1  A FILOSOFIA PARA GRAMSCI

 

Antonio Gramsci foi um filósofo e cientista político italiano, nascido em 1891, e que viveu até 1937. A filosofia de Gramsci está intimamente relacionada à sua trajetória política pessoal e, portanto, refere-se fundamentalmente à ética e à práxis do homem, visando uma conquista e um desenvolvimento intelectual e moral das massas.

Um representativo pressuposto de Gramsci foi a identificação da existência nítida de dois grupos sociais à época: os intelectuais, um estrato de pessoas especializadas na elaboração conceitual e filosófica, e os homens comuns, simples. Esta divisão, por muitas vezes, representava um verdadeiro obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento pleno da humanidade, ao constituir-se, principalmente, como uma manobra pela qual se mantinha a hegemonia de poder dos dominantes.

Gramsci mostrava uma influência marxista bastante clara e, inspirado por componentes deste pensamento, pode-se dizer que, de acordo com sua posição, fica claro que o homem comum da massa ou, em outras palavras, a classe operária, em geral, não exibe consciência nem da função que pode desempenhar, nem da sua condição real de subordinada. Segundo Gramsci, o proletariado é desprovido de uma noção teórica clara de sua forma de trabalhar, o que também se constitui como um conhecimento do mundo enquanto o transforma. Em suma, o homem simples trabalha de modo prático, mas, ao mesmo tempo, tem uma consciência teórica de trabalho e de vida herdada do passado, a qual ele acolhe de modo acrítico. Esta ignorância é tamanha que sua consciência teórica pode até entrar em conflito com sua própria forma de trabalhar.

Neste sentido, Gramsci defende que um possível rompimento dessa dicotomia entre os intelectuais e os simples se faz viável através de uma organização política que, justamente por não se conter com a ingenuidade filosófica e social destes homens simples, os conduza a uma concepção elevada de suas próprias vidas.

Para tanto, em conformidade com este atitude, é preciso lançar-se à práxis, isto é, à ação pautada dialeticamente na razão, ou seja, orientada pela teoria; ou melhor, é preciso prestar-se à filosofia da práxis, como forma de viabilizar um pensamento filosófico que atenda a estes objetivos. A ação política oriunda dessa sua filosofia da práxis contribui no sentido de elevar os subalternos, os comuns, os simples, a uma consciência superior da vida, objetivo de sua filosofia, na justa medida em que se opõe a instâncias de culturas dominantes, como observado pelo exercício da Igreja ou dos idealismos, em geral.

No entanto, tal prática exige um determinado grau de contato entre os intelectuais e os simples, contato este que, ao invés de servir como um elemento de pura manutenção do status quo, aprisionando os simples social e humanamente abaixo dos intelectuais, caminha no sentido de construir um bloco intelectual e moral que torne politicamente possível um efetivo progresso intelectual de massa. Por isso, essa tão estimada aquisição de autoconsciência crítica por parte dos homens de massa implica a criação de uma elite de intelectuais, pois, para distinguirem-se e fazerem-se independentes, o proletariado necessita de organização, ao passo que esta não existe sem intelectuais, justamente porque os intelectuais podem ser mediadores de cultura e de consenso para os grupos sociais.

Gramsci se dedicou a examinar minuciosamente o papel dos intelectuais na sociedade: todo homem é um intelectual, já que todos têm faculdades intelectuais e racionais, mas nem todos têm a função social de intelectuais. Ele propôs a ideia de que os intelectuais modernos não se contentariam mais de apenas produzir discursos, mas estariam engajados na organização das práticas sociais. Ainda quanto a esta questão, o cientista político distingue entre uma intelectualidade tradicional que, sem razões, se considera uma classe distinta da sociedade, e os grupos intelectuais que cada classe gera organicamente. Nessa tensão, o grupo social emergente, que labuta por conquistar a hegemonia política, almeja conquistar a própria ideologia intelectual tradicional, ao mesmo tempo em que forma seus próprios intelectuais orgânicos.

Considerando-se estas questões, Gramsci entende que uma classe politicamente emergente deve valer-se de intelectuais orgânicos para o reconhecimento de seus valores culturais, até poder impô-los à sociedade inteira.

A propósito, Gramsci é um declarado opositor do materialismo metafísico, na medida em que acreditava que somente a história humana e a práxis coletiva é que determinam se uma questão filosófica é relevante ou não. Isto equivale a dizer que a ideia de um universo objetivo fora da história e da práxis humanas era, a seu ver, infundada. Não poderia existir a objetividade, mas somente uma intersubjetividade universal, a ser construída numa sociedade futura. A história natural, portanto, só teria sentido em relação à história humana.

Isso justifica a aproximação conceitual entre Gramsci e o pensamento marxista, já que, para Gramsci, o Marxismo não lida com uma realidade que existe em si e por si, independente da humanidade. A compreensão da realidade como desenvolvimento da história humana somente é possível utilizando a dialética marxista, porque ela capta tanto o sentido tanto das vivências humanas como do seu carácter efémero, sua historicidade, determinada da práxis, da ação política, que transforma as sociedades.

