Afinal, o que é filosofia? Eis aí um daqueles problemas difíceis, mesmo para quem se já dedica há algum tempo às investigações filosóficas. Responder tal questão, porém, é fundamental, especialmente para aqueles que irão exercer o magistério escolar. É muito natural que os estudantes do Ensino Médio se façam essa pergunta. Na verdade, muitos deles tendem a pensar que a filosofia é um mero palavreado qualquer, uma simples conversa vazia de sentido. Ao aluno preocupado com o vestibular, por sua vez, o estudo da matéria parece desnecessário e inútil, mais atrapalhando do que ajudando seu ingresso na faculdade. Sejamos honestos: quem de nós nunca ouviu por aí que o estudo filosófico é coisa de quem não bate muito bem da cabeça? Pois bem, se o professor de filosofia do Ensino Médio pretende realizar um bom trabalho, cabe a ele, antes de tudo, desfazer esses preconceitos. Sua primeira lição deve ser ensinar o que é filosofia.

 

Como, porém, fazer isso? Como definir a natureza do exercício filosófico? É aqui que já nos aparecem as primeiras dificuldades. De fato, nem mesmo os filósofos conseguem concordar nesta matéria. Quantas páginas e mais páginas escritas e nenhum consenso alcançado! Devemos, portanto, diminuir nossas pretensões. Não precisamos imaginar que é tarefa de um simples professor de Ensino Médio responder plenamente a uma questão tão controvertida. Devemos, pelo contrário, realizar uma tarefa mais simples. Assim, nosso objetivo não será fazer definição exaustiva da filosofia, com pretensões definitivas; mas simplesmente uma definição informal. Queremos apenas mostrar ao aluno o espírito, por assim dizer, da prática filosófica. O que faremos, antes de tudo – e este é nosso objetivo –, será uma introdução, simples, mas consistente, ao universo filosófico. Trata-se de seduzir o aluno, de estimulá-lo a percorrer conosco este caminho de estudos.

 

Voltamos, portanto, ao nosso ponto inicial: o que é filosofia? Ora, o modo mais intuitivo pelo qual definimos uma disciplina é a partir de seu objeto, ou seja, por aquilo que ela estuda. Assim, podemos dizer que a matemática é a ciência do número, que a física estuda as relações de forças entre os corpos naturais, a química investiga a constituição íntima dos corpos naturais, a biologia estuda os seres vivos e a sociologia estuda as relações sociais. No entanto, é impossível fazer esse tipo de definição para a filosofia. E é impossível justamente porque o objeto da investigação filosófica mudou muito ao longo da história. Questões que hoje são respondidas pela ciência já foram objeto intenso de reflexões filosóficas. Vejamos o caso de Newton, por exemplo, que é um autor que estudamos em física. Sua principal obra se chama Princípios matemáticos de Filosofia Natural. Ao descrever a lei da gravitação, Newton acreditava estar filosofando. Ele vivia em uma época em que a diferença entre filosofia e ciência não estava muito clara. O mesmo caso se aplica, por exemplo, para os filósofos medievais. Naquela época, discutir a natureza do arco-íris era uma questão filosófica. Santo Tomás de Aquino se utilizava dos termos “filosofia” e “ciência” como sinônimos.

 

O caminho intuitivo, que é definir a matéria pelo seu objeto, está, portanto, fechado para nós. Que fazer então diante do dilema de um conhecimento que é tão mutável historicamente? Renunciaremos à nossa tarefa? De maneira alguma. Há ainda um outro caminho aberto para nós e é este que convidaremos nosso aluno a realizar. Trata-se entender a natureza da filosofia a partir de sua gênese histórica. O que tentaremos é olhar para o primeiro filósofo da história e perceber o que ele trouxe de novo para o mundo. Este algo de novo que buscaremos identificar é, seguramente, a filosofia. Afinal, não foi à toa que ele foi reconhecido como primeiro filósofo. Se foi assim, é porque ele tinha algo de especial que o diferenciou de todos os outros seres humanos. Procuremos então identificar tal característica.

