I – Introdução

 

Foi quando Spinoza resolveu se indagar “se existia algo que fosse um bem verdadeiro, (...) que desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema, (...) sem mudar a ordem e a conduta comum” de sua existência, que se viu forçado a procurar um bem que lhe seria mais útil que as riquezas, as honrarias e a concupiscência, bens incertos, por um bem certo; que concluiu que os males eram provenientes do fato de que toda felicidade ou infelicidade nascem “da qualidade do objeto ao qual aderimos por amor”. “(...) Mas o amor de uma coisa eterna e infinita alimenta a alma de pura alegria, sem qualquer tristeza, o que se deve desejar bastante e procurar com todas as forças. Entretanto, não é sem razão que usei destes termos: se pudesse seriamente deliberar. Porque, ainda que percebesse mentalmente essas coisas com bastante clareza, nem por isso podia desfazer-me de toda avareza, concupiscência e glória.” (TRE).

 

 

 

II – O Conceito de Substância

 

Spinoza busca, primeiramente, o conhecimento de Deus para, posteriormente, conhecer a mente humana, em tradição racionalista aristotélica onde conhecer é conhecer pelas causas. Assim, para Spinoza, tudo tem uma causa, tudo é necessário e toda contingência se origina da ignorância. Com isto, em sua obra Ética I toma, como ponto de partida, a idéia do Ser Absoluto como princípio de toda verdade e de toda realidade. Para preparar o caminho para a definição de Deus busca as definições de “causa de si”, de “substância”, de “atributo”, de “modo”, de “liberdade” e de “eternidade” fazendo-o a partir das noções tradicionais, mas dando-lhes novas direções que embasarão sua construção metafísica.

 

Como causa de si entende que “Tudo o que existe, existe em si ou em outra coisa” (Axioma I, Ética I). Desta forma, ao dizer que substância é “o que existe em si e por si é concebido”, Spinoza nos mostra que só pode haver uma substância, que esta é absoluta e se identifica com Deus. Esta substância absoluta é potência absoluta de autoprodução e de produção de todas as coisas. Sua essência e sua existência são idênticas como também são idênticas à sua potência ou força para existir por si e em si infinitamente. É essa identidade da existência, da potência e da essência da substância o que chamamos de eternidade. Para Spinoza, a eternidade não é uma qualidade do tempo, mas a ausência de tempo. A identidade entre existência, potência e essência forma a complexidade infinita da qual se constata que só pode haver uma substância no universo, pois, se mais houvessem, teríamos que admitir a existência de um ser infinito limitado por outro ser infinito, o que seria uma contrariedade e um absurdo. Há, portanto, uma única substância, que é eterna, que rege todo o universo, na qual ser, agir e existir são a mesma coisa. Em seu agir faz-se existir a si mesma e faz todas as coisas existirem como expressão de si mesma; Deus sive Natura, um Deus não antropomórfico nem religioso, não transcendente, mas imanente à realidade natural, de concepção metafísica. Esta posição é uma concepção puramente filosófica, sem influência religiosa, através da qual Deus é essencialmente um princípio metafísico, será conhecida na modernidade como teísmo.

 

 

 

a – Modos e Atributos da Substância

 

Esta substância, que é concebida por si, não é conhecida por nós; nosso entendimento percebe somente seus atributos. Pode-se distinguir os atributos dos modos da substância pelo fato de os atributos serem concebidos por si (Ética, I, 10). Assim, havendo uma só substância esta se constitui por uma infinidade de modos e atributos que são suas propriedades e características, onde o atributo é infinito em seu gênero, dos quais os únicos conhecidos pelo homem são o pensamento e a extensão. Mas o pensamento e a extensão não são substâncias finitas e distintas, são duas expressões de uma mesma realidade, da substância, e, mesmo que sejam heterogêneas, são infinitas, são matéria infinita e idéia infinita. As coisas finitas são simples modificações produzidas por Deus em si mesmo posto que ele é causa imanente. O atributo pensamento é atividade da potência que produz o modo infinito do intelecto de Deus. O intelecto de Deus produz todos os modos finitos do pensamento que são as idéias, ou mentes, ou almas. O atributo extensão é a atividade da potência que produz o modo infinito do Universo Material, que são os corpos a que são dadas a proporções de movimento e repouso. Idéias e corpos são modos finitos e expressam a substância de maneira determinada e conforme a ordem necessária que rege todos os seres do universo. Dessa maneira, ao afirmar que “a ordem e a conexão das idéias são as mesmas que a ordem e a conexão das coisas” (TRE) Spinoza não sugere um paralelismo entre pensamento e matéria posto que o afastaria do racionalismo, mas, ao contrário, identifica substância pensante com a substância extensa (Ética III, esc. 7) o que forma uma unidade, monismo, diferindo de Descartes que é dualista.

