Theodor Adorno nasceu em 1903, em Frankfurt. Foi um dos principais pensadores da chamada Escola de Frankfurt. Em 1933, com a tomada do poder pelos nazistas, Adorno se refugia na Inglaterra e depois em 1938 transfere-se para os Estados Unidos, onde escreve “Dialética do Esclarecimento” (1947) juntamente com Horkheimer.

 

A obra “Dialética do Esclarecimento” é um dos livros mais importantes tanto de Adorno, quanto da Escola de Frankfurt, e apresenta criticamente como o processo de esclarecimento que visaria libertar o homem do medo do desconhecido, através do “desencantamento do mundo”, com a superação do mito, e do transcendente teria desembocado num pensamento pragmático, técnico e utilitarista que perdera seu caráter superador, e assim, findando com o pensamento reflexivo facilitaria a dominação ideológica e alienação dos indivíduos. Demonstra como “O progresso converte-se em regresso”.

 

Nesse livro, emprega pela primeira vez, o termo “indústria cultural”, conceito importante na obra de Adorno e uma das grandes contribuições da escola de Frankfurt, em um capítulo que tem como sub-título: “O esclarecimento como mistificação das massas”.

 

Apresenta, que a massificação da cultura provêm de uma produção industrial que gera “bens padronizados”, e que não apenas produz visando o que será consumido pelas massas, mas em grande parte determina o que será consumido, pois é responsável pela alienação desta ao incutir valores e padrões sociais como crenças e ideologias e cerceando as capacidades reflexivas e autônomas dos indivíduos garantiriam assim, a manutenção de uma organização social, política e econômica, baseada em classes dominantes e dominadas.

 

Essa não poderia ser considerada uma “cultura de massa” porque não era produzida a partir do coletivo, mas de uma indústria que “vende” a cultura e ideologias para as massas.

 

Os principais meios da indústria cultural seriam o cinema, as rádios e as revistas, formadoras de opinião e responsáveis por impor padrões de comportamento, em todos os seguimentos da vida.

 

Evidentemente, que a “indústria cultural” para além da educação formal, que temos na escola, é um grande instrumento de “educação” dos homens, pois é responsável pela formação da mentalidade e ações destes, portanto é um elemento importante para debatermos quando nos propomos a falar de das contribuições de Adorno para a educação.

 

Além desta contribuição, Adorno nos apresenta escritos diretamente ligados com a questão da educação, reunidos em um livro chamado “Educação e emancipação” que consiste numa coletânea de textos, incluindo transcrições de participações em conferências radiofônicas, e outras palestras proferidas sobre o tema.

 

Uma delas, cujo título seria depois apropriado para nomear a coletânea, consiste num debate na rádio de Hessen, no qual Adorno possui Becker como interlocutor durante todo o texto.

 

 

 

Educação e Emancipação

 

Nesse debate Adorno começa evocando a clareza da necessidade da emancipação dos homens num regime político democrático, uma vez que este precisa estar pautado na capacidade de cada cidadão responder a partir de seu próprio entendimento, estando apto à participar da gestão política através de eleições representativas.

 

Cita um texto de Kant, “Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento?”, no qual Kant define a menoridade e a emancipação. Adorno escolhe citar um trecho em que Kant defende que além da falta de entendimento, existe uma forma de se manter no estado de menoridade que provém da falta de coragem e decisão de pensar por si, usar seu próprio entendimento, sem manter-se dependente e submisso a outrem.

 

Durante todo o texto eles debatem sobre problemas específicos da educação alemã, ou de práticas gerais da educação, mostrando como nos “complexos pedagógicos”, e nem mesmo nas literaturas pedagógicas, o que seria ainda mais preocupante, se possui pensamentos que visem desenvolver uma educação para a emancipação. Mas que ao invés disso, o que encontramos são pensamentos que propiciam a manutenção de noções como autoridade, entre outras, que iriam de encontro à emancipação, e por conseqüência, ao ideal democrático.

 

Adorno faz uma crítica tanto a concepções pedagógicas alemãs (cita Ernst Lichtenstein, e Heidegger) quanto americanas (baseadas em Darwin e Spencer) apontando que apesar de suas diferenças radicais, ambas se encontram, evidenciando uma “contradição que percorre toda a história burguesa”, a de como teorias tão diversas e por vezes opostas se servem a um mesmo objetivo, a saber, a manutenção e defesa de uma referência social.

