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A visão fria substituirá as alegrias do raciocínio, e assistiremos à morte da poesia, esfolada e dissecada pela ciência”. (MILLER, 2010)

 

 

 

Nesta obra, Nietzsche inicia tecendo suas considerações sobre a natureza que o viajante encontra nos homens em todos os lugares, natureza esta, que seria a propensão à preguiça e a tendência a serem timoratos, pois os homens se escondem atrás de costumes e opiniões, sempre se apoiando na tradição. O problema colocado em questão é por que isso ocorre se em realidade, segundo Nietzsche, todo homem sabe que se vive no mundo uma só vez e na condição de único, pois todo homem é um acontecimento, no sentido de só ser possível combinar uma única vez a grande e diversa multiplicidade que constitui um único homem.

 

Mas se todo homem é um acontecimento, por que negar isso? Nietzsche afirma que é “por medo do próximo que exige a convenção e nela se oculta”, ou seja, por agir movido pela moral de rebanho, pela indolência, comodismo e propensão à preguiça, o que faz o filósofo concluir que os homens são mais preguiçosos que timoratos e evitam incessantemente o aborrecimento decorrente da honestidade absoluta, pois temem o vizinho e resistem à alegria de viver aquilo que se é.

 

 

 

Segundo Nietzsche, o artista é aquele que não suporta as relações por conveniência, pois ele detesta a convenção e o conformismo. Dessa forma, o artista revela o segredo de que todo homem é um milagre irrepetível, mostrando o homem em sua forma única e original, tal como ele é. A isso, o filósofo chama de unicidade, isto é, essa revelação de que todo homem é novo e incrível como todas as obras da Natureza. Sendo assim, o grande pensador despreza a preguiça dos homens, pois é ela que dá ao homem o comportamento de mercadorias fabricadas em série. Para o filósofo, o homem precisa deixar de ser indulgente para consigo mesmo e tem que sair da massa para o caminho do “torna-te quem se és”, pois o homem “não és isto que agora fazes, pensas e desejas”.

 

Contudo, a alma jovem é aquela que ainda carrega o ímpeto e a força das vontades autênticas. O estremecimento desta alma vai ao sentido de alcançar a felicidade e sair da opinião e do medo. Pois, para o filósofo, a vida sem esta libertação é desesperada e desprovida de sentido e o homem despojado do próprio gênio não só é sinistro e repugnante, mas também “existe fora de seu eixo, como fantasia frouxa, tingida e gasta, como um espectro sarapintado que não pode inspirar medo e menos ainda compaixão”.

 

Para Nietzsche, é preciso apagar esse tempo da história da autêntica emancipação da vida, ou seja, é necessário matar o tempo de uma época, que coloca sua salvação nas opiniões recebidas, vícios privados. Época na qual não são os homens vigorosos que governam, e sim, são os arremedos de homens e os intérpretes da opinião. Nesse período que é o mais inumado da história e que impera a raça dos conformistas da opinião, aqueles que não se sentem cidadãos deste tempo, precisam contribuir para matar sua época e despertá-la para a vida.

 

Decerto, é a singularidade da nossa existência que nos encoraja a viver na nossa própria lei e conforme a nossa própria medida, pois precisamos sair das pequenas coisas para alçar alturas mais grandiosas. Desta forma, temos que corresponder à reponsabilidade por nossa existência e mostrar porque cada um vive justamente em sua respectiva época, isto é, por que razões e para que fins? É preciso abordar a existência com ousadia e temeridade, pois “ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – somente tu”. Devemos seguir esse caminho sem perguntar para onde ele leva, pois ele é nosso e devemos vivê-lo. Entretanto, surgem os dilemas da alma jovem: como encontrar a nós mesmos? Como o homem pode se conhecer? O que se é verdadeiramente? Para saná-las precisamos cavar em nós mesmos e descer às forças, caminho este que implica muito risco e se fosse orientado lograria coisas mais criadoras. Sendo assim, Nietzsche afirma que devemos procurar as coisas que amamos e as que nos traíram na vida, precisamos encontrar nossos verdadeiros educadores, aqueles que nos formarão e que revelarão o sentido verdadeiro de nossa essência. Pois, os educadores serão nossos libertadores, essa é sua principal função e este é o segredo de toda formação, ou seja, que ela é somente libertação e atua rigorosamente “limpando aquilo que não se é”.