 

O primeiro filósofo de todos os tempos foi Tales de Mileto. Ao menos é assim que nos diz toda a tradição desde a antiguidade, havendo um grande consenso a respeito. Do próprio Tales, no entanto, não nos sobrou quase nada. Não temos sequer um escrito do pensador grego. Tudo o que sabemos dele reduz-se a duas frases que lhe são atribuídas: “Tudo é água” e “Todas as coisas estão cheias de deuses”. A história da filosofia também sempre tendeu a reconhecer a primeira como a mais importante. “Tudo é água” será, portanto, o ponto de partida de nossa reflexão. É ela o primeiro enunciado autenticamente filosófico da história.

 

Devemos admitir, neste ponto, a ameaça do sentimento de decepção, especialmente para aqueles que estão tendo seu primeiro contato com a filosofia. De fato, quando ouvimos a expressão “o primeiro filósofo da história” é natural que imaginemos encontrar um gênio da mais alta estatura intelectual, construtor de um brilhante sistema, capaz de responder os maiores mistérios da existência. E eis, no entanto, que estamos diante de uma simples frase: “Tudo é água”. Frase estranha, não podemos negar: aparentemente sem sentido. E para aquele aluno já indisposto com o estudo filosófico, sem dúvida alguma, uma frase decepcionante também. No entanto, por mais que esse sentimento de decepção possa ser intuitivo, ele não pode nos deter. Não é à toa que Tales foi considerado o primeiro filósofo. Há uma profunda riqueza escondida em seu pensamento e nós iremos encontrá-la. Vamos juntos ultrapassar a letra da frase e compreender o raciocínio que lhe deu origem. Vamos juntos fazer um exercício de reflexão.

 

O primeiro passo para compreender o raciocínio de Tales é prestarmos atenção no mundo à nossa volta. Consegue perceber que o mundo está sempre mudando? Que a realidade nunca é a mesma, que tudo sempre se transforma? Um ser humano, por exemplo: é concebido, torna-se um feto, depois um bebê, uma criança, adolescente, jovem, adulto, idoso, defunto. Por sua vez, a cadeira da escola, que parece tão fixa, está aos poucos enferrujando. Mesmo aquilo aparentemente tão firme, nosso planeta Terra, está neste momento girando em torno do sol. E onde não percebemos mudança alguma, algo continua passando: o tempo. É como naquela música de Lulu Santos, que se chama Como uma onda: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo”. O primeiro passo então de Tales é perceber a mutabilidade do mundo.

 

Mas a reflexão do primeiro filósofo não pára por aqui. Tales avança mais um pouco e percebe que para haver mudança é necessário haver algo que mude. De fato, como dissemos acima, um ser humano sofre muitas transformações. João, no seu último segundo de vida, não tem provavelmente uma única célula de quando era um feto. E, no entanto, ele permanece sendo João: algo permaneceu nele, estruturando todas as suas transformações. Aliás, não fosse assim, quando cortássemos o cabelo, nossos amigos não nos reconheceriam. Se eles nos reconhecem, apesar de nossa mudança, é porque algo em nós permaneceu. Eu só posso perceber que certa coisa mudou se percebo também que algo nesta coisa permaneceu. Tales aplica este raciocínio ao mundo e conclui que se a realidade muda o tempo todo é porque existe algo que permanece em meio a todas estas transformações: existe uma unidade fundamental de todas as coisas.

 

Por fim, o terceiro e último passo do raciocínio de Tales é concluir que esta unidade é a água. Daí nos dizer Friedrick Nietzsche: “Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água”1. Vejam: a nossa primeira impressão ao observar a frase de Tales é profundamente enganosa. Ao lermos “Tudo é água” o que mais nos chama atenção é a palavra água e, no entanto, ela não é o mais importante aqui. Na realidade, poderíamos desmembrar a primeira frase filosófica em duas: “Tudo é Um. O Um é água”. O primeiro ato de Tales não foi dizer que a unidade fundamental de todas as coisas é a água, mas sim que existe uma unidade fundamental de todas as coisas. Tanto isto é verdade que os filósofos posteriores passaram mais de um século discutindo sobre o que era a tal unidade e, no entanto, nem todos concordaram com Tales. Na verdade, mesmo aqueles que admitiram que fosse a água, a admitiram junto com outros elementos.