 

Adorno percorre a trajetória do desenvolvimento psicológico aceitando a necessidade de uma figura de autoridade que para as crianças seria representado pelo pai, e que seria superado através de um processo de emancipação, em que a criança se tornaria cada vez mais autônoma, rompendo, ainda que de forma dolorosa, o vínculo com essa figura de autoridade. Mas que de forma nenhuma isso poderia justificar a “conservação” desta etapa. De maneira análoga o professor deveria desempenhar o papel que culminaria na emancipação de seus alunos em relação ao seu pensamento e não na concepção de manutenção dessas figuras de autoridade.

 

Além disso, Adorno cita Kant mais uma vez, quando faz um contraponto da resposta que ele dá dizendo que “vivia em uma época de esclarecimento”, defendendo que esta resposta seria muito questionável para atualidade, uma vez que, a própria organização social capitalista, marcada pelas contradições sociais visaria uma alienação e manutenção dessa contradição, que não permitiria nem esse processo emancipatório, nem o exercício desta autonomia, “nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual realmente conforme suas próprias determinações”.

 

Ressalta a indústria cultural como um dos elementos constituintes dessa “organização de mundo” e indica como caminho para romper com essa situação uma educação para a “contradição e resistência”. Cita como exemplos práticas que evidenciassem diretamente as formas de manipulação, por exemplo, da indústria cultural, porém indica a provável resistência política e as conseqüências econômicas que isso significaria, sugerindo que para pensarmos numa educação para emancipação precisaríamos levar em conta todas essas questões.

 

Para finalizar o texto, Adorno aponta o risco e as dificuldades sempre existentes quando nos propomos a transformar uma ordem que pretende ser mantida através da resistência e repressão. E que para superar essa impotência frente à força do estabelecido, do existente, precisamos antes, superar a nossa própria impotência de mudar o que pensamos e fazemos.

 

 

 

Educação Após Auchwitz

 

A chave da transformação está na escola e em sua sociedade, nisto a escola não é apenas um objeto.

 

Quando a barbárie é gerada pela sociedade em si mesma a escola è impotente em relação a isto. Mas a barbarização do indivíduo tem um papel muito grande dentro da escola, se despindo de tabus para isto.

 

“A exigência que Auchiwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”. Auchiwitiz foi a barbárie que se dirige contra a educação. E há pessoas que não acreditam que o genocídio ocorreu.

 

Pressupõe-se que a barbárie se encontra no próprio movimento de civilização, e isso traz algo de desesperador, mas ao mesmo tempo é um alerta ao educador ao lidar com estes dados, e tentar que a realidade tome outros caminhos que não este.

 

Vinte e cinco milhões de pessoas inocentes foram assassinados de uma maneira planejada. O genocídio tem suas raízes naquela ressurreição do nacionalismo agressor que imperou em muitos países a partir do século XIX. A necessidade de se contrapor a isto é de maneira subjetiva a reflexão a respeito de si mesmo, é uma das maneiras a levarem as pessoas, a refletir a respeito de si mesmas.

 

A educação entra como meio dirigido de levar à auto reflexão crítica, isto sendo na primeira infância , a sua principal finalidade, na formação de caráter.

 

Uma confirmação histórica das perseguições é que a violência é dirigida principalmente aos que são considerados mais fracos socialmente, e ao mesmo tempo felizes.

 

Ao mesmo tempo em que a sociedade se entrega ela gera tendências de desagregação. A pressão do geral dominante tem uma tendência a destroçar o particular e o individual, e seu potencial de resistência.

 

As duas questões primordiais neste capítulo é a educação infantil na primeira infância, e o outro é levar ao esclarecimento geral que produz um clima intelectual, cultural e social que não permita repetição, um clima em que os motivos que remetam ao horror ocorrido, tornem-se de modo algum conscientes. A referência é feita quando em momentos cruciais à ação da educação não se subtrai inteiramente a interferência dos indivíduos.

 

O único poder efetivo contra o princípio de Auchiwitz seria autonomia. E usando a expressão Kantiana; o poder para reflexão, a autodeterminação, a não participação.

