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Seminário sobre o texto

 

Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino”,

 

de Friedrich Nietzsche.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observa-se que, em nosso contexto, a educação é normalmente pensada como um fator de singular importância no que se refere à preparação de um cidadão para se relacionar com seu meio social e sobretudo para sua inserção no mercado de trabalho. Sendo assim, para que possamos reavaliar nossas perspectivas acerca da educação escolar de um ponto de vista filosófico e também o próprio papel da filosofia na educação do ensino médio, torna-se fecundo o estudo da maneira como o ensino escolar é pensado por Nietzsche em seu texto intitulado “Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino”. Nesse texto Nietzsche aborda questões que já se mostravam presentes em sua época e que ainda hoje se apresentam, mesmo tratando-se de um contexto diferente do seu, como é o nosso.

 

A critica de Nietzsche acerca da cultura e da educação incidirá sobremaneira ao nível ginasial, pois esse nível constitui a base de toda aspiração à cultura e é nele que o aspirante começa a ser tolhido pela tendência à padronização, perdendo assim, sua capacidade criativa, original e genial. É no ginásio que ocorre a formação de uma representação do que é a cultura, do que se deve buscar e de que maneira deve-se fazê-lo. O nível universitário não se constitui, na visão do filósofo, como um centro motriz da cultura, pois ele passa a operar como a consolidação das tendências do ginásio. Podemos identificar esse “ginásio” da Alemanha da segunda metade do século XIX com o que, no nosso contexto, denominamos “Ensino Médio”.

 

 

 

O texto aparece como uma forma de diálogo em que Nietzsche procede apresentando uma história pessoal na qual ele teria presenciado uma conversa entre um filósofo e seu aprendiz acerca do futuro dos estabelecimentos de ensino.

 

E ele começa expondo suas pretensões juvenis de penetrar no mundo da cultura e se tornar um homem culto. E o que caracteriza essas pretensões é seu caráter não instrumental, sua despreocupação com a utilidade, seu projeto de aprimoramento pessoal independente e, nesse sentido, livre. Essa exposição será importante para que, em seguida, ele faça compreender a oposição entre essas pretensões e a apropriação feita pelo Estado da cultura ou da educação. Podemos entender que o Estado, na medida em que ele tende a sua própria efetivação, se apropria da educação como um instrumento para que essa efetivação seja possível, ou seja, a educação é tratada pelo Estado como um meio para a satisfação das necessidades de seu próprio funcionamento. Sendo assim, a tendência do Estado é buscar na educação a formação de funcionários utilizáveis e incondicionalmente dóceis, cidadãos que estejam habilitados e devidamente condicionados ao trabalho.

 

A partir dessa necessidade do Estado, que gera essa apreensão instrumental da cultura, Nietzsche irá distinguir duas tendências que a educação passa a adquirir nos estabelecimentos de ensino, tendências aparentemente opostas, mas confluentes em seus resultados, ambas prejudiciais à própria cultura enquanto algo mais elevado: “a tendência à extensão, à ampliação máxima da cultura, e a tendência à redução, ao enfraquecimento da própria cultura” (p. 61).

 

A necessidade da ampliação da educação é proveniente das necessidades da política econômica, e a cultura passou a ter uma função de formar os homens para atuarem como trabalhadores (“homens correntes no mesmo sentido em que se diz que uma moeda é corrente”), que sejam capazes de conhecer os caminhos para se ganhar mais dinheiro, perdendo assim sua capacidade de formar indivíduos distintos e geniais. A educação passou a ter o propósito de proporcionar o lucro e essa caracterização toma o valor de uma exigência moral, fazendo com que toda cultura que possua propósitos mais elevados que o dinheiro e o ganho, que necessite de tempo, de vivência (e de solidão), passe a ser repelida e mesmo detestada. Essa perspectiva acerca da educação exige que ela seja rápida e a bem fundamentada para que o indivíduo possa ganhar dinheiro em maior velocidade e quantidade.

 

A primeira tendência diz respeito à tentativa de democratização da cultura, mas, segundo Nietzsche, são poucos aqueles que realmente possuem as qualidades necessárias para se tornarem geniais. Essa democratização, esse direito que todos possuem de ser reconhecido como homem culto, acarreta na atenuação do esforço e do trabalho que essa formação exige, e que na verdade só pode ser realizado por poucos. Através de realização de procedimentos institucionais relativamente simples presentes nos estabelecimentos de ensino acredita-se erroneamente atingir um grau elevado de cultura.

