I – INTRODUÇÃO

 

 

 

Pela presente dissertação pretende-se apresentar, sucintamente, características do movimento sofistico, com a apresentação do pensamento de seus maiores expoentes e algumas marcas de seu mais poderoso instrumento: o discurso.

 

 

 

II – O TERMO “SOFISTA”

 

 

 

Há um tempo, o termo “sofista” adquiriu um significado pejorativo, referindo-se àquele que faz raciocínios capciosos buscando enfraquecer o verdadeiro, que reforça o falso encobrindo-o de aparências de verdadeiro. Porém, o significado original do termo refere-se ao sábio, o especialista do saber, possuidor do saber; portanto, trata-se de significado altamente positivo. A pejoração do termo surge a partir de Sócrates e seus discípulos Platão e Xenofonte, visto que estes travaram uma imensa batalha ideológica contra os sofistas, e logo após, Aristóteles, que vem a codificar o pensamento de Platão. Vejamos um exemplo no texto de Xenofonte:

 

 

 

Porque se alguém vende sua beleza por dinheiro a qualquer que deseje, chamam-no prostituto (...) analogamente, os que vendem por dinheiro a sabedoria a qualquer um, são chamados sofistas, que é o mesmo que dizer prostitutos. (Xenofonte, Memoráveis, I, 6, 13).”

 

 

 

Os sofistas operaram uma revolução em relação aos filósofos da physis, que haviam chegado ao ponto de se anularem mutuamente quando os resultados do eleatismo contradizem os resultados do heraclitismo; os dos pluralistas contradizendo os monistas, as soluções pluralistas se excluindo mutuamente por seus fundamentos ou pela determinação do pensamento; de sorte que a pesquisa do naturalismo havia esgotado todas as possibilidades e chegado aos seus limites. Surge, então um novo objetivo: o homem e tudo o que lhe é típico. A reflexão dos sofistas centra-se no homem como ente individual e social, sua vida, costumes, reflexões sobre o bem e o mal, a ética, a política, o discurso, a arte, o idioma, a religião, a educação. Surge a direção filosófica que hoje chamamos de “período humanista da filosofia antiga” superando-se, então, o período naturalista da busca do princípio primordial.

 

 

 

III – O MÉTODO INDUTIVO E AS FINALIDADES PRÁTICAS DA SOFÍSTICA

 

 

 

Mudando o objeto da pesquisa, muda também o método. Os filósofos da natureza após estabelecerem qual o elemento primordial deduziam dele várias conclusões; já os sofistas seguiam o método empírico-indutivo. Com partida na experiência busca-se o maior número de conhecimentos em todos os campos da vida e deles se extrai conclusões de natureza prática e teórica.

 

 

 

Enquanto os filósofos da natureza buscavam a verdade por si mesma e o fato de terem alunos ou não era acidental, os sofistas não buscavam a verdade por si mesma e objetivavam lecionar, para estes ter discípulos era essencial. A areté funda-se agora sobre o saber e não mais na nobreza de sangue. São dispensadores do saber, não são simples indagadores, com eles nasce a idéia ocidental de educação.

 

 

 

IV – O ESPÍRITO NÔMADE DOS “ILUMINISTAS GREGOS”

 

 

 

Estes educadores tinham espíritos errantes, iam de cidade em cidade e assim infringiam a fidelidade à sua cidade natal. Desta forma rompia-se o entendimento provinciano que o grego tinha do indivíduo privado, isto é, de que o cidadão era de determinada cidade. O sentimento de reprovação à erraticidade do grego se inverte e se olharmos sob um prisma histórico mais amplo torna-se um mérito posto que haviam guerras entre as cidades e havia uma necessidade de estas se unirem contra os bárbaros num “ideal pan-helênico”, que tornou o cidadão grego um cidadão da Hélade, fazendo os sofistas ultrapassarem Platão e Aristóteles que manterão o entendimento da polis como um paradigma do Estado.

 

 

 

A liberdade dos sofistas subverte as cristalizadas concepções da physis ao criticarem a religião, os preceitos aristocráticos, as instituições, a tradicional tábua dos valores já defendida sem grandes convicções, o que os faz receberem a alcunha de “os iluministas gregos” visto que conseguiram esta libertação com base na razão e na inteligência. Negavam o absoluto do pensamento, mas não negavam o pensamento. Atacavam as representações acabadas que desmereciam as sensações e os particulares. Exigiam o pensamento crítico que pudesse fabricar e ao mesmo tempo destruir representações revelando-se um poder ilimitado e infinito. Uma consciência crítica voltada para os objetos imediatos como as leis, os costumes, as paixões e a religião, o que dá ao pensamento sofista originalidade; consciência que não acredita, mas investiga, que critica para construir o conceito da “produtividade do espírito”, safra que só é alcançada se em plena liberdade.