Assim, a teoria marxista absorvida e retrabalhada por Gramsci compõe sua síntese filosófica, que declara que, já que por si mesmas as sociedades não se transformam, a via para a hegemonia do proletariado passa por uma reforma cultural e moral da sociedade. Em outras palavras, uma real e crítica compreensão de si mesmo, isto é, dos homens simples enquanto plenamente homens, se dá necessariamente através da luta de hegemonias políticas, de direções conflituosas, primeiro no campo da ética e, logo em seguida, da política, para então ser possível uma elaboração superior da própria concepção da vida e do real. Em suma, a consciência política se mostra como a primeira fase para uma ulterior e progressiva autoconsciência, em que teoria e prática finalmente se unem.

A filosofia de Gramsci, em resumo, se dirige à ação política revolucionária, a práxis, indicando a passagem do momento meramente econômico (ou egoísta-passional) ao ético-político. Isto equivale também à transição do objetivo para o subjetivo. A infraestrutura que, pela força exterior oprime o homem, tornando-o passivo, se transforma, assim, em meio de libertação, em instrumento para criar uma nova forma ético-política para a vida.

 

2  A FILOSOFIA PARA FOUCAULT

 

Foucault foi um filósofo contemporâneo, nascido em 1926, em Paris, na França, tendo morrido em 1984, em decorrência de complicações ocasionadas pela AIDS.

Sua filosofia é marcada por uma crítica às instituições sociais da época, especialmente à psiquiatria, à medicina e às prisões. Ao longo de sua produção, Foucault procurou, na grande maioria das suas obras, abordar problemas concretos, como a insanidade, por exemplo, então motivo de reclusão e de clínica psiquiátrica. Isso se justifica na medida em que, para Foucault, a parir dos séculos XVIII e XIX, a população torna-se um objeto de estudo e de gestão política.

Desta maneira, a indagação de Foucault se faz sobre uma experiência do viver, acerca de um exercício sobre o nosso presente, como uma espécie de teste de nossos limites. Tanto é assim que, em sua análise, a figura do paciente é entendida como a expressão da nossa impaciência pela liberdade. Isso reflete seu interesse pelo tema da relação entre o poder institucional e o individual, assim como já anuncia alguma ideia de subjetivação.

Uma primeira e notória dedicação de seus estudos se fez sobre a noção do poder. A questão do poder é amplamente discutida pelo filósofo, sendo que este termo não é tomado em seu sentido tradicional, inserido na esfera estatal ou institucional. Segundo Foucault, o conceito de poder está entranhado em todas as instâncias da vida e em qualquer indivíduo. Portanto, Foucault não acreditava que a dominação fosse originária de uma fonte única, mas se apresentasse na multiplicidade destas.

Tal inclinação era tão marcada que, Foucault, ainda mantendo em mente este propósito, em seus estudos de investigação histórica, tratou diretamente das escolas e das ideias pedagógicas na Idade Moderna e, por meio desta análise histórica inovadora, o filósofo francês viu na educação moderna atitudes de vigilância e adestramento do corpo e da mente. Para Foucault, a escola é uma das instituições de sequestro, na mesma medida que o hospital, o quartel ou a prisão. De acordo com sua concepção, com o advento da Idade Moderna, tais instituições deixam de ser lugares de suplício, como castigos corporais, para se tornarem locais de criação de corpos dóceis. Isso porque a docilização do corpo tem uma vantagem social e política sobre o suplício, visto que este enfraquece ou destrói os recursos vitais, ao passo que a docilização torna os corpos produtivos.

Entretanto, sua filosofia considera o poder como algo não só repressor, mas também criador de verdades e de saberes, onipresente no sujeito.

Outras de suas ideias foram desferidas quanto à sexualidade, à complexa relação entre poder e conhecimento, à expressão do discurso na história e ainda quanto à ideia de subjetivação. Seus estudos sobre o saber, o poder e o sujeito, por sua vez, inovaram o campo reflexivo sobre estas questões. Tudo que se concebia sobre estes temas em termos modernos é transgredido pelo pensamento foucaultiano, o que fez com que muitas das concepções de Foucault, como estas, acerca do saber, do poder e do sujeito, se firmassem como verdadeiras revoluções para as histórias destas noções. Tal rompimento com as concepções modernas destes termos se constituiu como uma das razões pelas quais Foucault é tido, por certos comentadores, como um pós-moderno, o que contraria sua própria opinião acerca de sua própria filiação filosófica.

