A maioria dos jovens anseia por ser livre. Já observou quantos movimentos gritando por liberdade, quantas tribos que procuram estabelecer seu próprio estilo, quantos sites e comunidades na Internet com slogans sobre ser livre? Bem, muito antes de nós o filósofo francês Jean Paul Sartre parou para pensar nisso. Ele pensou sobre a liberdade humana e muitos outros conceitos relacionados a ela. Dois de seus principais livros são "O ser e o nada" e "Crítica da razão dialética".

 

Mas Sartre não pensava que precisamos ser livres. Ele pensava que não podemos evitar a liberdade. Complicou? Então, dá um olhada no que vem por aí.

 

O Em-si

 

Sartre é considerado um filósofo existencialista. Isto quer dizer que ele se ocupava de pensar a existência. Sua filosofia também é fenomenológica, ou seja, pensa sobre o que aparece para nós no mundo da existência. Para Sartre qualquer objeto existente no mundo que possua uma essência definida é um ser Em-si. Uma caneta, por exemplo, é um objeto criado para suprir uma necessidade: a escrita. Para criá-lo, parte-se de uma idéia que é concretizada, e o objeto construído enquadra-se nessa essência prévia. Um ser Em-si não tem potencialidades nem consciência de si ou do mundo. Ele apenas é. Os objetos do mundo apresentam-se à consciência humana através das suas manifestações físicas. A isto a filosofia chama fenômeno. Daí a palavra fenomenologia, a área da filosofia que se ocupa das manifestações dos seres Em-si, conforme estas são percebidas pela consciência humana.

 

O Para-si

 

Em meio a todos esses seres Em-si está a consciência humana, mas esta não é um ser Em-si. Ela é um tipo diferente de ser. Ela possui conhecimento a seu próprio respeito e a respeito do mundo, coisas que os seres Em-si não possuem. Por isso, Sartre chama a consciência de Para-si. É o Para-si, ou seja, a consciência que faz as relações temporais e funcionais entre os seres Em-si, e ao fazer isso, constrói um sentido para o mundo em que vive.

 

Já percebeu quantas vezes você relaciona uma coisa à outra, estabelecendo sentidos de causa e efeito ou sentidos de valor? Estas coisas não estão necessariamente relacionadas, mas a consciência estabelece essas conexões.

 

Como a consciência não foi criada para uma finalidade - ela é Para-si – ela define a cada momento suas essência. Cada pessoa só tem como essência imutável, aquilo que já viveu. Posso saber que o que fui se definiu por algumas características ou qualidades, bem como pelos atos que já realizei, mas tenho a liberdade de mudar minha vida deste momento em diante. Nada me compele a manter esta essência, que só é conhecida em retrospecto. Podemos afirmar que meu ser passado é um Em-si, possui uma essência conhecida, mas essa essência não é predeterminada. Ela só existe no passado. Por isso se diz no existencialismo que “a existência precede e governa a essência”. Por esta mesma razão cada Para-si tem a liberdade de fazer de si o que quiser. Pronto, voltamos ao ponto inicial de nossa discussão: a liberdade! Já nascemos livres. Mas, nada é tão simples assim. Vejamos o que Sartre tem a dizer sobre a liberdade.

 

A liberdade

 

Em decorrência disso, uma das afirmações mais conhecidas de Sartre é que o ser humano está condenado à liberdade. Isso significa que cada pessoa pode a cada momento escolher o que fará de sua vida, sem que haja um destino previamente concebido. Ao invés disso, as escolhas de cada um são direcionadas por projetos. Há vários tipos de projeto, como estudar um idioma, comprar uma casa, criar arte, mas Sartre considerava que todas as pessoas são movidas por um projeto fundamental, o projeto de auto-realização. A isso ele chamava de transcendência. Todos temos o sonho de sermos pessoas que já realizaram todas as suas potencialidades, todos os projetos. Um ser que realizou tudo o que podia esgota suas potencialidades, torna-se um Em-si. Isso pode acontecer, por exemplo quando morremos. Nesse momento a consciência deixa de existir, e nos tornamos um ser de essência conhecida, completo e acabado. Mas a morte é uma contingência, algo que acontece sem que possamos evitar e impede a concretização de nossos projetos. Não é a morte a transcendência desejada. Sartre nos diz que o projeto fundamental é tornar-se um ser que já realizou tudo, mas preserva sua consciência, um ser Em-si-Para-si. Qual é o seu projeto? Você já pensou que o que você deseja realizar só será realizado se você tomar as rédeas de seu próprio destino? Isso faz toda a diferença. Não deuses, não pais, não governo, não professores, não amigos, mas você – e somente você – responsável pela realização dos seus próprios projetos: transcendência.