 

 

 

V – AS CORRENTES DA SOFÍSTICA

 

 

 

Há que se observar que não existe um sistema ou um doutrina sofística o que impossibilita reduzir o pensamento de seus representantes a proposições comuns, mas esta representa um complexo de esforços independentes para satisfazer, com meios análogos, necessidades idênticas, que implicam numa série de problemas idênticos concernentes ao homem, à sua areté, à tabua dos valores morais, que são, em suma, os problemas ético-políticos. Contudo pode-se distinguí-los posto que a sofística sofreu uma evolução e uma involução; e, entre os mestres da primeira geração e os discípulos da segunda geração há uma imensa diferença. Distingue-se pelo menos três grupos de sofistas: o primeiro, os grandes e famosos mestres de primeira geração, moralmente discretos e dignos de respeito; o segundo, os eristas, que exploraram o método sofístico exaltando seu aspecto formal, mas sem interesse pelos conteúdos; não tão discretamente morais quanto seus mestres fizeram do discurso uma arte de contendas e de logomaquia; e o terceiro, os sofistas políticos, nada discretos moralmente, usaram os princípios sofísticos para teorizar o desprezo à moral que desencadeou num desprezo à Justiça e às leis. Veremos agora brevemente as figuras e os grupos de sofistas somente no que se refere aos seus discursos e suas técnicas para a eloqüência e persuasão.

 

 

 

VI – A ARTE DOS “LOGOI”

 

 

 

A arte do discurso se apresenta como marca distintiva dos sofistas com muito exagero, mas há que se observar que todos os grandes sofistas utilizaram-se dela fosse no ramo político, jurídico ou epidêitico, fosse como professores, praticantes, sistematizadores e escritores de manuais de retórica. Infelizmente os seus escritos desapareceram quase por completo e conhecemos suas doutrinas justamente através dos filósofos que a eles se opuseram: Platão e Aristóteles, que, por seus testemunhos, amaldiçoaram seus pensamentos. A arte da persuasão era exercida pela oferta de razões ou definições de uma coisa (os logoi), tendo por fundamento não o que esta coisa seria em si mesma, o que seria por natureza (physei), mas a tendo conforme esta nos aparece ou conforme esta nos será útil. Parte de opiniões subjetivas, pessoais, sobre as coisas e ensina a persuadir os ouvintes de que a opinião do locutor é a melhor.

 

 

 

VII – PROTÁGORAS

 

A – OS PRINCÍPIOS DO “HOMEM-MEDIDA” E DAS “DUAS RAZÕES CONTRADITÓRIAS” – O maior e mais famoso dos sofistas em sua proposição fundamental elaborou o seguinte axioma: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são, e das que não são pelo que não são. (Sexto Empírico, VII, 60)”, entendendo-se por “medida” a norma do juízo e por “coisas” todos os fatos em geral. Axioma que é norteador do relativismo ocidental, posto que negava um critério absoluto que discriminasse o ser e o não-ser e em geral todos os valores; o critério é relativo, é o homem, o homem individual.

 

 

 

Conforme Diógenes Laércio, Protágoras afirmava que “em torno de cada coisa existem dois raciocínios que se contrapõem entre si”, que se pode aduzir razões que se anulam mutuamente; e segundo Aristóteles, ensinava como “tornar mais forte o argumento mais frágil” através do método intitulado antilogia ou controvérsia aplicando oposição a várias teses ou hipóteses; ensinava ainda, a criticar e discutir num estudo de razões e contra-razões, observando-se que isto não implicava em ensinar a injustiça ou a iniqüidade. A essência dos valores não era definida, só umas razões faziam uma coisa parecer boa e outras parecer má ou feia.

 

 

 

VIII – GORGIAS

 

 

 

Gorgias parte de uma posição niilista, tendendo à negação absoluta da possibilidade de conhecimento fundado na negação da possibilidade da existência de algo permanente dentro da multiplicidade da mudança. Sustentava três teses concatenadas entre si: primeira: Não existe o ser, isto é, nada existe; segunda: mesmo que existisse o ser ele não seria compreensível e; terceira: e mesmo que fosse compreensível ele não seria comunicável, que não são um jogo de habilidade discursiva, mas objetiva a exclusão da possibilidade de existência ou de exprimir a verdade objetiva, do que Sexto Empírico conclui que: (...) desaparece (...) o critério da verdade: porque do inexistente, do incognoscível, do inexprimível, não há possibilidade de juízo.” (SE, Adv. math. VII.87).

