INTRODUÇÃO

 

 

 

A idéia central da obra consiste no questionamento de que a Filosofia, de acordo com o grande nome que recebeu, constitui uma “sabedoria” indispensável aos seres racionais para coordenar as atividades do homem, mas que não atinge um saber propriamente dito, provido das garantias e dos modos de controle, que caracterizam o que se denomina “conhecimento”.

 

Tal conflito envolve uma série de fatores individuais ou coletivos, universitários ou ideológicos, epistemológicos ou morais, históricos ou atuais. Sempre se remontando ao mesmo problema do questionamento em torno do que seria o conhecimento.

 

Envolvendo uma complexidade de fatores, o autor menciona que tais “perigos” perfilam-se em torno da mesma fronteira, que se move ao longo das idades e das gerações, porém não menos essencial para o futuro do saber; ou seja, àquela que separa a verificação da especulação.

 

O autor aborda a questão em torno dos êxitos ou fracassos de milhares de pesquisadores que estariam condicionados ao estatuto de “sabedoria” ou “conhecimento”. Tal posicionamento seria vital no campo do conhecimento, pois tudo giraria em torno da dependência ou não da Filosofia. Haveria diferença entre o conhecimento próprio da filosofia e o conhecimento científico?

 

Esta complexidade de fatores questionáveis em relação ao conhecimento é de natureza sociológica, psicológica, epistemológica, ideológica e racional; ou seja, um conjunto de influências históricas e sociais, que fazem dessa filosofia, uma instituição escolar e universtária.

 

Ao longo dos tempos, a filosofia alcançou um determinado prestígio, que lhe garantia uma autoridade diante de alguns problemas em relação ao conhecimento; ou seja, bastava a palavra final do filósofo diante do fato.

 

Em virtude deste complexo conjunto de motivações individuais e sociais, o autor procura por em dúvida esse caráter de conhecimento, e convencido do fato de que o pensamento metafísico se reduz a uma sabedoria ou a uma fé raciocinada.

 

 

 

CAPÍTULO I

 

 

 

 

 

NARRAÇÃO E ANÁLISE DE UMA DESCONVERSÃO

 

 

 

 

 

No primeiro capítulo, Piaget faz um relato esclarecendo a sua desconversão, conduzindo-o do âmbito filosófico para o âmbito epistemológico do pensamento.

 

Seu estímulo pela filosofia principiou com o intento de encontrar respostas aos grandes problemas no início de sua formação. O encontro com o lógico Arnold Reymond, exerceu sobre Piaget uma forte influência, levando-o a compreender os valores racionais filosóficos, porém, posteriormente, levou-o a desconfiar paulatinamente da eficácia da filosofia. Um dos motivos desta desconfiança, segundo Piaget, era a forma de conduzir as idéias sempre pelo campo da metafísica.

 

Em 1925, Reymond o apresentou como candidato para ocupar a sua cadeira na Universidade em Neuchâtel. Piaget obteve êxito e tomou posse, mas em 1929 retornou a Genebra e foi se distanciando ainda mais da filosofia, dedicando-se quase que de maneira integral ao estudo epistemológico e sobretudo psicogenética. E, ainda, com muito esforço, auferiu fundo suficiente para criar, na Faculdade de Ciências de Genebra, um “Centro Internacional de Epistemologia Genética”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO II

 

 

 

 

 

CIÊNCIAS E FILOSOFIA

 

 

 

Piaget não atribuiu à filosofia a tarefa de obtenção de conhecimento, mas sim de produção de sabedoria. Para ele, as ciências cobrem praticamente todo o campo que outrora estava ocupado pela filosofia. As críticas são direcionadas sem exceção contra a filosofia contemporânea. A maioria dos filósofos dos séculos anteriores ao dele eram altamente respeitados por Piaget. O que mais elogiava nesses filósofos era a sua competência no campo de uma ou mais ciências.

 

Piaget pretendia fundar uma ciência da ciência, isto é, uma supra ou meta ciência, que abrangesse os demais campos científicos, capaz de superar a oposição entre ciência e filosofia, mas na quais ambas estariam preservadas.

 

De acordo com Piaget, a ciência tem a ver com as pesquisas dos fatos e que o interesse pelos fatos empíricos não é, até hoje, um dos pontos fortes da filosofia acadêmica. Para Piaget, a filosofia não alcança um saber propriamente dito, porque não possui modos de controle que caracterizam um conhecimento. Para o conhecimento objetivo de uma questão, torna-se necessário o apelo aos fatos, pois estes nos fornecem material de refutação ou comprovação. A filosofia é uma forma de saber que não estabelece um controle algoritmo dos fatos, constituindo-se numa fé raciocinada, isto é, o que manteria “viva” uma verdade ou sistema filosófico seria a crença que se deposita nele e não sua capacidade de comprovação e controle dos fatos que pretende explicar. A tarefa atribuída por Piaget à filosofia se trata da necessidade de refletir e coordenar os valores. Enquanto falta aos filósofos o conhecimento dos fatos, falta aos cientistas a consciência dos valores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO III

 

 

 

O FALSO IDEAL DE UM CONHECIMENTO SUPRACIENTÍFICO

 

 

 

Neste terceiro capítulo, Piaget diz que o falso ideal de considerarem a filosofia como um conhecimento supracientífico, quando determinadas filosofias julgavam-se detentoras de uma forma de conhecimento que transcendia ao da ciência.

