Platão não é um autor simples, de fácil e rápido entendimento. Ambíguo, nada homogêneo, seu discurso misto se dá na inter-relação da dialética com o mito. Um fato interessante e elucidativo quanto à sua ambiguidade discursiva é a crítica e o uso (criando mitos ou os aproveitando filosoficamente) concomitante que realiza dos mitos e das imagens. Isto se dá de maneira clara em sua obra. A própria República, por exemplo, (que contém em si passagens que condenam o uso de determinados mitos e imagens) pode ser considerada um mito, tanto pela grande quantidade do uso de imagens em seu corpo quanto pelo fato de ela, ao projetar uma cidade ideal, não falar de coisas concretas – o que é uma grande característica mítica.

A partir destas considerações, este trabalho se propõe a investigar um pouco a condição humana, o que nos torna o que somos, abordando o uso do mito e das imagens por Platão através da leitura, entre outros, de Protágoras (Prometeu) e da própria A República (mito de Er, o panfílio); a tentar concluir de alguma maneira o motivo pelo qual o mito e as imagens são utilizados na narrativa platônica, se o que é contado poeticamente pode ser contado de outro modo, e se estes mitos e estas imagens, por serem aparentemente agradáveis a quem ouve, são mais fáceis de serem então compreendidos ou são tão complexos quanto qualquer outra argumentação.

O mito de Prometeu, por sua vez, utilizado por Platão no diálogo Protágoras, mostra-se fundamental para que cheguemos à revelação do que é o Homem e sua condição humana. Ele, que nos narra a história do nascimento da raça humana, de sua fragilidade constituinte, do roubo das artes úteis à vida e sua entrega aos seres humanos por Prometeu, apresenta-nos o conhecimento da virtude política como necessidade primeira para a vida, para a humanidade, e por isto, permite-nos conhecer a natureza e condição humanas.

O mito de Prometeu, Epimeteu e Pandora era um mito já conhecido pelo povo e, ao utilizá-lo através da fala do sofista, Platão torna a sua argumentação mais agradável no sentido de já possuir uma fala conhecida, e como que numa espécie de encantamento faz aderir simples e quase que imediatamente quem o ouve. Neste âmbito é que se pode afirmar a utilização deste mito como instrumento de adesão de seus leitores (veremos adiante que não se trata somente disto).

Este mito se apresenta também em Hesíodo, em seu Os Trabalhos e Os Dias e em Teogonia. Ao comparar estas versões do mito (já anteriormente conhecidas pelo povo) com a versão platônica, percebe-se o intuito do filósofo de, através de uma narrativa já conhecida, introduzir o que lhe interessa, o ponto que deseja, a saber: capacidade e virtude políticas como dádivas de Zeus. Tanto é que, na versão platônica, temos um Zeus complacente, que se apieda dos homens e os presenteia com o Pudor e a Justiça para que não se acabem a si mesmos, preocupado com a vida humana e sua subsistência; enquanto que nas narrativas de Hesíodo, Zeus manda para os homens males vários, e o que é pior, travestidos de bem (Pandora).

Mas nos atando ao intuito principal, o uso que Platão faz do mito em sua argumentação, o que deve ser respondido é “no diálogo Protágoras, qual a necessidade do mito em si? ”. O mito possui uma racionalidade própria, uma compreensão única profunda acerca da natureza e, ao contrário de enfraquecer a discussão, fortalece-a. Se o problema do diálogo até então é a superficialidade em tratar o problema do ensino das virtudes pelo mero exemplo empírico, o mito vem para fundamentar o problema do conhecimento em relação ao ensino – a possibilidade de ensino da virtude. Ele não apenas é um facilitador, uma saída mais agradável, mas também um “possibilitador” da construção teórico-argumentativa que se seguirá, é parte essencial de toda a construção de um pensamento argumentativo, sem o qual este edifício não se sustentaria.

