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Mudar as idéias para transformar a realidade ou transformar a realidade para mudar as idéias?

 

É muito comum ouvirmos, nos dias de hoje, pessoas dizendo que para corrigir os problemas do Brasil é necessária, antes de mais nada, uma mudança de mentalidade. Sem isso, afirmam, é impossível transformar a realidade, já que são os homens, orientados por suas crenças e convicções, que fazem a história.

 

 

 

Por outro lado, também é comum ouvirmos pessoas discordando de tal ponto de vista. Para elas, não é possível alterar as idéias atualmente existentes sem antes transformar as condições de vida das pessoas. Mencionam com freqüência, para justificar tal posição, situações concretas, como as degradantes condições de existência dos meninos de rua, e perguntam: como esperar de tais pessoas, que são privadas de praticamente tudo (educação, alimentação etc.), uma mudança de mentalidade?

 

 

 

Qual seria, então, a posição correta? Seria necessário, em primeiro lugar, mudar as idéias vigentes para só depois transformar a realidade nacional, marcada pela violência, pela pobreza, pela desigualdade social e por outras mazelas? Ou, ao contrário, seria preciso transformar a realidade primeiro para que, possibilitada por melhores condições de vida, surgisse uma nova mentalidade?

 

 

 

Esta não é, em essência, uma questão nova. Ela foi abordada, de maneira bastante criativa, por Karl Marx (1818-1883), um filósofo alemão do século XIX.

 

 

 

No tempo de Marx existiam, em linha gerais, duas formas opostas de tratar o assunto. De um lado, os filósofos materialistas defendiam que as idéias ou concepções de mundo eram o produto das circunstâncias materiais em que viviam os homens.

 

 

 

Tal ponto de vista continha um problema. Na medida em que as idéias eram o mero resultado ou reflexo de determinadas condições sociais e que a modificação das idéias dependia da mudança de tais condições, como seria possível transformar a realidade? Quem faria tal transformação, já que os homens, possuindo idéias forjadas naquele contexto social, estariam presos aos limites da realidade vigente e não teriam a capacidade de transformá-la?

 

 

 

De outro lado, os filósofos idealistas defendiam que as circunstâncias materiais em que viviam os homens eram produzidas pelas idéias, na medida em que seriam as idéias que orientariam a ação humana.

 

 

 

Tal ponto de vista também continha um problema. Ele, ao mesmo tempo em que realçava a capacidade criadora humana, desconsiderava totalmente a influência das condições materiais de existência sobre o pensamento dos homens. Deste modo, para transformar a realidade, bastaria modificar as idéias vigentes. Incorria, então, no erro inverso ao cometido pelos filósofos materialistas.

 

 

 

Assim,

 

 

 

O dilema clássico essencial da filosofia pré-marxista foi o dilema entre modificar primeiro as circunstâncias para, como consequência, transformar a consciência ou modificar primeiro a consciência, o sujeito e suas ideologias, para depois transformar a sociedade. (LOWY, 2000, p. 22)

 

 

 

Diante de tal dilema, Marx formulou uma saída alternativa. Ele criticou tanto a abordagem dos filósofos materialistas quanto a dos filósofos idealistas, superando a oposição entre ambas. Para ele, tanto as condições materiais exercem influência sobre o pensamento humano quanto o pensamento humano pode, através da ação dos homens, transformar as condições materiais. Isso ocorre no bojo de uma prática humana transformadora, ou seja, uma prática direcionada para a transformação da realidade, onde a modificação das circunstâncias coincide com a modificação da consciência dos próprios agentes da mudança, ou seja, com uma auto-modificação. Em outras palavras: para o pensador alemão, o homem modifica, ao atuar para mudar uma dada realidade, a si mesmo.

 

 

 

Marx chamou esta atividade, onde a transformação das circunstâncias coincide com a auto-transformação humana, de práxis – uma palavra de origem grega.

 

 

 

O conceito de práxis expressa uma unidade entre a teoria e a prática, entre o pensamento e a ação transformadora. Além disso, ele ocupa um papel central no pensamento de Marx. Alguns autores chegaram ao ponto de designar, para sublinhar tal importância, o marxismo de filosofia da práxis.

 

 

 

As questões levantadas no início do texto podem ser, agora, entendidas sob uma nova luz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

 

 

LOWY, Michael. Ideologias e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

 

 

 

MARX, Karl. Os pensadores. 2. ed.São Paulo: Abril Cultural, 1978.