 

A incapacidade para a identificação foi a condição psicológica mais importante para possibilitar algo como Auchiwitz, em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas. O que é chamado de “participação oportunista” era mais nada que um interesse prático; perceber antes de tudo a sua própria vantagem e não dar com “a língua nos dentes” para não se prejudicar. Esta é uma lei geral do existente. O silêncio sob o terror era apenas a conseqüência disto: a frieza da mônoda social, do concorrente isolado, constitua enquanto indiferença frente ao destino do outro, o pressuposto para que apenas alguns raros se mobilizassem, os algozes sabem disto.

 

Não é a pregação do Amor, pois para o autor a sua pregação é vã; ninguém teria inclusive o direito de pregá-lo, porque a deficiência do amor, é uma deficiência de todas as pessoas, sem exceção, nos termos em que existem hoje. Pregar o amor pressupõe aqueles a quem nos dirigimos uma outra estrutura de caráter, diferentes das que queremos transformar. Pois as pessoas que devemos amar são elas próprias incapazes de amar e por isto nem são tão amáveis assim.

 

Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a não ser durante breves períodos, e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens pacíficos.Os utópicos freqüentemente ridicularizados perceberam isto. Charles Fourier, por exemplo, definiu a atração como algo a ser constituído por uma ordem social digna de um ponto de vista humano. Considerou também que esta situação só seria possível quando os instintos não fossem mais reprimidos, mas satisfeitos e liberados.

 

Se existe algo que pode ajudar contra a frieza como condição de desgraça, então se trata do conhecimento dos próprios pressupostos desta, bem como trabalhar no plano individual contra esses pressupostos. Agrada pensar que a chance é tanto maior quando se menos erra na infância, quanto melhor são tratadas as crianças.

 

Mas mesmo assim pode haver ilusões. Crianças que não suspeitam nada da vida e da crueldade, e dureza acabam por ser particularmente expostas `barbárie depois que deixam de ser protegidas. Mas, sobretudo não é possível mobilizar para o calor humano, pois, que são eles próprios, produtos da sociedade, cujas marcas ostentam. O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Alem disso o amor não pode ser exigido em relações intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório em relações em que sua essência é intermediada.

 

O intuitivo do amor – provavelmente na sua forma mais imperativa, de um dever-constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo opressor, que atua contrariamente a capacidade de amar. Por isto, o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pela qual ela foi gerada.

 

Algumas possibilidades de conscientização, subjetiva sem os quais Auchiwitiz aconteceria. O conhecimento destes mecanismos se faz necessário. Quem ainda afirma que o acontecido não foi tão grave assim já esta defendendo o que aconteceu, e seria capaz de assistir ou colaborar para que tudo acontecesse de novo.

 

É necessário esclarecer quanto à possibilidade de haver um outro direcionamento para a fúria ocorrida. No futuro pode ser um outro grupo, por exemplo

 

os idosos, ou os intelectuais. O clima- enfatiza o autor- mais favorável a tal ressurgimento é o nacionalismo ressurgente. Ele é tão raivoso justamente porque nesta época de comunicações internacionais e de blocos supranacionais já não é mais tão convicto, procurando convencer a si e aos outros que ainda tem substância.

 

Para finalizar em Paris durante a emigração quando, o autor retornava esporadicamente à Alemanha, certa vez Walter Benjamin o perguntou, se ali havia algozes o suficiente para executar o que os nazistas ordenavam? Havia. A pergunta é profundamente justificável. Benjamin percebeu que, ao contrário dos assassinos e gabinete e dos ideólogos, as pessoas que executam as tarefas agem em contradição com seus próprios interesses imediatos, são assassinas de si mesmas na medida em que assassinam os outros. Será difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete, por mais abrangentes que sejam as medidas educacionais. Mas que haja pessoas em posições subalternas, enquanto serviçais, façam coisas que perpetuam sua própria servidão, tornado-as indignas; que continue a haver Bogers e Kadks contra isto, é possível empreender algo mediante a educação e o esclarecimento.

 

 

 

Educação contra a barbárie.

 

Adorno inicia essa parte do livro com a seguinte questão, é possível transformar algo decisivo em relação à barbárie através da educação? Barbárie para Adorno é o atraso de uma civilização em relação ao elevado desenvolvimento tecnológico dela mesma, assim como uma primitiva agressividade, o que ele chama de impulso de destruição, que torna essa mesma comunidade apta a sua autodestruição. Para ele esse é o seu maior objetivo, evitar que uma sociedade seja o seu próprio algoz.

