(Com base na obra "Sobre a filosofia universitária" de Arthur Schopenhauer.)

 

 

 

 

Nesta obra, Arthur Schopenhauer exerce uma forte crítica contra os filósofos que transformaram a prática de filosofia em profissão docente atrelada ao Estado, apontando uma série de problemas decorrentes dessa transformação da filosofia em ofício, em sua época. Faz críticas diretas aos filósofos Fichte, Schelling e Hegel. Denomina-os filosofastros, classificando a filosofia de Hegel como uma hegelharia popularizada. Refere-se a Hegel como um grosseiro charlatão.

 

Se há alguma positividade no ensino de filosofia nos estabelecimentos universitários, a mesma se encontra no fato de manter a filosofia como um conceito existente na sociedade, mesmo que efetivamente esse conceito de filosofia ensinada não seja a pura e verdadeira filosofia.

 

Por sua condição de prática de busca da verdade, inquiridora das causas, a filosofia não pode existir de forma submissa a um Estado, nem ao menos submissa à religião. Não há necessidade de elaboração de raciocínios rebuscados para perceber que nenhum Estado contrataria profissionais que estariam em condição de criticar seus próprios atos, expondo-lhe as deficiências e mazelas. E, portanto, não se pode esperar de um filósofo educador que esteja atrelado ao Estado que venha a exercer de forma genuína a prática filosófica. Deverá mutilar os conhecimentos filosóficos, ajustando-os às conveniências do poder político. Fato este que não está em conformidade com o fazer filosófico que é livre.

 

A filosofia não pode e não deve ser tomada como um meio de vida. Como nos apontaram os antigos, ela é fruto do ócio. Filosofia é a prática do livre pensar como nos legaram Platão, Aristóteles e outros grandes nomes da filosofia.

 

Fazendo uma comparação entre ciências, teologia e filosofia, Schopenhauer aponta que as ciências lidam com questões cujos problemas são passíveis de serem ensinados dentro das capacidades de especializações de seus professores. Por outro lado, os problemas de que tratam a teologia e a filosofia referem-se ao mesmo objeto sobre o qual cada uma "à sua maneira, dá suas explicações": designando, assim, "a religião como a metafísica do povo."

 

Relatando o poder exercido pela religião sobre o poder político, em sua época, afirma que a filosofia só pode existir em um Estado dominado pela religião na medida em que seus resultados estiverem de acordo com as verdades religiosas. Motivo este que lhe permitiu afirmar que a filosofia de cátedra era um desvirtuamento da busca real pela verdade.

 

Todos aqueles filósofos que se prestaram a servir ao estado, ou melhor dizendo, serviram-se do Estado para manter suas sobrevivências e de suas famílias, não passavam de parasitas capazes de tudo fazer, não em nome da verdade, mas em nome de suas necessidades imediatas. A fim de dar um ar de seriedade ao seu "fazer filosófico", os filósofos universitários passaram a fantasiar a linguagem filosófica com termos rebuscados, para que, assim melhor revestidas, tivessem maior valor acadêmico. Não que esse rebuscamento trouxesse consigo enriquecimento de conceitos, pois na verdade tratava-se, em muitos casos, de conjuntos de belas e complicadas palavras desprovidas de qualquer significado. Entretanto, o aspecto de seriedade com que essas palavras eram apresentadas transmitiam a sensação aos ouvintes de que ali havia muito saber e por isso angariavam a aprovação da audiência.

 

Para não ser injusto pela generalização de suas palavras, Schopenhauer fez os maiores elogios a Immanuel Kant, muito embora o mesmo tenha vivido a custa da profissão de professor de filosofia. Esclarece que Kant foi uma exceção à regra. Aponta-o como um dos integrantes da relação de grandes filósofos de todos os tempos, ocupando o topo da série de filósofos puros autênticos tais como Platão, Aristóteles, Locke, Hume, etc. Contrariamente a esses, aponta a mediocridade e fanfarronice de "pretensos" filósofos como Fichte, Schelling e principalmente Hegel. Entendeu Schopenhauer que estes últimos arvoraram-se como defensores da verdadeira filosofia quando na verdade o que fizeram foi buscar no Estado suas fontes de subsistência, um meio de tornarem-se famosos sem qualquer compromisso com aquilo que se exige de um filósofo puro. Não passavam de sofistas, que vendiam um falso saber, um saber vazio embrulhado belamente sob a pomposa veste de palavras eruditas , um "saber" a que denominavam filosofia. Era de se lamentar o fato de não darem o devido valor à principal obra de toda a filosofia: "A crítica da razão pura" de Kant. Mais reprovável ainda foi considerarem os feitos filosófico de Fichte tão grandes quanto ao de Kant.

 

Hegel foi o filósofo mais durante criticado por Schopenhauer. Provavelmente isso ocorreu devido a ter sido seu contemporâneo e ter feito do ensino de filosofia uma profissão. Hegel viveu a fama de grande filósofo chancelado pelo Estado e angariou todas as glórias e reconhecimentos. Schopenhauer, por seu lado, foi um filósofo independente que não precisou recorrer ao Estado para praticar a sua filosofia. Dizia-se autêntico, o verdadeiro filósofo, pois seu compromisso ao fazer filosofia estava simplesmente na busca da verdade e não no atendimento das requisições da Igreja, nem do Estado. Entendia que sua filosofia era pura. Criticou duramente a tendência teologizante que Hegel aplicou à sua filosofia - tudo convergia para Deus.

 

Schopenhauer concluiu sua exposição defendendo um ensino de filosofia não submisso aos fins do Estado. Seu conteúdo deveria ser limitado ao estudo da Lógica e da História da Filosofia de Tales a Kant. Esse ensino deveria ser cursado pelo período de um semestre de forma a que os futuros filósofos não viessem a ser contaminados pelas opiniões dos professores. Os novos filósofos deveriam ser formados, através de suas próprias buscas, através de conhecimentos obtidos diretamente nas obras originais e não a partir de conhecimentos obtidos "de segunda mão".

 

 

 

Referência bibliográfica:

 

 

 

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a filosofia universitária. Trad. de Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola e Márcio Suzuki. São Paulo: Martins Fontes, 2001.