EMAIL

 

 

 

PARA: Tales de Mileto

 

 

 

ASSUNTO: H2O

 

 

 

 

 

Olá Tales, já que há muito tempo não nos falamos, e nem nos vemos, pois desde 624 a. C., possível data de seu nascimento e 547 a. C. possível data de sua morte, - datas estas que foram permitidas de serem estabelecidas, pelo seu feito notável de prever um eclipse total do sol em 28 de maio de 585 a. C. – e, nem tenho ido a Mileto, sua cidade, a mais importante da Jônia, onde encontramos os mais antigos filósofos pré-socráticos, como você, Anaximandro e Anaxímenes, resolvi, então, te escrever.

 

Este email é por causa de uma interrogação que me persegue a um bom tempo. Estamos no ano de 2010 d. C. e vivemos uma crise terrível, negligenciamos o cuidado com a natureza e estamos tendo de cuidar do meio ambiente, que nós mesmos, ajudamos a destruir.

 

Estamos como no seu tempo, caçando para sobreviver, um de nossos alvos é o elemento água, que para você foi de extrema importância, tanto é que a partir dele, você concluiu que era o elemento primordial de todas as coisas, e que por conta disso, Aristóteles, considerou você o fundador da filosofia.

 

Atualmente podemos considerar esta caça, como a corrida ao ouro azul, já que para termos uma água de melhor qualidade, a buscamos em garrafas, que normalmente são de cor azul, quanto a sua dedução sobre o elemento água, talvez você não saiba, mas, agora, você é conhecido como um pensador que se baseou no princípio do reducionismo - a idéia de que é possível compreender as coisas reduzindo-as ás suas partes componentes -, já que concluiu que tudo era feito de água, ou seja, “Tudo é Um”, o que não é verdade, é evidente que na sua época você não poderia saber disso, o que para nós, atualmente é óbvio, mas ainda continuo solidária a você, no que diz respeito ao reducionismo de tudo a água, pois a importância que você deu a este elemento foi tão grande que fez você ficar conhecido até hoje. Já nós reduzimos tanto a importância pelo meio ambiente e seus elementos que estamos tendo que racionar o uso da água para preservar a sobrevivência de nossa geração e das gerações futuras.

 

Fico impressionada com a sua perspicácia, em valorar tanto a água, que, por conta disso, você chegou a afirmar que a terra flutuava sobre a água e aborrecida com o nosso descaso em não preservar este elemento tão importante para nossa existência.

 

A maioria dos filósofos de sua época concebia somente princípios materiais como origem de todas as coisas, já você não, e diz que a água é o princípio de todas as coisas.

 

É claro que não posso deixar de repetir que por isso o consideraram limitado, reducionista, mas a sua teoria reducionista nos ajuda bastante atualmente, não fosse ela, não poderíamos pensar em DNA, que só com um olhar reducionista e microscópico, podemos chegar a um universo tão rico e complexo.

 

Com sua visão reducionista, você queria entender de que matéria somos feitos e a partir dessa mesma visão, podemos compreender melhor, como somos formados e de como transmitimos nossas informações genéticas para nossos descendentes.

 

Tales a sua escola é: o cosmos é um. Para você a alma é móvel e está misturada com o universo e o universo é animado e cheio de deuses, o úmido elementar está penetrado do poder divino, o que o põe em movimento e que a água é a origem das coisas e que deus é aquela inteligência que tudo faz água.

 

Você atribuiu um poder divino a água, segundo as suas concepções, mesmo que alguns discordem, e tudo bem, pois não podemos agradar a todos, poderíamos, pelo menos, compartilhar com você a importância vital da água para o nosso planeta.

 

E, já que não sei quando poderemos nos falar novamente gostaria de aproveitar para relembrar outros feitos, também, de grande importância. Você foi um grande governante, legislador, conselheiro e, também, é conhecido como o fundador da matemática.

 

Histórias pitorescas, também, são contadas a seu respeito: segundo Platão, em uma bela noite você estava andando a esmo, estudando as estrelas, quando caiu dentro de um poço. Uma bonita escrava trácia ouviu os seus gritos e te ajudou a sair dali, mas não sem comentar, gracejando, que você era um homem que estudava as estrelas mas não conseguia ver o chão sob os pés. Nesse caso você deu mais sorte que os mineiros que ficaram soterrados no Chile e não puderam contar com uma bela e imediata ajuda. Soube que você defendeu o estabelecimento de uma união política entre as cidades-Estado gregas da Jônia como a única maneira de frustrar as intenções expansionistas de sua rival, a Lídia e que usou seus talentos para prever que a colheita de azeitonas na estação seguinte seria excelente e comprou todos os lagares de azeitonas de Mileto e ganhou uma fortuna quando a safra correspondeu às suas expectativas.

 

Sei, também, que você não tem tido tempo para registrar seus feitos em livros, porém que te satisfaz o fato de atribuírem a você as suas idéias que são passadas adiante.

 

Como acho que levaremos mais um bom tempo sem nos falarmos, pois soube que na sua última residência estava escrito o seguinte: “Aqui jaz, num pequeno túmulo, o grande Tales; sua reputação de sabedoria, no entanto, chegou ao céu.” Despeço-me, porém, com a esperança de em breve estarmos nos correspondendo com o intuito de trocarmos idéias, pois o pensamento nunca morre.

 

 

 

Abraços.

 

 

 

Referência Bibliográfica:

 

 

 

Bornheim, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. Editora Cultrix. São Paulo. 1999.

 

 

 

Fearn, Nicholas. Aprendendo a Filosofar em 25 lições – Do poço de Tales à desconstrução Derrida. Jorge Zahar Editor. 2004.