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Hegel e Schopenhauer viveram num mesmo tempo, dividiram o mesmo espaço universitário, construíram suas doutrinas filosóficas a partir de uma reflexão crítica da filosofia kantiana, porém seguiram por caminhos diferentes. Schopenhauer lança sua principal obra,OMundocomoVontadeeRepresentação, em1818, um ano depois de Hegel ter lançado a primeira edição da Enciclopédia. O curioso é que os dois filósofos lecionaram na mesma universidadeemBerlim, mas se ignoravam reciprocamente. Não há notícia de que Hegel tenha se interessado pelos escritos de Schopenhauer e, este, pouco se deu ao trabalho de se aprofundar no entendimento daquele que ele considerava uma “charlatão”. Não era apenas Hegel o alvo das críticas, mas Fichtee Schelling também eram desprezados e considerados sofistas, os quais também receberam a pecha de fanfarrões, desorganizadores da filosofia kantiana. Dos três o mais pernicioso foi Hegel. Schopenhauer se considerava o verdaderio herdeiro da filosofia de Kant. Ele também considerava que os jovens universitários estavam sendo ludibriados quando não conseguiam discernir a teologia da filosofia da religião de Hegel, o que para ele não tinha diferença:

 

 

 

Consequentemente, enquanto a Igreja existir, só poderá ser ensinada nas universidades uma filosofia que, composta em total consideração para com a religião do Estado, no essencial, caminhe paralelamente a ela, e que portanto – embora rebuscada, singularmente engalanada e, assim, difícil de entender – de fato nada mais seja, no fundo e no principal, que uma paráfrase e uma apologia da religião do Estado.”1

 

 

 

Ele contrapõe o professor de filosofia que trabalha para subsistir e, por isso, adéqua seus ensinamentos à conveniência do governo ao filósofo que tem como função se ocupar da verdade, tendo em Kant uma exceção, pois foi alguém que não contrariou os interesses do Estado ensinando sua própria filosofia, mas de outro lado não se sujeitou aos interesses do governo. Há o exemplo contrário de Fiche “que ousou negligenciar as doutrinas da religião do Estado no seu filosofar. A conseqüência disso foi sua cassação e, além do mais, o fato de a plebe tê-lo insultado”.

 

 

 

Mais à frente Schopenhauer reforça seu argumento com relação à filosofia universitária que tem como fim enaltecer o Estado em detrimento da filosofia genuína, que busca a verdade. “De fato, não ocorre a um professor de filosofia verificar se um novo sistema estreante é verdadeiro, apenas se ele pode harmonizar-se com as doutrinas da religião do Estado, com as intenções do governo e com as opiniões dominantes da época.”2

 

Ele considerava um absurdo ter que se deparar com um contingente de alunos ávidos para receber os ensinamentos de Hegel, ter que testemunhar um tempo em que professores precisavam se inteirar das ideias hegelianas para darem aula na universidade.

 

 

 

Outro aspecto criticado por Schopenhauer diz respeito à forma hermética usada por Hegel para expressar sua filosofia. Ele diz que os grandes filósofos sempre se esforçaram para se fazerem entender, mas Hegel usa a estratégia da ininteligibilidade para que não zombem dele, pois sabia que dificilmente um filósofo verdadeiro se daria ao trabalho de tentar decifrar seus escritos.

 

Qual o ponto central da crítica aos idealistas, mas principalmente a Hegel? A ideia de Absoluto. Essa ideia apresenta para Schopenhauer uma espécie de retrocesso, pois coloca novamente a possibilidade de se conhecer o infinito por meio da razão, o que seria inevitavelmente a razão conhecendo a si mesma. Outro exemplo de como a questão vai além do pessoal pode ser encontrado no entendimento a respeito do conceito. Por influência da filosofia kantiana, Schopenhauer concebe o conceito como algo que parte do conhecimento da intuição sensível, que num segundo momento se transforma numa intuição intelectual, ou seja, sem esse trabalho em que o entendimento submete os dados sensíveis às categorias do espaço, do tempo e da causalidade, a razão não teria condição de constituir um conceito. Desse modo os conceitos são um resultado dessas intuições primeiras.