 

Podemos perceber aqui, finalmente, o que tornou Tales o primeiro filósofo da história. De fato, o que há de importante em seu pensamento não é propriamente a resposta, mas sim a pergunta que ele levantou. O que aquele homem buscou foi um princípio explicativo da realidade. Não lhe bastava saber que o mundo é assim, que as coisas mudam o tempo todo; ele desejava mais, desejava conhecer a explicação desse fato. Não lhe bastava saber o que existe, mas sim porque existe. O que distinguiu Tales, portanto, de todos os outros homens do mundo foi a sua postura diante do mundo: Tales buscava explicações. De fato, sejamos honestos, não é essa a nossa atitude cotidiana, não é? Não ficamos por aí, no dia-a-dia, querendo saber qual é a unidade fundamental de todas as coisas. Vivemos ocupados com os nossos afazeres diários e não com o sentido do universo. Queremos passar de ano, namorar aquela menina bonita, torcer para o nosso time de futebol. E, no entanto, ao olharmos para Tales percebemos que seu gesto é justamente fugir dessa nossa tendência cotidiana. Tales não quer simplesmente viver, ele quer entender aquilo que ele vive. É por isso que ele foi o primeiro filósofo. O filosofo é aquele que pergunta: “Por quê?”.

 

E eis que podemos finalmente encontrar a nossa definição informal de filosofia: ela é justamente esse exercício de questionamento. A filosofia é uma postura crítica diante do mundo que se caracteriza por buscar explicações para a realidade. Essa postura, uma vez que rompe com nosso senso comum, com nossa maneira cotidiana de enxergar a vida, exige esforço, atenção. Exige, sobretudo, a capacidade de ser surpreender com a realidade, de se admirar com ela. Se eu acho que a explicação das coisas é muita óbvia, eu nem sequer faço perguntas. Para relembrar a saudosa expressão de Manuel García Morente: “Aquele para quem tudo resulta muito natural, para quem tudo resulta muito fácil de entender, para quem tudo resulta muito óbvio, nunca poderá ser filósofo”2.

 

Não à toa, Platão e Aristóteles diziam que a filosofia nasce do thauma, palavra grega que significa justamente “espanto, admiração, surpresa”. Diz-nos Aristóteles: “De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa do thauma, na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos diante das dificuldades mais simples; em seguida, progredindo pouco a pouco, chegaram a enfrentar problemas sempre maiores, por exemplo, os problemas relativos aos fenômenos da lua e aos do sol e dos astros, ou os problemas relativos à geração de todo o universo”3. Morente, por sua vez, aponta que o filósofo deve ser como criança. De fato, que criatura no mundo questiona mais do que a criança? Para ela, tudo é novo, tudo é surpreendente, exige explicação, exige um porquê.

 

O próprio significado da palavra filosofia concorda com nossa definição. Com efeito, “filosofia” vem do grego e significa “amor ao saber”. O filósofo, portanto, não é aquele que tem o saber, que tem a explicação, mas sim aquele que a busca. E todos nós sabemos que o amor é uma certa postura diante do amado. Aliás, se formos confiar no que nos Cícero, nossa definição ganhará ainda mais força. Conta ele que a palavra “filosofia” foi inventada quando o rei Leonte, muito admirado com a inteligência de Pitágoras, perguntou ao mesmo como ele se definia, qual era o seu tipo de saber. Pitágoras então teria respondido que não tinha saber de tipo um específico, mas que era simplesmente filósofo, amante do saber. Eis que agora entendemos finalmente porque não conseguimos definir a atividade filosófica pelo seu objeto de estudo. É porque não é possível mesmo. É porque o exercício filosófico, nos diz Pitágoras, não se define por seu conteúdo, mas sim por uma certa atitude fundamental. É porque a filosofia não é algo que se estude, mas é algo que se vive.