 

Já Becker acha necessário que esse mesmo conceito barbárie seja melhor explicado, e se um indivíduo esclarecido e compensado que não conheça esses meios de agressão e por sua vez impossível de agredir alguém seja realmente desejável.

 

Segundo os autores, Adorno e Becker, o problema da desbarbarização é fundamental para a manutenção de uma sociedade, pois é através da educação e dos meios de controle que uma sociedade se baseia, uma sociedade esclarecida das normas e leis que a controlam, e que é suficientemente capaz de perceber a necessidade dessas instituições, não se destrói subitamente.

 

Neste ponto os autores buscam os elementos psicológicos e objetivos básicos dessa condição, a barbárie. Para tanto eles decidem começar pela Alemanha, pois adorno considera a Alemanha recente, da 2ª grande guerra, como mo maior exemplo e barbárie que ele conhece. Adorno dá mais ênfase aos movimentos sociais que levam uma sociedade a agir dessa maneira, enquanto que Becker prefere a questão psicológica, que é reforçada pelo seu argumento de que até que ponto uma “vontade consciente” é capas de introduzir elementos que levam à barbárie.

 

Adorno afirma que uma sociedade, ou uma cultura educacional que seja muito opressiva pode vir a gerar em determinado momento uma propensão a barbárie. Ele diz que a própria educação é capaz de fazer isso, ao invés de esclarecer ela torna as coisas mais obscuras.

 

Para Becker a ênfase na desbarbarização pode levar a sociedade a uma inércia em seu desenvolvimento, pois ela não seria testada a seu limite e jamais saberíamos se ela poderia chegar ou não a um estado melhor de desenvolvimento.

 

Tanto para Becker quanto para Adorno a desbarbarização não se trata de um elogio a moderação. A desbarbarização não é necessariamente uma supressão dos instintos, pois os instintos agressivos podem ser utilizados de maneira positiva e criadora, e que até mesmo durando o processo de desbarbarização pode ocorrer alguns momentos considerados bárbaros. A barbárie em si jamais será excluída totalmente da sociedade, o que deve ser feito é orientar esse traço de barbárie para longe do princípio de barbárie.”Ao invés de permitir o seu curso em direção a desgraça”.

 

A barbárie não é se colocar de maneira agressiva em relação a uma ordem estabelecida, para exemplificar os autores utilizam um caso ocorrido em Bremen, em que um político acusou o sistema educacional de cometer falhas que levaram os estudantes a um estado de selvageria e barbárie. Para adorno o que ocorreu foi exatamente oposto, os estudantes por estarem esclarecidos de sua condição não aceitaram a determinação arbitrária de um demagogo e usaram de sua força para fazer a pressão política necessária. “A forma de que a ameaçadora barbárie se reveste atualmente é a de, em nome da autoridade, em nome de poderes estabelecidos, praticarem-se precisamente atos que anunciam, conforme sua própria configuração, a deformidade, o impulso destrutivo e a essência mutilada da maioria das pessoas.”

 

A violência pode ser distinguida de várias formas, seja ela violência contra pessoas , objetos, violência efetivamente praticada e aquela que é simplesmente ameaçada e não cumprida. Assim Becker finaliza com a questão voltada para adorno se ele considera a violência necessária para determinação do que é barbárie ou se pode haver barbárie sem necessariamente haver violência.

 

A barbárie, para adorno leva a essa condição primitiva de violência, portanto ele considera a violência como uma forma de barbárie, porém há situações em que os homens reunidos e conscientes utilizam-se da violência para alcançar uma condição melhor para a sua comunidade. Porém a mera racionalização de uma ação não exclui em si a barbárie, pois ela pode ser muito facilmente alcançada utilizando-se de argumentos bastante racionais para tanto. “As reflexões precisam portanto ser transparentes em sua finalidade humana.”

