O que é a filosofia? Parece revestida de uma certa preocupação acerca da situação atual da filosofia, de suas possibilidades e recursos frente ao capitalismo galopante, ao marketing do pensamento, à nulidade dos debates televisivo e jornalístico. A potência e a serenidade de um texto como A imanência: uma vida… parecem aqui ligeiramente veladas. Mas, por outro lado, essa mesma sombra parece também estar presente em diversas entrevistas e intervenções realizadas nos anos oitenta, quando Deleuze analisa, além da filosofia, a situação de uma outra prática de pensamento: a arte.

 

Os pós-kantianos giravam em torno de uma enciclopédia universal do conceito, que remeteria sua criação a uma pura subjetividade, em lugar de propor uma tarefa mais modesta, uma pedagogia do conceito, que deveria analisar as condições de criação como fatores de momentos singulares. Se as três idades do conceito são as enciclopédias, a pedagogia e a formação comercial profissional, só a segunda pode nos impedir de cair, dos picos do primeiro, no desastre absoluto do terceiro, desastre absoluto para o pensamento, quaisquer que sejam, bem entendidos, os benefícios sociais do ponto de vista do capitalismo universal. (Deleuze & Guattari, 1997, p. 21)

 

A tarefa que Deleuze se propõe é a de mostrar como a diferença e a repetição não podem ser reduzidas a uma simples diferença conceitual e a uma diferença sem conceito: sob essa concepção que a metafísica propôs, desde suas origens, há um mundo dionisíaco de diferenças e um verdadeiro conceito de diferença. A condição transcendental do dar-se das diferenças empíricas se encarnará no conceito de Idéia virtual, no capítulo Síntese ideal da diferença, no qual Deleuze tirará pleno proveito de seus estudos prévios sobre Kant e o pós-kantismo (Fechai Chilena e, sobretudo, Salomon Maimon). O objetivo de Deleuze, ao radicalizar e subverter a démarche transcendental kantiana e depois husserliana, é atingir um plano de análise imanente que lhe permita dar conta da produção das diferenças empíricas e individuadas; e, em seguida, em Lógica do sentido, da separação entre as palavras e as coisas e entre o objeto e o sujeito.

 

Nesse momento de sua trajetória, Deleuze enfatiza aquilo que ele chama a imagem clássica ou dogmática do pensamento que, desde sempre, vem fundamentando o pensamento representativo (Deleuze & Gauttari, 1992, p. 186). Por "imagem do pensamento" não se entende um método, mas uma certa imagem implícita e pré-filosófica que o pensamento tem de si mesmo e que subjaz a qualquer tentativa de pensar. Essa imagem é afirmada ao longo de toda a história da filosofia, até chegar à grande crise nietzschiana (não é por um simples acaso que Deleuze deve tanto ao pensador alemão pela crítica que este faz à metafísica) e sua história coincide, por conseguinte, com a história do esquecimento da diferença no interior do conceito. Imagem que supõe que o pensamento possua uma boa natureza e uma boa vontade, que o pensador queira naturalmente o verdadeiro e que o pensamento tenha uma relação de afinidade com a verdade (bom senso). Além disso, tal imagem pressupõe que o modelo do pensamento é a recognição - e não a criação - de um objeto, supostamente o mesmo, sobre o qual concordam as faculdades do sujeito (senso comum). O verdadeiro concerne às soluções, isto é, às proposições passíveis de servirem de resposta a perguntas (e a problemas), cujas condições já estão dadas. O ato do pensamento se reduz a uma atividade servil, que encontra um modelo em situações pueris e escolares: o filósofo-aluno limita-se a achar a solução de um problema cujas condições já estão dadas pelo professor.

 

A pars destruens de Diferença e repetição concentra-se, portanto, numa crítica do conceito - considerado como ponto de arremate da representação, a qual subordina a diferença à identidade - e uma crítica da imagem dogmática do pensamento, que encontra como modelo privilegiado a relação professor-aluno; prática de pensamento constituída por perguntas já formuladas e por respostas pré-determinadas e pré-estabelecidas. De um ponto de vista superficial, dados esses pressupostos, pareceriam paradoxal que Deleuze, ao término de sua trajetória filosófica, apresentasse a "pedagogia do conceito" como a filosofia do fazer (e, implicitamente, como aquilo que ele tinha tentado fazer).