 

A liberdade é que torna possível escolher dentre todas as alternativas possíveis, aquela que vai nos levar a um caminho mais curto em direção ao projeto fundamental. Obviamente as pessoas estão sujeitas a limitações e contingências (fatores delimitadores). Só para dar uma idéia de como a contingência ou a limitação estão para a liberdade, imagine o seguinte: Uma pessoa não pode sobrepujar seu limite físico e escolher que a partir de agora pode voar, mas pode agir, apesar destas limitações. Sartre explica que isso não diminui a liberdade. Mesmo um homem preso a uma cama pode ter a liberdade de querer se curar e andar. Esta é, para Sartre, a verdadeira liberdade da qual nenhum homem pode escapar: "não é a liberdade de realização, mas a liberdade de eleição". O importante não é o que o mundo faz de você, mas o que você faz com aquilo que o mundo fez de você. Uma conhecida fala de Sartre sobre a liberdade é esta:" Uma vez que a liberdade explode no peito de um homem, contra este homem nada mais podem os deuses". Um excelente exemplo atualmente é o de Stephen Hawkings. Ele sofre de uma doença degenerativa que o mantém preso a uma cadeira de rodas, sem qualquer movimento dos membros, exceto de alguns dedos da mão. Ele não pode falar, exceto através de um modulador de voz. No entanto, o Dr. Hawkings tornou-se um dos mais importantes cosmólogos da história (e continua vivo). Ele dedicou sua inteligência a pesquisar os buracos negros, e fez descobertas inéditas! Já imaginou se ele tivesse usado sua liberdade para escolher acomodar-se e lamentar-se? Que perda para toda a humanidade seria esta! Mas ele decidiu realizar-se plenamente em meio à todas as contingências, e fez mais do que milhões que não estão sujeitos a um décimo das contingências que o limitam. Você consegue pensar em outros exemplos nesse momento? Quem são? O que estão fazendo ou já fizeram? Pense em que estratégias eles usaram. Como você pode realizar seu próprio projeto? Que estratégias você pode utilizar?

 

A responsabilidade

 

Ao contrário do que muita gente pensa, liberdade não é fazer o que dá na cabeça inconseqüentemente. Não. Existem conseqüências diversas para cada ação que decidimos tomar. Cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ir a algum lugar, falar alguma coisa, escrever um artigo, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E cada escolha ao ser posta em ação provoca mudanças no mundo que nem sempre podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a algum deus. Em cada momento, diante de cada escolha que faço, torno-me responsável não só por mim, mas por toda a humanidade. E faço isso por minha própria escolha, para que o mundo se torne mais como eu o projetei. Eis a essência da responsabilidade segundo os existencialistas: eu, por minha vontade e escolha, ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não podemos fugir. Ser livre é também ser responsável. Os resultados da liberdade podem ser bons ou ruins. Agir com responsabilidade e reflexão pode aumentar as possibilidades de boas conseqüências. Por isso toda escolha é precedida de angústia. Já se sentiu angustiado ao ter que tomar uma decisão? Isso geralmente acontece porque a gente não sabe qual decisão vai trazer o melhor resultado. Vejamos o que Sartre nos ensina sobre a angústia.

 

A angústia

 

A responsabilidade por todo o mundo é um fardo pesado para qualquer pessoa. A angústia existencial decorre, portanto, da consciência da liberdade e do receio de usar essa liberdade de forma danosa.

 

É muito mais fácil acreditar que existe um plano, um propósito no universo, e que nossos atos são guiados por uma mão invisível em direção a esse propósito. Neste caso, meus atos não seriam responsabilidade minha, mas apenas o meu papel em um roteiro maior. Mas Sartre nos dá mais um de seus conceitos em oposição a essa crença: Não há um propósito ou um destino universal. E o homem diante desta constatação se desalenta. O desalento é a constatação de que nada fora de nós define nosso próprio futuro. Apenas nossa liberdade. É como a criança que nunca deseja ser maior de idade, porque sabe que será responsável por si mesma dali em diante. Há pessoas que agem como crianças, mas não percebem que são responsáveis por si mesmas e por suas decisões quer compreendam isso quer não. Recorrer a outro humano ou divino para tranqüilizar a consciência não é a melhor decisão. Isso pode impedir a própria auto-realização, caso paralise a ação ou alimente a irresponsabilidade ao tomar decisões. Por exemplo, se decido lançar lixo no meio de um rio não haverá homem ou divindade que impeça a enchente mais cedo ou mais tarde. Se eu compreendo isso, posso tomar uma decisão melhor: ao invés de atirar meu lixo ao rio, posso ensacá-lo e dar-lhe um destino seguro e ecologicamente correto. Melhor para a natureza, melhor para mim e para todos os outros que convivem no mesmo ambiente.

