A Filosofia tem um papel importante na formação da autonomia do pensar. Por ser uma volta que o pensamento se realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão para indagar como é possível o próprio pensamento. Assim, a Filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se encontra mergulhado.

É a filosofia que dá distanciamento para a avaliação dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam; reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade; retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la.

Sendo assim, é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de superar a situação dada e não escolhida. Pela transcendência o homem surge como ser de projeto, capaz de liberdade e de construir seu destino.

Dessa forma, o presente texto tem a finalidade de expor o pensamento de três grandes filósofos para a pergunta: O que é Filosofia?

 

Segundo Kant (1724-1804), a significação geral de filosofia é a atividade racional por conceitos:

 

A Filosofia é, pois, o sistema dos conhecimentos filosóficos ou dos conhecimentos racionais a partir de conceitos. Eis aí o conceito escolástico dessa ciência. Segundo o conceito do mundo, ela é a ciência dos fins últimos da razão humana. Este conceito altivo confere dignidade, isto é, um valor absoluto, à Filosofia. E, realmente, ela também é o único conhecimento que só tem valor intrínseco e aquilo que vem primeiro conferir valor a todos os demais conhecimentos. A gente termina sempre por perguntar: para que serve o filosofar e o fim último do mesmo – a própria filosofia considerada como ciência segundo o conceito da escola?

Nesse significado escolástico da palavra, a Filosofia visa apenas a habilidade; relativamente ao conceito do mundo, ao contrário, ela visa a utilidade. Do primeiro ponto de vista ela é, pois, uma doutrina da habilidade; do último, uma doutrina da sabedoria:- a legisladora da razão, e nesta medida o filósofo não é um artista da razão, mas um legislador (KANT, Lógica, pg. 41).

 

A filosofia é, portanto, a doutrina daquilo que devemos saber e daquilo que temos de concluir sobre o mundo (numa perspectiva teleológica); filosofia é sabedoria e é por meio desta que a lógica derrama sobre toda a filosofia kantiana sua marca, tornando-a unitária em seu espírito.

O que Kant quer nos dizer é que o filósofo não é aquele, como já me referi, que sabe articular conceitos habilmente de modo a montar um quebra-cabeça sem utilidade alguma para a vida mundana. Pelo contrário, o filósofo é aquele que legisla, colocando ou sugerindo fins para a humanidade, mostrando, com isso, numa análise um tanto quanto psicológica que este ser tem a pretensão de regular, de mandar, de estabelecer aquilo que é legítimo.

Assim, o filósofo tem de conhecer a história da filosofia com o intuito de adquirir cultura, devendo saber, impreterivelmente, de onde provém certa leva de conceitos que constituem seu quadro referencial teórico.

O verdadeiro filósofo, portanto, na qualidade de quem pensa por si mesmo, tem que fazer um uso livre e pessoal de sua razão, não um uso servilmente imitativo:

 

Não se pode aprender Filosofia já pela simples razão que ela ainda não está dada. E mesmo na suposição de que realmente existisse uma, ninguém que aprendesse poderia se dizer filósofo; pois o conhecimento que teria dela seria sempre um conhecimento tão somente histórico subjetivo […] Quem quer aprender a filosofar tem o direito de considerar todos os sistemas da filosofia tão somente como uma história do uso da razão e como objetos do exercício de seu talento filosófico. O verdadeiro filósofo, portanto, na qualidade de quem  pensa por si mesmo, tem que fazer um uso livre e pessoal de sua razão, não um uso servilmente imitativo (Kant, Lógica, pg 42).

 

 

 

Kant tem em mente a noção de limite em sua filosofia, demarcando o papel que é devido à filosofia e neste contexto vem a reboque o dever do filósofo, que também deve possuir em sua consciência a noção de limite em seu horizonte, mas um limite que não deva coagir o papel verdadeiro do filósofo que é o de legislador.

 

Só é possível aprender filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo-a seguir os seus princípios racionais universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando a razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os. (Kant, CRP, 866).

 

 

 

Passemos a Hegel (1770-1831), que se pronuncia sobre a pergunta proposta da seguinte forma:

 

 

“A filosofia é razão que se apreende na forma do pensamento, que se torna consciente de modo a objetivar-se, a conhecer-se na forma do pensamento”

 

            Ao afirmar que a razão é histórica, Hegel não está, de modo algum, dizendo que a razão é algo relativo            , que vale hoje e não vale amanhã, que serve aqui e não serve ali, que cada época não alcança verdades universais. Não. O que Hegel está dizendo é que a mudança, a transformação da razão e de seus conteúdos é obra racional da própria razão. A razão não é uma vítima do tempo, que lhe roubaria a verdade, a universalidade, a necessidade. A razão não está na História; ela é a História. A razão não está no tempo; ela é o tempo. Ela dá sentido ao tempo.

 

Hegel busca resgatar para o debate toda filosofia que o precede para demonstrar que a relação dos sistemas filosóficos do início para com os que vieram  mais tarde é em geral a mesma relação dos graus anteriores da idéia lógica para com os posteriores; e, na verdade, de modo que os posteriores contenham em si os anteriores como suprassumidos:

 

“Falar de numerosas filosofias significa dizer que são os graus necessários ao desenvolvimento da razão que se torna consciente dela  mesma, do Uno... Só há uma razão, não há uma segunda super – humana. A filosofia é a razão que se apreende na forma do pensamento, que se torna  consciente de modo a objetivar-se, a conhecer-se na forma de pensamento.” (Hegel, História da Filosofia, p.360)

 

 

Assim qualquer sistema filosófico tem que ser considerado como a exposição de um momento particular, ou de um grau particular no processo-de-desenvolvimento da Idéia.  

