1. Introdução

 

No momento em que por regulamentação federal, o Ministério da Educação está re-introduzindo na grade curricular do Ensino Médio nacional, o ensino obrigatório do estudo de Filosofia, nos deparamos com um debate sempre recorrente, não somente a maneira como a “disciplina Filosofia” pode ser ministrada, no sentido das ferramentas ou materiais a serem utilizados para um bom desempenho do professor em sala de aula, mas principalmente a forma e conteúdos desses materiais.

 

Dentre esses materiais se encontra o Livro Didático, que não pode ser compreendido separadamente do contexto escolar, mas isto sim, como mais uma das ferramentas para ministrar o saber filosófico; No entanto, por ser tratar de um material de uso cotidiano do aluno e professor, se constitui de extrema importância a sua escolha por parte da instituição de ensino.

 

O Livro Didático pode ser considerado um produto cultural, pois dentro das suas especificidades disciplinares, não deixa de representar as visões da sociedade em que ele está inserido, ou a partir da qual foi elaborado, uma vez que a lógica da escola, ao ser comandado por atores sociais, de algum modo se constitui um micro-cosmo dessa sociedade, o que não deixa de acontecer com o Livro Didático, que também é operado por atores sociais com seus costumes e visão de mundo (ideologias).

 

Nesse sentido, por se tratar de um elemento importante no processo de ensino-aprendizagem, a escolha do Livro Didático vem a ser de extrema importância à difusão tanto no que diz respeito à história da filosofia, como em relação aos temas centrais que perpassam historicamente a disciplina. Ao lidar com escolhas, pelo simples fato da vastidão dos temas, à atribuição dos conceitos filosóficos e seus valores dentro do conteúdo do Livro Didático, sua distribuição e abordagem no que concerne a formatação desses saberes, podem contribuir de maneira suficiente ao professor e suas metodologias, atingindo os objetivos propostos.

 

Selecionamos três livros de Filosofia para construir um comentário, ainda que precário sobre suas qualidades, averiguando se porventura abrangem as competências e diretrizes orientadoras propostas pela MEC.

 

Por se tratar de uma parcela importante do mercado editorial, uma vez que representa 50% do mercado de livros no Brasil,1 ao selecionarmos livros editados em datas diferentes, objetivamos alcançar também se o Livro Didático acompanhou apenas uma evolução tecnológica, no que diz respeito à qualidade editorial, que não tem muita relevância para nossos comentários, mas se junto com essa evolução, também veio acompanhada com uma evolução no processo de aprendizagem do ensino de filosofia.

 

 

 

2. Os livros e as escolhas autorais

 

Os livros de Filosofia , em sua maioria, no tempo que se compreende por um passado recente, eram traduções de edições estrangeiras, refletindo uma visão filosófica de outros centros culturais, segundo Antônio Xavier Teles, autor da sua Iniciação ao Estudo de Filosofia, motivo pelo qual colocou no anverso da capa do livro, um subtítulo à sua obra de Iniciação à Filosofia Segundo Nossa Cultura.

 

Essa me parece ser uma das características dos Livros Didáticos de filosofia no Brasil a partir dos anos ditatoriais, que ao contrário do que exploram os críticos amadores, o ensino de filosofia não foi proibido durante os anos do regime militar no Brasil, mas quando muito colocado a uma carga horária reduzida por um lado, como contrapartida, incentivando o ensino de valores que diziam respeito à nossa realidade como “país do futuro”, buscando um autoconhecimento e valorização de nossa pátria amada, com ideais desenvolvimentistas.

 

Os Livros Didáticos de Filosofia passam então a tentar se enquadrar a essa realidade, se diferenciando das traduções clássicas européias, procurando mergulhar em temas que dizem respeito às indagações filosofias que partam dos fundamentos que os clássicos nos colocam, mas buscando um diálogo menos abstrato aos debates com seus leitores e estudantes, adotando essa característica comum para o Livro Didático de Filosofia. Nossa escolha para verificar tais afirmações, foi de três livros didáticos de épocas diferentes.

 

O livro Introdução ao Estudo de Filosofia, de Antônio Xavier Teles, é um livro editado em 1974 pela Ática na sua 11ª edição, portanto um livro utilizado na época da censura da imprensa, e se propõe ser um livro destinado ao segundo grau, mas também às ciências que necessitam de uma fundamentação filosófica.

 

O livro Convite à Filosofia, da mesma editora, editado em 2008 em sua 13ª versão, é um livro do período da democratização, em como preocupação suscitar problemas do cotidiano, indicando que os problemas filosóficos não são estranhos à nossa experiência como cidadãos, apresentado em 424 páginas, portanto um livro com um conteúdo significativo, exigindo um conhecimento razoável da história da filosofia por parte do professor ao adotá-lo para seus alunos.

 

Fundamentos da Filosofia, de Gilberto Cotrim, de 2008, procura cuidar questões da humanidade, levantando os grandes temas que afligem o homem moderno ao longo da sua historicidade.

