que o que cabe pensar cuidadosamente em nosso tempo revela-se no fato de que ainda não pensamos. O fato de que nós ainda não pensamos, deriva de que, aquilo que dá o que pensar, se desvia, ele mesmo, do homem. Então nos perguntamos: como e quando tal desvio acontece. Parece que, o que dá a pensar, se desvia do homem e não que o homem não se envia o suficiente para isso que, desde si, gostaria de ser pensado. Mas o que se devia é porque de algum modo já se enviou, o que significa que de uma maneira estranha o a-se- pensar permanece sob a guarda do pensamento. Assim, é preciso resistir e esperar o momento apropriado para saltar dentro do pensamento.

 

Vale lembrar que o ser pode revelar-se ao homem como algo que retrai, que se devia, o que não significa algo negativo. Para Heidegger a retração estabelece também uma relação essencial com o homem, uma relação enigmática. O enigma é proposto pela poesia de Höderlin:

 

 

 

Somos um sinal sem sentido

 

Sem nenhuma dor somos e, no estranho,

 

Quase perdemos a linguagem.”5

 

 

 

 

 

É na retração que algo que já sempre esteve próximo se esconde, mas nesse esconder-se já propiciou esse encontro do fugídio. Esse encontro desperta em nós uma atração, tanto mais na medida que se retrai. Nesse encontro com o que foge, o homem sente a necessidade de perseguir isso que foge, constituindo isso a própria essência do homem. Pois o homem está sempre acenando para o pensamento que deve ser pensado, embora o sentido lhe escape na retração e ele se mantenha só nessa atração enigmática.

 

Nos rascunhos desse hino, Heidegger encontra possíveis títulos, entre os quais, Mnemosyne. Uma vez encontrado o termo grego para Memória, que diz muito sobre o assunto tratado, o filósofo caminha na direção de buscar o originário. E endossado por Kant – que faz uso da palavra conhecimento (Die/ Das Erkentnnnis) ora pelo artigo feminino, ora pelo neutro – aproxima a palavra memória (Gedächtnis) do alemão ao utilizar o artigo femnino em detrimento do grego. Com isso Heidegger pretende evocar o princípio, o mito, para evocar a relação entre Pensamento e Memória.

 

Mnemosyne é mãe de jogo, dança, canto e dança. Isso significa que ela evoca algo mas que uma simples capacidade de conservar o passado na representação. A palavra alemã compõe-se do prefixo Ge (concentração/ reunião) e dächtnis ( particípio de pensar). Assim, a Memória deve concentrar o pensamento que cabe ser pensado. E o mito fala da verdade originária que a memória deve evocar. E exatamente nesse ponto que poesia e pensamento dizem o mesmo: na medida que o pensamento é profundo e a poesia elevada. Mas se eles se aproximam pelo foco originário, por outro lado se separam pela diferença de expressão: cada qual fala o mesmo na sua expressão diferenciada.

 

A seguir, Heidegger propõe outro verso do poeta:

 

Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo.”

 

Em outras palavras, quer nos levar a ver que: o amor fundamenta-se sobre o fato de que tenhamos pensado o pensamento mais profundo. Este “ter pensado” nasce provavelmente daquela memória em cujo pensar se funda também a poesia e com ela todas as artes. Repensemos: o que significa pensar? Por exemplo: o que significa nadar, não podemos aprender em um tratado, mas apenas nadando. É apenas na água que podemos conhecer o elemento no qual o nadador deve mover-se. Mas qual é o elemento no qual se move o pensamento?

 

Admitindo-se que a afirmação de que nós ainda não pensamos seja verdadeira, isto significa

 

que o nosso pensamento ainda não se move no seu elemento próprio, e isto porque, o que dá a pensar, se subtrai. O que de tal modo, se nega e se retrai, permanece portanto, não pensado ainda que se admita a feliz hipótese de que se possa ter um pressentimento claro do que se trata.

 

Assim, resta-nos apenas uma coisa: esperar que o que dá a pensar, volte-se para nós. Mas esperar significa aqui, esperar de olhos bem abertos, procurando, naquilo que já foi pensado, o caminho até o não pensado, que se esconde no já pensado. A questão é: onde e como devemos distinguir, em geral, aquilo que antes de mais nada, e sempre, se dá a pensar ao homem? Como pode isto que é o mais considerado, mostrar-se a nós? Já sabemos em qual elemento o pensar se move? O traço fundamental do pensamento tem sido até hoje o perceber. A faculdade relativa se chama razão. O que a razão percebe? Em que elemento se mantém a percepção de modo que, mediante o perceber, ocorra um pensamento? Perceber significa: notar alguma coisa presente, e notando pró-pô-la e assumi-la como presente. Este perceber pro-ponente é um re-presentar, no sentido simples, amplo e ao mesmo tempo essencial, onde nós deixamos pousar e erguer-se a coisa presente diante de nós, na sua posição própria. Daí o grande salto no escuro. O que o pensamento enquanto percepção percebe é o presente na sua presença! Daí é que o pensamento toma a medida que constitui a sua essência como percepção. O pensamento é assim, a apresentação do presente, que nos confia o presente na sua presença e deste modo, coloca-o diante de nós. O pensamento enquanto apresentação, conduz a coisa presente à sua relação conosco, estabelece-a em referência a nós. A apresentação é assim re-presentação. A palavra representação é o termo que veio mais tarde de modo corrente, para indicar aquilo que foi, o representar.