 

Becker traz outra questão muito relevante sobre a educação ser limitadora da barbárie. Como educar jovens para que seus atos sejam voltados para objetivos humanos. Becker também reconhece um problema no sistema educacional tanto alemão quanto o mundial, que é o estímulo à aprendizagem pela competição, o que para ele constitui-se como um reforço a uma educação voltada à barbárie, essa mesma opinião é compartilhada por adorno parágrafo seguinte. Para ele esse método de ensino não contribui de maneira alguma para uma educação humana, e que esse método pode funcionar com esportistas, mas não como desbarbarizador

 

A competitividade utilizada nas escolas como forma de estimular o aprendizado é amplamente criticado pelos autores, e a justificativa de que a escola prepara, através das disputas, para um mundo competitivo não contribui em nada para o desenvolvimento que se espera. Para eles a educação deve ser voltada para a relação com as coisas, o sistema educacional deveria tornar o aluno capaz de se relacionar com as coisas e a partir dessa relação se preparar para futuras decisões que deverá tomar. Assim como o próprio Becker diz: “Nestes termos, creio que uma parte da desbarbarização possa ser alcançada mediante uma transformação da situação escolar numa tematização da relação com as coisas, uma tematização em que o fim da proclamação de valores tem uma função, assim como também a multiplicidade da oferta de coisas, possibilitando ao aluno uma seleção mais ampla e, nesta medida, uma melhor escolha de objetos, em vez da subordinação a objetos determinados preestabelecidos, os inevitáveis cânones educacionais.”

 

Adorno retorna a uma busca pela barbárie pelo viés psicológico, citando Freud, que fundamentou que a tendência a barbárie é fundamentalmente psicológica, e que a cultura contribui diretamente para situações de fracasso “desenvolvendo sentimentos de culpa” que são expressas através da violência e por conseguinte da barbárie. Citando adorno: “Tudo isto é muito procedente, tem uma ampla divulgação e poderia ser levado em conta pela educação na medida em que ela finalmente levar a sério às conclusões apontadas por Freud, em vez de substituí-las pela pseudoprofundidade de conhecimentos de terceira mão.” Ele acrescenta que essa é uma razão subjetiva e que no momento pretende avançar buscando uma causa objetiva para a barbárie. Adorno deixa claro que uma causa direta para a barbárie é a falência da cultura, por não cumprir com as suas promessas individuais. O maior problema trazido pela cultura foi a divisão entre os homens, que foi acentuada pela divisão entre trabalho físico e intelectual. Essa impossibilidade de mudança que o homem cultural enfrenta, pois a cultura determina exatamente como as coisas devem ser gera no homem uma angústia e um sentimento de indignação, pois uma vez que a cultura é incapaz de cumprir com suas promessas, ela, portanto, não deveria formulá-las.

 

A desbarbarização não passa por um processo de adestramento social, pois esse mesmo adestramento, segundo adorno é uma forma de violências, pois ela permite que os homens passem por situações de atrocidade e nada fazem pela simples situação passiva que não são capazes de romper. Adorno defende que o esclarecimento, esse sim, é capaz de desbarbarizar o homem, fazendo com que ele percebe que tanto a cultura como o reflexo dela na sociedade levam diretamente à barbárie.

 

Becker apresenta a proposta de Konrad Lorenz e que a saída da barbárie estaria na busca por novos métodos de expressão de violência, o que é prontamente rebatido por adorno como uma forma de redução do homem a uma espécie de darwinismo social, no qual os homens se apresentariam em um estado de seres naturais. Adorno expõe o que para a sua educação para a barbárie é uma forma de conscientização de que a agressão não pode ser a forma última de solução para as relações entre os homens. O termo preciso sobre o qual os autores concordam é a vergonha, o indivíduo precisa sentir vergonha de uma situação em que a barbárie é solicitada como solução.

 

A educação assim como os educadores precisam trabalhar de maneira análoga a evitar que a autoridade seja uma representante dessa barbárie. Segundo Becker a educação contra a barbárie deveria ser realizada em faixas etárias distintas começando pelas crianças ainda bem pequenas, nas quais os elementos destrutivos e barbarizantes ainda não estão completamente definidos. Becker também afirma que é nessa idade que a agressividade deve ser explorada e também controlada. Neste ponto é que deve entrar o papel do educador preparado a indicar o caminho correto a criança. Adorno responde a Becker que a permanência de educadores que contribuem para a barbárie devem deixar de existir e isso só será possível com o fim dessa autoridade que não é esclarecida da necessidade de uma outra conduta.

