No segundo parágrafo da Crítica da razão pura[1], Immanuel Kant (1724 -1804) afirma que “embora todo nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso ele se origina justamente da experiência”[2]. O seguinte texto, visando elucidar a afirmação supracitada, iniciará com uma breve apresentação sobre Kant. Buscando num primeiro momento apresentar seu contexto histórico, e em seguida, as correntes filosóficas que o influenciaram, impelindo-o assim a escrever sua obra. E no segundo momento, analisar a asserção citada no início do parágrafo.  Assim, esses dois passos visam esclarecer a posição kantiana em relação ao conhecimento.

Kant é considerado um dos maiores filósofos moderno. Nasceu em Königsberg, um porto cosmopolita que era a capital e o centro cultural e econômico da Prússia. O desenvolvimento dessa cidade ao leste do Império alemão propiciou a Kant uma substancial formação, e um constante contato com o pensamento estrangeiro. Contato este que o incitou a responder uma série de questões, que deixaram marcas indeléveis em todo pensamento filosófico. Seu pensamento costuma ser dividido em duas fases: a pré-critica e a crítica, a apresentação se limitara a este segundo período, marcado pela publicação de suas três maiores obras: A Crítica da razão pura (1781), A Crítica da razão prática (1788) e a Crítica da faculdade do juízo (1790). Para ser mais específico, o seguinte texto irá se limitar à primeira obra, que pode ser vista como o fio condutor de seu pensamento. A atitude crítica, comumente difundida em sua época, é caracterizada pela emergência do pensamento Iluminista (Aufklärung), que impelia aos homens averiguarem tudo pelo escrutínio da razão. Nada estaria isento do exame racional, assim religião, filosofia, política e demais campos de pensamento deveriam submeter-se às leis da razão. Kant radicaliza esta posição, colocando em sua primeira obra crítica a própria razão no tribunal crítico.

Em todos os seus empreendimentos, a razão tem que se submeter à crítica, e não pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isso a prejudique e lhe acarrete uma suspeição desvantajosa. No que tange à sua utilidade, nada é tão importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a essa inspeção atenta e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa.[3]    

 

Assim, somente a razão pode outorgar validade e legitimidade aos demais discursos. E a filosofia, enquanto campo problemático de saber - intentando tornar-se ciência, - deve também ser reavaliada. Busca-se, por meio disso, delimitar as pretensões da razão, esboçando assim seus limites, para que esta não se perca em elucubrações inúteis e infundadas. Elucubrações estas denunciadas pelos sistemas empiristas, corrente de pensamento que teve forte impacto no posicionamento kantiano. David Hume (1711- 1776), um dos mais radicais filósofos empiristas, como apresenta Kant, foi o responsável pelo seu despertar do “sono dogmático”, o que o fazia acreditar indubitavelmente no poder da razão, comungando, assim de um ideal racionalista. Outra corrente filosófica difundida em seu tempo, que preteria os sentidos em relação à razão, essa escola tem como um dos seus expoentes Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 - 1716).

Essas duas formas filosóficas – racionalismo e empirismo –, buscando solucionar os problemas relativos à questão da possibilidade do conhecimento objetivo, formularam repostas antagônicas. Essa problemática estabelecida pela filosofia moderna buscava assegurar a legitimidade do saber científico, visando, em um primeiro momento, explicar nossa representação e a natureza de sua relação com as coisas objetivas do mundo. A filosofia moderna cria uma cisão entre sujeito e objeto; temos como exemplo René Descartes (1596 - 1650) que se assegura de uma única certeza: o “cogito”, e a partir deste, busca assegurar todo saber. O mundo externo é derivado a partir do “cogito”, visando contornar assim o ceticismo, que assombrava a filosofia de seu tempo.[4] Porém ao separar sujeito objeto, emerge a questão de como conectá-los, questão que perpassa todos os pensadores modernos.  O racionalismo, por sua vez, também esbarra nessa questão. Uso como exemplo a filosofia leibniziana, sistematizada na Alemanha por Christian von Wolff[5] (1679- 1754), a qual afirmava que poderíamos conhecer o mundo objetivamente, abstraindo por completo o ponto de vista do observador.  A posição defendida por Leibniz[6] tornou-se a metafísica ortodoxa do Esclarecimento alemão. Ao conferir à razão total poder em relação ao conhecimento, acreditava que esta alcançaria uma visão total da realidade, saber que deveria se “descontaminar” do conhecimento parcial fornecido pelos sentidos. Que por sua vez, era compreendido como representações obscuras, que deveriam ser reconduzidas à razão. Assim, as representações empíricas e racionais, não eram de naturezas diferentes, mas sim distintas em graus. O entendimento, ao trazer princípios inatos em sua constituição, era a fonte do conhecimento objetivo, e era a partir deste que deveria se derivar uma descrição completa do mundo, descrição esta que não deveria ser confirmada pela experiência, mas antes deveria condicioná-la. Assim entende-se que a experiência deve ser lida a partir de tais princípios racionais. Se posicionando diametralmente oposto a este pensamento, se impõe o ceticismo humeano, que defendia a incerteza do conhecimento objetivo, estando este sempre determinado (ou contaminado) pela subjetividade. Indo de encontro claramente à tese da existência de idéias inatas, segundo o empirismo, todo e qualquer conhecimento provém da experiência, estando assim necessariamente associado à condição subjetiva do sujeito cognoscente. Suspendendo assim a possibilidade de uma objetividade pura, Hume põe em questão conceitos tais como causalidade e saber a priori (necessários), a pontos caros ao conhecimento científico.