 

 

 

b – Natureza Naturante e Natureza Naturada

 

Spinoza distingue os atributos divinos dos modos divinos; aos atributos da o nome de Natureza Naturante e aos modos de Natureza Naturada, onde, mesmo que todas as coisas existam em Deus e exista em todas as coisas, não significa que haja uma interligação entre a essência de Deus e a essência dos modos. A essência de Deus é uma potência de causa inesgotável. Dá o nome de Natureza Naturante à substância e seus atributos enquanto atividade infinita que produz a totalidade do real e dá o nome de Natureza Naturada à totalidade dos modos produzidos pelos atributos. Desta forma, Deus não é uma causa que se separa dos efeitos após tê-los produzido, mas é causa imanente e eficiente de seus modos e se expressa por eles e eles a expressam.

 

 

 

c – O Conhecimento

 

A mente humana produz vários tipos de idéias. Os tipos de idéias que afirmam ou negam são ditos “juízos”. A origem da cognição da mente está nas idéias das afecções do corpo que são basicamente de três gêneros ou espécies.

 

A opinião ou a imaginação, que Spinoza chama de “primeiro gênero do conhecimento”, se processa pela percepção sensível e representa os objetos exteriores pelas idéias das suas imagens. Para isto concorrem a natureza dos órgãos sensoriais (visão, tato, olfato, ...) e a natureza dos corpos que nos afetam, o que pode fazer-nos ignorar as verdadeiras causas, implicando, assim, na inadequação da aceitação da imagem como um conhecimento verdadeiro, pois pode levar-nos a um entendimento parcial, confuso ou falso.

 

O segundo gênero do conhecimento é a razão, que é um conhecimento intelectual que só comporta idéias adequadas, dotadas de certeza, que são chamadas de “noções comuns” que representam as propriedades comuns das coisas. As noções comuns são universais e necessárias e por isso comuns a todos os homens.

 

O terceiro gênero do conhecimento são as idéias da “ciência intuitiva”, que Spinoza considera o gênero supremo do conhecimento, permite aos homens conhecerem as coisas e delas formar idéias de suas essências a partir da idéia da essência de Deus. Para ele é o gênero que faz o homem alcançar a suprema felicidade.

 

d) Conatus

 

Spinoza entende “Conatus” como o esforço dedicado na perseverança do ser e nos mostra que, pela perspectiva da razão certas coisas são úteis para nós. E que bom é o que é útil para o meu Conatus, é o que favorece e aumenta a minha potência, é o que me traz alegria. E que mal é o que é prejudicial ao meu Conatus e diminui a minha potência e me entristece.

 

Mas o melhor seria resgatar o coletivo, o universal, atravessando o campo do relativo para produzir juízos de valor com fundamento na realidade, porque existe algo que sempre nos afeta positivamente, o bem soberano e “o amor de uma coisa eterna e infinita alimenta a alma de pura alegria” (TRE).

 

 

 

Glossário:

 

  1. Causa de si = O que existe em si e por si é criado ou concebido.

  2. Substância = Deus ou Natureza. Deus sive Natura.

  3. Atributos = Propriedades da Substância, são concebidos por si e há infinitos atributos.

  4. Modos = Simples modificação produzida pela Substância, são concebidos pelos atributos, os modos são finitos.

  5. Natureza Naturante = São a Substância e seus atributos.

  6. Natureza Naturada = São a totalidade dos modos que são produzidos pelos atributos.

  7. Conatus = Esforço para perseverar no ser.

 

 

 

Questionário:

 

  1. Como se pode entender a concepção espinosista de Deus?

  2. Decreva a relação entre Natureza Naturante e Natureza Naturada.

  3. Como são caracterizados o “pensamento” e a “extensão” da Substância, em Espinosa?

  4. Quais são os únicos atributos reconhecidos pela mente humana?

  5. Cite as características da essência de Deus.

  6. Explique o que significa “teísmo!”.

  7. Explique o conceito de “conatus”.

 

 

 

Bibliografia:

 

  1. Chauí, Marilena, “Espinosa, uma filosofia da liberdade”, 1ª ed, Editora Moderna, São Paulo, 1995.

  2. Ferrater Mora, Jose, “Diccionario de Filosofia”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, Argentina, 1969.

  3. Gleizer, Marcos André, “Espinosa”, pág. 238/261.

  4. Gleizer, Marcos André, “Considerações sobre o conceito de certeza em Espinosa”, Revista Kriterion nº 98, pág 158/175, Belo Horizonte, 1998.

  5. Hessen, Johannes, “Teoria do Conhecimento”, 8ª ed., Armenio Amado Editora, Coimbra, Portugal, 1987.

  6. Larousse do Brasil, “Dicionário de Filosofia”, Trad. José Américo da Motta Pessanha, Rio de Janeiro, 1969.

  7. Marcondes, Danilo, “Iniciação à história da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein”, 12ª ed., Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, 2008.

  8. Moreau, Joseph, “Espinosa e o Espinosismo”, Edições 70, Lisboa, 1982.

  9. Spinoza, Baruch de, “Correspondência Completa”, Trad. Juan Domingo Sánchez Estop, Editora Hiperion.

  10. Spinoza, Baruch de, “Tratado da Correção do Intelecto”, Trad. Carlos Lopes de Mattos.

  11. Spinoza, Baruch de, “Etica”, Trad Joaquim de Carvalho.

  12. Teixeira, Lívio, “A doutrina dos modos de percepção e o conceito de abstração na filosofia de Espinosa”, Editora UNESP, São Paulo.