 

 

 

3. Introdução ao Estudo de Filosofia

 

Editado em 1974, o Livro Didático de Antônio Xavier Teles, na época professor do Colégio Pedro II, propõe abordar temas filosóficos que não usem uma terminologia excessivamente abstrata, muito provavelmente tentando, se diferenciar de traduções estrangeiras, procurando se adaptar a um método que segundo próprio autor, seja claro e acessível a um iniciante no estudo de filosofia.

 

O livro está dividido em três partes que são Filosofia antiga, Filosofia atual e Lógica formal moderna respectivamente, que nas suas 207 páginas, expõe os temas com muita superficialidade, e o uso aqui da palavra muita é proposital, para diferenciar da palavra bastante, que tem o significado de suficiente.

 

O simples pode ser o bastante, no significado de suficiente, e no entanto não ser superficial, o que não acontece com o livro analisado, pois se o autor como ele próprio escreve, pretende ser uma opção às edições estrangeiras, a primeira parte do livro fica muito comprometida pela superficialidade e pela historicidade, sem fazer apontamentos, mesmo que de maneira simples, de temas centrais para entendimento do que buscou o homem grego.

 

A seu favor contamos com o pequeno espaço e relevância que fora dado aos estudos filosóficos nas escolas públicas no período de utilização do Livro Didático analisado.

 

Julgamos que o autor poderia ter considerado esse fator, bem como o número de páginas limitado para um tema tão vasto, e ter privilegiado mais a filosofia grega, preterindo fazer citações das filosofias chinesa e hindu, que longe de não serem importantes, mereceriam leituras paralelas ao Livro Didático.

 

A exclusão de fragmentos de escritos da Filosofia grega, no capítulo dedicado a essa abordagem, se constitui em nossa opinião uma falha, uma vez que o compromisso do livro é a inserção numa cultura que é nossa, portanto ocidental, não se justificando portanto, dedicar um maior número de páginas sobre o budismo e como fazer uma meditação Zen, considerando pouco espaço aos gregos em geral.2

 

Dentro da parte dedicada à Filosofia antiga, encontramos capítulos dedicados a conceitos filosóficos e exposição de seus valores à sociedade, que o autor desenvolve acompanhado de pequenos resumos, e exercícios no estilo tradicional, pedindo o preenchimento com alguma palavra na linha pontilhada, ou questionando a definição de algum conceito, estilo comum à época.

 

Na segunda parte do livro o autor parece mais coerente com seus objetivos, ao não tratar de um filósofo especificamente, mas orientando para algumas linhas filosóficas ou temas marcantes da era moderna e contemporânea, exceções feitas a Bertrand Russell, Henri Bergson, Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse, que estão destacados em capítulos específicos.

 

Na terceira e última parte do livro, dentro do estilo dos primeiros capítulos, oportunamente, o autor dedica uma maior parte do livro à lógica formal moderna, talvez pelas suas intenções de estender sua edição filosófica às demais disciplinas, uma vez que a lógica oferece com mais facilidade essa transversalidade pretendida, ou mesmo pela necessidade de um estudo mais dirigido à analítica. Esse capítulo satisfaz satisfatoriamente as competências e objetivos.

 

Destacamos ainda que o autor dedica um capítulo à Filosofia no Brasil, bem como utiliza parte importante de sua bibliografia a autores brasileiros.

 

 

 

4. Convite à Filosofia

 

Tendo como finalidade informar, provocar o raciocínio, a reflexão e a crítica, segundo a própria autora (Marilena Chauí), na apresentação do seu Convite à Filosofia, consideramos que nossa filósofa se nutre de alguma modéstia, pois ao se tratar de um livro didático que cobre todo o currículo escolar do ensino médio, também pode ser aproveitado em cursos de graduação, e nesse sentido tem muito mais do que uma finalidade de informação e provocação, podendo ser plenamente usado como investigação filosófica mais ampla curiosidade o diletantismo

 

O livro é dividido em sete unidades, e essas em capítulos que nos chamam a refletir sobre temas da filosofia, colocando o aluno/leitor diante das diferentes interpretações com que o tema tem sido abordado ao longo da história por seus principais pensadores.

 

Podemos dizer que a autora também se apropria de acontecimentos marcantes de nossa história para discutir esses temas, principalmente do tempo presente, onde, num capítulo dedicado ao que ela chama de “O mundo na Prática”, onde esses temas são abordados como alicerce para verificação do posicionamento de diferentes filósofos ou até mesmo poetas, que através de seus pequenos fragmentos, não somente o aluno se depara com a leitura do filósofo, mas também consegue fazer uma ligação para situações que para o senso comum não são vistas como questões filosóficas, mas trazem possibilidades de posicionamentos e indagações feitos ao longo dos séculos.

 

Uma dessas situações que esteve sempre presente ao homem, e no tempo presente vem se intensificando, e por isso mesmo muito bem utilizado pela filósofa, é o uso das imagens como meio de linguagem, ao fornecer significado às nossas transmissões.