Enquanto o racionalismo acredita indubitavelmente no poder da razão, e na possibilidade desta conhecer a essência das coisas, o empirismo nega essa posição ingênua do saber e o denuncia como contingente. A posição kantiana pode ser vista como um híbrido dessas duas filosofias, - ainda que modifique radicalmente estes posicionamentos, - o autor da crítica busca pensar a partir deles a filosofia e a possibilidade de um pensamento objetivo. Ao dizer que os conhecimentos não provêm exclusivamente nem da experiência nem da razão, Kant visa superar a posição parcial das filosofias que o precederam, e assim contornar as aporias em que estas caíram. Enquanto o empirismo não fornecia nada além da necessidade subjetiva, que não era segundo Kant, suficiente para a certeza demandada pelas ciências. O racionalismo e seu afastamento sintomático da experiência lançavam à razão em uma série de antinomias, deixando-a sem uma pedra de toque para avaliar a veracidade de suas afirmações. Assim, Kant visa correlacionar esses dois elementos, razão e sensibilidade, vendo seus produtos como naturezas distintas e imprescindíveis do conhecimento. Enquanto a razão e entendimento fornecem a parte formal do conhecimento, a experiência empírica fornece o conteúdo. Assim, podemos compreender a famosa afirmação kantiana presente no início da Doutrina transcendental dos elementos: “ Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas”[7], em seguida o autor escreve, “ Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as funções. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. O conhecimento só pode surgir da sua reunião[8]”. Teses estas que também se opõem claramente tanto ao empirismo, quanto ao racionalismo. Kant caracteriza o produto do pensamento e da experiência como representações naturezas diferentes, assim a percepção não é uma ideia confusa, nem a ideia uma abstração da experiência, e além de distintos são complementares, não há possibilidade de um saber genuíno somente com a forma ou com o conteúdo.

A frase apresentada no começo do texto é mais bem compreendida quando analisada em relação às mudanças operadas por Kant em relação à filosofia. A metafísica compreendida como ciência, - ou campo de saber que visava alcançar tal estatuto, - é uma das partes mais fundamentais da filosofia, pois visa tratar de seus problemas centrais, tais como: descrever os fundamentos, as condições, as leis, a estrutura básica, - as causas ou princípios do mundo e do homem. Bem como o sentido e a finalidade da realidade como um todo ou dos seres em geral. Tendo assim como objetos Deus, realidade última das coisas, imortalidade da alma e liberdade humana, a metafísica ganha o lugar de rainha das ciências, pois também é a partir desta que todo saber ganha sua fundamentação. Porém essa ciência de caráter tão nobre via-se constantemente questionada: “nela se precisa retomar o caminho inúmeras vezes porque se descobre que não leva aonde ser quer e, no tocante à unanimidade de seus partidários quanto a afirmações, ela se encontra a tal ponto distante disso que ela é muito antes um campo de batalha..onde ainda combatente algum conseguiu conquistar para si o menor lugar e fundar uma posse duradoura sobre esta vitória.[9]”   Não conseguindo, por conseguinte, conquistar a segurança que ciências como a física, a matemática e a lógica alcançaram, progredindo de simples tatear da razão à conhecimentos rigorosos e exatos. Porém a metafísica não foi contemplada com tal progresso. Assim Kant baseia-se no exemplo de tais ciências para analogamente importar seus métodos para a metafísica, visando com isso conquistar também o êxito para esta ciência. Ao analisar a forma como estas progrediram, Kant percebe um padrão: todas estas ciências passaram por uma reforma paradigmática, mudando a relação entre o cientista e seu objeto. Assim como na astrologia, Nicolau Copérnico (1473- 1543) troca o sistema geocêntrico anteriormente aceito, desde Aristóteles, onde a Terra seria o centro do Universo e tudo o mais giraria em seu redor pelo heliocêntrico, de forma, a ser agora, o sol o centro do Universo, se dá assim uma troca de referencial. Troca esta efetuada por todas as demais ciências que visavam prosperar. Conscientizando-se que é o sujeito que deve questionar o mundo, lançando a este as questões que visa solucionar, não assistindo assim passivamente seu funcionamento. É a partir dessa inversão que as ciências passam a progredir. E o mesmo deve ocorre à metafísica, pois ao fracassar constantemente em buscar conhecimento a priori a partir dos objetos da experiência, deve inverter seu foco e questionar a possibilidade da própria experiência: o sujeito. Não o sujeito empírico, do qual temos consciência em nossos estados mentais, mas antes o sujeito que é a condição de possibilidade desses estados, e assim de toda experiência. Dessa forma, é conhecida como Revolução Copernicana esta inversão operada por Kant, que efetua uma transferência do foco, antes recaído sobre os objetos para o sujeito que os conhece. Compreendendo os objetos como submetidos à capacidade de conhecer do homem. Assim, ao afirmar que “nosso conhecimento comece com a experiência”, Kant acentua o caráter imprescindível do conteúdo dado pelos sentidos, porém esses conteúdos devem ser organizados para que possibilite o pensar, assim ao analisar o sujeito que sistematiza tais dados, percebe que este possui estruturas a priori que viabilizam e condicionam nossa experiência. Compreendemos assim a segunda parte da afirmação, “nem por isso ele se origina justamente da experiência”. Ainda que cronologicamente o empírico tenha prioridade em relação ao conhecimento, incitando-o, é só por meio das categorias a priori fornecidas pelo entendimento que a experiência se torna possível. Segundo Kant a afecção empírica já se vê condicionada a priori pelas intuições puras de espaço e tempo, tese analisada na estética transcendental, onde o autor busca fundamentar a geometria e a aritmética, mostrando que as asserções sintéticas a priori se baseiam em tais estruturas, que ampliam o conhecimento, porém resguardando seu caráter necessário, pois não se baseiam no empírico, mas nas estruturas a priori, - nesse caso as intuições puras.    

