O filme Mephisto conta a história de um ator de teatro alemão chamado Hendrik Hofgen, que com a chegada do governo nazista torna-se seu adepto. Se tornando nessa época o principal representante da arte no governo nazista. Ele atuou no teatro como Mephisto que foi o espetáculo mais apreciado pelos nazistas. Hendrik se alienou as questões políticas a sua volta, pois para ele a arte do teatro é superior as questões políticas. Com isso ele submete sua arte ao nazismo, que naquele momento ditava o que poderia ser expresso pela arte. Assim, ele abandona suas convicções políticas e se vende ao nazismo, para conquistar ascensão social e, principalmente, sucesso em sua carreira artística.

Esse filme é dirigido por István Szabó, baseado no romance de Klaus Mann com mesmo título, que retrata a vida de seu cunhado Gustaf Grudgens, ator alemão, que se associa ao nazismo para conquistar ascensão social e sucesso em sua carreira artística. Grundgens atuou como Mefistófeles no Fausto de Goethe, uma das artes mais apreciadas pelos nazistas. O fausto retrata a tragédia do Dr. Fausto, um cientista que se desiludiu com o conhecimento que possuía, e faz um pacto com o demônio Mefistófeles, lhe entregando sua alma para em troca alcançar o máximo de conhecimento, rejuvenescer, e ter o amor de uma bela donzela.

No filme Mephisto aborda-se a relação da arte com as questões políticas. No qual se retrata um ator de teatro que não se interessa pelas questões políticas de seu país. E que busca apenas o sucesso em sua carreira artística. Hendrik vende sua alma ao nazismo, como o Dr. Fausto ao demônio Mefistófeles. Ele deixa suas convicções políticas, seus amigos contrários ao nazismo, para conquistar o sucesso. Se fechando a tudo o que acontece a sua volta, não se importando com nada, pois para ele, a arte está acima de questões políticas.

Questionamos como é possível que a arte esteja a cima de questões políticas. Já que é possível estabelecer relação entre política e arte, não havendo nenhum que seja superior ao outro. E o fato de Hendrik aceitar perder sua liberdade ao se associar ao nazismo é, especialmente, em seu caso, inconcebível; já que ele é um artista. E um artista precisa de liberdade de expressão para manifestar sua arte. E a arte, como já sabemos, é um meio de expressarmos nossos sentimentos, impressões, e etc. Entretanto, a obsessão de Hendrik pelo sucesso, não permitiu que ele compreendesse a isso. Ele queria fazer sucesso com sua arte, não importando de que maneira ou a que preço. Mesmo que a ela fossem impostos alguns limites, já que naquele momento, só podia ser vinculado como arte o que fosse do agrado do governo nazista. Mas, como pode a arte ter limites? Pois, limitar a arte é tirar sua liberdade de expressão. E sem liberdade é impossível que haja um criar artístico pleno, com todas as suas possibilidades.

Outro aspecto importante é a politização da arte, na qual a política passa a se utilizar da arte para atender a seus fins. Pois, como sabemos o nazismo utilizava a arte para propagar sua ideologia. Usando o teatro, a música, é principalmente o cinema para disseminar suas ideias. Sendo, por exemplo, comum a vinculação de filmes que retratavam judeus como seres inferiores, e até mesmo como parasitas culturais.

Podemos observar, essa questão da apropriação da arte para fins políticos na obra de Walter Benjamin. Que em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Afirma que as obras de arte antigas surgiram a serviço do ritual, que primeiro foi mágico, e depois religioso. E com o surgimento da reprodutibilidade técnica, a obra de arte se liberta do ritual. Sendo cada vez mais, a obra de arte produzida para ser reproduzida. E quando a obra de arte deixa a autenticidade, sua função social se transforma, fazendo com que ela passe a se fundar na política.

Assim, a reprodutibilidade técnica da obra de arte passa a atender aos interesses políticos. Pois, através de sua difusão em massa, em grande escala, se tornou possível atingir a grande massa de indivíduos com ideologias políticas. E isso se aplica ao cinema; já que ele possui uma produção de custo muito elevado, precisando atingir um grande número de pessoas para se tornar rentável.

Benjamin, também afirma que atualmente o cinema cria uma reprodução em massa que corresponde à reprodução das massas. Assim, os movimentos das massas e a guerra constituem o comportamento humano adaptado a reprodução. Tendo as massas o direito de exigir mudanças nas relações de propriedade, elas podem se expressar, porém conservam essas relações. O que resulta na estetização da vida política. E isso do ponto de vista político converge na guerra, pois ela permite dar um objetivo para os movimentos conservando as relações existentes. Já do ponto de vista técnico a guerra permite mobilizar os meios técnicos, conservando as relações de produção atuais.

Contudo, vemos que a obra de arte pode ser utilizada para atender aos interesses políticos. E que a reprodutibilidade técnica da obra de arte contribuiu para isso com sua difusão em massa. E em especial o cinema, através de sua reprodutibilidade em larga escala, que é uma exigência para seu sucesso e rentabilidade. Havendo uma reprodução das massas através da reprodução em massa. E nesse processo a humanidade torna-se seu próprio espetáculo, vendo sua destruição como um prazer estético. Como podemos observar na passagem do texto de Benjamin que diz que “Na época de Homero, a humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos; agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético, de primeira ordem. Eis a estetização da política, como a prática o fascismo. O comunismo reponde com a politização da arte”. (pág. 196, do texto de Walter Benjamin, a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica). Com isso, vemos que auto-alienação permite a destruição humana, pois se tornar alheio as questões políticas a nossa volta, é ficar alheio ao mundo em que se vive. Deixando de participar dele, emitir opiniões e impressões sobre ele. Sendo, importante se envolver com as questões políticas de nosso tempo, pois essas questões inevitavelmente, interferem de forma direta ou indireta em nossas vidas.

Bibliografia

BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas. Volume I; Trad. Sergio Paulo Rovanet. Ed.4, São Paulo: Brasiliense, 1985.