O famoso jornal francês Le Monde traz uma notícia onde relata um acontecimento policial que se deu no verão europeu, onde se lê que uma jovem que trazia no colo o seu bebê, fora assaltada e brutalizada por um bando de jovens magrebinos1 e negros, essa violência foi piorada quando se descobriu que ela era nascida nos bairros ricos e presumiram que ela era judia.

 

 

 

Seguinte a tais notícias, autoridades das mais diversas áreas iniciaram suas análises a respeito do ocorrido, onde observaram a questão da violência; os seus autores; seus motivos; e não menos óbvio observaram a respeito da passividade dos demais passageiros que a tudo assistiram de forma apática e sem que nada fizessem para impedir o contrário ocorrido. Tais fatos associados geraram uma enorme discussão sobre os mais diversos assuntos como pode ser visto, e porque não pensar no que é espantoso e causador de indiguinação, já que o mínimo que se pode pensar é que como diante de tal cena nenhum dos passageiros presentes não fizeram algo para impedir ou até mesmo evitar tal atrocidade.

 

 

 

Tudo seria motivo para discussão se um fator não fosse revelado após 48 horas de discussões de renomados especialistas nos assuntos que se levantaram, assim como as questões relacionadas ao preconceito mais acirrado que insurgiu contra tais jovens, não apenas àqueles, que estavam no local do crime, mas também a etnia da qual fazem parte, afinal a jovem vítima que atende pelo nome de Marie-Léonie, teve a intenção de chamar a atenção de seu marido que andava um tanto quanto que disperso em relação aos afetos que ela sentia necessidade dele receber, e para chamar sua atenção esta foi a maneira por ela encontrada.

 

 

 

Comumente temos visto mentiras que nos afetam, sejam estas institucionais ou populares, porém no caso desta “notícia”, ela não está enquadrada em nenhuma das duas formas de utilização da mentira, afinal teve o objetivo único de chamar atenção apenas para si, mesmo que se utilizando de um método pouco ortodoxo para tal tão interessante são as observações feitas em torno do assunto, servindo como ponto de partida para um desencadeamento racista, além do acirramento já existente, dependendo do observador.

 

 

 

Observando todo o conteúdo e a repercussão da falsa notícia, não podemos deixar de pensar a respeito do ceticismo que devemos praticar em relação aos fatos que a cada dia ou instante tomamos conhecimentos ou que adquirimos.

 

 

 

O ceticismo é mais que uma escola filosófica, ele também é uma atitude de vida, não é apenas a questão da dúvida constante de todas as coisas, mas a busca da origem de tais coisas para que se possa compreendê-las. Mas o ceticismo não tem e não pode promover pelas suas circunstancias um dogmatismo.

 

 

 

O filosofo Pirro de Elis (360 – 270 a.C.) é considerado como o fundador de tal escola, e assim como Sócrates, nada escreveu, os textos os quais temos conhecimento chegaram através do que foi deixado por seu discípulo Timon, o Silógrafo.

 

 

 

O princípio de sua obra tem, em primeiro lugar, a definição da impossibilidade de se conhecer a própria natureza das coisas, afinal, o que se é dito pode sofrer contradição por argumentos igualmente válidos. Tal condição nos leva ao segundo princípio do ceticismo, que é a suspensão do juízo (époche), onde nos faz pensar que nenhuma afirmação deve ser considerada como sendo melhor do que a outra. Os dois princípios anteriores, devidamente aplicados na vida, se tornam conclusivos para Pirro, de que não se obtém conhecimento das coisas, o que nos leva a condição de tranqüilidade em relação ao que se é pensado (ataraxia).

 

 

 

Pirro, através destes princípios nos fala da relação que devemos ter com os assuntos dos quais tratamos sendo necessárias três questões para entendimento das coisas. Primeiro: o que são as coisas e sua constituição; segundo: a relação que temos com as coisas; e terceiro: qual a relação que temos com elas. Analisando tais colocações podemos dizer o seguinte sobre cada uma delas, a respeito da primeira, não as conhecemos, mas apenas acessamos a sua aparência, a mesma coisa aparece a diversas pessoas de diversas formas e cada uma delas apresenta uma opinião a seu respeito e não se podem desconsiderar as opiniões, dessa forma se não podemos obter uma resposta conclusiva quanto a algo pelo fato de não a conhecer-mos e por não se deixar de considerar os conhecimentos a respeito do objeto chegando à necessidade da suspensão do juízo por não se obter respostas conclusivas nem mesmo em relação às perguntas mais triviais.