 

Um dos principais meios de encontrar a si mesmo é lembrar quem foram seus mestres e educadores. A Preocupação de juventude de Nietzsche era justamente essa, encontrar um filósofo para educá-lo e em quem ele pudesse confiar plenamente. Em meio a essas angústias Nietzsche encontrou Schopenhauer, que é segundo suas palavras, “o único mestre de quem posso me orgulhar”. A partir disso, o filósofo começa a indagar como seria possível uma educação criadora, uma educação para a liberdade, como esse filósofo o educaria e com quais princípios? Para isso, Nietzsche analisa as duas máximas da educação em voga na época: 1) o educador deve reconhecer o ponto forte dos seus alunos e dirigir tudo para este ponto, ou seja, levar a maturidade e fecundar uma única virtude; 2) o educador deve desenvolver todas as forças existentes e estabelecer uma relação harmoniosa entre elas.

 

Por analogia, o filósofo revela qual a sua escolha na metáfora: “mas porque impor a música àquele que tem uma inclinação verdadeira para a ourivesaria?”. Ele desenvolve dizendo que o desenvolvimento harmonioso compete às naturezas um pouco fracas, mas que para os homens fortes é preciso desenvolver o “centro vivo”, ou seja, a concentração das forças de onde tudo procede. A função do educador é descobrir a força central e impedir que ela atue de maneira destrutiva em relação às outras, sua tarefa educativa é “transformar todo homem sem sistema solar que revele a vida”.

 

Nietzsche demonstra o fracasso da educação que produziu o homem moderno, que é, segundo ele, uma figura mesquinha diante dos gregos e dos romanos, pois se procurarmos dar educação a um orador ou escritor (artes que precisam de orientação) não teríamos nem mestre ou escolas, já que padecemos de instituições envelhecidas que não conseguem educar um homem para o que realmente tem sentido, ou seja, educá-lo para fazer dele um homem.

 

Neste momento da obra, Nietzsche empreende uma análise da ciência e diz: “os alemães pensam mais na ciência do que na humanidade... Se ensinou a eles a sacrificar-se por ela como uma patrulha perdida, a fim de incitar a este sacrifício as novas gerações”. O filósofo alerta para às “numerosas espécies que ficaram defeituosas e corcundas ao se dedicarem sem reflexão à ciência”, esta ciência orientada pelo “quanto mais, melhor”, que provoca uma inquietude na alma moderna, uma confusão que a condena a ser estéril e sem alegria.

 

A questão que fica frente essas considerações nietzschianas é como produzimos um cientista, homem provocado por essa abstração inumana que é a ciência, que precisa ser: desinteressado, substituível, que sabe que é finito, que tem sua individualidade apagada e, além disso, o que é o mais espantoso é como motivamos esse homem a esse caminho tão penoso que é a ciência. Perante esse o homem produzido pela inumanidade, o homem erudito não encontra seu lugar no mundo, pois a realidade que temos é para dissipar a possibilidade de constituição do gênio, já que não temos condições de educá-lo e o exemplo disso é que não existe um educador para o orador e o escritor.

 

O homem moderno vive com o capital de moralidade acumulado pelos antigos, mas não consegue desenvolve-lo, sabe apenas dissipá-lo. Nietzsche pergunta onde estão nossas celebridades, modelos morais, onde estão nossos criadores? Mas, nos não temos mais modelos ilustres e nem reflexões deste tipo, pois existe uma “apatia entre as personalidades modernas, uma inquietude que turva a confiança que têm em si mesmos- o que os torna incapazes de ser ao mesmo tempo, para os outros, os guias e os censores”. Onde estão os médicos da humanidade moderna? Pois não podemos esperar que os especialistas da ciência fação alguma coisa, eles não farão, já que o especialista se contenta em fazer somente abstração da educação moral, ou seja, fica com o puro formalismo.

