(SOBRE O FUTURO DOS NOSSOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO)

(4ª e 5ª Confs., pp. 119-160) 

 

1  INTRODUÇÃO

 

Escritos sobre Educação, de autoria de Friedrich Nietzsche, é uma reunião de cinco conferências - proferidas pelo filósofo na época em que era um jovem professor no Paedagogium, na Universidade da Basiléia -, acrescidas do texto Schopenhauer Educador, em sua versão completa.

O conjunto de textos presentes na compilação aborda a importância dada por Nietzsche à educação e ao ensino alemão da época, proporcionado os jovens de seu país, ensino este voltado para a formação cultural geral e para o desenvolvimento do pensamento e do conhecimento científico. 

Nestas conferências proferidas na Basiléia, o autor aponta os objetivos, os métodos, os conteúdos e, principalmente, as formas da educação dos jovens, considerando mais especificamente as relações didáticas entre professor e aluno. Em suma, traçando contrapontos num cenário de aspectos históricos acerca da educação enquanto atividade humana, a tarefa de Nietzsche estava em criticar aspectos gerais do sistema educacional sob análise, propondo, por sua vez, uma educação que, de fato, formasse o estudante em sua plenitude humana, e não apenas profissionalizasse o aluno para a vida do trabalho.

De uma forma geral, pode-se enxergar na referida obra a possibilidade de contribuir para diversas discussões contemporâneas acerca dos rumos do ensino brasileiro.

 

2                    SOBRE O FUTURO DOS NOSSOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO (4ª e 5ª Confs., pp. 119-160.)

 

 A apresentação geral das principais questões contidas em Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino está, aqui, restrita à 4ª e 5ª conferências proferidas pelo filósofo. Neste sentido, procura-se identificar os temas e os assuntos de maior destaque, surgidos na crítica que Nietzsche dispara em relação à educação alemã, lançando-se a um breve comentário acerca destes.

 A primeira questão que salta da fala de Nietzsche reside na distinção que propõe entre duas possibilidades daquilo que se designa por cultura: a primeira delas se explica em termos de uma cultura no sentido mais corriqueiro e banal, como sendo o conjunto de saberes produzidos e conservados ao longo do tempo, pelos quais o homem vive e luta pela sua existência, sendo considerada uma escrava útil para a simples manutenção da humanidade; já a segunda interpretação, que se pretende como verdadeira cultura, está relacionada com uma atmosfera superior da existência, que ignora as necessidades corriqueiras do cotidiano, assim como os indivíduos que nele enxergam um caminho para a mera intelectualidade, sendo mesmo uma deusa etérea e delicada.

 A partir destas considerações, Nietzsche alerta para a necessidade de uma educação que não apenas se restrinja à primeira forma de cultura, isto é, uma educação que simplesmente se faça por estabelecimentos de ensino os quais se propõem a permitir aos jovens superarem as necessidades da vida, inserindo-os no trabalho e na sociedade, mas que, atravessando esta projeção mais imediatista e prática, atinja também a cultura em sua plenitude, configurando-se uma real educação para a cultura.  O autor faz uma ressalva quanto às escolas técnicas e às escolas primárias, atribuindo a estas um elogio que lhes convém e reconhecendo-lhes sua importância epistemológica e social, advinda do cumprimento de seus objetivos pragmáticos, como aprender a calcular, aprender a língua, etc., em via do qual os estudantes formados devem adquirir os plenos direitos a eles prometidos. No entanto, o que Nietzsche ainda frisa, apesar de tal ressalva, é a inexistência de estabelecimentos de cultura, tal como entendida daquela forma mais profunda.

 Em seguida, retratado pela voz do amigo do filósofo presente como protagonista no texto, há, finalmente, um questionamento acerca da delimitação e da possibilidade objetiva de se operacionalizar esta forma superior de cultura no interior do sistema educacional. Em suma, Nietzsche indaga sobre como seria possível fundar instituições de ensino que se baseassem numa tal concepção de cultura, na medida em que esta só parece se fazer pela investigação da natureza mais longínqua, o que deve implicar uma tarefa árdua e complexa.

 Mais adiante, no texto, o autor sugere que a maneira pela qual, na época, os estabelecimentos alemães de ensino tratavam a cultura, guardando indevidamente para si mesmos o título de instituições para a cultura, se revelava, em verdade, um freio ao real desenvolvimento do espírito alemão. Assim, ao invés de um estabelecimento para a cultura que proporcionasse, de fato, um avanço do pensamento, a escola era entendida por Nietzsche, muito pelo contrário, como uma resistência estúpida ao curso do mundo.  O texto traz também uma distinção entre duas vias, uma das quais deve ser escolhida pelos jovens em formação educacional. Para a primeira delas, há majoritariamente benefícios e promessas de sucesso. Nietzsche mostra que quem seguir esta via será bem recebido pelos pares da época, terá honras e companheiros. Para a segunda delas, no entanto, a qual se mostra um caminho mais árduo, longínquo e profundo, haverá menos companheiros, assim como menos reconhecimentos e prestígios sociais. Cabe, neste sentido, uma reflexão sobre qual delas aparenta ser uma via digna de ser tomada e atravessada, em conquista da qual se chega a uma plenitude na vida, a uma real aquisição de cultura. Para o filósofo, a constituição de estabelecimentos para o ensino deve estar atenta a este tipo de adoção de princípio, pelo qual se engendra dificuldades distintas na realização efetiva de sua empreitada educativa.