 

 

 

Pirro teve, posteriormente, seus ensinamentos reescritos por um autor chamado Sextus Empiricus, médico e filósofo do qual não se sabe o seu verdadeiro local de nascimento, mas grande parte de suas atividades se deram em Atenas, durante os séculos II e III, no livro chamado Hipotiposes Pirronicas ele demonstra os dez modos dos quais são necessários para a suspensão do juízo. Sem nos prender-mos aos sete primeiros, e pensando a respeito da reportagem que iniciou este texto, se fará uma comparação entre os ensinamentos do mestre e as questões que podem surgir dois mil anos depois.

 

 

 

No oitavo modo do livro trata-se da relatividade, onde tudo é relativo e devemos suspender o juízo quanto à existência real do fato, e pensar a respeito do motivo de tanta violência, conforme descrita no jornal contra a jovem vítima e também com relação aos passageiros que testemunharam ao fato sem que fizessem algo quanto aquilo podendo serem pensados não apenas como participantes passivos, também como banalisadores da violência fossem eles de qualquer etnia.

 

 

 

O nono modo tem ligação com a questão da banalização da violência, já que este modo diz respeito à constância ou raridade com que tal fato se dá, sendo então que a população estivesse tão “acostumada” com tais atos de violência que não mais se surpreenderiam, mas em outro aspecto tal fato seria contrário quanto à raridade de sua ocorrência, afinal não é possível que possamos nos acostumar com a visão de atos violentos.

 

 

 

O décimo modo relaciona-se à ética, e esta aparecerá como algo que deve de se ter e haver em relação aos demais, o comportamento ético servirá como maneira de conduta que pode servir a uma ou a muitas pessoas, mas essas condutas mesmo que contrárias às demais condutas não devem ser ofensivas quanto à comparação que se façam entre elas. No caso relatado na notícia as pessoas que foram ditas como sendo os agressores são os mesmos que, na França, sempre são vistos como aqueles que causam a maioria dos problemas naquele país - problemas de ordem econômica, política, social - o que serviria para manter uma política de segregação. Mesmo que não tenha sido “invenção” da vítima os tipos de agressores, um dos principais jornais daquele país pode assim o ter feito, o que podemos pensar como tão preocupante quanto fosse inventado qualquer coisa sobre qualquer outra coisa ainda mais sendo por quem foi.

 

 

 

Fazendo a observação dos três modos acima, e de parte do conhecimento do ceticismo, podemos verificar e pensar o quanto somos afetados por notícias que não sabemos a sua relação com a verdade, afinal, verificamos que de um momento para outro a verdade pode ser alterada descartando então a “certeza da momentaneidade” e tornando-nos cômodos com elas, e como elas nos afetam, sem termos qualquer aspecto de crítica e avaliação, dessa forma acabamos por ser envolvidos por diversas circunstâncias, que tais notícias são veiculadas em uma velocidade onde vemos assuntos que não conseguem estarem nas primeiras páginas do dia seguinte em qualquer jornal, seriam então elas, realmente necessárias ou estariam sendo divulgadas a fim de acobertarem outros fatos.

 

 

 

Observações e críticas constantes são necessárias a todo instante para que se faça uma devida avaliação e se obtenha o mais próximo possível de conhecimento do que se trata, sem que nos deixemos levar pelas paixões ou pelos enganos sensíveis, considerando esses aspectos como falhos e momentâneos, o ceticismo pode ainda ser posto em prática nos nossos dias, quando se levam em considerações os aspectos de consideração de diversidades de opiniões, suspensão de juízo, como algo que deve ser posto numa condição de aguardo até que se possa pensar algo novo sobre este, além dos aspectos demonstrados nos três últimos modos onde podemos observar a ética como uma das matérias mais recorrentes atualmente mesmo que muito se fale dela sem que pouco dela se conheça ou a ponha em prática, sendo este um dos aspectos interessantes da pratica do ceticismo, mesmo dois mil anos após o início de sua divulgação.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

 

 

EMPIRICUS, Sextus. Hipotiposes Pirronicas. Tradução Danilo Marcondes. Baseado no texto em grego da edição da Loeb Classical Library. Harvard Univ. Press, Cambridge, Mass., e Heinemann, London, 1976, 1ª ed., 1933.

 

RANCIÈRE, Jacques. As novas razões da mentira. In: Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 22 de agosto de 2004, Caderno Mais p. 3.

 

1 Adjetivo e substantivo masculino Relativo ao Magreb ou o que é natural ou habitante dessa região do Norte da África. Fonte: www.kinghost.com.br/dicionario/magrebino.html