Proponho aqui expor a contribuição de um pensador do século XVIII (Diderot, 1713-1784) que retoma a atividade questionadora do pensar numa época marcada pelas “luzes”, isto é, numa época em que o otimismo exarcebado da razão (a crença cega em suas promessas) faz estagnar qualquer pensamento mantendo-o assim distante do verdadeiro esclarecimento.

 

Tal assunto foi tema de minha monografia intitulada Esclarecimento e emancipação em Diderot onde tentei mostrar exatamente como se dá a modificação necessária à autonomia do pensamento, explorando a desenvoltura (o jogo) existente em sua obra chamada O sobrinho de Rameau. Ali encontramos, pelas posturas assumidas pelas personagens (Rameau/sobrinho1 e filósofo), duas “faces” que representam, cada qual, posturas opostas por onde o pensamento necessariamente deve passar em seu processo de desenvolvimento. Filósofo e Rameau (sobrinho) seriam os limites um do outro; aquele buscando uma verdade fundadora (eterna), este mobilizando os saberes (conceitos, teorias, discursos) que porventura venham a ser instituídos solidamente sobre os homens anulando suas diferenças. A mobilidade constante do pensamento vai ser o ponto essencial explorado por Diderot. É preciso despojar-se de verdades que se tornaram obsoletas à vida humana; é preciso voltar a atenção aos homens e à dinâmica que rege suas relações.

 

O pensamento desse nosso autor busca na relação com o mundo numa vida experenciada portanto a sua fundamentação. É num movimento inverso ao que foi levado por uma razão instrumental (que num movimento ascensional abstraiu-se do mundo para simplificá-lo em conceitos) que se volta à observação das práticas vividas; às relações (pactos) criados na sociedade por indivíduos animados por uma necessidade que não se pode negar, muito embora seja disfarçada em nome do que se convencionou chamar de “bons costumes”.

 

A atitude de Diderot é a de quem se insere na dinamicidade da vida; que ativa o pensamento ao fazê-lo intimamente ligado à prática de vida dos homens. Essa sua atividade fundamental está impreterivelmente ligada a uma observação que renova constantemente seu ponto de vista; que tem nos fatos da realidade e isso implica a pluralidade aí envolvida o único fundamento possibilitador de qualquer conhecimento verdadeiro. Sua crítica recai, portanto, sobre teorias e normas que reverberam numa sociedade que não mais pode suportá-las. Ou melhor, recai sobre aqueles que se agarram a verdades há muito instituídas em detrimento das modificações por que passa irremediavelmente sua própria postura.

 

Partindo de uma observação acurada da sociedade em que vive (sociedade francesa do século XVIII), Diderot descreve os vícios que ali se encontram denunciando a passividade que reina entre os homens devido a uma obediência cega – obediência alimentada por um desejo iluminista ainda não satisfeito, qual seja, a tão sonhada felicidade. Este é o contexto vivido pela sociedade do século XVIII: a tensão que coloca o homem numa “encruzilhada”, fazendo-o hesitar entre um sentimento de descrença – já que o progresso da ciência começa a ser percebido como alheio à vida humana – e um desejo ainda muito forte por algo que lhe dê segurança – que faz o homem aderente às verdades até então ditadas pela razão. É exatamente esse impasse tensão entre o querer pautar a vida (a existência) sobre bases firmes (que dêem garantia de segurança e certeza) e a frustração por sentir que os ideais até então buscados não proporcionam calmaria e conforto à vida que constitui um panorama rico àqueles que, pelo pensamento, fazem uma espécie de diagnóstico (reflexão crítica) desse contexto, desse momento presente; que descrevem pormenorizadamente, com ousadia e coragem, toda a movimentação de uma sociedade ocasionada pela constante agitação de seus membros (observadas nas relações que os une uns aos outros e ao meio) em busca da preservação de suas vidas e a incompatibilidade de querer arrumá-la (a sociedade) conforme àquilo que uma razão sistemática institui como sendo o certo, a verdade a ser seguida. É essa a ousadia de Diderot: fazer o pensamento sair da posição cômoda ao introduzir a dúvida em relação à época em que vive; um pensamento que procura, sempre, novos postos de observação por valorizar o caráter dinâmico e, por isso mesmo, não simplista da vida.

 

Pois bem, mas poderíamos nos perguntar o quê exatamente isto tem a ver com o esclarecimento e emancipação do homem, e qual a relação de Diderot neste propósito.

 

Todo questionamento sobre algo se deve a uma certa insatisfação com o que se nos apresenta em um dado momento. Suponhamos que este algo apresentado (fenômeno) venha acompanhado por uma “promessa de eternidade” que nos dá a garantia para erigir todo um conhecimento a respeito dele. Até quando a afirmação de um mesmo conhecimento poderá se manter tranqüilamente? Em que ponto essa afirmação deixa de estar intimamente ligada à experiência vivida (homem e mundo) para se tornar mera reverberação que não mais se pauta em sua experiência original? É aí que (re-)surge o pensamento como questão: quando a disparidade entre conhecimentos/saberes e vida prática (vida real) disparidade que desencadeia, como chamamos acima, a insatisfação torna-se gritante (e incompatível) a ele. A urgência sentida por quem detecta esse problema é de fazer com que haja novamente um sentido, uma união entre teoria e vida prática.

 

A própria necessidade de mudança, de reinserida do pensamento na mobilidade constante e infinda de sua atividade, já é o resultado de sua autonomia assumida. Somente pela revisão de como tem sido sua própria atuação (de gradativa estagnação ao longo do desenvolvimento) é que se pode falar em crítica a si mesmo. Livre do modo sistemático de conhecer as coisas, o pensamento lança a questão, isto é, vai além das explicações firmadas buscando outras interpretações que também serão superadas por essa mesma atividade questionadora (de evardir-se) do pensamento.

