Quando, como e onde tudo começou?

 

Afinal, onde começa a filosofia?

 

Nessa pergunta podemos propor duas respostas diferentes: primeiro o que seria a filosofia, o que necessariamente podemos dizer que seja filosofia, o que ela possui que a diferencie de outros ramos de saber e de conhecimento; ou então podemos pensar em quando e onde surgiu esse pensar, e como ele tornou-se filosofia. Pensemos então sobre esses dois pontos para entendermos onde começa a filosofia.

 

De fato, um pensamento mais distanciado das suposições da mitologia* começou por volta do século VI a.C., em uma cidade chamada Mileto, na Grécia, quando alguns homens passaram a perguntar-se sobre a origem do universo e a composição das coisas existentes.

 

 

 



 

Esses homens eram Tales, Anaximandro e Anaxímenes – estudiosos que responderam a essas perguntas e formularam idéias bastante inovadoras para sua época. Estamos falando de um tempo distante, quando a escrita ainda não era utilizada, pois os homens viviam em comunidades estritamente orais*. Por isso, desses primeiros estudiosos não existem documentos, livros ou textos escritos, apenas doxografia*, que trouxe até nós a riqueza de um tempo tão longínquo.

 

Esses homens detinham grande saber teórico e prático. Buscaram explicações mais próximas da física para a origem do universo, e por este motivo são chamados de físicos. (suas primeiras especulações relacionavam-se com a physis*). Nesta época não havia a separação por ramos do saber, e tudo que até então havia como explicação para o universo apenas fiava-se na fé que se tinha nos deuses e não no conhecimento das coisas.

 


 

 

 

Monte Olimpo (2.919m). A mais alta montanha da Grécia.

 

Na mitologia grega esta montanha era a morada dos deuses.

 



 

Então, a partir da contradição que os mitos apresentavam – afinal cada povo tinha uma forma diferente de abordar a formação do universo – que se iniciou o confronto desses mitos e a busca de alternativas que pudessem ser mais plausíveis. Os gregos que principiaram o pensamento filosófico puderam perceber isto, pois desenvolviam atividades de comércio com outros povos (o que foi possível para o confronto dos mitos).

 

No entanto esses estudiosos não se denominavam filósofos, até porque na época essa palavra ainda não existia. Nem mesmo a palavra ‘filosofia’ existia! Na verdade, a palavra ‘filósofo’ apareceu mais tarde com outros estudiosos e seu significado tornou-se próximo com aquele que conhecemos hoje ainda mais tarde, no pensamento de Platão e Aristóteles.

 

Podemos considerar esses primeiros estudiosos como ‘sábios’, pois desenvolveram respostas originais para suas perguntas, mesmo que essas respostas não sejam hoje, para nós, muito palpáveis: por exemplo, Tales pensava que a água era o início de tudo no universo, já Anaximandro pensava que algo indeterminado (chamado de apeirón) que propiciava o início de tudo, e Anaxímenes pensava que o ar era aquilo que gerava toda a vida no universo. É claro que depois deles, surgiram outros sábios, formulando respostas diferentes e que contribuíram muito para esse início da filosofia.

 

Mas então, como podemos dizer que esse pensamento elementar pode ser o início da filosofia, onde ela começou se nem chamamos esses sábios de filósofos?

 


 

 

 

O Pensador. Escultura de Auguste Rodin. Séc. XIX

 



 

Esse pensamento, como já dito, foi inovador numa época em que o surgimento de tudo estava pautado na explicação dos deuses, e ele fomentou o desenvolvimento de pensamentos cada vez mais racionais e mais elucidativos. É esse processo de pensar cada vez mais com a razão que tornou a filosofia tão enamorada da sabedoria.

 

A palavra filosofia etimologicamente* é formada por dois vocábulos que significam mais popularmente ‘amor, amizade ao saber’. Podemos dizer assim, que os filósofos não são detentores de saber, ou de todo o conhecimento, mas que de alguma maneira eles tentam se aproximar do conhecimento. E esse conhecimento tende a ser vinculado à razão.

 

Pensamentos racionais surgiram no homem há milhares de anos, após muitas mutações dos primatas até chegar ao homem racional, dotado de razão. Essas mutações ou modificações genéticas vão ocorrendo hereditariamente com o passar do tempo e transformando a percepção do homem em relação ao mundo. Por exemplo, uma pedra não sente ou percebe; um animal pode perceber e sentir coisas isoladamente, mas o homem sente, percebe e associa diferentes coisas e experiências.

 

Para essa compreensão e expansão do pensamento o homem foi favorecido pelo desenvolvimento da fala, pois é utilizando as palavras, a linguagem, que foi possível ao homem comunicar-se.