 

“Todo princípio do entendimento é uni lateral e esse caráter se revela em que outro princípio lhe é oposto. Ora, esse outro princípio também é unilateral. A totalidade, enquanto unidade que os une, não se encontra neles, não existe, inteiramente, senão no curso da evolução. Assim é que o epicurismo se opõe ao estoicismo, como a substância de Spinoza, como unidade absoluta, à unidade da mônada de Leibniz, à individualidade concreta. O Espírito que se desenvolve integra também o aspecto exclusivo de um princípio, fazendo aparecer o outro. A segunda forma, forma superior da negação, consiste em unir, em uma totalidade, as diversas filosofias, de tal sorte que nenhuma permaneça em sua independência, mas pareçam  todas ser as partes de uma só filosofia.”  

(Hegel, História da Filosofia, p.361)

 

É importante acrescentar, de acordo com o que foi exposto, que para a filosofia se manifestar, é necessário a consciência da liberdade. A liberdade política nasce somente onde o indivíduo por si se conhece como indivíduo, e sabe que é alguma coisa de universal e essencial; onde o indivíduo sabe que possui valor infinito, e onde o sujeito tenha alcançado a consciência da personalidade e quer por conseguinte valer por si mesmo. Portanto, o livre pensamento filosófico tem este nexo com a liberdade prática, que, como o pensamento filosófico se põe como pensamento do objeto absoluto, universal e substancial, assim a liberdade, enquanto se pensa, atribui-se a determinação da universalidade.

            Pensar em geral quer dizer dar a uma coisa forma de universalidade, pela qual o pensamento em primeiro lugar toma por objeto o universal, ou então determina o concreto, a singularidade das coisas naturais, que se encontram na consciência sensível, com o universal, como o pensamento objetivo; em segundo lugar, é necessário que, perante tudo quanto eu reconheço e compreendo como universalidade objetiva e infinita, eu mesmo, do ponto de vista da objetividade, lhe permaneça contraposto.

 

 

            Agora vamos ver o que Deleuze (1925-1995) tem a dizer sobre o tema proposto.

Em uma obra produzida em parceria, com o título: O que é a Filosofia?

 Deleuze e Félix Guattari vão definir a filosofia como uma atividade do pensamento que consiste em criar conceitos. Por tomar a filosofia como uma ação uma atividade. A filosofia é apresentada como um ato, ato de pensamento. Para o ensino e o aprendizado da filosofia, isto é determinante, pois para sermos fiéis a esse tipo de experiência de pensamento, não basta que ensinemos o seu produto, mas é essencial que façamos a própria experiência. Além de atribuírem à filosofia uma especificidade que só ela tem: a de produzir conceitos

O que Deleuze e Guattari denominam por conceito não é aquilo que comumente chamamos de conceito, na ciência, por exemplo. Em geral, tomamos conceito por noção, definição, representação mental. A definição é algo que resolve uma pergunta e com isso, paralisa o pensamento. Ou seja, penso, a partir de um problema que tento resolver, de uma pergunta para a qual busco resposta. Se encontro a resposta, cessa o movimento. A definição responde a pergunta. Para eles, a filosofia é um exercício de pensamento que não cessa, que não paralisa.

É um tipo de pensamento que se articula em torno do problemático, em torno de problemas que não se resolvem de forma direta, imediata e definitiva. O conceito para eles, não é uma definição.

Assim, a noção de conceito nada tem a ver com representação mental e definição. Para eles o conceito é, ao mesmo tempo, um ato do pensamento e um produto do pensamento. O conceito é uma forma de equacionar o problema, que motiva a experiência filosófica, sem no entanto, resolvê-lo ou eliminá-lo. A um só tempo, o conceito é resultado de uma experiência de pensamento e um motivador, um impulsionador de novas experiências de pensamento.

Portanto, Há três potências de criação no pensamento: a Arte; a Ciência; a Filosofia. Cada uma delas é uma forma distinta  de experimentar o pensamento e cada uma delas produz um resultado diferente para suas experiências. Aquilo que o cientista produz eles chamam de funções. O que é produzido pelo artista eles denominam perceptos e afectos. E chamam de conceitos aquilo que produz o filósofo.   

Em fim, a filosofia durante sua história nos mostrou que houve cortes em sua carne, que homens ousaram pensar e contrapor seus mestres, por meio de um fio condutor para suas obras, mesmo que esse fio tivesse de mudar de direção várias vezes.

Dessa forma, espero ter contribuído com este breve trabalho, tendo com finalidade mostra que a Filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se encontra mergulhado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

KANT, Immanuel. Lógica; tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 1992.

 

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura; tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

 

DALDOSCO, Claudio A. Kant e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.

 

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Introdução à História da Filosofia; tradução de Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

 

SILVA, André Gustavo Ferreira da. Hegel e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 201.

 

 

GALLO, Silvio. Deleuze e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.