Além disto, é importante fazer ressalva a outra característica do uso do mito para que elucidemos melhor como este mito diz da natureza do Homem, de sua condição. A narrativa mítica não implica uma ordem temporal-cronológica. Não nos fala segundo a nossa concepção linear de tempo. Há no tempo mítico deste mito em si, a curiosa temporalidade do instante, parece haver a vontade de dizer o momento em que se instaurou a condição humana. Não num momento pretérito, em que a partir dele se configurou todo o restante dos homens; mas um momento ontem-hoje-amanhã que é sempre o mesmo, sempre o fazedor de nossa condição, eterna condição. Desta maneira, a partir desta característica do mito, Platão “atemporaliza” seus argumentos, lança para fora da possibilidade de contestação a sua narrativa.

E é neste caminho, pelo viés do instante, que falaremos também sucintamente sobre o mito de Er.

Este mito nos conta da vivência de um bravo guerreiro morto no campo de batalha que teve, por escolha dos deuses, a oportunidade de vivenciar o Além e ver como se dá a reencarnação das almas. Lá, Er observa o processo de escolha das vidas futuras, como age a sorte, a necessidade e o destino. Pela sorte, instituía-se uma ordem para a tal escolha; após isto, cada qual, a seu bel prazer e interesse, se apoderava de um modo de vida. O primeiro e o último, segundo o mito, teriam a mesma oportunidade tanto na opção por uma vida feliz e boa quanto pela opção por uma vida desregrada, tirânica e vil. Caberia a cada um a escolha, caberia à autonomia e ao domínio próprio a decisão de escolher pelo melhor. Depois, se teceria cada um à sua escolha, sendo irrevogável a mesma. E à partir de então, todos, tendo bebido na planície do esquecimento do rio Ameles, o rio do Descuido (e consequentemente esquecendo tudo o que se passara), tornariam a encarnar na Terra, perpetuando suas decisões pretéritas, realizadas anteriormente a esta vida.

O que nos interessa no mito de Er é a sua fundamentação na necessidade de saber bem escolher. O mito expõe em seu limite máximo a vantagem de ser justo. Não há no Hades como esconder-se a si mesmo. Não há no momento crítico de decisão, como esconder o que se é. E como consequência desta autonomia e independência na escolha, pôde-se expor que a vida que cada um tem é de inteira responsabilidade do cuidado ou descuido de cada um.

Todas as almas aspiram pelo bem, pelo melhor. E tendo isto como partida, então erram ou acertam de acordo com seus objetivos e atos. A questão aqui desejada é tentar mostrar a importância de cada uma destas ações, a importância que se faz necessária ante a escolha de uma decisão.

Platão se preocupa com a formação do homem nobre grego, em como os jovens são educados. E por isto a preocupação em como os mitos, e principalmente quais os mitos são utilizados. Se há uma crítica ao uso do mito, esta crítica baseia-se em mitos que não impelem o jovem à bravura, à coragem, ao justo, bom e belo; que, ao contrário, incitam os jovens à preguiça, à covardia, à injustiça, à desmedida.

O mito de Prometeu e o mito de Er são bons exemplos destes mitos considerados válidos e de grande importância para a formação de um bom cidadão grego. E uma característica mítica importante, que corrobora para a necessidade de uma severa seleção dos mitos, é o seu caráter imediato, conversivo, que atinge imediatamente quem o ouve e quem o lê. O mito inicia no pensamento, leva ao princípio, não apenas dizendo como fazer, mas fazendo por si. Daí se segue que nem todo mito ajuda na formação do homem nobre grego. Se os homens comuns não têm capacidade de discernir o que é bom e o que é mal, e de fato não têm, que se faça o melhor uso dos melhores mitos, em detrimento total dos que não condizem com esta nobre vida; que permaneçam os mitos que ensinem a viver moderadamente, a viver na lei, na coragem, na bravura.

 

Em suma, a ambiguidade do uso do mito em Platão faz-se correlata à sua imediatidade, à sua preocupação com a educação, ao seu ideal de cidade-modelo. E, por consequência, traz à tona a necessidade de cada qual discernir entre o bom e o mal, e escolher com a filosofia, com a ponderação. Os usos dos mitos por Platão vêm jogar intrinsecamente com a questão da necessidade da escolha, e da escolha pelo melhor. Assim, forma-se o homem em sua constituição: a característica da possibilidade e das condições da escolha e a capacidade de decidir entre o certo e o errado.