O filme Mephisto foi realizado pelo húngaro István Szabó, recebeu o Oscar de melhor filme em língua estrangeira, foi patrocinado pela Alemanha Ocidental, Áustria e Hungria.

Mephisto, o filme, foi baseado no romance de Klaus Mann, Doktor Faustus, o roteiro também, é de István Szabó em colaboração com Peter Dobai.

O romance retrata a vida real de Gustaf Gründgens, ator alemão casado com a irmã de Klaus Mann, e que permaneceu na Alemanha mesmo após a subida de Hitler ao poder. Tornou-se um símbolo cultural do regime Nazista e representou Mefistófeles na peça Fausto, de Goethe.

O ator Klaus Maria Brandauer representa Hendrik Höefgen, um ator ambicioso, que deseja o sucesso, sacrificando tudo que acredita. Esquece-se de seus ideais bolcheviques, afasta-se da sua amante alemã e dos próprios escrúpulos. Torna-se diretor do Teatro Nacional Alemão. Sua fama e seu ego cresceram tanto, a ponto de causar o seu trágico destino.

Num primeiro momento, Hendrik Höefgen interpreta Mefistófeles, magistralmente, permitindo a ele, conhecer o Primeiro Ministro Alemão, que realizará todos os seus desejos.

Num segundo momento, Höefgen encarna o personagem Fausto, tramando assim um pacto, movido por suas ambições, com o Primeiro Ministro, Rolf Hoppe, que ocupa o lugar de Mefistófeles e concede a Höefgen todo o seu sucesso e fama. Rolf Hoppe foi inspirado em Hermann Göring, um popular líder nazista.

Na cena final do filme Höefgen pergunta: “O que querem de mim? Eu sou só um ator.” Este é o dilema de um homem que desistiu do exílio e sacrificou sua crença política em nome da fama e do sucesso vivendo em um regime totalitário.

Höefgen foi nazista para enriquecer e sobreviver à ruína provocada pela Primeira Guerra. Fugiu do Comunismo e vendeu-se em nome da fama e do dinheiro. Seu fim trágico transformou-o no Fausto.

Após esse breve resumo do filme, gostaria de explicitar determinados pontos relacionados com esta obra.

O filme Mephisto, baseado no romance Doktor Faustus, tem seu original na obra de Goethe, Fausto.

O jurista Evaristo de Moraes Filho, da Academia Brasileira de Letras, diz o seguinte: “Goethe é unanimemente considerado a maior personalidade literária Alemã, seu maior poeta, grande também como dramaturgo, romancista e ensaísta. Não só nos seus ensaios específicos de reconhecimento e voluntário conteúdo filosófico, como também nas suas máximas e reflexões, nas suas sentenças em prosa, nos seus provérbios, e - por que não dizê-lo? - nas suas poesias, nas suas obras literárias de ficção, nas suas conversações e nas suas cartas, são abundantes as diretrizes metodológicas e teóricas capazes de levar à construção de uma teoria do conhecimento goetheana.” Cabe, também dizer. Que Evaristo é acadêmico goetheano e destaca-se por sua extraordinária cultura filosófica, humanística e literária.

Goethe, escritor, conviveu com outros escritores e com filósofos como: Herder e Schiller. Foi um grande leitor de Spinoza, retirou-se por seis meses a fim de ler suas obras. Realizou esta obra magistral Fausto, que conta a história do Doutor Fausto, que vende sua alma para Mefistófeles e vive a eterna angústia de nunca se sentir plenamente realizado nos seus anseios, é a angústia de não poder conviver plenamente, com seu amor, Margarida, que o torna escravo do seu ardiloso senhor Mefistófeles.

Höefgen, também, torna-se escravo do Primeiro Ministro Nazista. Höefgen é um ator que interpreta um Mephisto e que perde sua identidade como homem e como ator, quando é tratado pelo Primeiro Ministro somente como ator ou Mephisto, o Primeiro Ministro transforma-o num Fausto na vida real e assume o papel de Mephisto e manipula a vida de Höefgen como um condutor de uma marionete e isto acontece com o aval do próprio Höefgen já que em nome de sua ambição ele cede ás exigências do Primeiro Ministro.

Höefgen desiste de seus ideais políticos, separa-se de sua amante, alemã, negra, para casar-se com uma mulher que satisfaria melhor aos ideais nazistas e coloca sua amante numa situação de desconforto, ser trocada por outra. Ninguém melhor que Spinoza para explicar o que ela sentiu. “Esse ódio para com a coisa amada, aliado à inveja, chama-se ciúme, que, portanto, não passa da flutuação de ânimo nascida simultaneamente do amor e do ódio, acompanhados da idéia de um outro que invejamos.” “A inveja incide sobre o outro que ama o mesmo objeto que nós, o ciúme incide sobre o objeto que amamos.” (Ollivier Pourriol – Cine Filô – página 123).

E chega o momento de discutir o que é ser ator? Klaus Maria Brandauer é um ator que interpreta um homem chamado Hendrik Höefgen, que por sua vez, também é ator e interpreta personagens, é um ator, porém, a vida o leva a ser ator de sua própria existência, já não é mais homem, é ator, é um intérprete de sua própria vida, já não se faz mais distinção entre: Höefgen; homem; ator; Mephisto; Fausto. Todos habitam o mesmo ser e convivem em conflito em nome de uma sobrevivência ambiciosa e vaidosa em busca da fama, do prestígio e do dinheiro.

Walter Benjamin em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica explicita o seguinte: O intérprete cinematográfico – “Para o cinema é menos importante o ator representar diante do público um outro personagem, que ele representar a si mesmo diante do aparelho. Pirandello foi um dos primeiros a pressentir essa metamorfose do ator através da experiência do teste.”

“O ator de cinema”, diz Pirandello, “sente-se exilado. Exilado não somente do palco, mas de si mesmo.”

Certamente, Höefgen poderia, perfeitamente, encaixar-se nessas definições, exilado como homem e como ator.

Höefgen permitiu, em nome de suas ambições, ser manipulado para agradar o Nazismo.

Walter Benjamin discutiu este tema no decorrer da Primeira Guerra. Mephisto é ambientado na Segunda Guerra, porém a contemporaneidade de Benjamin é suficiente para analisar o intérprete de Mephisto.

Pirandello na sua peça Seis Personagens à procura de um autor, enaltece o quanto, muitas das vezes, o personagem tem mais vida que o ator.

Walter Benjamin em seu texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, demonstra o quanto é possível, o momento político manipular as artes e as artes servirem de instrumento para seus interesses.

O filme Mephisto conduz o nosso pensamento para discussões filosóficas como: A guerra; a manipulação das obras de arte; o que é ser um ator e o que é ser um personagem.

A cena final do Mephisto, quando em desespero o ator Höefgen, personagem Mephisto e homem Fausto, ouve pela primeira, única e última vez o Primeiro Ministro dizer, aos berros, seu nome, questiona ao seu Mefistófeles, “O que querem de mim? Eu sou só um ator.” E é destruído no centro de uma arena, seu rosto iluminado, transformando-o de fato num Mephisto e proporcionando a ele seu grande final, sua destruição, tão impactante quanto a bala que atingiu seu companheiro, após ter sido denunciado, nesse momento, talvez, pela magia do cinema, que nos transporta para a tela, ou traz o intérprete até nós, possamos pensar que, Höefgen tenha refletido o quanto teve de homem, de ator, de personagem, de Mephisto e de Fausto para sobreviver naquela realidade de domínio Nazista.