Walter Benjamin desenvolveu uma teoria da narração na qual encontram lugar, por um lado, a experiência e, por outro, a memória que articula num mesmo plano as condições individuais e coletivas de transmissibilidade da narração. A relação entre esses conceitos, entre outras coisas pelo fato de ser histórica, não é unilateral. Cada momento se plasma diferentemente no decorrer das transformações estruturais da humanidade, seja nas esferas pública e privada, na percepção (aisthesis) do tempo ou ainda nos meios de produção material. A narração, concebida no seio da epopéia, toma a forma do romance, na qual não há mais uma experiência cuja transmissão é articulada na memória coletiva, mas em uma possível rememoração do autor que tenta restituir ao vivido a forma da experiência. Este último conceito tem dupla significação na obra de Walter Benjamin: por um lado, serve para interpretar a mémoire involontaire de Marcel Proust e, com isto, tentar colocar alternativas literárias à narração quando ela perde sua força de origem; por outro, a rememoração serve para caracterizar o trabalho de salvação do passado através de sua atualização, tarefa cara à filosofia da história de Benjamin. Ela não visa recuperar uma experiência que, em sentido forte, está perdida para a modernidade, mas produzir uma experiência em que seja possível ao homem a apropriação da atualidade.

 

O universo do trabalho é também o do narrador e está no foco da teoria da narração circunscrita por Benjamin em seu ensaio sobre Nikolai Lesskow, publicado em 1936. A figura do narrador está ligada a ofícios do mundo antigo e medieval: na fonte criativa do narrador, está a “experiência que vai de boca em boca”, a mesma que confere grandeza às narrativas escritas, desde que tenham conservado os traços da oralidade. O narrador é tanto aquele que conta sobre algo distante, a partir de suas viagens, como o que permanece em casa e conta a partir do conhecimento da história e tradição de sua terra. Neles estão, respectivamente, o marinheiro e o camponês, os quais produziram sua própria linhagem de narradores: “a real extensão do reino das narrações não é pensável em todo seu alcance histórico sem a íntima interpenetração destes dois tipos arcaicos”. É justamente nas corporações de ofício que se dá a conjunção do aprendiz viajante e do mestre sedentário, o qual um dia também foi viajante: no trabalho medieval o saber sobre o distante se une com o saber sobre o passado, do modo como ele é confiado ao sedentário. Nikolai Lesskow, ao qual Benjamin atribui a figura do narrador, viajou no interior de uma Rússia ainda feudal como representante comercial de uma empresa inglesa. A segunda fase de sua obra é dedicada a narrativas que ele foi recolhendo ao longo de viagens. Neste ensaio, com cuja redação Benjamin se ocupou entre 1928 e 1936, encomendado pela revista Orient et Occident, outros temas entram em conjunção para o estabelecimento dos elementos de sua teoria da narração. O texto possui dois movimentos: o que reconstitui o espaço social da narração e o que demonstra como este espaço e a tradição por ele constituída deveriam desaparecer – e daí também a sensação de nostalgia por parte do leitor deste ensaio.

 