 

Chauí utiliza no entanto não só a imagem estática, já utilizada por outros autores, mas através da imagem nos seus 24 movimentos por segundo, nos mostra que desses movimentos podemos demonstrar conceitos filosóficos, de maneira a não necessitar exclusivamente da escrita como significado para esses conceitos.

 

Os filmes que Marilena Chauí utiliza, são filmes preferencialmente do conhecimento popular, e por isso mesmo, de alguma forma já trazem para sala de aula algo de conhecido, consequentemente tornando mais fácil a aceitação, temas que muitas vezes sofrem resistência no momento da discussão.

 

A autora peca somente quando não trás uma filmografia complementar, tampouco uma sinopse dos filmes, duas ferramentas de grande importância para um estudo solitário.

 

Os exercícios são propostos de maneira comum/normal, com questões dissertativas no estilo que pede por definições (O que é? Qual? Por que? Defina etc.).

 

 

 

5. Fundamentos da Filosofia, História e Grandes Temas

 

Gilberto Cotrim segundo nossa análise, procurou imprimir certa originalidade na sua obra, que pretende transmitir o ensino de Filosofia ao Ensino Médio, utilizando outrossim da história da Filosofia como centro ou apoio para sua maneira de tratar ou transmitir as vertentes filosóficas, mas destacando dois capítulos a historicidade, que são os capítulos dedicados ao Homem e aos grandes temas

 

O primeiro capítulo, que trata do ser humano e suas ações na sociedade, tem como predominância a relação do Homem com o Cosmos, consciência e teoria do conhecimento, ou seja, pretende cuidar de como a Filosofia trata o “Eu” psicológico, ontológico e metafísico.

 

No segundo capítulo, reservamos nossos comentários, pois o autor cuida da história da Filosofia, importantíssima segundo nossa avaliação, mas tratada de maneira tradicional, como se espera de um Livro Didático de Filosofia.

 

A parte que encerra o livro, é dedicada aos grandes temas que da atualidade, que envolvem política, ética, natureza, considerados sob conceitos e pensamentos dos grandes filósofos,

 

Gostaríamos de ressaltar como ponto forte do livro, e me parece já uma característica dos Livros Didáticos destinados aos estudos de ciências humanas, a importância dada a debate do tema com a introdução de filmes, como pequenas sinopses que facilitam o aluno a entender o conceito trabalho pelo professor, além de uma filmografia destacada no final do livro.

 

Parece que aos poucos se introduz a idéia de que o filme ajuda a entender o conceito, e o conceito ajuda e entender o filme, sem necessariamente destacar o filme com seus pontos estéticos, mas a produção voltada para a problematização de um determinado tema presente na sociedade contemporânea.

 

O autor destina também pequenos resumos dos temas para o melhor entendimento. Sobre os questionários penso que o autor lida bem com o tradicionalismo nesse quesito.

 

 

 

6. Considerações finais

 

Podemos notar perante essas três análises feitas nesse “Comentário de Livros Didáticos”, que os autores estão sempre preocupados com uma melhor transmissão dos conhecimentos filosóficos, preocupação essa que, já desde os anos 70, como pudemos constatar, vem atrelada a uma procura à introdução de temas centrais ou norteadores, utilizando fatos que pertencem ao cotidiano nacional, facilitando uma melhor visualização dos temas, tentando ao mesmo respeitar a diretrizes do MEC.

 

Quando aos sistemas de avaliação nos livros analisados, notamos que todos possuem na maior parte das vezes a mesma metodologia, o que mostra não ser essa uma grande preocupação dos autores.

 

Constatamos porém, que trabalhar temas filosóficos no Ensino Médio é possível através de várias metodologias, mas que a história da Filosofia perpassa conjuntamente de alguma forma, quaisquer métodos que porventura se venha a adotar, quer seja como maneira de introduzir os filósofos, dando ao método bases que justifiquem, quer como facilitador à compreensão dos temas, visto o rigor necessário da metodologia para alcançar os objetivos pretendidos. A história da Filosofia não está nos livros didáticos de edições recentes de maneira gessada, mas surgindo quando para sua viável colaboração, entre idas e vindas dos conceitos, ou para abertura à explicação dos valores da sociedade e suas inquietações, sendo dessa maneira utilizada para ajudar a transmitir os temas filosóficos que irão ajudar a formar nossa cultura.

 

 

 

7. Referências bibliográficas

 

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª Ed. São Paulo: Editora Ática, 2008.

 

COTRIM, Gilberto. Fundamentos de Filosofia, História e Grandes Temas. São Paulo, Editora Saraiva, 2006.

 

TELES, Antônio Xavier. Introdução ao estudo da Filosofia. 11ª Ed; São Paulo, 1974.

 

 

 

1 Esse número é oficioso, e compreende livros didáticos de todas as disciplinas.

 

2 A crítica pode ser considerada, no caso da utilização de material suplementar que satisfaça em algum instante essa exigência.