 

 

 

A – A ONIPOTÊNCIA DA PALAVRA E A POESIA – Dá-se o divórcio entre o ser, o pensamento e a palavra, cabe a Gorgias dar autonomia ilimitada à palavra libertando-a da ontologia, ficando esta disponível a tudo. A arte da persuasão consiste em saber explorar o aspecto que ela porta, seja de sugestões, persuasões ou crenças, prescindindo de qualquer verdade, dissolve-se o elo entre a palavra e o conhecimento. Na política, a persuasão garantia o sucesso, o orador persuadia os juízes nos tribunais e o povo nas assembléias, a palavra é instrumento de domínio. Mas Gorgias admite os valores morais e orienta seus discípulos a usarem-na ancorados por estes valores.

 

 

 

Gorgias também foi sensível à poética, como se vê em seu escrito “O Elogio de Helena”, parágrafo 9º: : “(...) chamo poesia (...) de um discurso com metro, e quem a escuta é invadido por um tremor de espanto, por uma compaixão que arranca lágrimas, (...) e a alma sofre, pelo efeito das palavras (...)”. Dessa sorte, a arte não visa o verdadeiro, mas a moção dos sentimentos. Gorgias explicita o valor estético do sentimento e da palavra que produz esse sentimento, que Plutarco diz que suas ficções e paixões produzem o engano. O engano define a não-verdade teórica do sentimento poético que tem autonomia. Platão nega a validade da arte e Aristóteles o busca para descobrir o poder de cathasis e purificador do sentimento poético.

 

 

 

IX – PRÓDICO DE CÉOS

 

 

 

Pródico foi um mestre na arte de fazer discursos a qual fundava sobre algo novo, a sinonímica, sobre a distinção dos vários sinônimos e a precisa determinação das nuances de significados dos diferentes sinônimos. O logos desemboca agora nas inumeráveis formas de dizer as coisas, desemboca na propriedade da palavra e da linguagem. Foi uma técnica muito valorada que surtiu efeitos benéficos e influiu, como já reconhecido, sobre a metodologia de Sócrates na busca “do que é” das coisas mesmo que esta busca tenha se tornado pesquisa mais profunda.

 

 

 

 

 

 

 

X – HÍPIAS E ANTIFONTE

 

 

 

Costuma-se afirmar que a sofística contrapôs nomos e physis para diminuí-la à pura convenção; mas esta oposição não existe em Protágoras, Gorgias nem em Pródico, aparecerá somente em Hípias e Antifonte que compõem a corrente naturalista da sofística.

 

 

 

A – A POLIMATIA DE HÍPIAS E ANTIFONTE – Sofista de muita fama, a quem Platão dedicou dois diálogos, se exponenciava pela polimatia, o saber enciclopédico que fazia Hípias vangloriar-se de além de saber tudo, saber fazer tudo. E para saber e aprender mais necessita-se da habilidade da memorização que Hípias ensinava por meio da mnemotécnica, ou a arte de memorizar. O saber enciclopédico abrangia as ciências naturais porque pensava que a vida humana devia adequar-se à natureza e às suas leis mais que às leis humanas.

 

 

 

Antifonte, radicalizando, afirmava que a natureza é verdade mas a lei positiva mera opinião, portanto poder-se-ia transgredir as leis dos homens, quando se puder ficar impune, para seguir a lei da natureza. Porque as normas de lei são acessórias, mas as de natureza são essenciais.

 

 

 

XI – ERISTAS E POLÍTICOS

 

 

 

A geração mais jovem de sofistas produziu a erística, explorando a polivalência semântica colocavam o ouvinte sempre em “xeque-mate” mesmo que com raciocínios absurdos e capciosos que foram denominados de “sofismas”. Os eristas chegaram mesmo a negar a própria possibilidade de contradizer.

 

 

 

A - CRÍTIAS dessacralizou o conceito dos deuses dizendo-os simples espantalhos introduzidos para frear os maus e para fazer respeitar as leis, que por si não têm força suficiente para se impor, afinando com o dito de Aristóteles em “A Política”: “(...) porque o homem criou os deuses à sua imagem e semelhança (...)”.

 

 

 

B - TRASÍMACO DE CALCEDÔNIA pode afirmar que “o justo não é mais que a vantagem do mais forte” que retira do Livro Primeiro de “A República” de Platão onde este diz que “a justiça é um bem para o poderoso e um mal para quem está submetido ao poderoso” e que “o homem justo tem sempre desvantagem e o injusto vantagem”. Assim, o critério do “homem-medida” torna-se , com a erística a dissolução de todo critério revelando um êxito para sofística, cuja face positiva e autêntica será revelada por Sócrates.