Introdução ao ceticismo

 

Falar sobre ceticismo é como estar diante de uma estrada que leva a diversos caminhos possíveis. Todos eles são capazes de te levar a algum lugar, talvez até ao mesmo, porém, nenhum pretende ser melhor ou mais acessível que o outro. Assim é o ceticismo: não há uma definição única e exclusiva do que seja. Por isso, na história da filosofia se preferiu muitas vezes falar em tradição cética. Dada a dificuldade, é comum o ceticismo ser caracterizado em contraposição ao dogmatismo: enquanto este consiste em qualquer filosofia com pretensão de certeza ou verdade, o primeiro se recusa a ser categórico, mantém-se na dinâmica do “pode ser como pode não ser” e o único critério que adota é o da imediatidade (“o que aparece aqui e agora como fenômeno”).

O ceticismo como corrente filosófica surgiu no contexto do final da antiguidade grega, no período conhecido como Helenismo. Alguns fatos históricos como, por exemplo, a decadência da pólis e a ascensão de Alexandre, o Grande – que gerou o contato com diversos povos e culturas –, instauraram uma espécie de relativismo frequente na sociedade grega e alteraram o modo de vida dos seus cidadãos. O homem que antes era centrado no espaço público e democrático, voltou-se para si mesmo. Por esse motivo, abriu-se espaço para o estabelecimento de filosofias voltadas para o indivíduo com forte caráter moral e prático. Além do ceticismo, se consolidaram o epicurismo e o estoicismo.

Por vias diferentes, as chamadas escolas helenísticas tinham um propósito em comum: buscavam atingir a ataraxia (estado de imperturbabilidade da alma), tendo como fim último a eudaimonia (felicidade). Com relação ao ceticismo, o meio encontrado para se chegar aos estados almejados está na epoché (suspensão do juízo). Um juízo corresponde a uma proposição que afirma ou nega alguma coisa. Suspendê-lo significa “colocá-lo entre parênteses”, ou seja, consiste na atitude de não afirmar, nem negar o que está sendo posto em questão. A estratégia cética funciona da seguinte maneira: ao analisar duas posições que se excluem, mas que se pretendem válidas e possuem o mesmo peso, o cético encontra-se diante de um conflito. Mas como para o cético o que falta é justamente um critério último de decisão, ambas as posições se situam no mesmo plano, isto significa dizer que são equipolentes. É a partir dessa indecisão e da sua manutenção que o ideal cético se realiza na suspensão do juízo e na tranquilidade da alma que não precisa escolher entre alternativas. Diante desse posicionamento, é natural atribuir ao cético determinadas posturas, a saber: distanciamento do mundo externo, indiferença às sensações, inação e ausência de discurso.

É interessante notar que o ceticismo não se pretende doutrinário ou descobridor de uma verdade última, ao contrário das outras escolas surgidas no mesmo período. Procura revelar as falhas nas argumentações e teorias dos dogmáticos. Sendo assim, o ceticismo se configura em uma representação ideal do processo incessante do filosofar, uma vez que não afirma ter encontrado verdades definitivas e ao mesmo tempo não garante a impossibilidade de encontrar alguma. Também é importante ressaltar que a tradição cética exerceu uma resistência frente à composição judaico-cristã-islâmica da filosofia. Enquanto a ética estóica, a metafísica platônica e a lógica aristotélica foram incorporadas pelos filósofos cristãos, judeus e muçulmanos, o ceticismo se manteve vivo por todo o período medieval, de modo que pôde ser recuperado no início da modernidade.

 

Escolas céticas da antiguidade

 

§  Protoceticismo. Ex.: Protágoras.

 

§  Ceticismo. Ex.: Pirro de Élis (fundador).

 

§  Ceticismo acadêmico. Ex.: Arcesilau e Carnéades, correspondem à fase cética da Academia de Platão.

 

§  Pirronismo ou ceticismo pirrônico. Ex.: Sexto Empírico (compilador da obra de Pirro).

 

Referência bibliográfica

 

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein / Danilo Marcondes. – 2.ed. rev. ampl.– Rio de Janeiro: Zahar, 2007.