Introdução

 

Sabemos que o ser humano é um ser que vive em comunidade e a partir dessa interação uns com os outros pode desenvolver suas potencialidades. Nesta relação, a linguagem é um elemento primordial, pois é através dela que o homem troca informações, conhecimentos e pode interpretar os acontecimentos. Ou seja, o homem não pensa sozinho; o pensamento é compartilhado entre os homens através da linguagem. No entanto, ao interagir uns com os outros o discurso não vem livre de opiniões pessoais. Neste sentido, pode ocorrer que alguns discursos venham carregados de ideologia, tema que iremos discutir neste texto.

 

O que é Ideologia?

 

A palavra ideologia é composta por dois lexemas latinos: Idea, que significa idéia e logia, que significa estudo, doutrina. No sentido amplo a palavra ideologia significa o conjunto ou o estudo das idéias de um determinado assunto. Mas outros sentidos restritos foram dados a este tema por alguns filósofos.

 

 

 

O termo ideologia foi utilizado pelo filósofo Destutt de Tracy pela primeira vez, em 1796. Sua intenção era fazer uma análise sobre a origem das idéias, isto é, esmiuçar a relação entre pensar e agir. No período pós Revolução Francesa (1789-1799), Napoleão Bonaparte apelidou alguns intelectuais de sua época que o criticavam de ideólogos, pois segundo ele estes intelectuais valorizavam a teoria, mas não agiam. O sentido napoleônico quanto à ideologia é que era uma doutrina onde a teoria e prática estavam apartadas.

 

Para Karl Marx (1818-1883) a ideologia não era necessariamente um sistema onde o pensar e o agir estavam totalmente separados. As idéias da classe dominante influenciam o modo de agir da classe subalterna para manutenção de conforto e patrimônio. Para ele a ordem sócio-econômica da sociedade capitalista, sobretudo o de sua época, onde havia muitas pessoas trabalhando em condições miseráveis nas grandes indústrias, era resultado da dominação dos mais poderosos sobre os mais pobres para atender seus próprios interesses. Neste sentido, a ideologia está a serviço das classes dominantes, pois estas mascaram a realidade para sustentar sua situação.

 

Para Antonio Gramsci (1891-1937), no entanto, a ideologia não tem um caráter totalmente negativo como no sentido marxista. Para ele a ideologia organiza a massa humana, pois uma de suas funções é conservar a hegemonia social. Desta forma, a ideologia na concepção de Gramsci atua como cimento, pois dá unidade à sociedade. Mas a estrutura social não é algo petrificado, na qual dominantes e dominados permanecem no mesmo status quo, mas ao contrário, a ideologia quando somada ao senso comum ajudaria estabelecer uma unidade a classe menos favorecida, que se fortaleceria e passaria a ser classe dominante.

 

 

 

A Ideologia Hoje

 

Atualmente a ideologia pode ser considerada como um discurso que visa estabelecer valores e regras de conduta, isto é, dar aos membros de uma sociedade formas de comportamento: ditando o que devem ou não se fazer, modos de se vestir, o que ouvir, o que comer etc. O discurso ideológico, portanto, determinar normas de comportamento a fim de apagar as diferenças culturais, políticas ou sócias. A diversidade não é bem vinda para esse modo de discurso, pois dificulta o controle das classes dominantes sob as dominadas.

 

Não é fácil perceber a ideologia, pois ela está oculta em diversas áreas do nosso cotidiano: na mídia, na propaganda, nas histórias em quadrinhos entre outros. As propagandas levam as pessoas consumirem cada vez mais por tendência da moda, do que propriamente por necessidade. Os aparelhos celulares é um exemplo atual disto: muitas pessoas hoje em dia buscam modelos novos de celular, até trocam com freqüência porque foi acrescentada uma câmera com resolução melhor achando que o que tem já está ultrapassado. Se pensarmos bem na função deste aparelho veremos que é supérfluo ele ter acoplado tanta outras funções, já que o importante mesmo é fazer ligação e não tirar foto, filmar etc. Além disso, quando esses aparelhos dão problemas técnicos nada funciona. A indústria quer vender sempre e por isso tenta convencer o consumidor para trocar de produto. As propagandas, portanto, camuflam muitas coisas que à primeira vista não são perceptíveis.

 

As histórias em quadrinhos, principalmente do período pós Guerra também têm esse caráter de camuflagem. O Super Homem, por exemplo, não era uma simples história de entretenimento, mas sim a maneira pela qual se pretendia implantar o sentimento de nação e outros valores de fortalecimento nos norte-americanos. O título já dá até uma sugestão; a roupa do super-herói, não por acaso, tem as cores da bandeira dos Estados Unidos; o personagem simboliza a coragem e a firmeza do norte-americano para enfrentar as situações apesar das diversidades.

 

 

 

Tirinha do Super Homem

 

As telenovelas também não estão livres disto. Algumas delas, onde a trama se passa no Rio de Janeiro, o autor mostra apenas a zona sul da cidade, onde tudo funciona, tudo é bonito e perfeito, dando ênfase apenas a classe mais alta do Rio de Janeiro. Na verdade a zona sul é só uma pequena parcela da cidade, pois a realidade é bem diferente: violência, caos na educação e na saúde pública, descaso nos transportes de massa são aspectos que nem sempre são abordados.

 

Esses são só alguns exemplos de como a ideologia se oculta. Mas como podemos perceber esse mascaramento? Podem-se desvendar as distorções através da crítica, penetrando em brechas deixadas pela ideologia, e assim no desenvolvimento do discurso, mostrar sua contradição. Também podemos utilizar os mesmos instrumentos para fazer estas críticas: a propaganda, nos quadrinhos, na mídia etc.

 

E a Filosofia, qual é o seu papel? Ela pode desvelar aquilo que o discurso ideológico oculta. Cabe a ela apontar seus pontos fracos, preencher as lacunas, ainda que não seja possível preenchê-las completamente. A Filosofia é importante instrumento de crítica e pode acabar por dissolver idéias que em muitas vezes passam aos nossos olhos despercebidas.