Na primeira Meditação Metafísica escrita por Descartes, é construído o método da dúvida hiperbólica, que tem como objetivo “estabelecer algo de firme e constante nas ciências (DESCARTES, 1979, p. 85) ”. Para tanto, o primeiro passo é duvidar de tudo o que até agora se dera crédito e abandonar as falsas opiniões que até hoje se recebeu como verdadeiras.

 

Feito isto, será preciso aplicar-se com todo cuidado, seriedade e liberdade em destruir todas as antigas opiniões. Não será preciso, contudo, provar que todas elas são falsas, Descartes explica: 

“Uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito as coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas. ” (DESCARTES, 1979, p.85)

Mas, pense no trabalho que seria examinar cada opinião em particular. Não será necessária tal tarefa. Destruída a fundação de um prédio, o prédio também se destrói. Será preciso dedicar-se, então, aos princípios sobre os quais as opiniões antigas estavam apoiadas. Este passo é chamado de argumento do erro dos sentidos, o primeiro grau da dúvida, mas ainda é insuficiente para nos fazer duvidar sistematicamente de nossas percepções sensíveis.

É necessário reparar que tudo o que recebemos como verdadeiro apreendemos dos sentidos ou pelos sentidos, mas visto que os sentidos já me enganaram uma vez, não seria prudente confiá-los novamente. Em contrapartida há coisas que conhecemos por intermédio deles e que não se pode razoavelmente duvidar. Por exemplo, que você esteja lendo este texto, ou que eu esteja neste momento (em que o texto está sendo escrito) sentada em minha mesa esclarecendo os conceitos cartesianos, ou que Descartes, quando redigiu as meditações metafísicas estivesse:

“Sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel em mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser, talvez que eu me compare e esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reais quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por esses exemplos. ” (DESCARTES, 1979, p.86)

O que Descartes quer considerar neste trecho é o que se chama de argumento do sonho, segundo grau da dúvida: Visto que os homens têm o costume de dormir e representar em sonho as mesmas coisas que os loucos descritos por Descartes, quantas vezes já sonhamos alguma coisa que parecia ser completamente verdadeira? Mas, pensando nisso, quantas vezes fomos enganados pelas ilusões quando dormíamos? Não podemos ver nenhum indício ou marca por onde se possa distinguir o sono da vigília. Supondo agora que estivéssemos dormindo, e que abrir os olhos, mexer a cabeça, estender as mãos, e coisas semelhantes não passam de falsas ilusões, e indo ainda mais a fundo: que nossas mãos e nosso corpo não são tais como os vemos. Entretanto, é preciso admitir que as coisas que sonhamos durante o sono são formadas à semelhança de algo real e verdadeiro. Por exemplo, uma sereia. A sereia não existe, é uma figura mitológica, contudo, mesmo não existindo, sua imagem é formada pela composição de coisas existentes: a mulher e o peixe. E, por mais que você imagine algo que jamais ninguém viu o pensou, ao menos as cores, serão iguais às que já se tem conhecimento.

Por esse motivo, talvez fosse certo concluir que as ciências como a Física, a Astronomia e a Medicina, que consideram as coisas como objetos de estudo, podem ser duvidosas e incertas, diferentemente da Aritmética e da Geometria e outras ciências desta natureza, que tratam de coisas mais gerais e muito simples, e que não levam em conta se tais objetos de estudo existem ou não, tem algo de mais certo e indubitável. Mesmo se estivermos dormindo, a soma de dois mais três será sempre igual a cinco e o quadrado não terá mais do que quatro lados. Não parece, portanto, que essas verdades sejam suspeitas de falsidade.

Embora essas ciências pareçam ser inteiramente certas e indubitáveis, pode ser que exista um Deus que me criou e que tudo pode, inclusive me enganar para que eu pense que dois mais três é cinco.

“Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não me pareça existir de maneira diferente daquela que vejo? ” (DESCARTES, 1979, p. 87)

Descartes considera que pode Deus querer que nos enganemos todas as vezes em que somamos dois mais três. Mas, se Deus é considerado soberanamente bom, como ele pode desejar que eu me engane? Desconsiderando sua bondade, ele pode ter-nos criado para que nos enganássemos sempre.

Contudo, falhar e enganar são espécies de imperfeição, e quanto menos poderoso e mais imperfeito for o autor de minha criação, serei de tanto modo mais imperfeito de forma que eu me engane sempre.

Agora já podemos dizer que não há nada de que não possa duvidar já vistas por razões muito fortes e maduramente consideradas. A dúvida aqui é universalizada. Descartes já a estendeu por todo o campo do conhecimento.

Depois de universalizar a dúvida, Descartes troca o termo “Deus enganador” por “Gênio Maligno”, não sendo este menos ardiloso e enganador. A função do Gênio Maligno e do Deus enganador é a mesma, porém o Gênio Maligno é um artifício psicológico que nos leva a tomar a dúvida mais a sério em nossa memória.

Para escapar das “armadilhas” do Gênio Maligno, nos empenharemos em pensar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores são apenas ilusões e enganos. É preciso considerar que somos desprovidos de mãos, de olhos, de carne, de corpo, e desprovido de quaisquer sentidos, mas munidos da falsa crença de possuí-los.

“Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo. ” (DESCARTES, 1979, p. 89)

A primeira Meditação Metafísica é a primeira etapa da construção do método Cartesiano de Conhecimento e serve para a consolidação do processo de conhecimento proposto por Descartes.

 

Glossário:

Dúvida Hiperbólica: É a dúvida desenvolvida por Descartes para encontrar a fundação do Conhecimento.

Figura mitológica: Que faz parte de um mito, figura que não existe na realidade.

Indubitável: O que não se pode encontrar dúvida, o que não se pode duvidar.  

 

 Referências Bibliográficas:

 

 

DESCARTES, René, Os pensadores; tradução de J.Guinsburg e Bento Prado Júnior. – 2. ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1979