 

Todo esse pensamento que se desenvolveu antes de uma figura emblemática e importantíssima para a filosofia, Sócrates, dá-se o nome de ‘pré-socrático’, justamente porque se posiciona antes do período áureo* da filosofia, que foi inaugurado pelo pensamento socrático.

 

Desta forma não podemos considerar filosofia simplesmente, comumente, como uma visão de mundo, um estilo próprio, uma concepção de vida que o homem adota para seu uso pessoal. Como vimos a filosofia tem uma história, um princípio, inteiramente ligada com a evolução do pensamento humano e que faz parte do pensamento que usa a razão.

 



 



QUER SABER MAIS



Tales de Mileto, o iniciador da filosofia que conhecemos não nos deixou documentos escritos e assim pouco sabemos de sua pessoa. Mas de acordo com dados confirmados, parece que Tales previu um eclipse, que na opinião dos astrônomos ocorreu no ano de 585 a.C., e mediu a distância de navios no mar.

Conta-se também uma lenda que quando Tales caminhava por sua cidade observando astros no céu estrelado subitamente caiu em um poço. Foi então que, tomado de espanto, pode filosofar. O fato de espantar-se ou interrogar-se é próprio do homem (para Platão – pensador da história da filosofia – a filosofia começa justamente com o espanto, o thauma*).

De fato para ele da água tudo começava. Podemos dizer que a água se transformava em gelo, o gelo em cristal, o cristal em rocha, esta em areia, terra, etc. Também da água se transformava o vapor e o ar.

Para a formação da vida animal Tales também explicava que surgiria da água. Ora, falamos de uma época muito distante e Tales morava numa cidade costeira, próxima ao mar. Conta-se também que impressionado com a observação da água-viva, um animal, não teve dificuldade em explicar a vida pela água. Podemos dizer que para Tales tudo se transformava na natureza através da água.

 

 



 



 

VOCABULÁRIO

 



 



 

Mitologia

 

História fabulosa de deuses, semideuses e heróis da antiguidade, quando, tradicionalmente, tudo é explicado de forma fantasiosa e pouco lógica. Ex.: mitologias grega, romana, egípcia, indígenas, etc.

 


 

 

 

Este é um exemplo das explicações egípcias.

 

A figura representa um mito que no Egito foi criado para explicar o firmamento.

 

A abóboda celeste era o manto da deusa Nut, que tinha as mãos pousadas no Nascente

 

e os pés no Poente. As estrelas eram bordados do seu manto.

 



 



 



 

Comunidades estritamente orais

 

Sociedades onde a fala predomina sobre a escrita, pois esta ainda não se desenvolveu. Na Grécia antiga a poesia de Homero e de Hesíodo foi grandes fontes de conhecimento. Esses poetas versavam sobre a glória dos deuses e homens nas guerras antigas.

 

 

 

Cerâmica. Séc. VI a.C.

 

Antes da escrita, o homem expressava-se através da religião e da arte.

 



 



 



 

Doxografia

 

De doutrinas ou opiniões de filósofos de forma resumida. As doxografias são as primeiras “histórias” da filosofia.

 



 

 

 

Physis

 

Palavra grega que pode ser traduzida como ‘mundo natural’. No entanto não reduz-se somente ao conceito que temos hoje como natureza (vai mais além!).

 



 



 

Etimologicamente

 

Refere-se à etimologia, que estuda o significado original das palavras.

 



 



 

Período áureo

 

Tempo glorioso, magnífico, muito valioso.

 



 



 

Thauma

 

Palavra grega que significa espanto, admiração, perplexidade.

 



 

FILOSOFIA E ENSINO:

 

SEMINÁRIOS

 

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I_ Arthur Schopenhauer e o ensino de Filosofia

 



 

Seminário de 25 de novembro de 2009.

 



 

Palavras-chave: ensino,filosofia alemã, filosofia universitária, hegelianismo, subordinação estatal.

 



 

Como forma de estudo e análise sobre o ensino da Filosofia, utilizou-se o filósofo A. Schopenhauer e seu escrito Sobre a Filosofia Universitária, no qual empreendem-se críticas ferozes ao ensino de Filosofia aplicado nas universidades prussianas.

 

No texto Schopenhauer contrapõe o ensino de Filosofia nas universidades e a própria Filosofia, tão destoantes em seus fins, como em seus meios.