 

A nova imagem do pensamento opõe-se à imagem dogmática do pensamento: acima de tudo, o pensamento não pressupõe um ato voluntário de fundação que eliminaria os pressupostos para iniciar do zero, já que o pensamento começa sempre pela diferença, au milieu, no meio de alguma coisa, por causa de alguma coisa que força o pensador a pensar: o acontecimento que faz sentido e que corta o escorrer linear do tempo. Aquilo que força o pensamento provoca um choque que faz com que cada faculdade saia de seus eixos, os quais coincidem com os limites do bom senso e do senso comum. O pensamento cria; não reconhece, não encontra a solução dos problemas dados e já feitos, como faz um aluno com o professor, mas põe problemas sempre novos e, com eles, as suas soluções. Os elementos privilegiados do pensamento não são, portanto, tanto as categorias do verdadeiro e do falso - características da representação -, mas aquelas do sentido e do non-sense, do interessante e do não interessante. Por fim, seguindo Nietzsche, a noção de método - que pressupõe a boa vontade do pensador e a sua determinação de eliminar todo obstáculo na obtenção da verdade - é substituída pela de "cultura": na acepção nietzschiana, a cultura consiste numa "educação", que acontece no encontro com o Fora e com a produção do novo, e cujo objetivo é favorecer o encontro com as forças que impelem a faculdade a ultrapassar o seu próprio limite, impulsionando o pensamento a superar o seu estado natural de torpor (Deleuze, 1976, p. 88-9). Nesse sentido, Deleuze falará, pela primeira vez, em Diferença e repetição, de "pedagogia do sentido", como prática apta a impelir a sensibilidade a um uso transcendente e não empírico: "Apreender a intensidade, independentemente da extensão, ou antes, da qualidade nos quais ela se desenvolve, é o objeto de uma distorção dos sentidos. Uma pedagogia dos sentidos volta-se para esse objetivo e integra o 'transcendentalismo'" (Deleuze, 2000, p. 449-451).

 

Por fim, a partir dos anos de 1980 - mas já durante a colaboração com Guattari no segundo volume de Capitalismo e esquizofrenia -, Deleuze começa a elaborar uma nova idéia de conceito e a definir a filosofia como uma atividade essencialmente pragmática de "criação conceitual"; assim como, por outro lado, havia já acenado claramente nessa direção, mais de vinte anos antes, em um de seus primeiros ensaios sobre Bérgson.

 

A filosofia cria conceitos a partir da posição sempre nova dos problemas: o modo com que articula os novos problemas constitui a gramática de sua solução conceitual. Os conceitos, estruturalmente fragmentários e mutuamente ligados, se dispõem, por sua vez, sobre aquilo que Deleuze, juntamente com Guattari, chamará de "plano de imanência": um horizonte que corresponde àquele que tinha definido como a imagem do pensamento (notemos de agora em diante que Deleuze não distingue apenas uma imagem do pensamento da imagem do pensamento sem imagem, mas diz que há uma pluralidade de imagens, uma pluralidade de modos de traçar o plano). Deleuze gostava de dizer que o plano de imanência, a imagem do pensamento, "é como um grito, enquanto os conceitos são cantos".

 

O plano de imanência da filosofia - mas também os planos criadores traçados pela arte e pela ciência - encontra-se, neste momento da trajetória filosófica de Deleuze, em luta com duas instâncias contrapostas: de um lado, o caos, e, de outro, a doxa. Se, por um lado, o plano de imanência deve afrontar o caos, buscando extrair-lhe a "velocidade infinita" (que poderíamos perfeitamente aproximar da idéia de abismo indiferenciado de Diferença e repetição); por outro, deve lutar, infatigavelmente, contra a opinião. A opinião (bom senso e senso comum) é inútil em filosofia porque coincide com a reação, com o dogmatismo, com a anticriação. A opinião é o que existe de mais deletério e constitui um inimigo ainda mais terrível que o caos. Dela, dizem-nos Deleuze e Guattari, "vem à desgraça dos homens" (Deleuze & Guattari, 1997, p. 265). Por isso, a filosofia não pode ser comunicação: para comunicar é preciso ter um conjunto de coordenadas comuns que coincidam com a opinião.