 

Ao evadir-se, torna-se inevitável, por uma espécie de rememoração, a mudança de postura frente ao que até então se impusera sobre o homem (sobre uma sociedade). Questões são levantadas e tudo ganha mobilidade: a verdade parece ganhar outros conceitos; o pensamento ganha fluidez, abertura, dinamicidade; um olhar, filosoficamente falando, precede toda tentativa de se entender o presente (ou melhor, de se entender o comportamento adotado neste) para que fique mais claro que tais adoções não têm nada de necessário; que as crenças, a moral adotada, todo o comportamento, enfim, de uma sociedade é incorporado a partir do exterior, de uma imposição que se torna mais sólida, mais imponente quando não se lhe opõe a atitude reflexiva da razão, isto é, quando não se é capaz de uma crítica desse momento presente.

 

 

 

N’O sobrinho de Rameau, a forma empregada pelo autor é a do diálogo entre dois personagens diferentes e coexistentes de um mesmo problema. Ousemos até em compreendê-los como complementares um ao outro.

 

O questionamento posto por Diderot, nesta obra, refletirá a tarefa de superação feita por ele mesmo. No diálogo apresentado, vemos duas personagens (o filósofo e o sobrinho) que mais parecem duas expressões pulsantes que inevitavelmente nos remete ao jogo (impulso) dos contrários representados por Apolo e Dionísio de uma única e mesma mente, a manifestação de quem se situa em uma época de transição, em uma situação-limite: o filósofo, com a necessidade de construir algo certo, seguro sobre como se deve agir em sociedade, ou seja, fundamentar as ações humanas um resquício latente da promessa não cumprida pela razão iluminista-instrumental, que continua a alimentar, no homem, um desejo de eternidade e o sobrinho, suspendendo qualquer pretensão teórica que, de alguma forma, tente explicar, e conseqüentemente impor à sociedade um modo único de agir.

 

Como formalizar as nossas ações, encaixá-las numa normalização, se nossos sentimentos são ativados conforme a situação particular de cada momento? Como seguir um único padrão normalizador de ações se a vida, ela própria, mostra-se em perpétua mudança? Enfim, como instituir princípios morais sem fazer com que o homem (e isto inclui a dinamicidade dos sentimentos que embasam suas ações) deixe de ser preocupação central do pensamento?

 

É na expressão do caráter do sobrinho que se vêem revelados todos os hábitos da sociedade francesa do século XVIII, antes disfarçados sob uma moral rígida (moral de origem externa) como se fosse um prisma decompondo as variadas cores escondidas na uniformidade de uma única cor. É dele a voz que eleva à superfície as verdadeiras razões que motivam a vida dos homens ao denunciar como “farsa” toda compostura educadamente polida.

 

Neste diálogo, percebemos nitidamente que o que anima a personagem principal e que está sustentando toda sua argumentação contra os discursos de quem busca estabelecer

 

 

 

 

 

uma moral, o personagem filósofo, é a brevidade dos agenciamentos com o outro; é a fidelidade frouxa pactuada; é a superficialidade dos desejos e a satisfação pouco duradoura dos prezeres. Rameau, o sobrinho, representa o pensamento em constante mudança; mobiliza qualquer estagnação ao ridicularizar os que sofrem tentando emoldurar-se aos ditames de uma norma tornada oca, sem sentido numa realidade de necessidades sempre cambiantes.

 

Ao entender, graças a essa observação minuciosa, que a vida detém um ritmo próprio de desenvolvimento, Diderot relata a fragilidade de todo conceito e de toda “pose” (pactos) denunciando os que os fazem parecer imprescindíveis e eternos. N’O sobrinho de Rameau a lição encontrada transparece exatamente na dialética das personagens: viver sem leis que regulamentem a todos não seria benéfico à vida (à harmonia) como um todo diria o filósofo do diálogo , mas, viver na obediência às mesmas leis, sem revisá-las, sem atentar ao distanciamento que tomaram com relação ao homem e suas necessidades, sem refletir sobre sua pretensa beneficência à vida dos homens de nada contribuiria a sua evolução é o que nos diria o sobrinho. E Diderot propõe que as criações do homem (de conhecimentos, saberes, teorias) acompanhem o desenvolvimento próprio da vida, sua fluência ininterrupta e não-taxativa.

 

Conceber a época moderna somente como a formadora de grandes conceitos, idéias e sustentada por um sistema organizador da vida em sociedade, possibilitando as tão almejadas harmonia e felicidade, é não atentar ao que vem juntamente com toda essa promessa. O “outro lado”, é exatamente sobre ele que nosso autor (e muitos de seus companheiros de época) se dedicou, mostrando, a partir da consciência desse “outro lado”, o que é ser verdadeiramente esclarecido e que o que leva o homem à alienação de sua autonomia (liberdade) é a estagnação adquirida por um pensamento que se torna obediente e propagador (escravo mesmo) de sua própria explicação porque simplesmente reverbera uma verdade esvaziada de sentido (sem fundamento) por não acompanhar o desenvolvimento evolutivo da vida.

 

Enfim, são estas as contribuições trazidas por Diderot ao falar sobre o pensamento verdadeiramente esclarecido: processo infindo porque trata-se de uma dialética que passa, a bem de uma continuada evolução, por teorias e práticas; construção e desconstrução, cada lado impedindo, por sua atuação, a estagnação do pensamento em um único pólo.

 

 

 

1 Jean François Rameau (o sobrinho), músico fracassado; Jean-Philippe Rameau (o tio), músico consagrado e tido como gênio pela sociedade francesa do século XVIII.