 

Uma das causas que atribuíram este conhecimento hegemônico à filosofia foi, segundo ele, a procura do absoluto. Enquanto não havia rivalidade entre as ciências e a filosofia, a metafísica destacava-se como uma síntese predominante, abrangendo todo o saber, sem que fosse preciso uma forma especial de conhecimento para suplantar as disciplinas particulares.

 

Piaget considera a filosofia, desde os primórdios, como construtora de sistemas que não levaram em conta que o sujeito de conhecimento é fruto de um processo (sempre conceberam um certo acabamento do sujeito). Sobre a teoria de Platão, por exemplo, considera esta um realismo que consiste em projetar as estruturas de conhecimento em um mundo supra-sensível sem que elas dependam de um sujeito nem humano nem transcendental: o sujeito não é, pois, ativo no conhecimento e limita-se a se beneficiar, por reminiscência ou participação, do reflexo dessas idéias eternas que constituem, por outro lado, o suporte dos valores supremos, morais, estéticos e religiosos.

 

A filosofia não leva em conta, quando postula a possibilidade de um conhecimento supracientífico, as transformações, as auto-regulações etc, próprias do sujeito que se constitui num processo que vai desde os primeiros reflexos até os pensamentos hipotéticos-dedutivos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO IV

 

 

 

AS AMBIÇÕES DA PSICOLOGIA FILOSÓFICA

 

 

 

Neste capítulo, Piaget aborda a questão em torno do problema da possibilidade de um conhecimento especificamente filosófico e paracientífico que pode ser tratado e estudado de forma mais profunda, visando um exemplo particular e ao mesmo tempo mais instrutivo. O autor cita a Psicologia Filosófica, fazendo uma distinção entre àquela dos grandes filósofos da história, que seria preconcebida anteriormente à constituição da disciplina como Psicologia Científica e entre àquela que segundo alguns especialistas, quis se constituir à margem, sendo entendida por muitos como um possível complemento, substituindo, desta forma, esta última.

 

Piaget menciona os principais autores que se depararam com esta realidade em torno de uma psicologia filosófica. O autor examinará a questão do valor e do caráter de legitimidade em torno desta série de ensaios, levando em consideração a visão dos principais autores nesta questão, como Maine de Biran e sua posição oposta ao empirismo de Denis Hulme, porém mencionava uma psicologia experimental, que ainda não tinha sido fundada. Este processo de investigações em torno da psicologia dita filosófica também envolve outros autores, tais como Jean-Paul Sartre, e também Merleau-Ponty, e suas respectivas tomadas de posição em torno deste conceito psicológico-filosófico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO V

 

 

 

OS FILÓSOFOS E OS PROBLEMAS DE FATOS

 

 

 

No capítulo V, Piaget fala de uma questão, que segundo ele pode parecer secundária, porém possui o seu valor central para o interesse do ideal filosófico; ou seja, a questão em torno do direito de abordar os problemas de fatos, levando em consideração uma discussão bem reflexiva, onde enfatiza um dos principais aspectos do ideal filosófico.

 

O autor fala dos três grandes domínios que os problemas do conhecimento abordam, como o das normas, dos fatos e da intuição. Segundo o autor, fato é o que se estuda descentrando a pesquisa em relação ao “eu”. As filosofias correntes que procedem reflexivamente ou dialeticamente, sem se ligar ao aparelho conceitual da ontologia fenomenologista, fazem muitas vezes apelo às questões de fato, já que segundo o autor, elas se ocupam do conjunto da realidade e não apenas da lógica formal.

 

Ao filósofo caberia mais se interessar pela diversidade das escolas e dos sistemas, e experimentar no seu domínio um prazer profissional, quando surgem novas doutrinas, distanciando-se suficientemente das outras.

 

Por outro lado, caberia ao psicólogo um procedimento bem mais cuidadoso na unidade da psicologia e na crescente conversão de seus métodos. Segundo Piaget, o filósofo seria bem vindo elucidando problemas.

 

O problema entre a Psicologia científica e a Psicologia filosófica se encontraria no âmbito do sujeito, onde a primeira visa ser objetiva, então negligencia o sujeito, e a segunda não vê o sujeito universal senão através do seu “eu”.

 

O autor acredita numa proposta sobre modos de conhecimento supracientífico cuja diversidade se concentre na coerência e não na contradição diante de uma questão não resolvida.

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

 

Jean Piaget finaliza esta obra, citando como referência o ilustre filósofo alemão Karl Jaspers, que destaca o valor e a necessidade da filosofia, pois segundo Karl Jaspers, o homem não pode abrir mão de um procedimento reflexivo e investigativo como a filosofia, porém cabe ao homem o caráter de discernimento entre o lado útil ou inútil de tal procedimento filosófico. Jaspers afirma que a filosofia está presente em todos os lugares, e esta urgência da filosofia não deve ser depreciada em função de posições contrárias ao seu procedimento, feito por um uso, de certa forma, errôneo por algumas pessoas.

 

O grande filósofo alemão destaca que a filosofia deve se deter na essência da verdade, e não em sua posse, como muitos assim o fazem. Um dos objetivos do procedimento filosófico é estar sempre a caminho, pois na filosofia não deve existir uma unanimidade em torno do saber definitivo. O autor denomina tal “filosofia sem ciência”, como uma sabedoria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referência bibliográfica:

 

 

 

PIAGET, Jean. Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Tradução de Zilda Abujamra Daeir. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1969.