 

Percebemos, por fim, que todos nós podemos ser filósofos. Afinal, quem nunca se perguntou se Deus existe? Ou, diante do falecimento de um ente querido, se questione o que acontece depois da morte? Ou ainda, depois de uma decepção amorosa, não se perguntou no que consiste o amor? De fato, todos nós, em algum momento, buscamos entender a realidade. No entanto, como vimos acima, essa não é nossa atitude predominante, não é nossa atitude cotidiana. Apenas em momentos muito específicos fazemos isso. Vemos, portanto, que o que nos distingue do Filósofo (assim, com “f” maiúsculo), do filósofo de ofício é o grau de intensidade das nossas reflexões. O que nos distingue de Platão e Aristóteles é que eles dedicaram a vida inteira a encontrar respostas, fizeram da busca por explicações a sua própria vida. E é por isso que nós os estudamos, na esperança de aprender algo com aqueles que trilharam esse difícil caminho antes de nós. Afinal, é para isso que serve uma aula de filosofia no Ensino Médio, para que ali, ao menos uma vez por semana, o mundo nos soe misterioso, problemático, admirável e, enfim, necessitado de explicações.

 

Glossário

 

Aristóteles: filósofo grego do século IV a. C. Discípulo de Platão por muitos anos, tornou-se posteriormente grande crítico de suas teorias. Defendia, contra seu mestre, que era possível conhecer a realidade através dos sentidos, mediante um processo de abstração. Criou a lógica, além de ter importantes contribuições em vários campos da filosofia, como a ética e a política.

 

Cícero: filósofo romano da antiguidade, caracterizou-se pelo seu ecletismo, isto é, a tentativa de conciliar diversas correntes filosóficas divergentes.

 

Friedrick Nietszche: filósofo alemão do século XIX, tornou-se um crítico implacável dos valores tradicionais da civilização ocidental, em especial do cristianismo. Seus estudos sobre os primeiros filósofos o tornaram célebre.

 

Santo Tomás de Aquino: filósofo e teólogo medieval do século XIII. Buscou, acima de tudo, conciliar a filosofia aristotélica com a teologia católica.

 

Manuel García Morente: filósofo espanhol do século passado. Tendo retornado à fé religiosa no final de sua vida, tornou-se sacerdote católico.

 

Pitágoras: filósofo e matemático da antiguidade, sua existência está cercada de lendas. Acreditava que toda a realidade está constituída por números. Seu pensamento originou uma religião que incluía como preceito o vegetarianismo e que defendia a reencarnação.

 

Platão: filósofo grego do século V a. C. Combatendo o relativismo dos sofistas, buscou demonstrar a existência de dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível. O primeiro, acessível através do corpo, seria enganoso; enquanto o segundo, perfeito e imutável, alcançado somente pela alma, seria fonte do autêntico conhecimento.

 

 

 

Questões para debate

 

  1. Como é sua relação com a filosofia? Você gosta, odeia, acha interessante?

  2. Quais são as questões que mais te inquietam? O que você gostaria de entender melhor?

  3. Segundo aquilo que foi apresentado no texto, você acha que nossa relação com o estudo da história da filosofia deve ser simplesmente decorar aquilo que foi ensinado pelos grandes filósofos ou deve ser aprendermos a nos questionar a partir da leitura deles?

  4. Por tudo aquilo que você já sabe, você acha que a definição apresentada no texto, marcada em negrito, realmente explica o que é filosofia? A ciência e a religião, por exemplo, também não pretendem explicar o que é a realidade?

 

Bibliografia

 

 

 

. ARISTÓTELES. Metafísica, volume II. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª edição. In: http://books.google.com.br/books?id=BDoqyIc32msC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

 

. MORENTE, Manuel García. Fundamentos de Filosofia I – Lições Preliminares. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1967. Coleção Filosofia, 3ª edição.

 

. Os Pré-Socráticos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, 1ª edição.

 

.SPROVIERO, Mario Bruno. A Palavra "Filosofia”. In: http://www.hottopos.com/notand2/a_palavra.htm. Acessado em 28/06/2012, às 22:58.

 

 

 

1Os Pré-Socráticos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, 1ª edição, p. 18.

 

2 MORENTE, Manuel García. Fundamentos de Filosofia I – Lições Preliminares. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1967. Coleção Filosofia, 3ª edição, p. 34.

 

3 . ARISTÓTELES. Metafísica, volume II. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª edição, p. 11.