 

A Filosofia apresentada nas universidades é por ele recusada em virtude do vínculo negativo entre o sistema político e administrativo que rege o Estado e os professores de Filosofia. Schopenhauer afirma que os professores de Filosofia estão integralmente subordinados aos ditames do Estado na medida em que a condição para lecionar (ou seja, para a entrada de um professor) nas universidades é a indicação pelos componentes do governo. Logo, apenas aqueles professores que satisfaçam as determinações de dominação política que lecionarão nas universidades.

 

A tradutora do texto Maria Lúcia Cacciola esclarece que de acordo com o Código Geral Prussiano de 1794, universidades e escolas eram instituições estatais que só podiam ser estabelecidas por permissão oficial e eram financiadas e administradas pelos ministros da cultura. Em referência a uma Lei Disciplinar de 1852, os professores como funcionários do governo poderiam ser processados se “tanto na vida pública como na vida privada, caso apresentassem um comportamento indigno de sua profissão”. A admissão nas universidades também dependia da liberação dos ministros para a criação de novos postos solicitados pelas universidades em virtude das necessidades didáticas, quando nomeavam um professor. Porém a escolha era bastante arbitrária: a faculdade indicava três professores, que poderiam ser aprovados ou não pelo ministério, e caso não o fossem outro nome seria indicado pelos ministros.

 

À época de Schopenhauer a faculdade Filosofia encontrava-se em desvantagem perante as outras faculdades e apresentava-se como um instrumento de interesse do Estado.

 

Outro agravante na relação entre o ensino e o poder estatal é que aquilo que o Estado apregoa é tão somente o mesmo que a Teologia também defende. Aliás a Teologia difere e muito das outras ciências, pois em todas as ciências os professores têm meramente a obrigação de ensinar o que é verdadeiro e certo, enquanto os professores de Filosofia problematizam aquilo que a religião (que é a metafísica do povo) também contempla. Assim, os professores de Filosofia, subordinados aos cofres públicos, estão evidentemente revestindo a Filosofia de Teologia, mascarando-a de religião oficial do Estado e continuando a servir esse mesmo Estado, “vendendo mitologia judaica no lugar de Filosofia”.

 

Logo, a verdadeira Filosofia defendida por Schopenhauer destoa da filosofia universitária, proferida pelos filósofos de cátedra. A verdadeira filosofia é o estímulo para pensar, pois não se encontra como um saber pronto e acabado. O verdadeiro filósofo é gênio e, se afastando dos interesses do mundo, convoca sua excelência intelectual para a busca do verdadeiro conhecimento “por si”.

 

Os filósofos de cátedra compactuam com os interesses do Estado, impedem o florescimento de pensadores livres, castram alunos, pensam apenas na sua própria vontade e sua “verdadeira seriedade consiste em ganhar com honra um honesto meio de subsistência para si, para sua mulher e para seus filhos, como também gozar de um certo prestígio junto às pessoas”. Por isso os filósofos de cátedra lançam todos os anos exemplares de sua falsa sapiência que denominam ‘filosofia’, lotam livrarias e eventos de outros colegas universitários contemplando suas mentiras, envolvem jovens de mentalidade infantil em suas aulas que ao ingressarem na universidade e observarem as incessantes falsas glórias dos professores de Filosofia, pensam ser tudo aquilo verdade e os veneram deste modo.

 

Neste sentido, Schopenhauer lança críticas a Fitche, Schelling, Hegel e todos aqueles que compactuam com ‘filosofia’ revestida de religião, de revelação cristã, de absoluto. Defende a exceção que foi Kant, que mesmo sendo professor de Filosofia distanciava sua doutrina dos interesses do Estado, mas lembra que tantos outros grandes filósofos não foram professores e mesmo negavam o pagamento por suas discussões: Platão, Aristóteles, Descartes, Espinoza, Hume, Malebranche, Locke e outros (“encontramos sempre um espírito belo e rico de pensamento, que tem e produz conhecimento, mas acima de tudo, se esforça honestamente para se comunicar”).

 

Schopenhauer alude à dificuldade de leitura dos filosofastros, que carregados de hegelharia trazem danos à comunicação, numa escrita monstruosa, obscura, de palavreado desordenado e vazio que transfere ao leitor a incapacidade de compreendê-los como em sua superioridade todos os outros fossem inúteis e menos inteligentes.

 

Mesmo que a importância do ensino de filosofia nas universidades dê-se pelo fato desta obter uma existência pública (e beneficiar as mentes jovens, familiarizando-se e despertando-se para seu estudo), aqueles que amam a verdadeira filosofia encontrar-se-ão com ela de outras maneiras, pois o livro de um filósofo é muito mais válido que a conferência de um “filósofo de cátedra”.

 



 

SCHOPENHAUER, A. Sobre a Filosofia Universitária. Trad. Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola. 2 ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.