A PalavraSofista, deriva do grego Sophistés com o sentido original de habilidade específica em algum setor, ou um homem que detém um determinado saber (do grego Sóphos, “saber, sabedoria”). De início, vários profissionais eram sofistas: carpinteiros, charreteiros e poetas. Quando o domínio de uma técnica era reconhecido por todos, o profissional era dito sofista, desde as atividades artesanais, aos trabalhos de criação artística. O termo, portanto, era um elogio.

 

A partir do século V a.C. surgiram os professores etinerantes de gramática, eloqüência e retórica, que ofereciam seus conhecimentos para educar o jovem na prática do debate público. A educação original era insuficiente para preparar o cidadão para uma discussão política. Era preciso o domínio da linguagem, de flexibilidade e agudeza dialética para “derrotar” os adversários.

 

Os êxitos desses tutores foram extraordinários, passaram a ser então designados Sofistas, sábios capazes de elaborar discursos fascinantes, com intenso poder de persuasão. Por outro lado, foram recebidos com hostilidade e desconfiança pelos partidários do antigo regime aristocrático e conservador.

 

Os sofistas marcaram a passagem do período cosmológico para o período antropológico, centrados em questões lingüísticas, gramaticais, epistemológicas e jurídicas.

 

O diálogo: “Sofistas” de Platão pode-se dizer que se desenvolve em dois temas centrais: o do não-ser e o da classificação do sofista. Porém neste diálogo, o enlace entre esses dois temas se apresenta de forma bem clara. Caucionado em Parmênides, o sofista se vale de uma concepção de ser, que lhe dá armas argumentativas para embaraçar e colocar em contradição os seus oponentes, validando sua atividade de mago das palavras, de criador de simulacros.

 

Para Platão era fundamental provar o erro do princípio ontológico, no qual os sofistas se apoiavam, pois, a partir dessa prova ontológica poder-se-ia desautorizar o pensamento e a autoridade, e assim estabelecer uma filosofia e uma ética cujos preceitos morais, políticos, práticos, permitiriam o bom, o belo e o justo funcionamento da cidade e do cidadão. Desta forma, era para ele, vital “encurralar” o sofista.

 

O homem e a humanidade necessitam destes vários aspectos para manter um equilíbrio criativo. Mas, neste diálogo, Platão isola o aspecto sofista, purificando-o e exacerbando-o, com a provável intenção de impedir, que excessos sofistas provocassem a decadência da cidade e do cidadão. Por isso mesmo, Platão vai a “caça” do sofista, disposto a defini-lo, encontrando obstáculos iniciais, em função do enorme prestígio e autoridade que Parmênides havia adquirido em sua obra: “ Via da Verdade”. Uma vez ultrapassada essa dificuldade foi possível encontrar, examinar e aprofundar novas reformulações ontológicas, abrindo uma nova via de pensamento, uma nova visão do real, da realidade do inteligível e do sensível.

 

Para Platão, o sofista é caracterizado fundamentalmente pelo discurso estratégico potencializado, que parte de uma homogeneidade do pensamento que é comum, concordando com o senso comum, introduzindo elementos específicos neste, direcionando o bom senso à obtenção do consenso até a confrontação que caracteriza a Erística, o desenvolvimento dessa característica (erística) determina uma arte, a arte da expressão discursiva do embate, da disputa, do ganho originário, tão tecido à posição de comerciante do sofista. A mimética se apresenta de modo muito presente e esclarecedor para uma definição do sofista, ela estabelece a representação da figura que consiste no uso do discurso direto e, sobretudo, na imitação do gesto, da voz e palavra de outrem, ou seja, se apresenta de duas formas: arte da cópia e arte do simulacro.

 

O caçador interesseiro de jovens ricos (para acúmulo de riquezas); negociante por atacado e varejista, das ciências relativas à alma, isto é, comerciante, negocia discursos e ensinos relativos às virtudes (virtudes questionadas como um problema de hereditariedade e aprendizado); pequeno comerciante de mercadorias de primeira ou segunda mão (questionamento do saber como produção ou produto); mercenário da arte da erística, da contradição, do combate, da arte do simulacro, da ilusão (mudando de acordo com as circunstâncias); o refutador purifica as almas das opiniões que são obstáculos às ciências.

 

Estas são, dentre as muitas características apresentada por Platão para a definição do sofista.

 

 

 

Quando um homem se apresenta dotado de múltiplos misteres, ainda que para designá-lo basta o nome de uma única arte, trata-se apenas de uma aparência, que não é uma aparência verdadeira, e que ela evidentemente, só se impõe, a propósito de uma dada arte, porque não sabemos nele encontrar o centro em que todos esses misteres vêm unificar-se, ficando nós, dessa forma, obrigado a dar, a quem for assim dotado, vários nomes em lugar de um?

 

 

 

Contudo o termo sofista adquire um sentido pejorativo e desfavorável, marcando o vocabulário filosófico: argumento sofístico ou sofisma é o mesmo que falso argumento ou falacioso; de sofista deriva sofisticado, no sentido depreciativo de algo muito elaborado ou excessivamente ornado, embora vazio de conteúdo. Embora, houvesse a pretensão do saber universal, no uso da arte de discussão sobre qualquer coisa, não podemos deixar de considerar o mérito dos sofistas em relação à semeadura de uma iniciação de uma reflexão sistemática sobre os problemas humanos, de um aperfeiçoamento da dialética e discussão crítica sobre as limitações e o valor do conhecimento, destacando o caráter diverso e relativo das leis do contraponto da natureza (phýsis); também desenvolvendo princípios pra o ensino da gramática e retórica. O ideal sofístico de uma natureza humana que pode ser educada e constantemente aperfeiçoada deu início à ciência pedagógica e a formação humanista na antigüidade.

 

Platão tem sido interpretado de diversas maneiras, comumente como filósofo do antidevir, colocando-se predominantemente no lugar da imobilidade, mas também tem sido reinterpretado como um filósofo sensível ao devir. A sua contribuição foi essencial em relação multiplicidade e reconhecimento do Ser, desenvolvendo na essência a representação fundamental do verdadeiro filósofo: a aventura dialética na busca da verdade, que está no interior de cada um.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Glossário

 

 

 

 

 

Devir – Movimento; vir-a-ser; transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem noutras coisas através do tempo.

 

 

Dialética – No sentido amplo, arte de discutir; tensão entre opostos.

 

 

Inteligível – Que pode ser compreendido que é acessível ao entendimento.

 

 

Mimética – Diz-se de toda a forma de imitação, considerada nas suas características gerais e das semelhanças que produzem.

 

 

Ontologia – Parte mais geral da metafísica que trata do ser enquanto ser; às vezes o conceito de ontologia é usado como sinônimo de metafísica.

 

 

Persuasão – Levar a crer ou aceitar; induzir.

 

 

Retórica – Arte de utilizar a linguagem ou um discurso persuasivo, por meio do qual visa-se convencer uma audiência da verdade de algo. Técnica argumentativa baseada na habilidade de empregar a linguagem.

 

 

Simulacro – Imagem, cópia ou reprodução imperfeita.

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

 

 

 

CASSIN, Barbara. Ensaios Sofísticos. Tradução Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Claudia Leão; São Paulo: Siciliano, 1990.

 

 

JAPIASSU, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989.

 

 

PLATÃO; Os pensadores; Abril Cultural; Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Peleikat e João Cruz Costa – 2ª Ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1979.

 

 

PLATÃO. Parmênides. Tradução apresentação em notas, Maura Iglésias e Fernando Rodrigues. Ed. Puc-Rio. Edições Loyola, São Paulo, 2003.