Immanuel Kant (1724-1804)

Para Kant, filosofia é a ciência da relação de todo conhecimento e de todo uso da razão com o fim último da razão humana, fim ao qual, enquanto supremo, todos os outros fins se subordinam e no qual devem todos unificarem-se[1], ou seja um sistema de conhecimento racional a partir de conceitos. Kant se colocou três questões, às quais sua obra interia esforçou-se para responder: Que posso conhecer? Que devo fazer? Que me é permitido esperar? Para responder a primeira, Kant opera um exame crítico da razão, determinando o que ela pode fazer e o que não pode. Se a primeira crítica (Crítica da Razão Pura) versa sobre o problema do conhecimento, a segunda (Crítica da Razão Prática) dedica o estudo sobre o problema moral, respondendo a questão: Que devo fazer? E Kant responde sem resalvas: O dever é unicamente o dever. Ele designa a obrigação moral autônoma, a necessidade de realizar uma ação por respeito à lei universal, o imperativo que comanda sem condição “Age unicamente segundo a máxima que faz com que possas querer ao mesmo tempo que ela se torne uma lei universal”. E a terceira questão: O que devo esperar? Que diz respeito a esperança religiosa. Coloca que Deus, a imortalidade e a liberdade, longe de serem demonstráveis, de constituírem um objeto de raciocínio teórico, são postulados, hipóteses exigidas pela razão prática, isto é, que dizem respeito à ação moral, à regra a priori da moralidade.

Já a terceira (Crítica do Juízo) consagra-se ao estudo do belo (e também do vivente), que é analisado na sua relação com o sujeito humano que o experimenta e apreende.

Em todos os domínios, como se vê, Kant remete-nos à autonomia e à liberdade humanas. O homem, sujeito do conhecimento, é também agente moral autônomo e autor de um juízo de gosto desinteressado e universal.

 

Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831)

“A filosofia é o fundamento do racional, é a inteligência do presente e do real e não a construção de um além que não se sabe onde se encontraria”.  Para Hegel “é tarefa da filosofia conceber o que é, pois o que é, é a razão. No que diz respeito ao individuo, cada um é filho do seu tempo; do mesmo modo também, a filosofia resume seu tempo no pensamento”.[2]

Hegel destaca, na história e cultura humanas, a gênese progressiva do Absoluto, o que possui, em si mesmo, sua razão de ser. A Ideia Universal, forma superior do Espírito, representa, no fim do processo, o termo absoluto, em si e para si, que atingiu a transparência total. A filosofia deve englobar tudo o que é, compreender o real na sua totalidade, pensar a história e as coisas: “Apreender e compreender o que é, tal é a tarefa da filosofia”. A filosofia representa um Sistema, isto é, um conjunto organizado, cujos elementos são todos independentes, um conhecimento que forma uma unidade e engloba todos os elementos do pensamento e da vida. Esse empreendimento totalizante e sintético tem como conteúdo fundamental a Ideia, compreendida não como representação subjetiva, mas como princípio espiritual dinâmico, criação eterna, vida eterna, que rola, em suas ondas brilhantes, todas as coisas finitas determinadas. A Ideia substancia mesma do que é, forma-se, aprofunda-se e desenvolve-se em diferentes níveis. Hegel desenvolve uma lógica dialética, em que momento negativo e positivo, são as duas faces da dialética hegeliana. Para Hegel a filosofia estaria nas etapas finais do processo espiritual total, juntamente com a arte e a religião, onde o movimento do Espírito adquire uma transparência maior. Na filosofia, inteligência e pensamento do presente e do real, concepção e sistema do que é, apreensão conceitual do mundo em sua unidade. O Espírito despoja-se progressivamente de sua ganga sensível. Assim o Espírito Absoluto, liberto de suas particularidades, atinge uma perfeita igualdade consigo mesmo. Designa a Ideia que atingiu a transparência, o seu ser para-si e o saber de si, pela mediação final da Arte, Religião e Filosofia.

 

Martin Heidegger (1889-1976)

A filosofia de Heidegger está, com efeito, centrada na diferença entre o Ser e o ente. O Ser é a fonte “espiritual” fundamental de todas as coisas, o que as esclarece e ilumina de maneira enigmática. Ao contrário, os entes são as diversas realidades particulares.

Heidegger descreveu, em O Ser e o Tempo (1927), a condição do Dasein, este ente particular pelo qual o Ser tem o poder de estar-aí. O existente humano, lançado no mundo e abandonado a si mesmo (derrelição), é uma realidade, cuja natureza é ser essencialmente cuidado: o que significa que ele é lançado, sem cessar, adiante de si mesmo, que ele antecipa a si mesmo, que ele não coincide jamais com sua própria essência.

Eis uma maneira de ser e existir que poderia dar lugar à angústia. Ora, o que a “realidade humana” quer é precisamente escapar de si mesma, esquecer-se, dissimular seu verdadeiro ser. Essa dissimulação tem o nome de “Inautenticidade”. Ser inautêntico é precisamente ocultar-nos o que nós somos. E o que somos? Um “cuidado”, uma antecipação de nós mesmos na direção do futuro, um ser lançado no mundo para morrer nele. Assim o Dasein refugia-se no meio da “banalidade cotidiana”, universo fácil em que triunfa o “SE”, anonimato sem originalidade, dissolução pura e simples das individualidades. Nessa banalidade, ele escapa da angústia, disposição afetiva fundamental que nos coloca diante do nada e diante de nossa própria morte, concebida como forma mesma da vida humana, considerada na sua finitude.

Mas para além das atitudes inautênticas, é possível um retorno à interrogação sobre o Ser e o Espiritual? Esse retorno, Heidegger apresenta-o como único caminho em que o homem pode, novamente, desenvolver sua liberdade. Assim se esboça a autenticidade como possibilidade para a realidade humana de libertar-se das ilusões do “Se” e acender à personalidade verdadeira. É com relação ao Ser que devemos repensar-nos e repensar nossa situação no mundo.

 



[1][1] Lógica, Introdução III, Trad. Guido A. de Almeida - Rio de Janeiro – Tempo Brasileiro: 2003.

[2] Princípios da Filosofia do Direito, Prefácio. Tradução Orlando Vitorino – São Paulo – Martins Fontes: 2003.