 

 

 

Não obstante essa via interpretativa seja referente ao momento e ao local no qual o autor em questão está inserido, podemos nos apropriar dela para pensarmos o modo como a educação é percebida em nosso contexto. Esse caráter instrumental ou utilitário com que a educação é percebida no nosso contexto, como uma etapa do desenvolvimento profissional que serve exclusivamente às necessidades da sobrevivência e do êxito financeiro, pode ser entendido, através de uma perspectiva cara à de Nietzsche, como uma degenerescência no âmbito da cultura, contrária a tudo o que nela é mais nobre e mais genial, a tudo o que nela possibilita a criação do novo. Pois esse caráter utilitário estaria na base da mediocridade da cultura corrente nos estabelecimentos de ensino.

 

E mais ainda, como essa caracterização da educação, criticada por Nietzsche, toma o valor de uma exigência moral, podemos entender que essa mediocridade passa a ser proveniente não apenas das necessidades da nossa política econômica, mas, em um segundo momento, ela torna-se decorrência dessa forma de valoração que incide sobre a própria educação, e mesmo por parte daqueles que aspiram a ela. Isto se reflete, por exemplo, na incompreensão de um aluno a respeito da importância daquelas disciplinas que ele certamente não utilizará para o exercício da profissão a que aspira. E nesse sentido, a filosofia ocupa uma posição especial, pois ela não se encontra no conjunto das disciplinas científicas diretamente relacionadas ao mercado de trabalho. Portanto, uma determinada perspectiva acerca da educação em geral, acerca de seus objetivos e das aspirações pelas quais a educação é pretendida, configura-se como um dos fatores determinantes de como o ensino da filosofia é percebido. A cultura da velocidade, que busca a informação rápida, passageira e utilizável, ocorre em detrimento de um conhecimento mais profundo e íntimo, que possa ser vivenciado verdadeiramente pelo indivíduo e que contribui para o seu aperfeiçoamento, para sua capacidade de lidar com os problemas da vida.

 

 

 

A outra tendência, a da redução, do enfraquecimento da cultura, refere-se a especialização crescente da educação. Nietzsche afirma que o campo de estudo das ciências tornou-se tão extenso que, para que se produza algo, é preciso que se dedique a uma disciplina em particular esquecendo-se de todas as outras. Ele compara esse fator com o trabalho operário especializado, no qual o trabalhador não participa e nem conhece o processo inteiro de produção, mas apenas aquela função específica que ele exerce. Para Nietzsche isso chegou a tal ponto que na Alemanha do seu tempo se admira essa especialização e esse distanciamento de tudo o que não compete à própria especialidade.

 

 

 

A ‘fidelidade nas pequenas coisas’, a ‘fidelidade do carroceiro’, se torna um tema de ostentação, a falta de cultura fora dos limites da disciplina é apresentada como sinal de uma nobre sobriedade”. (p. 64)

 

 

 

E esse é um tipo de formação alienante, que torna o homem da ciência incapaz de assumir uma posição, ao menos enquanto estudioso, acerca dos assuntos mais importantes e dos problemas filosóficos mais elevados.

 

Nesse sentido, o jornalismo se apresenta como expressão da “redução da cultura”, pois ele opera sintetizando os diversos aspectos da cultura do momento presente, nas artes, nas ciências e nas classes sociais, eliminando as diferenças e padronizando aquilo que deve ser conhecido. Além disso, o jornalismo é caracterizado como uma forma pragmática, fria e baixa de lidar com a linguagem, incapaz de penetrar profundamente em seu sentido mais elevado. O jornalismo possui, portanto, um caráter representativo de uma forma de cultura específica. Com efeito, a linguagem possui, para Nietzsche, um papel de singular importância no que se refere à cultura. É por ela que os homens se tornam capazes de conduzir seu pensamento e de penetrar no sentido profundo da vida.

 

E dada a importância da linguagem na perspectiva de Nietzsche, o ginásio possui, para ele, a função de reconduzir os educandos para um uso mais virtuoso da sua língua materna, sobretudo em um tempo onde ela se encontra desfigurada pelas necessidades da “cultura do jornalismo”, pragmática e pueril, que faz da linguagem uma mera ferramenta, desprezando seu sentido vivo.

 

Existe ainda um outro motivo para a importância dada por Nietzsche ao ensino ginasial, que é o fato de que nesse nível o educando se encontra naquela idade que possui como característica a perplexidade e o entusiasmo que o impulsiona a se exprimir e a tomar posição, ainda que de forma primitiva, diante de todo um leque de questões com que entra em contato.

 

Nietzsche critica o cosmopolitismo da cultura alemã, que não busca a compreensão profunda da Antiguidade como sua origem própria e que se encontra desenraizada, afastada de sua identidade propriamente alemã, se tornando apenas uma imitação de tudo aquilo que é considerado cultura, e que resulta em uma grandiloqüência artificial, imprópria e sem sentido.

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

 

 

NIETZSCHE, Friedrich. “Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino”. In

 

Escritos Sobre Educação. Tradução, apresentação e notas: Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003.