 

Os autores concordam que a autoridade não necessariamente negativa, contanto que seja uma autoridade moderada, assim como a ausência de uma fonte de segurança para criança. Um exemplo utilizado pelos autores de uma autoridade moderada é a atitude de um pai que dá umas palmadas no filho por este ter retirado as asas de uma mosca, segundo eles esse comportamento do pai contribui, mesmo que através da autoridade para uma educação mais humana. Adorno finaliza a sua exposição dizendo que o principal objetivo é tornar esses indivíduos suficientemente sensíveis para sentirem vergonha de seus atos que contribuam para uma conduta bárbara.

 

 

 

Educação Pra Quê?

 

Esta parte do livro diz respeito ao diálogo entre Adorno e seu amigo Becker. Neste diálogo, Adorno ressalta que a discussão gira em torno do conjunto da sociedade, e não a determinados estratos sociais, ou meios educacionais específicos. Mas um plano subjacente a educação formal do “eu”. Que consideramos importantes para melhor elucidar o pensamento deste filósofo.

 

Para Adorno não se trata de discutir a educação para que. Mas para onde a educação deve conduzir. Porque ao discutir nesses termos, tudo se torna complicado. Não se trata de discutir sobre um novo modelo ideal. Mas que hoje a educação tem muito mais que declarar o comportamento humano do que intermediar modelos preestabelecidos.

 

O modelo ideal está ligado a heteronomia, este ao movimento autoritário que impõe a educação. Faz pensar sobre a seguinte questão: quem tem o direito de decidir a respeito da educação dos outros? O que devo ou não saber? E entra em contradição a idéia de homem autônomo e emancipado. Ninguém tem o direito de modelar a pessoa a partir do exterior, mas produzir uma consciência verdadeira.

 

Mas Becker alerta para não tornar o homem emancipado como ideal orientador. Para isso não ocorrer, segundo Adorno, é necessário tornar a ideologia dominante em que se converteu o mundo para pensar o conceito de emancipação. E emancipação é a conscientização e racionalidade.

 

A reflexão histórica se faz necessário para este entendimento porque a importância da educação em relação a realidade muda historicamente. Essa realidade sr torna tão poderosa que se impõe desde o início aos homens. Hoje, há uma supervalorização do realismo. A adaptação do homem é desmensuradamente forçado por todo o contexto em que vive.

 

Becker entra aqui na discussão da educação infantil precoce com a tarefa de intermediar uma consciência da realidade. Uma tarefa ligada a teoria prática, a partir da educação infantil que permanece a vida toda.

 

Adorno responde que para isso deve estudar o que as crianças têm dificuldade em aprender. Becker retruca, apoiado na questão do espontâneo e criativo. Educação é o mesmo que preparação para a superação permanente da alienação

 

Adorno responde que não, porque opõe ao conceito de alienação porque esta se baseia na estruturação social. Enfatiza no papel desempenhado da consciência pela técnica, que vai além de sua função no real. Uma educação é emancipação não poderia ser separada dos questionamentos da psicologia profunda.

 

E a inaptidão da experiência estaria na relação entre teoria e pratica, pergunta Becker.

 

Adorno dá o exemplo de quem na adolescência não teve aversão a educação. Isso é resultado de um antagonismo em relação a esfera da consciência. Ninguém, por exemplo, quer ouvir música séria. As pessoas odeiam o que não é moldado, porque são excluídos do mesmo e porque se o aceitassem isso dificultaria sua orientação existencial, e acabam escolhendo o que não é de sua vontade. O mesmo para constituição da aptidão a experiência consistiria a essa conscientização, e, desta forma, na dissolução desse mecanismo e na repressão que deformam nas próprias pessoas sua aptidão e experiência. Então, essa aptidão a experiência constitui um pressuposto para o aumento da reflexão.

 

O trabalho, por exemplo, necessita de aptidão a experiência desenvolvida e um elevado nível de reflexão. Para preservar-se em situações de permanentes transformações, como o padrão do mundo administrado. Então essa discussão leva ao conjunto de estrutura educacional do pré-educar até a formação para idosos.

 

Isto se vincula ao próprio conceito de racionalidade ou consciência que diz respeito ao pensar em relação a realidade. Esse sentido mais profundo de consciência ou faculdade de pensar não é apenas o desenvolvimento lógico formal, mas corresponde literalmente a capacidade de fazer experiência. Pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais. Nesse sentido a educação para experiência é idêntica a educação para emancipação.