A narração está ligada à arte de “dar conselhos”, de modo que o que conta neste processo é a capacidade do narrador/conselheiro dar continuidade a uma história. A narração prescinde de explicações, deixando ao interlocutor a liberdade de interpretação, e sua exatidão não tem a ver com a plausibilidade, uma vez que na origem de muitas narrações se encontra o miraculoso como o mais exato: “é certamente já metade da arte do narrador livrar uma história de explicações, na medida em que ele a reconstitui”. Benjamin reconhece em Lesskow um mestre nessa arte e o aproxima mesmo de Heródoto: nas Histórias, a narração conserva suas forças e é capaz de se desenvolver sempre que recontada, pois não se fecha à interpretação, e sempre suscita espanto e reflexão. A renúncia da interpretação encontra seu lugar no desenrolar mesmo do trabalho manual, através do qual se dá a narração: o ouvinte, interessado em se apropriar da matéria narrada, renuncia às sutilezas psicológicas da ação a ponto de se tornar mais fácil a ele memorizar os fatos e assim poder transmiti-los. Essa renúncia é própria do demorar-se na duração do tempo do tédio, que se dá em função da repetição do trabalho manual, e é onde o trabalhador esquece a si mesmo e pode se deixar gravar profundamente, uma vez desatento, por aquilo que ouve. Esta demora também vale para o trabalho de Proust: todas as coisas que o eu rememora de forma mais viva, aquelas que lhe tomam de assalto pela mémoire involontaire, foram ele é confiado ao sedentário. Nikolai Lesskow, ao qual Benjamin atribui a figura do narrador, viajou no interior de uma Rússia ainda feudal como representante comercial de uma empresa inglesa. A segunda fase de sua obra é dedicada a narrativas que ele foi recolhendo ao longo de viagens. Neste ensaio, com cuja redação Benjamin se ocupou entre 1928 e 1936, encomendado pela revista Orient et Occident, outros temas entram em conjunção para o estabelecimento dos elementos de sua teoria da narração. O texto possui dois movimentos: o que reconstitui o espaço social da narração e o que demonstra como este espaço e a tradição por ele constituída deveriam desaparecer – e daí também a sensação de nostalgia por parte do leitor deste ensaio. A narração está ligada à arte de “dar conselhos”, de modo que o que conta neste processo é a capacidade do narrador/conselheiro dar continuidade a uma história. A narração prescinde de explicações, deixando ao interlocutor a liberdade de interpretação, e sua exatidão não tem a ver com a plausibilidade, uma vez que na origem de muitas narrações se encontra o miraculoso como o mais exato: “é certamente já metade da arte do narrador livrar uma história de explicações, na medida em que ele a reconstitui”. Benjamin reconhece em Lesskow um mestre nessa arte e o aproxima mesmo de Heródoto: nas Histórias, a narração conserva suas forças e é capaz de se desenvolver sempre que recontada, pois não se fecha à interpretação, e sempre suscita espanto e reflexão. A renúncia da interpretação encontra seu lugar no desenrolar mesmo do trabalho manual, através do qual se dá a narração: o ouvinte, interessado em se apropriar da matéria narrada, renuncia às sutilezas psicológicas da ação a ponto de se tornar mais fácil a ele memorizar os fatos e assim poder transmiti-los. Essa renúncia é própria do demorar-se na duração do tempo do tédio, que se dá em função da repetição do trabalho manual, e é onde o trabalhador esquece a si mesmo e pode se deixar gravar profundamente, uma vez desatento, por aquilo que ouve. Esta demora também vale para o trabalho de Proust: todas as coisas que o eu rememora de forma mais viva, aquelas que lhe tomam de assalto pela mémoire involontaire, foram gravadas, reconhece o narrador, nos momentos de maior desatenção. No mundo do narrador, o dom narrativo é dado pelo trabalho no estado de tédio como distensão psíquica (paralelo ao estado de sono como distensão física), e Benjamin se vale de uma bela imagem para descrevê-lo: “o tédio é o pássaro de sonho que choca o ovo da experiência”.

 

Se o ouvinte se deixa gravar com o narrado, também a narração deixa marcas do narrador no narrado, tal como no trabalho artesanal o oleiro deixa a marca da mão na argila do vaso. Benjamin aproxima Lesskow deste mundo de marcas e rastros e vai além do artesanal, tentando buscar as afinidades eletivas da narração com as causas que geram, na natureza, a perfeição de algumas coisas acabadas. Por analogia ao mundo natural, a narração só tem fim no tempo quando chega a uma perfeição. A narração perfeita vem à tona pelo processo de superposição de várias camadas finas e transparentes de narrações sucessivas. A perfeição está ligada a um tempo que tem como horizonte a morte e a entrada na eternidade. A narração retira suas forças da experiência do moribundo, que conserva sua autoridade em relação à experiência vivida e a torna transmissível. Ele se encontra no limiar, na soleira da porta de uma casa em que ainda não nos é permitido entrar, e dali nos pode narrar algo sobre o qual tem plena autoridade. Esta autoridade é a da história natural, pois a morte faz parte dela e a narração só a compartilha na medida em que insere o narrado na história natural. Assim procede o autor alemão Johann Peter Hebel numa pequena narrativa em que a vida da personagem é incorporada ao curso de acontecimentos históricos. Nela, “a morte aparece num turno tão regular como o homem da foice nas procissões que param seu cortejo ao meio dia, diante do relógio da catedral”.

