As palavras são a verdade, não a verdade em si, mas pelo menos toda a verdade que o homem pode esperar alcançar. Pois as palavras são a representação tangível de suas idéias, e estas são o que compõe o seu ser. John Locke aponta como a linguagem é, senão o único, mas o mais forte instrumento para o desenvolvimento do conhecimento humano. Os homens são suas idéias e estas em si são o produto da interação de suas sensações e reflexões.

 

Os homens, por fim, são palavras, são uma construção literária de sua própria autoria, ou alheia, na maioria dos casos. No seu Ensaio Acerca do Entendimento Humano, Locke descreve a escada que vai de uma mente vazia, livre a ser moldada por seu exterior, a subir pelos degraus das idéias simples até as complexas, através das palavras, que enfim formam o conhecimento humano. O homem nasce vazio, sem idéias inatas como clamam os racionalistas, aos quais Locke busca refutar. Nasce vazio para ser moldado com as experiências provindas de seu exterior, e a partir dai começa com essas sensações a formar idéias simples: cores, gostos, cheiros. Logo, começa a refletir, e assim, passa a interligar essas idéias simples, formando algumas mais complexas: horizontal mais vertical, com um fundo, dá espaço; antes, agora e depois, dá tempo. Idéias comuns a todos, por todos serem forçados pelo mundo a estas sensações. Idéias que permitem o entendimento de palavras de outros, e que por fim, levam, quando possível, a reflexões de idéias próprias com estas palavras. Enfim, quanto mais complexas se tornam suas idéias, mais são necessárias palavras para descrevê-las, porém por praticidade, porque o ser busca respostas rápidas para organizar o mundo, são criados termos gerais. Termos que englobam uma quantidade necessária de idéias para se entender alguma coisa em si no mundo exterior.

 

Os termos gerais são a associação de idéias que moldam a comunicação humana, que moldam a compreensão de cada um e que permitem-nos transmiti-la para outros. São a verdade que podemos alcançar do mundo, mesmo não estando necessariamente de total acordo com a coisa em si do mundo. Já que a nossa verdade só pode ser encontrada no nosso entendimento e nas idéias que criamos para entender o alheio a nós. Uma árvore, pode ser diferente de todas as outras árvores, e nossa definição de árvore pode não conter toda a significância real daquela árvore, porém quando pensamos na palavra árvore, temos toda a verdade que uma árvore pode ter. Já que uma árvore não passa disso, uma associação de idéias, representada por palavras, que realmente não existe no mundo exterior. Somos nós que damos vida a idéia de árvore, logo nela está contida toda a verdade que podemos ter. Somos nós que ditamos cada uma de suas características, cada um de seus fins. É um vegetal, e quem diz o que é isso, é um homem. Tem um tronco de madeira, e quem diz o que é um tronco e o que é madeira, é um homem. E por aí adiante. A coisa em si não é uma árvore, é só algo ao qual temos contato através de nossas sensações, e pelo qual refletimos para entender. Entender para ser, entender para nos comunicarmos, nos comunicarmos, mais uma vez, para ser. Ser uma gigantesca construção literária que é por si e para si.

 

O ser ainda não passa de uma substância, produto de sensações e reflexões, contida em um corpo. Porém este ser só pode se entender como produto de si mesmo, de suas idéias, de suas palavras. O ser só pode se ver como ser literário, escrito por si, ou escrito por outros.