 

 

 

Os conceitos, embora radicalmente distintos das representações intuitivas têm, contudo, com estas uma relação necessária, sem a qual eles não existiriam: esta relação constitui, pois, toda a sua essência e a sua realidade. A reflexão é necessariamente uma imitação, uma reprodução do mundo da intuição, embora seja uma imitação duma natureza muito especial em uma matéria inteiramente heterogênea. Além disso, pode-se dizer com muita exatidão que os conceitos são representações de representações”.3

 

 

 

Hegel adota uma posição distinta, o qual considera um conceito a partir desse processo de entendimento como uma mera forma do pensamento, abstrata e vazia. A sua concepção do conceito é concreta. Em outras palavras, pode-se dizer que o pensamento ao se guiar pelo entendimento busca um começo, um início precursor dos conceitos. Segundo Hegel,

 

“de modo algum nós formamos os conceitos, e que em geral o conceito não se pode mesmo considerar como algo nascido. Certamente, o conceito não é simplesmente o ser ou o imediato, mas lhe pertence também a mediação; essa reside nele mesmo, e o conceito é o mediatizado através de si mesmo consigo mesmo. É absurdo admitir que haveria primeiro os objetos que formam o conteúdo de nossas representações, e posteriormente viria nossa atividade subjetiva, que por meio da operação do abstrair, antes mencionada, e do reunir do que é comum aos objetos, formaria os seus conceitos. O conceito é, antes, o verdadeiramente primeiro, e as coisas são o que são pela atividade do conceito a elas imanente, e que nelas se revela”.4

 

Eis um exemplo em que se pode retomar a crítica de Schopenhauer a Hegel ao apontar o fato de que este desorganizou a filosofia kantiana. E quanto a sua constatação de que a filosofia hegeliana assumia ares místicos, uma espécie de centauro ao tentar conjugar filosofia e teologia, culminando assim na “filosofia da religião”, tinha um fundamento que ultrapassava a questão meramente pessoal como foi assinalado. Ainda sobre a questão do conceito, Hegel exemplifica a natureza deste ao associá-lo à teologia cristã:

 

Em nossa consciência religiosa isso ocorre de modo que dizemos que Deus criou o mundo do nada, ou, exprimindo diversamente, que o mundo e as coisas finitas procederam da plenitude do pensamento divino e dos desígnios divinos. Assim se reconhece que o pensamento, e mais precisamente o conceito, é a forma infinita ou atividade criadora e livre, que não precisa de uma matéria dada, fora dela, para realizar-se”.5

 

Estas são algumas objeções que levaram o tenaz Schopenhauer a um embate filosófico, ainda que indireto, pois não há notícia de que houve réplicas da parte de Hegel. Não há apenas uma conclusão, pois numa abordagem perspectivista cada ângulo da pesquisa nos remete a uma observação cuidadosa. E o que podemos dissertar a respeito deste pequeno recorte a partir do texto “Sobre a Filosofia Universitária”, é que o embate entre a filosofia ensinada na universidade nem sempre é realizada por filósofos, o que torna seu ensino descomprometido com a verdade. Talvez alguém questione: “Que verdade?”

 

A tentativa de uma resposta nos levará à pratica do pensar. Essa era a vontade de Schopenhauer, ainda que o resultado dessa prática fosse vontade e representação.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Hegel, G. W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficasvol.I: A Ciência da Lógica; Trad.porP.Meneses,SãoPaulo,Loyola, 1995.

 

 

 

Schopenhauer, A. O Mundo Como Vontade e Representação, Trad. por Jair Barboza, São Paulo, Unesp, 2005.

 

Schopenhauer, A. Sobre a Filosofia universitária,_______

 

 

 

1 Cf. Sobre a Filosofia universitária, pag 35.

 

 

2 Idem, pag 46

 

 

3Cf. O Mundo Como Vontade e Representação, § 9, p. 87.

 

 

4 Cf. Enciclopédia das Ciências Filosóficas, § 163,p. 298.

 

 

 

5 Ibid, idem