Análise do filme “Mephisto” com base no texto “A Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”

O filme Mephisto tem início em Hamburgo, quando Hendrik Hofgen, um ator jovem e ambicioso, dedica-se a um teatro de trabalhadores, influenciado pelos bolcheviques, de ideologia revolucionária e anti-burguesa. Contudo, percebe que permanecendo neste local, nunca conseguirá alcançar a glória e fama que tanto almeja, sendo assim, se casa por conveniência com uma mulher para que sua carreira possa avançar.

O ator muda-se para Berlim, e atinge a tão sonhada fama graças ao papel de Mefistófeles na peça Fausto de Goethe, o ator chama a atenção de um general, por sua brilhante atuação no teatro e mais tarde, quando o nazismo já se encontra no poder, este, agora Primeiro Ministro, se torna o seu mentor e protetor.

O personagem Hendrik abandona todas as suas convicções passando a fazer peças de propaganda para o nazismo. Torna-se, assim, um dos atores mais aclamados da Alemanha e é nomeado diretor do Teatro Nacional Alemão.

O filme apresenta como elemento principal a questão da vaidade humana, que quando levada a extremos pode desembocar em uma auto-ruína. Percebe-se que a peça Fausto possui duas vertentes dentro da narrativa do filme. A primeira é a que é representada dentro da própria trama, já que a peça serve como consagração definitiva de Hendrik como ator, no papel de Mefistófeles, e que o permite conhecer o Primeiro Ministro alemão, que o proporcionará todos os seus almejos. A segunda vertente coloca Hendrik como o personagem Fausto, ambicioso e que faz um pacto com Mefistófeles (o demônio) para ascender, donde podemos atribuí-lo ao Ministro Alemão.

O enredo da peça Fausto envolve um médico e alquimista, já idoso, que faz um pacto com o demônio Mefistófeles para aumentar seus conhecimentos científicos e não envelhecer durante certo tempo, depois de desfrutar de sucesso e juventude, chega o dia em que precisa cumprir a sua parte do contrato: entregar sua alma ao diabo e ir para o inferno.

Mefistófeles pode ser comparado a todas as oportunidades que Hendrik teve para conseguir a ascensão na sua carreira artística, se casou por interesse, se aproximou de pessoas influentes no meio artístico, fez propaganda do nazismo, ou seja, abandonou todas as suas antigas convicções.

Pode-se relacionar o filme Mephisto com o texto “Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” de Walter Benjamin, o autor aborda a questão do valor de culto e o valor de exposição da arte, no primeiro, o que estaria em voga seria a própria existência da obra, ou seja, a arte pela própria arte, meramente como objeto de contemplação, diferentemente do valor de exposição que preza pela exponibilidade das obras. O próprio personagem Hendrik pode ser comparado à tendência que a arte vem sofrendo desde a época em que o texto de Benjamin foi escrito, mais especificamente a perda de seu valor de culto e da sua autonomia, para uma aplicação da arte para outros fins exteriores a ela.

A arte, como foi apontado no filme Mephisto, passa a servir de instrumento político, o ator Hendrik deixa de lado a sua função artística e passa a fazer campanha para o nazismo, este assunto também é tratado com propriedade no texto de Benjamin:

Mas, no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política” (p. 171).

Ou seja, o autor aponta a transvalorização que aconteceu no campo da arte, se num momento o que se prezava era a questão ritualística, o valor de culto, agora ela passa a se fundamentar no campo da política, a arte passa a atuar como instrumento político:

A metamorfose do modo de exposição pela técnica da reprodução é visível também na política. A crise da democracia pode ser interpretada como uma crise nas condições de exposição do político profissional (...). O sentido desta transformação é a mesmo no ator de cinema e no político, qualquer que seja a diferença entre suas tarefas especializadas. Seu objetivo é tornar “mostráveis”, sob certas condições sociais, determinadas ações de modo que todos possam controlá-las e compreendê-las (..)” (p.183).

Em suma, o filme Mephisto exemplifica, dentre outras questões tratadas em a “Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, como se desencadeia o processo de perda de autoridade da arte no contexto de uma sociedade dominada por uma ideologia política. 

Por fim, pode-se dizer que a arte em sua essência é somente contemplação, quando esta entra no campo da indústria técnica e da política, perde a sua finalidade e autoridade.