 

Finalmente, a filosofia não esta associada a qualquer pretensão fundadora e de superioridade com respeito a outras práticas do pensamento: "O exclusivo da criação dos conceitos - escreve - assegura à filosofia uma função, mas não lhe confere qualquer proeminência nem algum privilégio, já que ela é só outro modo de pensar e de criar, outro modo de ideação, como o pensamento científico, que não deve necessariamente passar através dos conceitos" (Deleuze & Guattari, 1997, p. 17).

 

A relatividade e a absolutividade do conceito são como sua pedagogia e sua ontologia, sua criação e sua autoposição, sua idealidade e sua realidade. Real sem ser atual, ideal sem ser abstrato... O conceito define-se por sua consistência, endoconsistência e exo-consistência, mas não tem referência: ele é auto-referencial, põe-se a si mesmo e põe seu objeto, ao mesmo tempo em que é criado. O construtivismo une o relativo e o absoluto. (Deleuze & Guattari, 1997, p. 24)

 

É necessário, afinal, precisar que a pedagogia do conceito não é um "gênero" ou um "tipo" particular de filosofia isolada do restante da filosofia. Toda a filosofia moderna, em sua ambição de ser filosofia, deve apresentar conceitos pedagógicos, conceitos relativos, uma vez que exprimem acontecimentos e não essências, uma vez que são relativos a outras criações conceituais e ao plano de imanência sobre o qual jazem (a imagem do pensamento), bem como aos personagens conceituais que os colocam em jogo; e, por fim, porque são relativos às outras disciplinas criadoras, arte e ciência, com as quais a filosofia deve estabelecer uma relação, sem, no entanto, confundir-se com elas: "Não se trata de dizer somente que a arte deve nos formar, nos despertar, nos ensinar a sentir, nós que não somos artistas - e a filosofia ensinar-nos a conceber, e a ciência a conhecer. Tais pedagogias só são possíveis, se cada uma das disciplinas, por sua conta, está numa relação essencial com o Não que a ela concerne" (idem, ibid., p. 231).

 

Do mesmo modo, a filosofia ameaçada é "pela informática, pelo marketing de toda disciplina da comunicação, que padronizaram até a própria palavra 'conceito'" (Deleuze & Guattari, 1997, p. 52). Parece, à primeira vista, surpreendente que Deleuze acrescente essa terceira etapa à inicial bipartição da história da filosofia (e do cinema), apondo, assim, uma certa nota inquieta à sua visão da filosofia. Entretanto, essa terceira etapa não é comparável às duas precedentes: ela é apenas uma ameaça, visto que a televisão, assim como o marketing, não tem qualquer poder noético e criativo (diferentemente da arte, da ciência e da filosofia), não apresentando, assim, nenhum risco de conseguir realmente captar o acontecimento (1992, p. 198). Em vez disso, eles têm uma função meramente social, dialógica, dóxica: eles são a encarnações da sociedade de controle, na qual, segundo Deleuze, bem como segundo Foucault, estamos vivendo.

 

Cabe agora à filosofia, tal como à arte, dar uma lição de criatividade e acontecimentalidade, uma "lição pedagógica" (1990, p. 298) aos "pseudocriadores", aos "rivais imprudentes e simplórios (...) que encontra no seu próprio seio, (...) [criando] conceitos que são antes meteoritos que mercadorias". Se, como dizia Nietzsche, a tarefa dos pensadores é a de recolher as flechas lançadas por outros filósofos, então, nas condições de nosso presente e do nosso tempo, é nosso dever nos perguntar se uma "pedagogia do conceito" está à altura dos desafios atuais. Cabe a nós estabelecer o quanto essa concepção da filosofia enquanto disciplina criadora e pedagógica pode realmente fazer frente às grandes potências do marketing, do jornalismo, da publicidade, como máquinas de produção de acontecimentos banais.

 



 



 

Referências bibliográficas

 

BIANCO, G. Gilles Deleuze educador. Sobre a pedagogia do conceito. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 27, n. 2, p. 179-205, jul./dez. 2002.

 

DELEUZE, G. A filosofia crítica de Kant. Trad. de Germiniano Franco. Lisboa: Ed. 70, 1994.

 

DELEUZE, G. Nietzsche e a filosofia. Trad. de Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.

 

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Trad. de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997.