Resumo dos capítulos 4, 5 e 6 da obra “discursos sobre educação” de Hegel.

 

 

 

Pretendo fazer aqui um brevíssimo e despretensioso resumo acerca dos pensamentos do vasto e influente Hegel no que tange à educação, mais precisamente aos pensamentos expressos nos supracitados capítulos e obra.

 

 

 

Trata-se, com efeito, de discursos feitos em cerimônias de encerramento de anos letivos (1811, 1813 e 1815) em um estabelecimento de ensino no qual Hegel ocupava o cargo de reitor. Nestas cerimônias, por ocasião da entrega de prêmios aos estudantes, Hegel encontrava ensejo para, em linguagem acessível ao público não iniciado nas elaborações áridas do pensamento especulativo, discorrer acerca do papel da escola enquanto instituição formadora do ethos de um povo; enquanto instância fundamental para o curso do espírito em direção à sua culminância.

 

 

 

Hegel destaca, logo no primeiro discurso em apreço, a relevância e centralidade atribuídas ao estabelecimento de ensino – o ginásio – pelos membros ativos da sociedade. Relevância e centralidade que, em seu entendimento, se radicam na “relação da escola e do ensino com a formação ética do homem em geral”; ou seja, a escola constitui uma esfera específica da vida social na qual certos valores imprescindíveis são, por assim dizer, inoculados no espírito dos jovens.

 

 

 

É importante notar que, para Hegel, estabelecer-se-ia uma relação de caráter dialético entre a escola e o restante da moldura social na qual o jovem estudante estaria inscrito. Hegel defende o estabelecimento de princípios organizadores do espírito, bem como a necessidade de fazer de tais princípios hábitos e costumes doadores do norte moral de uma existência coletiva. A relação dialética se daria precisamente no fato de que princípios adquiridos orientariam a reflexão acerca da existência comunitária, e esta, por sua vez, forneceria o sustentáculo normativo do ordenamento societário.

 

 

 

A escola é, nos diz Hegel, uma instância intermediária entre a família e o mundo objetivo. É como que um intróito indispensável ao cidadão que deverá se inscrever em contextos coletivos. E sua indispensabilidade se dá precisamente porque a escola constitui o lócus por excelência da construção e fomento da cultura do mérito.

 

 

 

Para Hegel, o mundo objetivo é a esfera onde a proteção concedida pelo convívio familiar ao indivíduo não tem vigência, isto é, o mundo objetivo é o espaço onde se pode observar um nexo causal inequívoco entre mérito pessoal e êxito: onde os contornos afetivos não condicionam ou determinam a mobilidade do indivíduo no contexto de molduras interacionais. E isso é possível, por paradoxal que possa parecer, pela submissão do aluno a um sistema ordenado e eficaz de regras objetivas. Regras essas que devem ser assentidas pelo seu espírito como expressão inequívoca de seu próprio arbítrio em consonância com um ideal moral incomensuravelmente maior.

 

 

 

Hegel enfatiza, contudo, que escola e família constituem esferas indispensáveis à realidade do aluno; e, enquanto tais devem coexistir de maneira que não obstaculizem uma à outra. Desse modo, cada instância deve responder à sociedade segundo suas respectivas atribuições, não podendo, por exemplo, ser cobrado aos professores o comportamento manifestado pelos alunos no âmbito extraclasse.

 

 

 

Por fim, Hegel agradece ao fundo destinado aos necessitados do colégio e salienta, uma vez mais a necessidade de conjugação de forças entre a sociedade o estado e a escola em direção ao movimento fundamental do espírito em direção ao seu ponto último.

 

 

 

No segundo discurso, cumpre destacar a importância que Hegel atribui aos estudos ministrados no ginásio. As instituições deveriam “constituir o fundamento e o apoio seguros do mutável...”. Hegel defende a função eminentemente mantenedora de uma dimensão imutável no tecido social exercida pelo estabelecimento de ensino; e, ao mesmo tempo, assinala como traço distintivo da juventude a propensão ao novo. E tal propensão se traduz na passagem de uma etapa escolar inferior para outra superior através do concurso exclusivo do mérito pessoal. Passagem que pode ser descrita como um processo, a um só tempo, mantenedor de uma tradição e de uma estabilidade institucional, por assim dizer, e engendrador do movimento indispensável ao curso da história; movimento que advém da ação transformadora de uma juventude que, adequadamente educada, porta o novo.

 

 

 

Tal passagem, no decorrer da vida escolar, assevera Hegel, tem como objetivo formar “servidores do Estado”. Aqui fica evidente, uma vez mais, o estatuto basilar de que o Estado goza em seu pensamento: enquanto ponto máximo da evolução moral do gênero humano, o Estado tem a prerrogativa de exigir que os cidadãos consagrem seus esforços e suas vidas para o atingimento do supracitado ponto máximo. Nesse sentido, os estabelecimentos de ensino, bem como as famílias, enquanto instituições intermediárias, preparatórias, devem se submeter aos imperativos do Estado e preparar cidadãos equipados intelectual e moralmente para servir ao movimento irrefreável do espírito objetivo. Nota-se aqui, outra vez, a emergência da dialética estabelecida entre escola/sociedade: movimento de interdependência entre as duas esferas constitutivas do processo ascensional do Estado. Interdependência inequívoca entre princípios norteadores do espírito e a submissão à moldura contextual conferida pelos hábitos e costumes sedimentados pela tradição comunitária.

 

 

 

E, após defender que a passagem de uma classe para outra deva ser feita com cautela e ancorada no mérito, Hegel defende o ensino ginasial como indispensável ao relacionamento universalizado com o conhecimento. O pensador enxerga a universidade como uma etapa que engendra um relacionamento fragmentário, especializado com o conhecimento. O ensino ginasial exercita, através da apreensão e discussão do mundo clássico, a aproximação dos alunos com conceitos que dizem respeito ao plano do universal sem, no entanto, abandonar a moldura dos contextos concretos. Sem abandonar o plano dos costumes e virtudes que constituem a esfera da realidade particular constitutivas da existência individual dos alunos.

 

 

 

No terceiro discurso, Hegel faz uma contundente defesa do ensino das línguas clássicas nas escolas, bem como da centralidade da ação do estado na organização e oferecimento de ensino. Em consonância com sua concepção de Estado, tal defesa, feita em tempos que Hegel considera difíceis, se traduz também na defesa que o pensador faz do espaço escolar como um lugar onde o estudante pode (e deve) se subtrair às vicissitudes e instabilidades de uma época difícil. E isto, resta evidente, com o fito de fortalecer, nas gerações vindouras, um universo interior forte, capaz de direcionar o curso da história; capaz de oferecer uma base sólida para o movimento do espírito em direção à sua evolução moral. Esta, segundo Hegel, é a única riqueza capaz de se manter infensa às mudanças de circunstâncias, aos entraves ao movimento do espírito: os estabelecimentos de ensino devem estar imbuídos, segundo Hegel, deste sentido histórico, desta missão “sagrada”.