Uma boa pergunta, ao contrário do que à primeira vista possa parecer, deve indicar um problema, senão vários. Não há muito sentido em perguntar o que já sabemos. Contudo, acreditar saber é, na maioria dos casos, mais que asilo de ignorância ou estupidez, é privar-se da possibilidade de novas experiências. E que os sentidos não nos enganem, pensar é experimentar.

 

Para o filósofo francês Henri Bérgson (1859-1941) filosofar constitui em inverter a marcha habitual do trabalho do pensamento1. Quer isso dizer que, num sentido muito específico, pensar filosoficamente significa pensar diferente. O diferente aqui não significa “ser do contra” ou simplesmente contradizer o discurso ou julgamento de alguém acerca de determinado assunto. Não significa também um relativismo fundado nas diversas opiniões possíveis. Com efeito, não é incomum encontrarmos quem recorra à famosa sentença “tudo é relativo” da teoria da relatividade de Albert Einstein (1889-1955) para legitimar dogmaticamente uma opinião particular. Na verdade o que acaba acontecendo nestes casos é uma democracia da ignorância socialmente compartilhada. Tal postura não é apenas antifilosófico como uma interpretação equivocada da teoria cientifica que lhe deu notoriedade. Antifilosófico porque encerraria qualquer discussão séria, não restando mais que um grande silêncio epistemológico pairando sobre uma infinidade de opiniões igualmente válidas – não importando quão absurdas, parciais ou contraditórias fossem entre si. Por outro lado, o equivoco em relação à teoria cientifica está em que aqueles que habitualmente usam do argumento “tudo é relativo” desconhecem que o relativo da teoria de Albert Einstein só tem sentido quando referidas a um elemento absoluto: a velocidade da luz.

 

Compreendendo melhor a questão, percebemos que o pensar diferente que a filosofia toma para si tem a ver com singularidades individuais (mas algo diferente do relativismo). Mais do que qualquer outra atividade humana, a filosofia busca ser nossa aliada na construção da autonomia de pensamento e postura crítica diante os “fatos” e verdades estabelecidas. Contudo, ela aposta na racionalidade e na capacidade humana de produzir conhecimento. Conhecimentos estes que, na medida mesma em que independem do relativismo das opiniões individuais, encontram sustentação naquilo que temos de comum: a razão. Talvez esta seja nossa única arma, mesmo quando precisamos nos defender da crença de que a razão é capaz de explicar todos os fenômenos do Real.

 

Pois bem: inverter a ordem habitual do pensamento, instaurar uma atitude racionalmente inquiridora, formular perguntas radicadas em problemas reais; diríamos: — Aí está a Filosofia! Mas nem todos os filósofos pensaram ou pensam assim. Poderíamos citar inúmeras definições que nos revelariam quão díspares podem ser as diversas conceituações da filosofia. Certamente que desta constelação no céu das definições encontramos características comuns, mas este não é nosso objetivo neste momento. Vejamos uma passagem que nos interessa: “Toda a pergunta filosófica não é mais do que o desejo velado de conseguir uma determinada resposta que já está implícita na própria pergunta”, assim se expressou o filósofo alemão Oswald Spencer (1880-1936). Spencer nos revela algo. Obviamente não sobre a filosofia compreendida enquanto experiência viva de pensamento, mas algo da ordem da angustia humana por sanar suas dúvidas mais íntimas. Pois é sabido que as perguntas mais comuns na filosofia são aquelas que dizem respeito ao destino e fim último do homem. Antes de tudo, desejamos muito essas respostas. Na maioria das vezes queremos apenas receber respostas prontas e acabadas e assim dar continuidade a vida ordinária sem maiores preocupações. Quando, por exemplo, somos educados dentro de uma determinada “cosmovisão” e aprendemos a ver o mundo somente sob a ótica desta educação, a filosofia pode então assumir a função de legitimar tais crenças (neste particular ala tem se mostrado ao longo do tempo como uma arma eficaz do fazer crer). Contudo, a afirmação de Spencer não é uma boa perspectiva, ela nega à filosofia aquilo que faz do pensar filosófico uma experiência radical: a inversão do hábito. Fazer do pensamento lugar de experiências é colocar-se na contra mão do fluxo que nos impele a pensar sempre as mesmas coisas e sempre do mesmo modo. O inverter aqui evocado pode ser compreendido também como conversão ativa. Converter nossa atitude meramente receptiva na atividade autônoma do pensar por si. Atenção aqui! Jamais pensamos sozinhos. Com efeito, quando pensamos, pensamos em bloco de experiências. Ou seja, todas as vozes que nos povoam se fazem ouvir.