 Em oportunidade que se forma páginas adiante, Nietzsche parece alcançar, finalmente, uma maior clareza quanto à importância efetiva dos estabelecimentos de ensino existentes, e o faz mantendo-se uma certa proximidade com a segunda das vias anteriormente mencionadas, como já esperado. Para ele, a instituição para a cultura é necessária na medida em que abre a possibilidade de convivência com os homens raros, com os homens possuidores da cultura autêntica, para neles encontrar os guias que mostram o caminho para a plenitude e o maravilhamento na vida.

 Mais especificamente quanto aos ginásios, instância bastante polemizada no texto, em particular, lhe é conferida uma espécie de importância extraordinária, na medida em que os objetivos de cultura que estes visam, devem dar a medida para todas as outras instituições, ao passo que, igualmente, os desvios de sua tendência devem também afetá-las de alguma maneira. Neste sentido, a própria universidade é considerada, diante da impossibilidade de exibir um papel de tamanha importância, dada sua estrutura da época, uma mera extensão daqueles ginásios.

 Aprofundando-se na discussão sobre os objetivos a serem alcançados pelo ginásio, Nietzsche mostra que, na concepção rasteira pela qual se atribui a este segmento de ensino a exclusiva e simples preparação do jovem para o ingresso na universidade, as idéias de liberdade e autonomia devem fazer-se claramente presentes, no sentido de conferirem ao jovem estudante a condição de livre, condição esta justamente aquela exigida em nível universitário.

 Talvez a crítica mais expressiva que Nietzsche tece acerca dos estabelecimentos de ensino de sua época esteja, mais especificamente, relacionada à didática entre professor e aluno que se mostra nas universidades. Tal expressividade pode ser explicada pela atualidade desta crítica que, ainda hoje no Brasil, apresenta uma pertinência perfeitamente cabível. O autor expõe que o estudante em geral e, em particular, o estudante universitário, está ligado ao processo de ensino apenas pelos ouvidos, isto é, mostrando-se ser exclusivamente um ouvinte. Qualquer outra atividade de que se lance mão numa oportunidade destas faz que com haja, por sua vez, através da ideia de autonomia, um desligamento da dependência entre o estudante e seu estabelecimento educacional correlato.

 Da mesma forma, o professor exerce sua atividade docente apenas unidirecionalmente. Para este caso, a propósito, pode-se dizer que o professor, fundamentalmente, apenas fala aos estudantes que, pelo menos em princípio, o escutam. No entanto, o professor não fala especificamente para cada estudante, mas fala de uma forma geral e esvaziada, distante destes últimos, por assim dizer, ou seja, de fato separado destes por um imenso abismo de suas percepções.

 As relações didáticas dos estabelecimentos de ensino da época de Nietzsche, as mesmas que vergonhosamente se estendem até o cenário educacional brasileiro atual, se resumem a uma só boca que fala para muitos ouvidos e metade de mãos que escrevem, reduzindo a tão aclamada cultura a uma mera reprodução oral de conhecimentos frios e vazios de sentido.

 Em resultado, o texto sinaliza que o estudante universitário supostamente culto, na verdade, não passa de um aluno de ginásio formado pelos mestres, em um isolamento acadêmico grave, que o priva da verdadeira formação e do real relacionamento com a cultura. Para Nietzsche, é somente caindo imediatamente sobre o espanto filosófico duradouro que se torna possível o crescimento de uma cultura profunda e nobre.

 Ao mesmo tempo, o autor mostra como as universidades tem tratado a filosofia nos últimos tempos, sob uma forma neutra, desvitalizada, ao invés de, pelo contrário, fazê-la adentrando os grandes problemas com uma profundidade inconfundível. Isso significa reduzir a filosofia a um mero ramo da filologia, afastando, então, também da universidade, a possibilidade de revelar-se uma instituição para a cultura, mostrando-se esta, antes, uma espécie de arrogância pela pretensão de figurar como a mais elevada instituição cultural.

 Numa palavra, apesar de toda a pesada crítica aos estabelecimentos de ensino e, incluindo nestes, a crítica à universidade, Nietzsche dá uma direção de onde se pode iniciar a busca pela verdadeira cultura. Esta começa, diz o filósofo, com a obediência, com a disciplina, com a instrução, com o sentido do dever.

 

3  GLOSSÁRIO

 

 Aqui está posta uma relação dos termos, dos conceitos e dos assuntos mais expressivos, contidos na seção em análise. Esta listagem está organizada por tema/assunto (e, por isso, não se segue a ordem crescente da paginação em que os termos listados vão surgindo ao longo do texto), alocando os itens por proximidade de sentido e de relevância para as discussões nas quais surgem.

 

Cultura (entendida em seu sentido verdadeiro, profundo): p. 120-121

Cultura (em seu sentido mais rasteiro e banal): p. 122

Pseudocultura da atualidade: p. 153

Cultura histórica: p. 149-150

Educação para a cultura: p. 122; p. 136

Estabelecimentos para a necessidade da vida: p. 125; p. 136

Espírito alemão: p. 131; p. 155

Objetivos da escola: p. 123; p. 138; p. 144

As duas vias: p. 136

Papel da filosofia: p. 128; p. 148-149

Estudantes e juventude: p. 142; p. 145; p. 148; p. 156

Professor e atividade docente: p. 147

Ginásio: p. 144-145

Liberdade: p. 145; p. 148

Autonomia: p. 145; p. 152-153

Autoeducação acadêmica da cultura: p. 147-148

Corporações: p. 155-157

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino. In: _______ . Escritos sobre educação. Tradução, apresentação e notas de

 

Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003.