 

Destarte, precisamos encontrar como educador um verdadeiro filósofo, que nos eleve acima da insuficiência da atualidade, que nos ensine a ser simples no pensamento e na vida, isto é, ser intempestivo, pois hoje os homens são demasiado complexos, complicados e desonestos. Precisamos produzir uma educação que promova o “cuidado de si”, onde não haja separação entre o que se pensa e se vive. Em meio a essa busca do verdadeiro educador que Nietzsche encontra Schopenhauer, o filósofo relata que sentia que tudo que Schopenhauer escrevia era como se tivesse escrito para ele.

 

Para Nietzsche, Schopenhauer, nunca caiu em paradoxo, pois o que é um paradoxo? São afirmações sem confiança e segundo Nietzsche, os homens que se encontram no íntimo de si mesmos não caem em paradoxo, pois dizem o que é profundo simplesmente, o comovente sem retórico, o científico sem pedantismo. Neste momento, Nietzsche cita Montaigne: “Pelo fato de tal homem tenha escrito, o prazer na terra foi aumentado”. O filósofo sente a emoção de ter encontrado uma alma livre e vigorosa, a serenidade, segurança e simplicidade do verdadeiro pensador.

 

Os grandes pensadores são sempre vencedores e só há serenidade na vitória, nas obras dos pensadores e na arte. Nietzsche relata a alegria de está perto desses homens, os sentimentos que temos quando amamos o mais vigoroso. Quando nos movemos e vivemos com autenticidade, liberamos a energia íntima que comunica um ser da natureza a outro e sentimos como é delicioso estar vivo, verdadeiro e cheio de ser. Segundo o filósofo, o verdadeiro pensador é aquele que é honesto, porque escreve por si mesmo e para si; é sereno, porque venceu pelo pensamento e é constate, porque assim o deve ser. O verdadeiro pensador é aquele que tem sua força sem inquietude, que é inteiro, coerente, móvel nos seus próprios eixos e sem hesitação e está obra de Nietzsche é sobre sua felicidade ao ter descoberto Schopenhauer, que para ele é um grande educador e filósofo.

 

Experiência similar ocorreu com Henry Miller, ao encontrar Rimbaud e a força de sua poesia, que gerou intensidades que produziram o livro “A hora dos assassinos: um estudo sobre Rimbaud”, que assim como Nietzsche, trata de grandes questões em relação às inquietudes da alma jovem e dos impasses a sua educação. Portanto, concluo com o pensamento de Henry, que assim como Nietzsche e todos aqueles preocupados como uma educação criadora, diz:

 

Como é possível conhecer o esplendor e a plenitude da juventude quando se consomem todas as energias no combate aos erros e falsidades dos pais e antepassados? Deve a juventude desperdiçar suas forças escapando das garras da morte? Será que sua única missão na Terra é rebelar-se, destruir, assassinar? Só se destina a ser ofertada em sacrifício? E os sonhos da juventude? Serão sempre considerados como loucuras? Deverão ser povoados apenas por quimeras? Os sonhos são os rebentos e os botões da imaginação: têm o direito de também levar vidas puras. Sufoquem-se e ou deformem-se os sonhos da juventude e se destruirá o criador. Onde não houve juventude verdadeira não poderá haver nenhuma idade adulta verdadeira. Se a sociedade terminou parecendo uma coleção de deformidades, não é obra de nossos educadores e mentores? Hoje, como ontem, o jovem que gostaria de viver sua própria vida não tem para onde se virar, não encontra nenhum lugar para aproveitar sua juventude, a menos que, refugiando-se em sua crisálida, feche todos os orifícios e fique enterrado vivo”. (MILLER, pág. 108)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

 

NIETZSCHE, F. Escritos sobre educação (Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino – III Consideração intempestiva – Schopenhauer como educador). Tradução de Noéli Correia de Melo Sobrinho, 2. ed. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola,2004.

 

MILLER, Henry. A hora dos assassinos: um estudo sobre Rimbaud. Tradução de Milton Persson. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010. 128 p.