Uma característica do pensamento foucaultiano está em que este abole a maneira tradicional de se analisar as questões filosóficas. Ao invés desta, Foucault procura realizar suas análises de forma indutiva, afastando categorias superiores e abstratas como objetos de investigação, tal como questões do que é o poder, o que o origina e tantos outros elementos teóricos, e passa a utilizar, para tanto, elementos mais periféricos do sistema total. Portanto, a análise das relações de poder, por exemplo, mas como de qualquer outra questão, não deve ficar centrada no estudo dos seus mecanismos gerais e de seus efeitos constantes, mas, antes, deve se dar pelos elementos periféricos dos sistemas. Segundo Foucault, deve-se estudar onde estão as práticas reais e efetivas. Em outras palavras, sua filosofia se interessa pela pesquisa de locais onde a lei é realmente efetivada, como hospitais psiquiátricos, forças policiais, etc., no intuito de compreender as forças reais em ação, presentes nessas circunstâncias.

Sendo assim, em vez de se prestar a estabelecer definições e análises de categorias filosóficas tradicionais, Foucault centra-se na própria vida e nos diferentes processos de subjetivação envolvidos com esta. Isto equivale a dizer que, longe de buscar responder ou discutir questões filosóficas tradicionais, Foucault desenvolveu critérios de questionamento e de crítica ao modo como estas são encaradas.

Uma enorme consequência desse modo procedimento filosófico está em mostrar que categorias como razão, método científico e até mesmo a noção de homem não são eternas, mas vinculadas a sistemas circunscritos historicamente. Para Foucault, então, não há universalidade nem unidade nessas categorias, e também não existe uma evolução histórica linear destas.

Em suma, Foucault entende que a concepção do homem como objeto de estudo foi necessária na emergência e manutenção da Idade Moderna, porque dá às instituições a possibilidade de modificar o corpo e a mente. O filósofo reconhece que, ao mesmo tempo em que esta nova época consolidou um grande número de instituições de assistência e proteção aos cidadãos, tais como a família, os hospitais, as prisões e as escolas, nossa idade contemporânea também inseriu em tais instâncias mecanismos que os controlam e os mantêm na disciplina, pela iminência da punição.

Numa palavra, a grande contribuição de sua filosofia está em elaborar, a partir desse pensamento, como é possível agir produtivamente contra aquilo que não queremos ser e ensaiar novas maneiras de organizar o mundo em que vivemos.

 

3  A FILOSOFIA PARA DELEUZE

 

Gilles Deleuze foi um influente filósofo francês, nascido em 1925, e que viveu até 1995, quando, pela impossibilidade de respirar sem a ajuda de aparelhos e com os pulmões funcionando com apenas 1/3 de capacidade, cometeu suicídio ao atirar-se da janela de seu apartamento.

 Segundo a concepção de filosofia de Deleuze, o homem tem como trabalho fundamental pensar e produzir novas formas de vida, inventar maneiras inéditas de se viver. Assim, com este objetivo filosófico ainda em vista, para Deleuze, o ofício do filósofo é inventar conceitos, sendo a filosofia a própria criação destes.

 Os conceitos são, nesta concepção, uma espécie de ferramenta com a qual se opera o mundo e se procede na vida, no intuito de erguer a beleza, o prazer e a potência do viver.

Toda esta maneira de se conceber a filosofia está contida em sua obra O que é a filosofia? (1991), em que, junto com Félix Guatarri, se dedica precisamente a esta questão já anunciada no título.

As principais influências filosóficas de Gilles Deleuze foram, principalmente, Nietzsche, Bergson, Spinoza, dentre outros. Por sua vez, sua obra filosófica se dedicou, de um lado, a estudar diversos pensadores e artistas, através de monografias pelas quais interpretou filósofos modernos, como Spinoza, Leibniz, Hume, Kant, Nietzsche, Bergson, Foucault, etc., e obras de artistas, como Proust, Kafka, Francis Bacon, etc.; de outro lado, sua produção se deu acerca de temas filosóficos diversos, sempre visando a produção de conceitos.

 A ideia de filosofia para Deleuze é tão complexa e sutil que, muitas das vezes, o autor lança mão de elementos do cinema para compor sua concepção, embora o cinema não tenha sido verdadeiramente um de seus objetos de investigação filosófica. Os conceitos sintetizados a partir do campo do cinema pela filosofia deleuziana são a imagem-movimento e a imagem-tempo, com a ajuda dos quais Deleuze montou parte importante de sua ideia de filosofia.

Em suma, Deleuze foi um dos filósofos que se dedicou à investigação dos problemas do atual e do virtual, questão já anunciada por pensadores anteriores, construindo um olhar sobre o mundo a partir das possibilidades. Este é o sucesso da filosofia de Deleuze: o conceito de verdade concreta ou material substitui-se pelo de viabilidade da potência do virtual.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

DELEUZE, G; GUATTARI, F. O que é a Filosofia? 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1993.

 

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

 

_________ . Microfísica do Poder. Organização e Introdução de Roberto Machado. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

 

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução Carlos

Nelson Coutinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1979. (Coleção

 

Perspectivas do Homem. Série Filosofia, v. 48. Direção de Moacyr Felix.)