 

A má-fé

 

Segundo Sartre, a má-fé é uma defesa contra a angústia e o desalento, porém uma defesa equivocada. Pela má-fé renunciamos à nossa própria liberdade, fazendo escolhas que nos afastam do projeto fundamental, atribuindo conformadamente estas escolhas a fatores externos – ao destino, aos deuses, aos astros, ou qualquer outro plano sobre-humano. Para Sartre toda teoria que coloca sobre as ações do homem um fator determinante é má-fé. Por isso, ele considerava a psicanálise (pensamento de Freud) como má –fé, pois atribuía ao “inconsciente” a responsabilidade pelas ações humanas.

 

Má-fé, no existencialismo, não é mentir para outras pessoas, mas mentir para si mesmo e permitir-se fugir de sua própria responsabilidade.

 

Quando Sartre refere-se à má-fé, ele o faz no sentido de que a mesma significa mentir para si próprio. Porém, o fato de não utilizá-la leva o indivíduo à angústia uma vez que ele não mente mais para si, tendo consciência de que tudo aquilo que lhe ocorre em vida é atribuído às suas escolhas, somadas evidentemente às suas limitações naturais, sociológicas, econômicas, históricas e culturais. Assim, não há como responsabilizar o destino ou qualquer providência divina pelos acontecimentos de sua vida. Diria Sartre: "Estamos sós e sem desculpas".

 

Ao abandonar a má-fé, o homem passa a viver em angústia, pois ele deixa de se enganar. Esta passagem do estado de má-fé para o de angústia é extremamente importante para que o sujeito possa encontrar sua liberdade no âmbito metafísico.

 

Apesar de doloroso esse processo é altamente recomendável, pois leva o indivíduo àquela maioridade de que falamos anteriormente. Ele torna-se mais apto a realizar todo seu potencial.

 



 

Você já se perguntou “Por que Deus me fez assim”? Então, pare de se fazer a pergunta errada. Comece a perguntar-se o que você pode fazer de si mesmo com todo o seu potencial natural, econômico, cultural, social; assim como as contingências dessas mesmas categorias. Mas, tome cuidado para não estabelecer seu projeto existencial a partir da pressão dos outros. Você decide o que fazer e como vai fazer, e desfruta as alegrias ou sofre as dores que acompanham todo o processo. Isso pode ser assustador, mas é – ao mesmo tempo – extremamente excitante. E falando em pressão dos outros, vejamos o que Sartre tem a nos ensinar sobe “o outro”.

 

O outro

 

As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Por outro lado, o homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. "O ser Para-si só é Para-si através do outro", idéia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento. Por mim mesmo não tenho acesso à minha essência, sou um eterno "tornar-me", um "vir-a-ser" que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que desejo. Daí vem a idéia de que "o inferno são os outros", ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido. O que fazer, então? Avalie tudo antes de colocar em prática. Avalie inclusive as motivações. A quem elas atendem? Por que estas coisas me motivam? Elas estão adequadas ao meu projeto ou fazem parte do projeto dos outros exclusivamente, e estes tentam me utilizar para seus próprios fins?

 

Muitos jovens têm servido ao propósito de outros pensando que estão agindo puramente por si e para si. Quantas vezes compramos o que não precisamos, fazemos o que interessa unicamente aos outros, entramos em encrenca para agradar a outros! Você já teve essa experiência? Conhece alguém que a tenha? É importante aprender a partir de tais experiências e percepções. Há partidos que eu não preciso tomar. Não preciso fazer algo porque todo mundo faz. Não preciso pensar como todo mundo pensa, seja o mais ilustre e respeitado cidadão ou o mais cruel fora da lei. Eu posso me fazer a mim mesmo. Sou livre para escolher. Isso traz angústia, mas pode ser uma experiência excitante e altamente construtiva para mim mesmo e para os que serão afetados por minhas ações.

 

Não seria esta uma boa hora para rever conceitos, ações, decisões? Pegue um caderno e anote o que você acredita que precisa fazer ou deixar de fazer para atingir seu projeto de auto-realização. Avalie o próprio projeto. É isso o que você realmente quer? Os efeitos serão benéficos para você e para outros? Escrever ajuda a organizar os pensamentos e você poderá voltar às anotações e avaliar a quantas anda seu projeto – sua vida.

 

Comentaristas para quem quer saber mais:


 

Lévy, Bernard Henri (2001). O Século de Sartre (Tradução de Jorge Bastos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

 

Moutinho, Luiz Damon S. (1996). Sartre - Existencialismo e Liberdade (Coleção Logos). São Paulo: Moderna.

 

Perdigão, Paulo (1995). Existência e Liberdade. Porto Alegre: L&PM.