 

Esta forma narrativa, cuja temporalidade é projetada na eternidade, aparece de forma mais ampla na crônica, onde estão contidas todas as maneiras pelas quais uma história pode ser contada: “o cronista é o narrador da história”. O cronista, à maneira de Heródoto, apresenta os fatos e prescinde de explicações, da mesma forma como os cronistas medievais, para os quais o plano da salvação oferece o cânon de interpretação – a explicação é substituída pela exegese, pela qual os fatos são inseridos no fluxo das coisas da ordem divina. A perspectiva do cronista se conserva no narrador Lesskow de forma secularizada, pois já não pode decidir se a história se insere na ordem natural ou sagrada. O curso da história está fora de qualquer categoria historiográfica, pois o narrador mantém fidelidade, embora anacrônica, a uma época ingênua em que o homem se sentia em harmonia com a natureza: o olhar do narrador “não desvia daquele mostrador diante do qual desfila a procissão das criaturas, na qual, sempre depois, a morte tem seu lugar como chefe ou como último retardatário miserável”.

 

A relação da morte com o tempo se repete na figura com a foice diante do relógio da catedral, e nesta representação alegórica se encontra precisamente a luta contra o tempo e a morte tal como também aparece em Marcel Proust. No quadro em que se dão essas relações com a morte e com o tempo, na narrativa épica e no mundo do trabalho, também é importante a relação que os homens estabelecem com a memória: “a memória é a mais épica das faculdades”. A reminiscência é a deusa Mnemosyne, musa da poesia épica: a epopéia é uma zona indiferenciada e abrangente de todas as narrativas, de modo que nela já estão contidos em germe a narração e o romance, e por trás dela está, como núcleo comum às narrativas, a reminiscência, que “funda a cadeia da tradição, que transmite os acontecimentos de geração para geração”, inclusive as musas (Mnemosyne, mãe das nove musas). A memória épica é a musa da narração e a rede tecida pelo narrador de uma história com outra, trabalho que Benjamin compara com o de Scherazade (As mil e uma noites) que, para escapar à morte, durante a narração, imagina sempre uma nova história. Esse espaço de memória, de onde provém a narração épica, é contraposto pelo surgimento do romancista, que não funda mais sua narração na memória, mas na rememoração. Na origem da narração está a reminiscência, responsável pela tradição/transmissão, e no seu desdobramento a memória e a rememoração: “é a rememoração, como musa do romance, que surge ao lado da memória, a musa da narração, depois que, com a queda do épico, a unidade de sua origem se decompôs na reminiscência”.

 

A tendência histórica da epopéia e da narração é o seu desaparecimento. Na literatura de Lesskow, assim como nos contos de fada e nos provérbios, também nas parábolas de Kafka, sobreviveriam ainda elementos de uma narração no sentido tradicional, mas ao lado disto, já desde a epopéia, os elementos do romance começam a se colocar. A leitura desse movimento de declínio da narração e surgimento do romance está ligada ao esclarecimento de alguns conceitos que se ligam em sua origem com aqueles em torno da narração, mas também põe em evidência o fato de que a faculdade humana de narrar é um construto histórico e que se modifica ao lado das metamorfoses da percepção.

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

 

 

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. (vol. I, 1985, Magia e Técnica, Arte e Política; vol. II, 1987, Rua de Mão Única; vol. III, 1989, Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo).

 

 

 

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. História e Narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2004.

 

 

 

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. 17ª ed. São Paulo: Globo, 1995.