 

Um marco da pós-modernidade é o abandono da já a muito falida noção de Eu ontológico. Descartes (1956-1650) pensou que o mundo era constituído por substâncias. O homem apresentava um duplo substancial irredutível: pensamento e extensão. Corpo e alma, duas realidades radicalmente distintas e incomunicáveis. O Eu cartesiano se caracterizava pela substancialidade do cogito. Assim Descartes compreendia a alma, uma “coisa” una e simples, algo revelado pela inegável clareza e distinção da idéia verdadeira de um Eu pensante. Mas o Eu moderno, a substância pensante de Descartes não era suficiente para dar conta da complexidade da subjetividade humana. Como dizia o filósofo Heráclito (540 a.C. - 470 a.C) de Éfeso, cada um é um milhão. Ou seja, somos todos nós um complexo de experiências e nossa subjetividade é também ela uma complexidade. É por isso que quando pensamos, pensamos idéias, pensamos pensamentos. Em nossas excursões pelo incrível universo das idéias estamos em companhia de todos os filósofos que uma vez experimentamos, quer saibamos, quer não. A consciência não é determinante neste processo, ela é seu resultado. Cada idéia supõe já atrás de si uma vasta profusão de experiências: os livros que lemos, as músicas que ouvimos, as tardes de verão de nossa adolescência, as noites de inverso, nossos desejos, tristezas e alegrias.

 

Para se filosofar é necessário saber recolher experiências e movimentá-las a partir de nossa própria força. Isso quer dizer que é preciso ir aos livros de filosofia e estudar aqueles que antes de nós pensaram filosoficamente. Mas não só nos livros de filosofia encontramos conteúdos de caráter filosófico. Até porque esta associação muito das vezes pode ser enganadora. Encontramos filosofia na literatura, na arte, na musica, na poesia, no saber popular. Entretanto, seja nos livros ditos de filosofia ou em outros registros do pensamento humano, a filosofia só acontece quando fazemos destes registros os materiais para o nosso próprio pensamento. Todo conceito, todo conjunto de idéias devem passar por uma reciclagem. Reciclar não quer dizer simplesmente separar o lixo do lixo, o útil daquilo que não nos serve mais. Reciclar não é também apenas reutilizar, mas fazer do existente algo novo. Para se pensar filosoficamente é preciso revitalizar as idéias. Quando fazemos isso experimentamos e exercemos a partir de nós mesmos capacidade de pensar. Como queria Bérgson, desta forma invertemos o curso ordinário das idéias; imprimimos um novo movimento. Saímos da superficialidade dos falsos problemas e nos voltamos para os problemas reais, aqueles que verdadeiramente importam. E de fato, como diria o velho Aristóteles, nos espantamos. O que a antes nos aparecia como óbvio ganha então contornos que não percebíamos. Nosso horizonte se expande para alcances inesperados. Pensar sobre grandes dimensões de possibilidades, isto pode nos oferecer a filosofia. Servirmo-nos dela como se estivéssemos à frente de um vasto e abastado banquete, somente assim alcançaremos aquela força pretendida pelo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) de fazer do pensamento uma atividade criativa. Criar! Genuína atividade da experiência humana. Com estas pequenas observações sinto-me à vontade para convidá-los a uma primeira experimentação filosófica...

 

 

 

Glossário

 

 

 

Cogito: do Lat. cogitare; significa refletir, imaginar. Exerce importante função da filosofia de Descartes: Penso, logo existo (Cogito, ergo sum)."Eu duvido, logo penso, logo existo", é a conclusão que Descartesalcança após duvidar de sua própria existência comprovada ao ver que pode pensar e, se está sujeito à tal condição, deve de alguma forma existir.

 

 

 

Epistemológico: vem de epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego πιστήμη [episteme], ciência, conhecimento; λόγος logos], discurso) é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento.

 

 

 

Extensão (e pensamento): são os atributos essenciais da realidade na filosofia cartesiana. Ou as coisas se manifestam enquanto idéias (no atributo pensamento), ou enquanto corpos (no atributo pensamento).

 

 

 

Relativismo:Atitude ou doutrina que afirma que as verdades morais, religiosas, políticas ou científicas variam conforme a época, o lugar, o grupo social e os indivíduos de cada lugar. O relativismo quando subjetivista (ou seja, que depende apenas do “eu acho” de cada indivíduo) acaba por ser uma fuga das discussões e dos problemas.

 

 

 

1 BERGSON, Henri. Introdução à Metafísica In: Os pensadores. Abril Cultural: São Paulo, 1979. p32.