Kant por meio de sua análise conclui que nossa experiência se encontra necessariamente condicionada por essas estruturas, que não só a possibilita, mas a determina. O que por sua vez impossibilita o acesso às coisas como são em si mesmas (coisas-em-si), mas acessamos somente as coisas como são para nós, temos assim experiência somente de fenômenos, do que aparece para nós.    

 

Glossário:

A priori: definido por Kant como “inteiramente independente da experiência[10]”, este conceito pode ser mais bem compreendido quando contraposto ao conceito de a  posteriori, ambos buscam caracterizar dois tipos distintos de conhecimento. Enquanto o primeiro se encontra alijado de todo conteúdo empírico, sendo assim necessário, o segundo se vê condicionado por este, e passa a ser caracterizado pela sua contingência.

Fenômeno: experiência já configurada pelas condições subjetivas do sujeito transcendental. Esse conceito também pode contraposto ao de conceito de coisa-em-si, instancias que não podem ser intuídas, nem acessadas pelo homem.

Transcendental: estruturas que condicionam e possibilitam a experiência. Esse conceito também deve ser diferenciado de transcendente, caracterizado, por Kant, como conhecimento que ultrapassa os limites da razão.    

 

Bibliografia:

KANT, Immanuel.Crítica da razão pura; Trad. Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger, - 4º. Ed. -  São Paulo: Nova Cultural, 1991. Os pensadores.

MARCONDES, Danilo. Iniciação À História da Filosofia. 13 º. Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

PASCAL, Kant. Compreender Kant. Editora: Editora Vozes, 2005. 

SCRUTON, Roger. Kant. Coleção: LPM Pocket, 1983.    

 



[1]  Edição (A) é de 1781, e a segunda (B), com algumas alterações efetuadas pelo autor em determinadas seções, de 1787.

 

[2]KANT, Immanuel, 1991. P. 25.

[3] Idem. P. 15.

[4] A argumentação cartesiana, presente em seu texto Meditações Metafísicas (1641), perpassa pela prova da existência de Deus, para assegurar uma relação genuína entre as idéias presentes no cogito e os objetos externos. Como aqui Descartes não é o foco da apresentação, não viso expor exaustivamente sua argumentação, mas somente apresentá-la.

 [5] Sistematização ampliada e aprimorada por A. G. Baumgarten (1714-1762), escritor dos manuais utilizados por Kant em seus cursos de metafísica na academia prussiana.  

 [6] Sendo o foco do texto a filosofia kantiana, mais especificamente, sua primeira critica, apresento rapidamente os pensamentos de Leibniz e Hume, sem me estender em suas filosofias, só esboço rapidamente alguns pontos para uma melhor compreensão da proposta crítica de Kant. 

 

[7] Idem. P. 55.

[8] Idem. P. 56.

[9] Idem. 14.

[10] Idem. P.75.