 

O caráter fundamental do pensar é o representar. No representar se desenvolve o perceber. O representar mesmo é re-apresentação. Mas porque o pensar reside no perceber? Porque o perceber se desenvolve no representar? E porque o representar é re-apresentação? Parece simples. O representar oculta-se em um fenômeno pouco aparente, o ser, que então aparece como presença. Ser significa presença. Presente é isto que dura, que se desenvolve chegando ao desvelamento e permanece. Em termo modernos, quando nós representamos os objetos na sua objetividade, nós já pensamos. Mas nós todavia, ainda não pensamos verdadeiramente. Aquilo que dá a pensar, permanece, retirado, oculto. Por isso o nosso pensamento não está ainda no seu próprio elemento. Nós ainda não pensamos autenticamente.

 

 

 

O problema no curso Was heisst Denken?, é o de encontrar caminhos para o pensamento num mundo instrumentalizado, ruidoso, desassossegado, sobretudo empobrecido por uma linguagem voltada para o que é útil e imediato. É justamente em meio a esse núcleo de preocupações que Heidegger fala mais diretamente sobre o ensinar e o aprender. Exponho aqui um trecho do que Heidegger diz sobre a realação entre ensinar e aprender e o papel do professor. É o que nesta oficina deve ser o material em meio ao qual devemos por ora permanecer:

 

 

 

Realmente. Ensinar é ainda mais difícil que aprender. Sabe-se bem disso, mas é raro que tal coisa seja levada em consideração. Por que motivo ensinar é mais difícil que aprender? Não porque aquele que ensina deva possuir um maior conjunto de conhecimentos e tê-los prontos a cada momento. Ensinar é mais difícil que aprender porque ensinar significa: convidar a aprender (lernen lassen).O autêntico professor não ajuda mesmo a aprender nada que não seja – o aprender (das Lernen). Por isso sua ação, até com freqüência, dá a impressão de que com ele não se aprende propriamente nada. É que, inadvertidamente, por “aprender” agora se entende apenas a aquisição de conhecimentos úteis. O professor está adiante dos aprendizes numa única coisa: tem ainda mais do que eles a aprender, a saber, o “convidar-a-aprender”. O professor tem que ser mais capaz de aprendizado que os aprendizes. O professor está muito menos seguro do seu assunto do que aqueles que estão aprendendo do deles. Por isso, na relação entre o professor e aqueles que estão aprendendo, quando verdadeira, não entra em jogo nem a autoridade do sabe-tudo (des Viel-Wissers) nem a influência autoritária daqueles que detêm cargos. Por isso permanece uma grande coisa tornar-se um professor, algo que é totalmente diferente de ser um docente famoso. Decorre, presumivelmente, dessa grande coisa e de sua grandeza que, hoje, quando tudo se mede pelo que é baixo e vem de baixo, por exemplo, do âmbito dos negócios, ninguém mais deseje tornar-se professor. É também presumível que essa aversão esteja relacionada àquele mais problemático, ao que dá a pensar. Temos que manter bem à vista a genuína relação entre professor e aprendizes, caso queiramos que, no decorrer deste curso, um aprendizado possa despertar.”6

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

 

 

BICCA, Luiz. O mesmo e os outros. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

 

FARIAS, Vitor 1987: Heidegger e o Nazismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

 

HEIDEGGER, M. Ensaios e Conferências. Petrópolis, Vozes, 2001.

 

___________. Que significa pensar?. Buenos Aires: Editorial Nova, 1964.

 

___________. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1997.

 

LIRA, Edgar (PUC/RJ). Heidegger e a Educação. Texto apresentado no Colóquio Filosofia e

 

Educaçãoem 25 de maio de 2007, às 16h30 no Auditório UGF Candelária.

 

 

 

1Bicca caminhando com Heidegger e Ortega para caracterizar a situação espiritual de nossa época, nos alerta para o fato de que o homem atual experimenta a vida como alienação de si mesmo: ele desempenha funções, deixa-se levar por interpretações convencionais e respostas prontas e pré-científicas da vida cotidiana.

 

2 Heidegger, M. Ensaios e Conferências. Petrópolis, Vozes, 2001.

 

3 Heidegger, M. Que significa pensar?. Buenos Aires: Editorial Nova, 1964.

 

4 Para Heidegger os aspectos passivo e ativo do ser do homem caracterizam sua estrutura fundamental de ser-no-mundo, que destaca a crítica à idéia de um indivíduo à parte enquanto auto-suficiência ontológica.

 

5 Tradução do Gilvan Fogel.

 

6 Enfase em negrito feita por mim.